segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

nota

estou hibernando.
durante todo esse tempo de raras aparições tenho me mantido afastado e isso é estar perto demais, a ponto de não consegui me perder em subjetividades e nas formas que elas tomam (ou talvez ainda me perca, mas de maneira diferente).
acho que é isso.

o próximo passo agora é assistir ao jornal nacional e reclamar do preço do feijão...

sábado, 13 de dezembro de 2008

"quanta chuva que não me acerta".

foi isso que pensei enquanto andava seco...

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

... e tudo que se pode ver foi a falta do que dizer.

ou será que do tanto que se tinha não saiu palavra alguma?

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

monólogo conclusivo [em frente ao espelho]

- ...
- é, você não sabe, mas tem sido difícil pra mim também!

sábado, 8 de novembro de 2008

quanto espaço há nessa cama?
maior que meus dois braços abertos,
nessa enorme cama de solteiro
só meu sono parece não caber.

onde estão as noites bem dormidas?
o meu corpo tinha início, meio e fim
e era junto daquele outro corpo
que não via o fim amanhecer.

lá fora a noite é grande e venta na janela,
me cubro de razão até o pescoço
mas a cabeça, pra fora, sente frio.
está fria e enxerga tudo claro

(coisas que não vão querer saber)

ser franco? só consigo ser cínico...
ponho tudo a perder quando paro pra pensar:
quanto de solidão há num quarto de dormir?
quanto de egoísmo numa cama de solteiro?

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

... e ontem o céu, como de costume, chorou pelo dia dos mortos.
e eu, pelo que há de vivo...

domingo, 2 de novembro de 2008

pouca flor
murcha, quase morta
mas ainda assim tão cheirosa...
ainda tão altiva
quase dona de si mesmo.

tão seu cheiro...
em toda minha respiração.

num sussurro
a flor que não é minha,
nasce murcha,
maria-sem-vergonha
que desabrocha no jardim
a me olhar
e a rir de mim


e se voasse?
se voasse seria borboleta
e pousaria na janela.
vermelha, traria mau agouro
mas ainda assim me encantaria.
num vôo delicado
que aperta o peito
e deixa triste...

diálogo reciclado [e inconclusivo]

- eu?
- tudo que sei é que você quis partir.
- eu?
- quis partir você, tirar você de mim.
- eu?
- demorei pra encontrar um lugar [ um lugar onde você não me machucasse mais].
- eu?
- com você por perto gostava de mim.

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excertos de La Nuova Gioventú

sábado, 1 de novembro de 2008

me encanta como o tempo nos mostra com novos olhares o que já é antigo; essa capacidade de se supreender com o que já se presumia como superado.
escrevo isso com um cd na cabeça, que já estava arquivado há algum como de "menor importância". mas hoje não. ele disse exatamente o que eu esperava ouvir e me mostrou certas nuances escondidas nos arranjos ou no refrão que me pareceram inteiramente novas e sinceras. deram aquela rara sensação de "ei! isso é legal". inclusive, muito do que perdura no meu gosto musical de início me causa um certo estranhamento, enquanto outras músicas que se mostram mais facilmente assimiláveis enjoam mais fácil.
assim é com muitas outras coisas. com lugares, filmes, atividades, pessoas. pessoas! e dá aquela vontade de dizer: "poxa, incrível que só agora eu percebi o quanto você é legal" e confessar entre risos que antes ela parecia muito chata/metida/sem graça ou qualquer coisa assim e mostrar como tudo mudou.

claro que acontece o contrário e o tempo que passa também pode nos mudar pra pior. mas sobre isso eu não quero falar...
ela disse: "se você quiser".

mas e ela, o que ela quer?

sobre liberdade

liberdade? disseram que "não há ninguém que explique e ninguém que não entenda". acho que não pensaram em mim. eu simplesmente não entendo. e mais: não acredito. isso mesmo, acredito na liberdade tanto quanto na igualdade, na fraternidade e no papai noel.

o que é ser livre? é fazer aquilo que se quer ou ser capaz de dominar os seus desejos? e quem está preso por vontade? é livre ou não? quem define o que é ser livre? se é um conceito social, um ideal coletivo, não creio que possa ser definido individualmente, afinal, crenças e valores não são criações nossas (por mais que tenhamos uma percepção única deles). e mais, grupos opostos tentam convencer que são os legítimos portadores da liberdade e que ela é boa e desejável.

eu conheço (muitas) pessoas que se acham realmente livres e querem vender seu estilo de vida como num daqueles comerciais de câmera digital da tv. mas estão presos de forma ou outra no que acreditam. inevitavelmente fazem o jogo de outras pessoas e têm de se inserir num determinado contexto em que eles não dão (todas) as cartas. levantam entusiasmados suas bandeiras, mas não percebem que elas estão velhas e sujas. não percebem que a paz cria as condições para a guerra, assim como a paz vem da guerra. só quero dizer com isso que as coisas não são tão puras, separadas e inequívocas quanto se supõe. elas estão misturadas o tempo todo. ok, tenhamos a liberdade como utopia, queiramos que ela nos guie para algum destino que seja tido como de maior valor, mas não sejamos ingênuos ao supor que ela esteja nas nossas mãos ou que seja uma escolha fácil de se fazer. O mundo não é dividido entre seres "livres e abertos" e pobres escravos da sua condição de "cárcere", no sentido amplo.

vocês vendendo seus dogmas (sim, é isso que eles vendem), sua condição de vanguarda libertária frente a um mundo "podre" e arcaico estão somente repetindo o que já foi feito até então. palavras bonitas (como no caso a "liberdade") são ótimos refúgios para covardes ou canalhas que acham que assim pdem se justificar. e que fique claro, não acho que covardes e canalhas sejam a maioria, mas só acho que temos que ter um olhar menos ingênuo, que veja pr'além do rótulo.
a vantagem de ser criar os próprios fantasmas é que não preciso sair de casa pra me sentir ameaçado...

terça-feira, 28 de outubro de 2008

"Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se
(...)
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica..."

(Pessoa, Fernando. Poesia completa de Alberto Caeiro. Pág. 46. Companhia das Letras, 2005)

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Vai mais ou menos ao encontro do que se disse antes sobre (in)felicidade. Alberto Caeiro, vê as duas como parte de um mesmo processo, sendo que o dia que morre, ainda que morra, também traz consigo beleza e também se faz necessário para que seja natural. E ele contempla a vida em sua plenitude, de maneira calma e natural, sem pensá-la. Assim, busca se inserir, enquanto ser pertencente ao mundo, sendo e sentindo. Sem desejos ou racionalizações. "Há metafísica o bastante em não pensar em nada"...

domingo, 26 de outubro de 2008

"Não há essa coisa chamada felicidade. A vida oscila entre alegria e dor, beleza e feiúra de modo que ninguém pode isolá-las. Ninguém deveria desejar tal coisa. Alegria plena ou dor plena, sem nenhum elemento contrastante da consciência, significaria a morte".

(Toomer, Jean. Cana apud Morgan, L. Kathryn. Filhos de Estranhos: Histórias de uma família negra, pág. 112)
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Li esse pequeno trecho e me identifiquei de imediato. Já havia dito a algumas pessoas "não acredito em felicidade", mas sempre interpretaram isso com um certo realismo exarcebado ou pessimismo mesmo. Mas não, a questão é perceber a oscilação que sofremos sempre,(e conseguir vivê-la). Felicidade não é um estado definitivo, não pode ser alcançada em plenitude, ela está sempre em relação com sentimentos opostos. Mais ainda, alegria ou tristeza está menos nas coisas a nossa volta do que em nós mesmos (mas nada de auto-ajuda, por favor).
Acho que acredito mais na vida e na esperança de dar a ela algum sentido, (mas ainda assim me sinto ator em uma peça).

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

era pra ser sobre amor. mas me provaram que saciar meu ego vinha em primeiro lugar. e dormimos juntos então em nossa beliche de egoísmos. disputei heroicamente cada espaço, num conflito velado de dois pares de olhos e um par de bocas. joguei longe granadas, que estouraram todas em minha trincheira.

era pra ser sobre amor... mas tomaram de assalto, levaram embora cada letra ridiculamente romântica. e eu fui atrás, carregando o violão. consegui então entender que a bolsa de valores vale mais e que o filme inédito do supercine vale mais. entendi que o que se diz não vale muito e que tudo é mais sobre o que não deveria ser.

era pra ser sobre duas noites no deserto, mas acabou se tornando uma dança de lamúrias heptagonais.

[e não é que eu ainda consigo achar graça de tudo isso?]


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era pra ser sobre amor, mas os mais caretas torceriam o nariz

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

quanto sono cabe nos seus olhos?
e na sua boca?
e no seu corpo?
e no seu copo?

sabe, eu estranho, mas me acostumo (e vou dormir)...

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

"Em todo caso, casai-vos. Se vos couber em sorte uma boa esposa, sereis felizes; se vos calhar uma má, tornar-vos-ei filósofo, o que é excelente para os homens"

(Sócrates)

sábado, 11 de outubro de 2008

pequeno comentário (ou sobre pessoas e ilhas)

estou cansado. e não é mais sobre você, é sobre mim mesmo: esta suposta ilha de certezas, cercada de dúvidas por todos os lados,(indivíduo com nome e sobrenome, certidão de nascimento, rg, cpf, título de eleitor, carteira de trabalho, reservista, comprovante de residência, foto 3x4...)toda esta subjetividade que não vence.
estou cansado de falar: palavras que são como frágeis navegantes, que naufragam assim que arriscam e saem da "ilha de certezas", ou que são capturados e torturados para que confessem tudo sobre qualquer outro território hostil ("há tantas outras ilhas armadas de certeza").

sabe, você fabrica bombas com as minhas verdades...

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-não que eu acredite em ilhas. creio mais é na pangéia e nas placas tectônicas.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

"Você com as suas drogas

E as suas teorias

E a sua rebeldia

E a sua solidão

Vive com seus excessos

Mas não tem mais dinheiro

Pra comprar outra fuga

Sair de casa então

Então é outra festa

É outra sexta-feira

Que se dane o futuro

Você tem a vida inteira

Você é tão esperto

Você está tão certo

Mas você nunca dançou

Com ódio de verdade"

(A Dança)

domingo, 5 de outubro de 2008

o que eu fiz!?
puta!
dilacerei seus versos
em rima branca,
desentranhados pretos
das unhas sujas,
da tinta
que não é mais minha
e que não tem mais gosto
misturado à arritmia
das letras que dançam,
alucinadas
no papel

pura zombaria
é assim que cada linha
toma forma,
é a forma última
da vaga poesia,
é a senhora pudica e respeitável
prostituida a troco pouco
sodomizada na ante-sala
entre um brinde e outro aos convivas
[saúde!]

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minha poesia é minha puta!
minha putaria é jocosa!
meus gracejos são lamentação...

terça-feira, 23 de setembro de 2008

crio
crio tantas coisas

[ , ]

tantas armas
armas imaginárias

[ ? ]

imaginação pra me matar

[ ... ]



morrer

[ ! ]

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o processo criativo de morrer.
a imaginação usada contra si mesmo.
quanto pontos perdidos, cheios de si, em sua suposta indecifribilidade!

[acho que eu gosto mesmo é da suas palavras dançando no (meu) espaço em branco, assim como dos silêncios que só poderiam vir de você...]

sábado, 13 de setembro de 2008

"Para Nietzche, o feminismo é a operação pela qual a mulher quer parecer com o homem, com o filósofo dogmático, reivindicando a verdade, a ciência, a objetividade, quer dizer, toda a ilusão viril. Deixar o lugar da submissão feminina em busca de emancipação é instalar-se no tradicional lugar masculino?"


(RODRIGUES, Carla. Alianças e tensões: Desconstrução, feminino e feminismo in Mente, Cérebro & Filosofia, pág. 80. Ago/2008)

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cá estou mais uma vez importunando o ideário feminista...
não sei até onde concordo com a afirmação acima, mas é uma impresão forte que tenho muitas vezes. que, ao deixar um lugar de submissão busca-se tomar como "imagem e semelhança" o papel do opressor, e nisso a pergunta final vem bem a calhar: é o "tradicional lugar masculino" que querem?

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

filantropia é quando fazem campanha pra estuprar com camisinha

domingo, 7 de setembro de 2008

"você é tão moderno, se acha tão moderno, mas é igual a seus pais. é só questão de idade, passando dessa fase, tanto fez, tanto faz."

(A Dança)

"tá todo mundo dançado, eu também quero dançar. todo mundo dançando esperando a missa começar."

(A Missa)
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teu cheiro me lembra aquela época...

por onde foi que eu passei que tanto tempo se passou?

...mas você não vai ouvir mesmo, então eu grito pras paredes.

II

Limpo a boca
No guardanapo usado
Esquecido sobre a mesa,
Marcado de teus lábios
E de injúrias indigestas
Vomitadas no carpete.

Esgotado em poucas gotas
Limpo a boca em teu lençol.
Não me sinto menos sujo,
Mas agora estou ausente
Por dúvidas entreabertas,
Saciadas as certezas.

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

I

boca suja,
suja pra caralho!
de merda e biscoitos finos
de "porra" e "amém"
("amém, porra").
enche a boca pra falar
o que se diz por diversão,
quando se cala por pudor.


bocas tristes
de tristes libertinos
sodomizados pelos bons costumes,
que beijam, que escarram
com paixão devota
outras bocas,
escuras como a sua,
suja como nenhuma outra.

domingo, 31 de agosto de 2008

há quem diga que carbono e amoníaco é uma dupla sertaneja underground. ou personagens de algum obscuro seriado americano dos anos 80. também já ouvi falar que se trata de pequenos trechos de uma vida em linha reta e previsível. ou alucinações quixotescas em lirismo repetido (como pão amanhecido) e passos comedidos.
um amigo, profundo conhecedor das coisas supõe que amoníaco seja "a parte que acha que fede mas pensa que isso é movimento critico" e carbono "a parte que acha que é inevitável pra sua própria vida". não ousarei colocar em dúvida tais palavras...
para um outro, conhecido de prateleiras, o carbono é um "elemento (número 6 da classificação periódica) representado pelo símbolo C, capaz de formar extensas cadeias de átomos, sendo um dos principais constituintes da matéria orgânica" e o amoníaco um "gás incolor, de cheiro intenso, sabor acre e com efeitos lacrimogéneos; gás composto de azoto e hidrogênio, que se encontra na urina e nas matérias em decomposição".
talvez seja tudo isso (e muito mais!). realmente tem efeitos lacrimogênios e está em decomposição, constitui a matéria orgânica e se acha inevitável à própria vida. quem viu por aí garante que toca violão, usa chapéu e canta em falsete. talvez seja mentira (uma mentira repetida). mas uma coisa é certa: a incerteza é parte, a multiformidade é parte e o manifesto desencantado (ou o desencanto como manifesto poético) também é parte.

cabe aqui ainda um observação pertinente para o momento: como é difícil terminar algo que não se sabe por que foi começado!

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

assim te quero:

leve,

sem delírios

nem tormentos.

que fale baixo e ore à deus

(temeroso do inferno

que há em nós,

e aqui).


breve,

como a vida de uma mosca

inconsciente

mas intenso.

desespera(nça)do,

mas contente

(com os dias de festa, ou os gols da seleção).



assim te querem,

sombra

dos seus melhores anos,

que disseram estar por vir

e que nunca viu chegar.



mas o preço ninguém paga

e se perguntam ninguém sabe.
"A força religiosa não é senão o sentimento que a coletividade inspira a seus membros, mas projetado fora das consciências que o experimentaram e objetivado. Para se objetivar, ele se fixa num objeto que, assim, se torna sagrado; mas qualquer objeto pode desempenhar esse papel. Em princípio, não há objetos predestinados a isso por sua natureza, com exclusão de outros; tampouco há os que sejam necessariamente refratários."



(Durkheim, E. As Formas Elementares da Vida Religiosa, pág. 238, Ed. Martins Fontes, 2003)

________________________


Adorar a Deus seria adorar a própria sociedade, enquanto ente anterior e superior aos individuos.


"Se pergunte da necessidade de fazer o que você faz. Se o deixasse de fazer, morreria?"

não... não consegui pensar em nada que me sustente a existência. nada que, deixando eu de fazer, leve-me à morte. nenhuma pulsão incontrolável ou desejo alucinante. e suspeito que qualquer um que eu tivesse seria mera falsificação, deslumbramento fantasiado e distorcido. acabar me encontrando, medíocre, em manchas no colchão. num tédio mesquinho de quem supõe não estar no jogo, ou de quem joga displicentemente, rodada a rodada, simplesmente por jogar (ou por medo de perder?).
ainda que me agrade respirar (a sensação de estar vivo tem sua dose de comforto), acho pouco. porém, o que quer que eu fizesse, não levaria a sério...

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conlusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem de moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) -

Que mal eu fiz aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

[...]

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho!
Pra que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

[...]

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

(Álvaro de Campos/ Lisbon Revisited)
silêncio

e meu vazio falará por mim

sábado, 2 de agosto de 2008

"se você quer saber como eu me sinto
vá a um laboratório, ou num labirinto
seja atropelado por esse trem da morte

"vá ver a cobaias de deus
andando nas ruas, pedindo perdão
vá a uma igreja qualquer
pois lá se desfazem em sermão"

(Cazuza)

terça-feira, 29 de julho de 2008

Ctrl+C e Ctrl+V

A náusea me faz vomitar o que eu penso
A febre me ajuda a perder o bom senso
O delírio me inspira as palavras mais certas
O instinto mantém minhas veias abertas

Não há tratamento pra minha patologia
O que não me mata eu transformo em poesia

A dor me obriga a abraçar os espinhos
O cansaço me leva a seguir meu caminho

Não há tratamento pra minha patologia
O que não me mata eu transformo em poesia

(Náusea/ Lestics)
___________________

O que não me mata eu transformo em poesia

segunda-feira, 28 de julho de 2008

Hoje Pasárgada me pareceu fria e acizentada... e eu não quis ir pra lá.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

"Se pergunte da necessidade de fazer o que você faz. Se o deixasse de fazer, morreria?"

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ainda aqui a nossa última quimera.
porém, não acredito mais.

sábado, 5 de julho de 2008

sabe o quê?

da porta pra dentro.
os olhos pra dentro.
olhando o que há,
de olhos fechados...

as pernas vendidas
num canto da sala,
viradas pra quina
suja da alma.
o dentro da boca
o roubo da calma
no fundo da carne
no centro da fúria...

da porta pra dentro
dos olhos pra dentro
escondido no mundo
do tempo contado...

_____________________
Sabe o quê?
Apatia e desânimo... Quando não é mais comercial de margarina.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Água
liquido que mata a sede
agora matando
matando-me
matando o que me mata
afogando em sal aquilo que nem sei sentir

(anônimo)
____________
Pior afogar ou ver afogar?

sexta-feira, 27 de junho de 2008

sobre quando há mais aqui do que lá

quero,
se é de mim poder querer,
não te amar.

que seja menos sombra
e que não seja idéia,
que não me dê medo
(nem de ganhar, nem de perder)
que seja simples...

seja você minha pequena ternura,
coisa simples
de guardar no meio de um caderno
e de pegar nas mãos.

simples como flor que nasce no asfalto,
despudoradamente no asfalto!

_______________
eu juro que tentei evitar...
(mentira!)


a flor que nasce no asfalto?

sexta-feira, 20 de junho de 2008

sobre quando há mais lá do que aqui:

Cai aqui estrela da manhã,
Cai no meu colchão.
Ouve meus segredos, minha lamentação
E me conta o que te fez brilhar pr'além da noite.
Me conte as coisas lá de fora que eu não sei.

É tão só e isso lhe cai bem,
Não queira nunca alguém
Que diga lhe amar.
Te prefiro assim tão fria, tão distante a brilhar
Por ninguém...
________________
ela gosta,
ela sabe
(eu não sei)...

domingo, 15 de junho de 2008

À Mesa

Cedo à sofreguidão do estômago. É a hora

De comer. Coisa hedionda! Corro. É agora,

Antegozando a ensaguentada presa,

Rodeado pelas moscas repugnantes,

Para comer meus próprios semelhantes

Eis-me sentado à mesa!



Como porções de carne morta... Ai! Como

Os que, como eu, têm carne, com este assomo

Que a espécie humana em comer carne tem!...

Como! E pois que a Razão me não reprime,

Possa a terra vingar-se do meu crime

Comendo-me também.



________________

Alimentar-me de outros seres, outros seres que um dia se alimentarão de mim...

sábado, 14 de junho de 2008

...daí eu te odeio um pouco. ódio em forma de besteiras e ironias. e você simplesmente não acredita em mim, pensa que sou sempre a falsificação dos meu próprios defeitos. ledo engano minha cara... sou tão sincero quanto evito ser e a acidez de cada frase vem na medida certa, pra desconsertar seus mitos e te fazer estranhamente insana. e você não crê (nunca!) em mim, como se eu fosse seu quinhão com nariz de palhaço.
mas eu te leio nas entrelinhas e me amedronto com o que descubro. o que vai ser usado contra você e o que volta para mim.
tirando isso, te dou minha vida.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

sobre o que está escrito e o que está borrado

não falo mais das coisas, mas da falta que elas fazem...
poderia haver aqui qualquer uma que me lembrasse de mim mesmo, algo além desse espelho, que só repete. não questiona, nem duvida, só reflete minha falta de jeito pro que é inesperado.
e o seu cheiro, por melhor que seja é velho. tão passível à minha frente. quase não tem vontade própria. aí te leio do meu jeito e me fascino (sozinho) com a vida apagada, perdida, remendada que encontro dentro e fora. nas tuas linhas e no meu reflexo...
e o estranho é que eu me importe tão pouco com o que você pensa.



por outro lado penso eu que bom seria entrar na sua casa e te matar sufocado com seu próprio travesseiro.



que pena! não quebro cadeados e não sei pular janelas

Psicologia de um Vencido

Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.

Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boda uma ânsia, análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.

Já o verme - este operário das ruínas -
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,

Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

(Anjos, Augusto dos)

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Agrada-me a força e a obscuridão que impregna seus versos, como se cada um deles fosse de ferro e doesse de verdade em contato com os olhos. A visão desiludida com que representa o mundo, em sua frieza orgânica e a implacável mecanicidade com que tudo perece, ausente qualquer encanto. Irrita-me supor que esteja certo e que tudo não seja nada além do que há de repulsivo nessa terra, que minha carne seja menos (muito menos!) do que me faz crer a ingenuidade que me persegue. Que minha psicologia seja a de um vencido e que sobrará de mim apenas os cabelos.

sábado, 7 de junho de 2008

mataram-me de novo ontem.
e eu, como bom defunto, morri.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

e eu...

"No exercício monótono, monotemático, monoteísta da minha vida eu sou mesmo um sadomasoquista"

(Sadô-Masô/ Movéis Coloniais de Acaju)

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Antologia

A vida
Não vale a pena e a dor de ser vivida.
Os corpos se entendem, mas as almas não.
A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Vou me embora pr'a Pasárgada!
Aqui eu não sou feliz.
Quero esquecer tudo:
A dor de ser homem...
Este anseio infinito e vão
De possuir o que me possui.

Quero descansar
Humildemente pensando na vida e nas mulheres que amei...
Na vida inteira que podia ter sido e não foi.

Quero descansar.
Morrer.
Morrer de corpo e de alma.
Completamente.
(Todas as manhãs o aeroporto em frente me dá lições de partir.)

Quando a Indesejada das gentes chegar
Encontrará lavrado o campo, a casa limpa.
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.

(BANDEIRA, Manuel)

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Toquemos então um tango argentino, Manuel!

quinta-feira, 29 de maio de 2008

quando se perde a vez e a voz perde-se muito mais.

mãos e pés e boca e olhos,
tudo em descompasso
(tudo) incomodando,
(eu) incomodado,
repetindo
e desisitindo.

não adianta o grito,
preso num lamento abafado.
nem o punho
fechado, contendo uma idéia.
eu te odiar
ou te querer bem...
é tudo branco
e frágil,
inexistente.

mas olha,
não vou te contar nada disso hoje.

hoje eu sou um filme antigo.

(canção) pra tua ausência

Vem
Com a roupa do corpo
Na febre das horas,
Esquece o discurso.

Vem
E trás minha cura
Na pele serena,
No passo mais curto

Depressa
Com essa demora
Que arrasta o dia
Pra boca da noite
E seja o tiro
Certeiro
À queima roupa

Vem
Que medo é bobagem,
É coisa tão pouca,
Esquece o pudor.

E seja
O cinza na alma ,
Vem louca de raiva,
De vontade de mim.



_____________
(Vem
Com o corpo em chamas
Com a boca em chamas
Com saudades daqui)

quarta-feira, 28 de maio de 2008

No tempo em que as estradas eram poucas no sertão
Tangerinos e boiadas cruzavam a região
entre volante e cangaço
Quando a lei era do braço
do jagunço pau mandando do coronel invasor
Dava-se no interior esse caso inusitado
Quando Palmera das Antas pertencia ao capitão
Justino Bento da Cruz
Nunca faltou diversão
vaquejada, canturia, procissão e romaria, sexta-feira da Paixão
Na quinta-feira maior, Dona Maria das Dores no salão paroquial
Reunia os moradores, depois de uma pré-eleição ao lado do capitão
Escalava a seleção, de atrizes e atores
Todo ano era um Jesus, um Caífaz e um Pilatos
Só nao mudavam a cruz, o verdúguio e os mal-tratos
O Cristo daquele ano foi o Quincas Beija-Flor
Caífaz foi Cipriano
Pilatos foi Nicanor
Duas cordas paralelas, separava a multidão
Pra que pudessem entre elas, caminhar a procissão
Quincas conduzindo a cruz
Foi e num foi advertia, um cinturião pervesso, que com força lhe batia
Era pra bater maneiro, Bastião não entendia
Devido um grande pifão, que tomou naquele dia
do vinho que o capelão, guardava na sacristia
Cristo dizia: "ô rapaz, ve se bate devagar, já to todo encalombado assim não vou aguentar,tá com a gota pra doer, ou tu para de bater ou a gente vai brigar;
jogo já essa cruz fora, tô ficando aperriado, vou morrer antes da hora de ficar crucificado";
O pior é q o malvado, fingia que não ouvia
e além de bater com força, ainda se divertia
espiava pra jesus, fazia pouco e dizia:"que Cristo frouxo é você, que chora na procissão?
Jesus pelo que se sabe, num era mole assim não
eu tô batendo com pena, tu vai ver o que é bom
na subida da ladeira, da venda de Fenelon;
o couro vai ser dobrado!
até chegar no mercado, da cuíca muda o tom
Naquele momento ouviu-se, um grito na multidão
era Quincas que com raiva, sacudiu a cruz no chão
e partiu feito um maluco pra cima de Bastião
Se travaram num tabefe, pontapé e cabeçada
Madalena levou queda
Pilatos levou pancada
Deram um cacete em Caífaz, que até hoje não faz
nem sente gosto de nada
Dismancharam a procissão o cacete foi pesado
São Tomé levou um tranco que ficou desacordado
Acertaram um cocorote, na careca de Timotéo
que inté hoje é aluado
Inté mesmo São José, que não é de confusão
na ansia de defender, o seu filho de criação
aproveitou a garapa, pra dar um monte de tapa
na cara do bom ladrão
A briga só terminou, quando o doutor delegado
interviu e separou, cada santo pro seu lado
Desde que o mundo se fez
foi essa a primeira vez
que Jesus foi pro xadrez...
MAS NUM FOI CRUXIFICADO!!



(Cordel do Fogo Encantado)

terça-feira, 27 de maio de 2008

justificativas

carbono é pão
duro!
amanhecido
(da manhã do ontem de outro dia).

amoníaco é água
morna!
escorrida
na garganta sedenta por água fria.
____________
e a vida ainda é "septagonal"

o dia em que perdi a vez e a voz...

...e silenciei a fila enorme dos descontentes.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

"No século XX, em especial nas democracias fordistas do pós-guerra, as mulheres foram cada vez mais integradas no sistema de trabalho, ma o resultado disso foi apenas a consciência feminina esquizóide. Pois de um laod, o avanço das mulheres na esfera de trabalho não poderia trazer nenhuma libertação, mas apenas o mesmo ajuste ao deus-trabalho que traz entre o homens.(...) As mulheres foram submetidas, assim, à carga dupla e, ao mesmo tempo, expostas a imperativos sociais totalmente antagônicos. Dentro da esfera do trabalho elas ficaram até hoje, na sua grande maioria, em posições mal pagas e subalternas."

(Grupo Krisis, Manifesto Contra o Trabalho, pág. 43)

_____________________
No mínino ineficiente um movimento (o feminino) que pretende se inserir na adoração de um deus moribundo, como ideal de libertação. Talvez um bom exemplo de como o mundo do trabalho se cruza com a questão de gênero e com a vida privada no geral (nessa questão de como as relações são determinadas/ influenciadas pelo mundo do trabalho e pelo seu apartheid social).

domingo, 25 de maio de 2008


Sim, meu caro
O dia é Domingo
O êxtase é presente (de Deus).
Ainda comigo
Resquícios de ontem

Queimemos os móveis
E as roupas
Há tanto a se provar
E não há provas de que fomos nós

Sim, domingo,
Rezado em culto pagão.
E eu, que não estou nem lá, nem cá,
Faço o sinal da cruz com pouca convicção

Queimemos os corpos
E a coisa toda
Lancemos ao fogo
O que puder queimar
( Não há provas de que fomos nós)
Nós! Da juvenília efervescente
Exaltada!
Em polvorosa!
E pra fora o que não é nosso
O que não é vício...

É, hoje é domingo
Em linha reta,
Pesado,
Carregado nas costas.

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Tava aqui perdido. Hoje também é domingo e a vida (ainda) anda em círculos...
-"Teu cheiro impregnado nas minhas narinas".

Seria bom se fosse figura de linguagem. Se fosse invocação poética. Linguagem literária. Não! Realmente teu cheiro está aqui nas minhas narinas e por incrível que pareça eu não sei exatamente o que fazer.

-Me pintar de palhaço nem sempre é bom. Assim como também não quero estar sempre no centro do picadeiro (fazendo malabares pra você olhar pra mim).

reconsideração aflitiva

Hoje eu acordei com mais de mil braços.

Mas nenhum quis te abraçar.

__________

"Ela vem e me abraça e é aí que o mundo acaba" (Lestics)

Sobre um deus agonizante

"As gazetas econômicas não fazem mais nenhum segredo sobre como imaginam o futuro ideal do trabalho: crianas do Terceiro Mundo, que limpam pára-brisas dos automóveis no cruzamentos poluídos, são o modelo brilhante da 'iniciativa privada', que deveria servir de exemplo para os desempregados do deserto europeu da prestação de serviços."

(Grupo Krisis; Manifesto Contra o Trabalho; pág. 21)

sexta-feira, 23 de maio de 2008

dias bons sãos os que duram mais que 24 horas... começam ontem e terminam amanhã. acho que o legal é essa dormência que dá na mente. e é difícil parar por um instante e pensar em coisa pouca que te faz (melhor).

sábado, 17 de maio de 2008

Perdi
A voz
A vez

Fui de novo pro final da fila
Virei a antítese, o segredo desvendado.
A piada mal contada
O filme sem final

Perdi
O lirismo incontrolável
O lamento incorrigível
O vigor incontestável
A pulsão indefinível

A voz e a vez!

quarta-feira, 14 de maio de 2008

"Tudo o que dizemos possui um 'antes' e um 'depois' - uma 'margem' na qual outros podem escrever. O significado é inerentemente instável: ele busca um fechamento (identidade), mas é constantemente rompido (pela diferença). (...) Há sempre significados suplementares sobre os quais não temos qualquer controle, que surgirão e subverterão nossas tentativas de criar palavras fixas e estáveis."

(HALL, Stuart; A Questão da Identidade Cultural, pág. 31)
____________________

Interessante essa noção de que o que dizemos, as palavras que usamos (e a forma como as usamos), possuem uma história distinta da nossa, que existiam antes de nós e ainda existirão depois (desconsiderando os neologismo, mas que mesmo assim nascem distante de quem as usa). A linguagem assim, tida como artefato e instituição social, que só possui sua significação no interior de uma série de relações, construídas no tempo e no espaço e que nos escapa constantemente. As palavras que sempre mudam de significado e dizem mais (ou menos) do que gostariamos que dissesse. Deixam margens, para que sejamos mal-interpretados ou reinterpretados.
[as palavras traem...]

domingo, 11 de maio de 2008

Pousa a mão na minha testa

Não te doas do meu silêncio:
Estou cansado de todas as palavras.
Não sabes que eu te amo?
Pousa a mão na minha testa:
Captarás numa palpitação inefável o sentido da única palavra essencial
- Amor

(Bandeira, Manuel)

Incrível como esse poema dialoga e complementa as idéias presentes em "O Seu Santo Nome". A mesma hesitação quanto ao uso das palavras para se definir algo que está (muito) além, no caso o amor. É meio contraditório que poetas deslegitimem (suas) palavras como instrumento para expressar sentimentos, mas é interessante a idéia que passam de "algo muito maior do que pode se expor por palavras". Esse sentimentalismo apaixonado e "delirante" que não cabe no papel.
Carlos Drummond de Andrade reprova o uso da palavra amor de forma banal, como facilitadora e que a faça perder sua essência (que para ele é o "exílio e perfeição na Terra") e o sentido que está por trás. Sugere então que não seja pronunciada tal palavra, que se respeite seu caráter quase sagrado. Bandeira também se mostra descrente (e cansado) ao uso da palavra, da mesma forma usada esvaziada de sentido. Para ele, o amor não está na palavra em si, mas deve ser buscado nas sensações/sentimentos que transparecem por seu corpo.


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Quem disse que eu não te amava?/ Amo-te mais que a verdade

(M.B.)

sábado, 10 de maio de 2008

que seja hoje o último dia.

que faça valer todo esse calor.

que deixe as marca no dia seguinte.

que você ligue e eu não esteje em casa.
"(...) uma coisa que sempre ficou girando pela minha cabeça sobre quantidade ou como sentir as coisas é que só de pensar sobre isso já estou deixando de fato de sentir, ah[!] sentir é sentir e ponto, sem ficar com questionamentos se é muito ou pouco, se é o bastante ouexagerado."


sentir é sentir e ponto

quinta-feira, 8 de maio de 2008

O SEU SANTO NOME

Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda a razão (e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.

(Carlos Drummond de Andrade)
Vida é a morte disfarçada...

sábado, 26 de abril de 2008

quinta-feira, 24 de abril de 2008

sem rosto vira fantasma
sem olhos fica sem alma
sem ritmo é só estátua
sem medo é invenção
sem erros te reifico
sem marcas se torna eterna

domingo, 20 de abril de 2008

Não, realmente hoje não estou para seus caprichos. A noite toda é coisa muito longa (vai até o outro dia) e isso irrita!
Se a cidade pega fogo não é problema meu. A angústia é pelo que há da porta pra dentro. Ainda que pouco...
Não é hora de mudar os Móveis de lugar, mas o barulho que eles fazem me deixa melhor. Ainda que preferisse poder dormir.
Não esquenta. Façamos planos para os dias que não virão. Isso é bom. Me faz ousado e inventivo.
Não poderíamos dormir e deixar pra lá?




“A cidade fede, a cidade engorda, a cidade arrota os ossos do ofício”

(O que poderá ser dito sobre o que eu não disse?)

domingo, 13 de abril de 2008

faça assim, pegue algumas de suas coisas, bobagens que estejam agora mesmo jogadas à sua volta, que façam ou não diferença no momento (podem ser pedaços de papel rabiscados, fotos, pequenos objetos...) e guarde numa caixa ou numa gaveta. deixe-as lá por um bom tempo, não sei quanto, meses, anos; o suficiente para esquecê-las, para que deixem de fazer sentido (se é que um dia já fizeram).
aí redescubra-as, quase que por acaso. toque-as de novo, como se fossem coisas novas, que tragam lembranças, tragam de novo quem você foi (ou quem você pensou que fosse). sinta cócegas nostálgicas, sensação de vazio e pare pra pensar, na metafísica do mundo e naquela tarde deitado na grama.
queime tudo depois, antes de que possa se reacostumar com elas. veja-as pegando fogo, num arrepio impassível e num sorriso masoquista.

terça-feira, 8 de abril de 2008

filosofia de botequim

- ... o nosso "pra sempre" nunca acaba, porque quando acabar vai deixar de ser "pra sempre". será qualquer coisa, menos o "pra sempre".

- acho que não entendi o que quis dizer...

-assim, podemos conceber o eterno como real e eterno, da mesma forma como o azul será sempre azul. o dia que não for mais azul será qualquer coisa, menos azul.

-Clarice me disse que a eternidade é o estado das coisas neste momento...

-ela está correta. e de acordo com essa idéia, nosso "pra sempre" nunca acabará, já que agora ele é real. e só o que é real (se é que há algo real) é o agora. se somos neste momento e só este momento é real ( e eterno), chegamos a conclusão que somos pra sempre, e...

- não importa. só diga que me ama.
"e na sexta eu achei que estava mal. e no sábado achei que morreria. e domingo eu vivi e segunda eu vivi. e hoje é terça. uma terça-feira pela frente"

[solilóquio camiphili]

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- O que se pode fazer quando já disseram exatamente o que se queria dizer?
- Ctrl+C e Ctrl+V

segunda-feira, 7 de abril de 2008

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domingo, 6 de abril de 2008

"Se usássemos contra as propagandas de automóvel a mesma lógica com a qual se atacam filmes, desenhos animados e música rap, há muito elas estariam proibidas."

"Não vou aqui, é claro, propor mais uma destas tediosas campanhas moralistas. No entanto, é muito mais do que urgente chamar a atenção para o fato de que a relação da sociedade brasileira com o automóvel é especialmente doentia, mesmo para os padrões patológicos com que o mundo ocidental trata do assunto."

"Pode ser espantosa a constatação de que boa parte da classe média investe mais em seus carros que em casa própria. Mas ainda mais divertido é ver que essa mesma classe média, que se põe histérica ante a idéia de que o filho adolescente possa ter acesso a um cigaro de maconha ou a um videogame 'violento', vê com declarado orgulho que o mesmo adolescente 'já sabe dirigir' aos 14 ou 15 anos. Como se o carro não fosse algo muito mais perigoso que um baseado."


- LUDD, Ned (org.); Apocalipse Motorizado: A Tirania do Carro Num Planeta Poluído, pág. 10


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Apaixonado por carro como todo brasileiro?

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Eu sou o Tenebroso,
o Irmão sem irmão,
o Abandono, Inconsolado,
o Sol negro da melancolia

Eu sou Ninguém,
a Calma sem alma que assola, atordoa e vem
No desmaio do final de cada dia

Eu sou a Explosão, o Exu, o Anjo, o Rei
O samba-sem-canção, o Soberano de toda a alegria que existia

Eu sou a Contramão da contradição
Que se entrega a Qualquer deus-novo-embrião
Pra traficaro meu futuro por um inferno mais tranquilo

Eu sou Nada e é isso que me convém
Eu sou o sub-do-mundo e o que será que me detém?

(El Desdichado/ Lobão)

terça-feira, 1 de abril de 2008

O Poeta-Operário

Grita-se ao poeta:
"Queria te ver numa fábrica!
O quê? Versos? Pura bobagem!
Para trabalhar não tens coragem".

Talvez
ninguém como nós
ponha tanto coração
no trabalho.
Eu sou uma fábrica.
E se chaminés
me faltam
talvez
sem chaminés
seja preciso
ainda mais coragem.
Sei
Frases vazias não agradam.
Quando serrais madeira
é para fazer lenha.
E nós que somos
senão entalhadores a esculpir
a tora da cabeça humana?
Certamente que a pesca
é coisa respeitável.
Atira-se a rede e quem sabe?
Pega-se um esturjão!
Mas o trabalho do poeta
é muito mais difícil.
Pescamos gente viva e não peixes.
Penoso é trabalhar nos altos-fornos
onde se tempera o ferro em brasa.
Mas pode alguém
acusar-nos de ociosos?
Nós polimos
com a lixa do verso.
Quem vale mais:
o poeta ou o técnico
que produz comodidades?

Ambos!
(...)

Maiakóvski, Vladimir (trad. de E. Carrera Guerra)
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Pose e poesia?

sábado, 29 de março de 2008

"Quills"

escrevi, primeiro em folhas brancas, virgens; depois em pedaços de papel rasgado. na sua falta, recorri a meus lençóis, que serviram de abrigo para idéias torpes e de gosto duvidoso. meu corpo e a parede... objetos não menos ideais. ri-me da falta de escrúpulos e da frágil moral insustentável em cada palavra desenhada.

a tinta era tudo. era qualquer coisa que pudesse me valer. era vinho ou sangue ou merda! qualquer forma de exteriorizar meus demônios. ou de recriá-los maiores. de fantasiar minha grandeza megalomaníaca, a partir da loucura.

meus companheiros: pederastas, prostitutas, assassinos, libertinos... toda sorte de desajustados e marginais. verdadeiros inimigos da ordem e dos bons costumes, bem como debochadores da hipocrisia humana. criaram vida, ganharam voz e fizeram algarraza em mim e em todo canto.

precisei põ-los pra fora, por convicção de sua importância para o mundo ou por receio de sua prisão em mim.

dê-me pena e tinta, por favor!

sexta-feira, 28 de março de 2008

"Nenhum metal pode perfurar o coração com tanta força quanto um ponto final colocado no lugar certo"
Isaac Bábel

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O ponto (final) colocado no lugar (certo)!

quinta-feira, 20 de março de 2008

ainda sobre fome e felicidade abafada

A saudade que me deixou fraco,
A ausência que me fez mais louco
(Quis vender a mim pra te comprar),
Quis viver em ti e me deixar.
A esperança que me deixou morto,
Morto! Sem coração batendo, sem respirar.
A saciedade que se tornou vício,
Inescrupuloso, trafiquei teu olhos.
Débil! Sem logos nem lugar,
Injetei cada parte do teu corpo em cada parte do meu corpo
E a saudade passou
E eu passei...
E fiquei mais longe

_____________________

Procura, tira a poeira, relê, ri incrédulo e joga fora.

sábado, 15 de março de 2008

[...] Pessoalmente, acho que o movimento feminista deve almejar mais do que a eliminação da opressão das mulheres. Deve sonhar em eliminar as sexualidades obrigatórias e os papéis sexuais. O sonho que acho mais fascinante é o de uma sociedade andrógina e sem gênero (embora não sem sexo), na qual a anatomia sexual de uma pessoa seja irrelevante para o que ela é, para o que ela faz e para a definição de com quem ela faz amor."



(Rubin, Gayle. O Tráfico de Mulheres: Notas Sobre a "Economia Política do Sexo", pág. 57)


quinta-feira, 13 de março de 2008

- vamos brincar de forca?
-tá! eu pego a corda e amarro no teto, mas você vai primeiro. e não espume pela boca!

domingo, 9 de março de 2008

[...]


É preciso salvar o país,

é preciso crer em Deus,

é preciso pagar as dívidas,

é preciso comprar um rádio,

é preciso esquecer Fulana.


É preciso estudar volapuque

é preciso estar sempre bêbedo,

é preciso ler Baudelaire,

é preciso colher as flores

de que rezam velhos autores.


(Carlos Drummond de Andrade),


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sábado, 8 de março de 2008

A solução? Mas é claro que eu conheço!
A solução é tv a cabo (de preferência digital e de 42 polegadas).
A solução é carro novo. É condomínio fechado.
É uma mente fechada.
É internet banda larga pra conversar com o mundo inteiro, porque aqui é muito chato.
A solução é auto-estrada
Asfalto novo pro meu carro novo
Shopping e mercado
Vidro fechado e ar-condicionado
Aqui fora o ar é quente e fede
A solução é 44h semanais para o patrão
(Mais ida e volta e horas extras)
Com plano de saúde e previdência privada
É novela das oito, das nove, das dez...
E sexo antes de dormir
A solução é ficar quieto, bem quieto
Fingir de morto e esperar passar
Que passa, o dia passa e a gente passa


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Ninguém sabe como serão os filhos desse casamento: indústria de informação e indústria do entretenimento.
(EngHaw)

quinta-feira, 6 de março de 2008

Schlomo, o louco, sobre Deus

"Deus criou o homem à sua imagem. Isso é lindo, Schlomo à imagem de Deus! Mas quem escreveu isso no Torah? Foi o homem e não Deus. Escreveu sem modéstia, comparando-se a Deus. Talvez Deus tenha criado o homem. O homem... O homem, filho de Deus... criou Deus, só para poder se inventar.
[...]
"O homem escreveu a Bíblia para não ser esquecido, sem se importar como Deus. Não amamos e não oramos a Deus. Ou melhor, imploramos para que nos ajude aqui na Terra, mas não nos importamos com Ele. Só pensamos em nós mesmos. A questão não é saber se Deus existe, mas sim se nós existimos."

(Trem da Vida)
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Por que Deus criou o homem?
Por que o homem criou Deus?

segunda-feira, 3 de março de 2008

rabo correndo atrás do cachorro

esqueça a tua agenda

não quero ser encaixado entre um compromisso e outro

dispenso tua racionalidade exarcebada.

sabe, o importante não é o que é melhor fazer

mas sim o que precisa ser feito,

agora

e pra sempre (agora)

também rejeito qualquer tipo de argumento contra mim



o certo,

o combinado era o muito,

o sempre incontrolável.


e se me pensa com a mesma sensatez que dispensa às contas do mês,

se me administra e me controla olhando no relógio e no calendário

(entre tantos dias)

me perde no meio do "cálculo das probabilidades"

e eu fico cinza

e você me guarda na estante

ou me lança no sistema


não devia ser assim

era pra ser forte e em excesso

não querer, mas precisar,

implorar


(vontade que violenta o corpo e dilacera a alma)



ser teu delito

(e teu deleite)

e que injetasse cada pedaço do meu corpo em cada pedaço do teu corpo

o cachorro correndo atrás do próprio rabo

você quer eu decifre seus códigos? que te leia por entrelinhas?
não vou me satisfazer com aquilo que eu suponho talvez saber (ou achar)...
"o cálculo das probabilidades é uma pilhéria"! hipóteses são boas para teses científicas. e se você insistir em ser meu estudo estatístico eu te guardo numa estante e te esqueço.
não quero bons argumentos. quero a certeza das coisas neste momento. esfregada na minha cara! a certeza ingênua e petulante que mais confunde do que esclarece.
repita! uma, duas, três vezes...
não preciso saber, preciso sentir!

___________________

Quero

Quero todos os dias do ano
Todos os dias da vida
De meia em meia hora
De 5 em cinco minutos
Me digas: Eu te amo.

Ouvido-te dizer: Eu te amo
Creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
E no seguinte
Como sabe-lo?

Quero que me repitas até a exaustão
Que amas, que me amas, que ama
Do contrário evapora-se a amação
Pois ao dizer: eu te amo
Desmente
Apagas
Teu amor por mim

Exijo de ti o perene comunicado
Não exijo senão isto,
Isto sempre, isto cada vez mais
Quero ser amado por em tua palavra
Nem sei de outra maneira de saber-se amado:
Amor na raiz da palavra
E na sua emissão
Amor
Saltando da língua nacional,
Amor
Feito som
Vibração especial

No momento em que não me dizes: eu te amo
Inexoravelmente sei
Que deixaste de amar-me

Se não me disseres urgente repetido
Eu te amaamoamoamoamoamoamoamo
Verdadeiramente fulminante que acabas de desentranhar
Eu me precipito no caos,
Essa coleção de objetos de não amor

(Andrade, Carlos Drumond )

domingo, 2 de março de 2008

Pequena canção de amor pra garota que eu nunca conheci

Das brigas que nunca tivemos
Dos dias que nunca nos vimos
Nas vezes que quase te largo
Na cama em que nunca nos rimos

A pele que eu mordo toda
E não pude ter por minha
Seria se fosse tão perto
Pr’além da vontade sozinha

E saiba pequena, canções de amor são pra ti
Quisera eu fosse amado
Pela garota que eu nunca conheci

Da falta que eu nunca te fiz
Das vezes em que eu te quis mais
Centrada em tanta lascívia
De nunca ser (e ser demais)

Nos teus orgasmos fingidos
Que fingem o que todos já sabem
Perdida em tanta potência
Em qualquer canto da cidade

Tudo o que poderia ter sido e não foi

E saiba pequena, canções de amor não são pra ti
Quisera eu fosse amado
Pela garota que eu nunca conheci

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

"Aparentemente fazemos parte de uma grande suruba, onde corpos sujos se esfregam até gozarem jatos de orgulho."

_____________

Encontro-me medíocre, em manchas no colchão... Simples líquido azedo por dentro?

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

"Pressão para ajustar-se ao mercado e, de imediato, ao economicismo, à produtividade mercantil, ou seja, ao ethos tecnocrático imposto pelo neoliberalismo. No entendimento de [Octávio] Ianni, os requisitos da 'produtividade' e da 'qualidade total' estão sendo impostos à Universidade, como se fosse uma fábrica de mercadorias ". (Hirano, Sedi)
_________________

Ou seja, um estudante universitário é, antes de tudo uma mercadoria em vias de produção. O objetivo primeiro é atender as necessidades do mercado. É fazer com que o futuro profissional atinja tal eficiência e qualidade no exercício de suas funções que recompense o investimento burguês na sua formação.
A poesia está morta. Mas juro que não fui eu.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

domingo, 10 de fevereiro de 2008

sobre rascunho

Passar a limpo,
Disfarçar os erros
Riscar rostos e nomes
Fazer (tudo) de novo...
E não perceber que
Se fosse recomeçar
Ainda assim seria falho

Passar a limpo
Pedir uma chance
De ser leviano
E não se dar conta de que
Fosse de novo e
Ainda assim seria (é!) falho

Não me dôo por meus erros
Nem por minhas tantas derrotas
Meus arrependimentos guardo aqui e faço deles orações
E me contento em ser inconstante
(Fora isso a vida é chata)

Não quero passar a limpo coisa nenhuma
Me encanta o rascunho e sua imperfeição

(rascunho imperfeito manuscrito em pedaço de papel amassado, encontrado no meio das minhas coisas)

*****

Boa desculpa para ser imperfeito? Retórica vazia? Talvez não. Estou cansado de tantos semideuses, perfeitos, eficientes, competentes... Dê-me gente normal, rascunhada em pedaço de papel.
Religião como psicose:
-Confronto com questões insolúveis (quem somos, de onde viemos, para onde vamos...)
- A religião seria um solução coletiva para essas questões.
- Com o passar do tempo conseguimos conviver melhor com elas.
- Psicóticos encontram soluções que não são socalizáveis.
- Condições para que se socialize -> qualidade cultural (distinção entre as mais e menos civilizadoras).

(pedaço de papel manuscrito, perdido no meio das minhas coisas)

Pergunta que me veio: como a religião pode ser psicose se ela é uma solução não socializável, sendo a religião estritamente social?

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Verborragia (ainda sobre silêncio e vermelho)

Heh, virar a noite toda tentando dormir. O sono não vem... ou se vem, é para ficar pouco. Assim fica-se vunerável a si próprio e a tudo que se pode pensar quando está sozinho. A cabeça quase livre é porta aberta para o que se evitou o dia todo, oferece menos resistência. Aí você escreve algumas palavras para alguém que dorme longe dali... tudo que não se pode ou não se deve dizer. Por medo, cautela, por falta de palavras ou tantos outros motivos que não ouso descobrir... Palavrasm, mas que tomam força, criam sentido quando lidas pelos olhos certos. Sabe, é uma boa tentar fugir do vazio que fica cada vez que se cala ao invés de explodir em verborragia.

Ah cara, as palavras traem. Tão fácil se escorregar nelas. Mas reconheço que gostei... tantas delas ali no papel, fortes. Quantos sentimentos que eu nem imaginei que pudessem estar em você nem em lugar nenhum. E senti cada palavra de uma maneira tão presente. Improvável que fosse você.

Pois então que arranque, um, dois pedaços e me dê. Embrulhado pra presente. Pra eu saber. Pra eu sentir ainda mais. De forma tão intensa que me faça ser ainda mais. E que eu queira ainda mais sangue pulsando e pintar tudo de vermelho.

Ou que eu queira somente me calar e te reler. Agora com meu corpo todo.

[Ela disse que saudade é felicidade abafada, futura. Antes fosse. Saudades? É só saudades...]

domingo, 3 de fevereiro de 2008

pro dia saber que eu passei e ele passou

sangue enquanto sangra... e vermelho!
sangue enquanto pulsa e jorra eufórico.
enquanto está aqui à flor da pele e eu vejo, e sinto o cheiro.
mas, só o cheiro não basta.
quero a palavra, pra dar um basta no silêncio
(aquele mesmo de dias atrás e dos próximos dias).
que fique incompleto, para que eu possa sempre voltar

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

me diga...

"(ela voltou...e assim partiram de mãos dadas
a melodia, o ritmo e as palavras
na caçamba da inspiração
e em mim não há mais canção)"
_____________________________
- Qual é a medida?
- Por que procura uma?
- Pra eu ser mais exato.
- Não perca tempo nisso,
seja exagerado.
- Mas preciso saber quanto...
- Que tal algumas horas?
- Mas isso é muito pouco.
- Então a vida inteira?
- A vida é muito longa.
- Sim, é em demasia.
Te meça só pela vida, pois ela não tem limite.


**********
O peso da minha existência. O peso que eu carrego todo dia, e que não é peso algum (é falsificação). Qual é a minha medida? Onde começo e acabo? Será que acaba mesmo, ou é sempre recomeço?
Medir-se pela vida é esquecer qualquer medida, é deixar a coisa solta. Como se fosse sempre espaço e quase sempre preenchido. Mesmo que seja de charadas e de indefinições. De retrocessos e recomeços. Afinal, a medida é a vida (que me cabe). E eu sei que caibo nela.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

dilema

quero...
e quero agora!
tanto, sempre... pra sempre por enquanto.
cheio, completo, tempestade em copo d'água.
o copo d'água todo num gole só.
menos parar pra respirar, menos dormir, pensar...

fogo, por favor!
um corpo em chamas (só pra chamar a atenção),
pra te chamar de assassina e renascer do meu sadismo.

quero...
e quero tanto!
por enquanto,
que me importa?
a eternidade do momento,
nas pequenas coisas
na vida pequena
nessa coisa toda,
que não se entende...

fogo, por favor!

************

seria melhor ter ficado em silêncio?

sábado, 26 de janeiro de 2008

fim do silêncio

(em seu furor)
eu sei que ela pensa em ti,
e fecha os olhos.
e se tranca no quarto,
para pensar em ti.
até morta pensará em ti.

...

toque a valsa nº 6

domingo, 20 de janeiro de 2008

um pouco de silêncio

-"Como escrever pra você sem me expor?"

-"Como não me expor com tanto silêncio?"

...

sábado, 12 de janeiro de 2008

As cento e cinquenta paixões assassinas, ou de quarta classe...

"Durante a noite, o Duque e Curval, escoltados pela Desgranges e a Duclos, levam Augustine ao jazigo. Sua bunda está em péssimo estado; açoitam-na e cada um a enraba sem esporrar; depois, o Duque inflige-lhe cinquenta e oito feridas nas nádegas, e verte óleo fervendo em cada uma delas. Ele lhe enfia um ferro quente na cona e no cu, e a fode sobre as feridas com um condom [n.t.: do inglês, preservativo masculino, precursos da atual camisa de vênus] de pele de cão do mar, o qual rasga de novo as queimaduras . Feito isto, descobrem seus nervos em quatro lugares formando uma cruz, amarram cada ponta desses nervos a um torniquete e giram, o que lhe alonga essas partes delicadas e a faz sofrer dorer incríveis. Dão-lhe uma trégua, para melhor fazê-la sofrer, e retomam a operação, dessa vez, esfolando-lhe um buraco na goela, pelo qual trazem para baixo e fazem passar sua língua; queimam-lhe em fogo brando a mama que lhe resta; em seguida, enfiam na sua boceta uma mão armada de um escalpelo com o qual rasgam a parede que separa o ânus da vagina; tiram o escalpelo, enfiam a mão de volta, vasculham suas entranhas e forçam-na a cagar pela boceta; então , pela mesma abertura, vão romper-lher a bolsa do estômago. Depois voltam ao rosto: cortam-lhe as orelhas, queimam-lhe o interior do nariz, furam-lhe os olhos deixando destilar cera de Espanha fervendo dentro, retalham-lhe o crânio, enforcam-na pelo cabelos amarrando pedras em seus pés, para que ela caia, arrancando seu crânio. Depois dessa queda, como ela ainda respira, e o Duque fode sua boceta nessa estado; ele esporra e fica ainda mais furioso. Abrem-na, queimam-lhe as entranhas no próprio ventre, antes de enfiarem uma mão armada de um escalpelo que vai furar seu coração por dentro, em vários lugares. Só então ela devolve sua alma. Assim pereceu, aos quinze anos e oitos meses uma das mais celestes criaturas que a natureza criara [...]"

[SADE, Marquês de. "Os 120 dias de Sodoma", pág. 348, Editora Iluminuras, 2006]
__________________"Cento e vinte dias, quinhentas e noventa e oito paixões. O desejo lançado ao infinito"

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Nossa, agora o ano é outro!
Dizem que é vida nova e desejam um monte de coisas, fazem pedidos e promessas... Eu não, quero que tudo continue como está, fluindo, indo para onde tem que ir, se é que realmente tem... Não quero me preocupar muito, nem fantasiar. Deixa assim, quase indolente, irresponsável.
Não quero outro, não me seduzo mais por novidades requentadas. Que seja o mesmo, que seja igual, ainda que reserve um bocado de surpresas.

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Não era sobre isso que eu ia falar...
Talvez fosse melhor dizer que os últimos dias foram muito bons, intensos e cansativos. Rodeado de pesssoas que eu gosto, fazendo coisas legais, em lugares interessantes. Simples assim...