quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

você e vinícius

quem escreveu o livro?
foi você ou
o velho vinícius

que armou a armadilha
do real amor
fictício?

poeta e poetisa
arquitetam em conluio
o precipício

bomba de celulose à espreita,
na iminência
do suicídio

explode serena
no luxo do desperdício
como se fosse nada,
como se fosse possível
não ler o fim
e se lembrar do início.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

da carta de karl para sua irmã, cordélia

"Na verdade o que queremos é dilacerar o outro. Dão o nome de desejo a essa comilança toda. Na natureza tudo come. Do leão à formiga. Até as estrelas se engolem umas às outras. Tenho cagaço do cosmo. O Criador deve ter um enorme intestino. Alguns doutos em ciências descobriram que quanto maior o intestino, mais místico o indivíduo. E quem mais místico do que Deus? Grande intestino, orai por nós."

(HILST, Hilda. Cartas de um sedutor, págs. 78 e 79)

___________________
1. O desejo que é mais que desejo e que só se satisfaz no dilaceramento do objeto cobiçado.
2. Esse universal e inexorável engolimento de uma coisa pela outra. A vontade de absorção do outro, que está em tudo e que é a própria dinâmica da vida.
3. Engolir e excretar, parte do insondável mistério cósmico. Seríamos nós também, no alto de nossa arrogância, dejeto divino? Viemos mesmo do "barro"? "Grande intestino, orai por nós".
4. Bem-vinda, Hilda.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

corpo cortado

corpo frágil,
                     corpo
faca na mão.
palavra, não lâmina
é o que fazia sofrer

penumbra
corpo e outro
                      corpo impassível,
a dor fina do corte
que eu mesmo inflingi

corpo abraçado
                          no corpo
o que restou,
é a porta pequena
desafiando a sair


pés decompostos
em passos 
perdidos
pedaços do corpo
fluindo

fim...


_________________________

"Nenhum metal pode perfurar o coração com tanta força quanto um ponto final colocado no lugar certo" (Isaac Babel)

terça-feira, 12 de novembro de 2013

ainda "a hora da estrela"...

"escrevo por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. escrevo porque sou um desesperado e estou cansado, não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu morreria simbolicamente todos os dias. mas preparado  estou para sair discretamente pela saída da porta dos fundos. experimentei quase tudo, inclusive  a paixão e o seu desespero. e agora só quereria ter o que eu tivesse sido e não fui."


Tava aqui anotado e eu quase rasgo e jogo fora, essa verdade lancinante, tormentosa e resignada, de quem escreve para fugir da morte (real e simbólica, que afinal é quase a mesma) e o faz sem muita convicção. 
O tédio de sermos isso e não aquilo e aquiloutro e todo o resto. Essa vontade que às vezes bate de sermos o que não somos e que acaba transbordando pro papel...


segunda-feira, 4 de novembro de 2013

algumas linhas sobre "a hora da estrela"

li pela primeira vez em 2004 para o vestibular. sem tanta atenção, é verdade, naquela ânsia de obter somente a compreensão instrumental para acertar alguma questão que eventualmente caísse na prova. uma pena, já que um livro desses não deveria ser encarado dessa forma rasa (assim como tantos outros que se banalizam totalmente quando passam a figurar como leitura obrigatória). 

injustiça reparada quase dez anos depois. tive a oportunidade de relê-lo como se deve e com a maturação conseguida através da década que passou (e que surpreendentemente fez toda a diferença pra mim enquanto leitor).

como sempre Clarice surge arrebatadora. vibrante e ousada na sua forma de escrever, com digressões inquietantes, em momentos de quase delírio... essa é sua derradeira obra (morrera no mesmo ano da publicação, 1977) e é o relato, a confissão de existência de uma moça que não existia. ou que até existia, posto que era matéria nesse mundo e respirava, mas que o fazia muito acanhadamente, desconcertada, quase "pedindo desculpa por ocupar espaço". Macabéa, a nordestina que sabe-se lá por quê migrou para o Rio de Janeiro, tinha uma vida miserável e nem disso se dava conta. simplesmente ia "vivendo à toa", porque era assim que era, sem nenhum tipo de esperança, sem viço, sem alegria ou tristeza. num "limbo impessoal". moça magrinha, murcha, de corpo "cariado" e encardido e cabelos parcos, com um cheiro "murrinhento", que ninguém queria.

é assim que nos apresenta a protagonista o narrador, Rodrigo S. M., que também quase se desculpa por nos trazer uma narrativa tão banal. durante todo o livro, o autor expõe sua confusão de sentimentos em relação à Macabéa, ao ato de escrever e à própria vida. sente desprezo e um certo tipo de afeto pela sua personagem. gostaria que ela de alguma forma demonstrasse fibra. "Ah pudesse eu pegar Macabé, dar-lhe um bom banho, um prato de sopa quente, um beijo na testa enquanto a cobria com um cobertor e fazer que quando ela acordasse encontrasse simplesmente o grande luxo de viver". justifica-se o tempo todo, confessa ao leitor a inadequação que vê em sua história, mas admite para si mesmo que não pode ser de outro jeito:  "escrevo, por não ter nada a fazer no mundo: sobrei e não há lugar para mim na terra dos homens. Escrevo porque sou um desesperado e estou cansado não suporto mais a rotina de me ser e se não fosse a sempre novidade que é escrever, eu me morreria simbolicamente todos os dias".

somente seu trabalho de datilógrafa faz Macabéa ser alguém. poucas coisas a conectam ao mundo, como suas companheiras de quarto, a rádio que ouve todas as noites e os passeios dominicais no cais do porto. é sozinha no mundo e não se dá conta. não tem nada e nem ninguém e não pensa nisso ("aprendeu que as coisas são dos outros"). um dia ela arranja um namorado - olímpico - também um migrante no rio de janeiro, que ao contrário de macabéa, é ambicioso, quer ser "alguém na vida".  mas esse namoro morno não leva a nada. olímpico termina com ela ("você, macabéa, é um cabelo na sopa. não dá vontade de comer") pra ficar com sua colega Glória, carioca, loira (ainda que oxigenada) e bem alimentada, o que fazia dela "material de boa qualidade". 

num ápice de iniciativa, até então estranha a ela, Macabéa vai a uma cartomante, indicada por Glória (penalizada por ter roubado o namorado da outra). a sorte que ela recebe das cartas a deixa num estado novo de expectativa e alegria. pela primeira tinha um destino, tinha esperança de uma vida melhor! porém seu clímax na vida, a hora da estrela, foi ser atropelada logo ao sair da cartomante. foi a primeira vez que a viram de fato, que a olharam. no abraço da morte ela pode finalmente "ser".

considero o ponto forte da história a relação intensa do narrador com sua personagem. o conflito, o afeto, a declarada exasperação que Macabéa causa em Rodrigo ("Macabéa me matou"). a intensa necessidade de botar pra fora a história dessa moça igual a tantas outras. os caminhos tortuosos pelos quais o "autor" segue e nos conduz, escancarando sua desilusão, suas dúvidas e a descrença no seu próprio ofício de escritor(a).

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

extermínio de mendigos, censura e pena de morte hoje...

"Mendigo não tem que votar. Mendigo não faz nada na vida. Ele não tem que tomar atitude nenhuma. Aliás, eu acho que deveria até virar ração para peixe".
Uma declaração como essa me arrepia, me indigna, me desilude (ainda mais). Não só por vir de um parlamentar, membro de um partido político e representante de toda a população de um município. Mas porque, de certa forma, é assim que pensa uma parte considerável dos brasileiros. Tudo bem que o vereador de Piraí (RJ) teve que se superar em burrice e coragem para fazer um discurso que é conservador, totalitário e claramente criminoso (afinal é um político dizendo que pessoas que moram na rua deve morrer), mas eu duvido que ele não tenha ganho a admiração de muitos que tomaram conhecimento de suas ideias "inovadoras" no tratamento às pessoas em situação de rua. 

Primeiro, ele diz que mendigo não tem que votar. Ou seja, ao morar na rua (por qualquer que seja o motivo) todo cidadão brasileiro deveria ter seus direitos políticos negados. 

Segundo, presume-se e afirma-se, numa lógica simplista e nojenta, que se está na rua é porque é vagabundo, não faz nada na vida, deliberadamente. Esse é um raciocínio falso, raso, hipócrita e cínico.

Terceiro, e o mais grave, defende-se que pessoas nessa condição devam ser mortas, exterminadas sumariamente, por serem indesejáveis. 

Nega-se, assim todos os direitos de uma parte dos seres humanos deste país. Não têm o direito de serem cidadãos e nem mesmo de existir. É de um obscurantismo e de uma intolerância atroz. Mais do que isso, não se discute em nenhum momento a questão dos "mendigos" como um problema social crônico, fruto direto da miséria e da desigualdade pornográfica que sempre existiu no Brasil. Não se precisa ser muito esperto pra entender que sair das ruas não é só questão de um "vai trabalhar, vagabundo" (bom, talvez um pouco mais esperto do que o nobre vereador em pauta). Existe um intrincado ciclo vicioso da miséria que se reproduz continuamente e do qual muitas pessoas não conseguem sair facilmente.

Pode não parecer, mas estamos muito próximos de uma lógica bem sucedida no regime nazista e que costuma contar com a calorosa aprovação das massas, desejosas de um mundo "mais seguro para os cidadãos de bem". Nas palavras do historiador Robert Gellately: 
"O regime [nazista] se vangloriava de sua nova abordagem contra criminosos reincidentes, alcoólatras crônicos, criminosos sexuais, desempregados e mendigos. Hitler prometeu 'limpar as ruas', e a maioria das pessoas aprovou a medida. Algumas acreditavam de fato no Hitler e no nazismo".
Ou seja, essa ideia de limpar as ruas do lixo social não é nova e nos aproxima muito do que existiu de pior em matéria de ideais políticos e sociais. Quando um vereador a expõe com todas as letras na tribuna de uma casa legislativa ele está basicamente reforçando uma mentalidade da qual uma parte significante da população se identifica e diante da qual não podemos de maneira nenhuma nos calar.



P.S.: Continuando seu discurso absurdo e desatroso, o mesmo vereador ainda defendeu a pena de morte, argumentando que, se o criminoso soubesse que iria morrer ele ia pensar duas vezes antes de cometer seus crimes, e a censura, em suas palavras: “Fim da censura. Eu acho isso ruim. Tem que ter censura. Nas propagandas de filmes e de novelas, passa gente transando escandalosamente na frente de criança. Eu acho ridículo acabar com a censura."


 

terça-feira, 29 de outubro de 2013

algumas linhas sobre ''a lista de schindler"

depois de muitos anos na minha lista de filmes a assistir, finalmente tive a oportunidade de encarar as mais de 3 horas de duração de "a lista de schindler". 

antes de tudo tenho que dizer que, apesar de ser longo, ele transcorre de maneira muito suave e agradável, prendendo a atenção do espectador e mantendo um bom ritmo durante todo o filme. não posso dizer que tenha havido alguma passagem que eu considerasse desnecessária ou enfadonha. cenas de extrema degradação e violência são constrastadas com a opulência dos oficiais nazistas, numa fotografia em preto e branco belíssima, que acentua a crueza e o horror sempre presentes.

Liam Neeson está ótimo no papel de Oskar Schindler, um personagem sedutor e cheio de si, mas para mim quem rouba a cena é o contador judeu Itzak Stern, que mesmo ciente da situação desesperadora em que se encontra, consegue manter-se numa certa posição de dignidade, sóbrio e comedido, conquistando a confiança e admiração de Schindler.

a história mantem-se o tempo todo interessante, contada com maestria e que consegue, sem dúvida sensibilizar e chocar. conta, em linhas bem gerais, a história de Oskar Schindler, empresário alemão e membro do partido nazista que, com o intuíto de ganhar muito dinheiro, se propõe a empregar mão de obra judia (pela qual se pagava menos) em sua fábrica. o que a princípio era somente um "aproveitar-se da situação" (que envolvia contar com investimento de judeus e conquistar a simpatia do governo, para contar com vantajosos contratos), acaba ganhando contornos humanitários, quando trabalhar na fábrica de Schindler torna-se uma segurança para centenas de judeus que viam dia a dia suas condições de vida se precarizar. mesmo que não compartilhando o sentimento anti-semita dos outros nazistas, o empresário está mais preocupado em maximizar seus lucros, mas acaba tomando partido na tentativa de salvar o máximo possível de judeus e, graças a sua influência com os oficiais nazistas e despendendo a fortuna que conseguiu juntar, ele suborna o comandante do campo de concentração, para que os trabalhadores de sua fábrica pudessem ser levados para Tchecoslováquia e não para Auschwitz, para trabalharem numa fábrica munições. Mesmo correndo o risco de contar uma parte que eu não deveria da história, chega a ser engraçado quando ficamos sabendo que nos sete meses em que a fábrica funcionou ela foi (propositalmente) um exemplo de ineficiência, na qual  Schindler gastou todo o restante de sua recem adquirida fortuna.

o que se vê na tela, e o que mais me espantou, é a crescente negação da humanidade dos judeus. mais do que um grupo a ser exterminado, eles perdem completamente sua condição de seres humanos, passando as mais degradantes humilhações, contra as quais mal podiam resistir. tornam-se um número, seres indesejáveis, desprezíveis, incomôdos na sua existência e na sua morte, contra os quais a única preocupação passou a ser como eliminá-los da formas mais eficaz. fica no ar a pergunta, difícil de responder, de como é possível que se possa negar, com tanta convicção e naturalidade os direitos mais básicos de dignidade a parte do seres humanos. a despeito do anti-semitismo histórico e sempre presente, qual é a lógica que opera num regime que em poucos anos consegue convencer todo um país de que faz-se necessário que uma parte enorme das pessoas devam deixar de existir, deixar de ser reconhecidas como pessoas, num processo que desarma e subjulga de tal forma as vítimas, que elas se veem sem condição de resistir ou reagir, submetendo-se totalmente ao seu algoz.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

a felicidade como um ventre...

"Adorno observa que não é possível estabelecer, com a felicidade, uma relação de posse. Não é certo dizer 'temos felicidade', 'somos donos de uma coisa chamada felicidade'. Não a temos, diz Adorno, 'mas sim estamos dentro dela'.
"Ele continua: 'a felicidade é sentir-se envolvido, é uma reminiscência do ventre materno. Por isso, quem é feliz nunca pode saber que o é. Para dar-se conta da felicidade seria necessário sair de dentro dela. Quem afirma ser feliz está mentindo, e, ao invocar a felicidade, peca contra ela. Só quem afirma: 'fui feliz' é fiel à felicidade. A única relação da consciência com a felicidade é a da gratidão: nisto consiste sua incomparável dignidade".

( COELHO, Marcelo. A dificuldade de ser feliz in Tempo Medido, São Paulo: Publifolha, 2007)
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 sabido esse adorno...

sempre pensei mesmo nessa tal de felicidade como frágil e incerta, algo que se dissipa no ar ao ser pronunciado.
parar pra pensar, procurá-la, definí-la, apreendê-la, já seria uma forma de renunciar a ela, colocar-se "do lado de fora". 
como quando sonhamos, prestar atenção na sua existência é não vivenciá-la...

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

algumas linhas sobre o "guia politicamente incorreto da história do mundo"

esse novo "guia politicamente incorreto" não foge aos dois primeiros: se empenha em bater num suposto monopólio esquerdista do pensamento e traz um catado de temas desde a antiguidade até o mundo contemporâneo. muitas coisas servem como curiosidades, não sendo tratadas muito a fundo e por vezes misturando fatos com opiniões pessoais (o que pode ser perigoso).

assim como os outros livros que tratam de temas do brasil e da américa latina, é impossível lê-lo indiferente. o objetivo é declaradamente incomodar, fazer barulho e nesse objetivo o livro é feliz. claro que tem falhas graves, é provocativo e para isso arrisca-se a raciocínios simplificados e interpretações questionáveis dos fatos. ao discordar de uma visão histórica supostamente estabelecida e majoritária ele comete o mesmo erro de ser tendencioso. é como se o que foi dito até então (o que por si só já é uma simplificação, já que a própria historigrafia é ampla e diversificada) fosse o "errado" e o que ele diz agora seja o "certo". além disso me incomodou o fato de tentar escrever de forma descolada e engraçadinha, como se estivesse falando com pessoas que têm dificuldade de entender.

se tem uma mensagem que esse livro traz (pelo menos implicitamente) e que eu não posso deixar de concordar é a de que a História é muito mais complexa do que nós aprendemos na escola. eu não saberia fazer um julgamento acurado sobre Nero ou Gandhi, por exemplo, mas tenho a convicção de que foram personalidades grandiosas, cheias de nuances, muito mais do que nos acostumamos a ver depois, num discurso consolidado. Não é possível e nem desejável colocá-los de antemão no lado dos mocinhos ou dos bandidos. até porque a própria maneira como os fatos chegam até nós está totalmente imbricada a quem escreve e ao espírito da época em que se escreve e, sendo impossível fugir totalmente disso, temos que nos posicionar de maneira cautelosa em relação ao todo. é interessante perceber essa tendência, ao saber que a maneira como nos acostumamos a ver os samurais hoje em dia é uma forma romanceada como se passou a retratar a época, meio que num movimento de nostalgia e saudosismo, um bom tempo depois. assim também, creio realmente que a idade média foi muito mais do que uma época de obscurantismo e que o facismo enquanto movimento político não foi simplesmente o resultado de mentes monstruosas arquitentando a dominação mundial. a história é sempre muito mais do que nos dizem sobre ela...

porém Narloch deixa isso claro ao mostrar o contraste entre opiniões destoantes (a dele e a dos "politicamente corretos") e não sendo um analista ponderado (até porque não creio que tenha sido esse seu objetivo). assim, ao dizer que o capitalismo foi a melhor coisa que poderia acontecer aos pobres (sim, ele fala isso!) ele deixa exposto que se isso não é verdadeiro (e só uma mente grosseira poderia corroborar tal afirmação), ao mesmo tempo coloca algumas pulgas atrás da orelha, ao tentarmos ser mais honestos e avaliar o que aconteceu na revolução indústrial como o acúmulo e a convergência de uma série de acontecimentos anteriores que culminaram num novo sistema produtivo e de organização social. politicamente pode-se posicionar em relação a essa forma de interação humana como "contra" ou "a favor", "feio" ou "bonito" mas ao buscarmos uma análise histórica abrangente temos que ir muito além. entre o preto e branco há uma infinidade de outras tonalidades às quais o historiador deve-se atentar ao compor um quadro. o autor faça isso, muito pelo contrário, mas meio que num processo dialético, ao negar algumas supostas verdades ele pelo menos deixa à mostra a fragilidade com que os discursos são produzidos.

enfim, leiam se os temas abordados interessarem, mas tenham cuidado para não dar mais legitimidade ao livro do que ele merece.

não saberia ser mais claro sobre minhas opinões, então prefiro resumí-las entre os pontos positivos e negativos:

PRÓS

busca oxigenar e trazer outros pontos de vista a fatos do passado. mesmo que passíveis de refutação, pelo menos nos fazem questionar. tira do lugar comum e da acomodação de uma verdade estabelecida.

ao dizer coisas não comumente ditas sobre esses fatos, nos incentiva a problematizar e vê-los de uma maneira mais humana e complexa.


é extramente instigante, capta a atenção mesmo quando escreve coisas absurdas e a partir disso me obriga a rever e reforçar  meus posicionamentos. 
CONTRAS

na ânsia de ser polêmico e procativo, acaba defendendo pontos de vista de maneira totalmente simplificada e precipitada. assim, incorre no mesmo erro de que acusa a história majoritária dos livros escolares ao "ideologizar" a informação.
não dá pra dar crédito a muita coisa que ele defende por que percebe-se uma argumentação frágil e descontextualizada. me parece que não entende de muita coisa que diz.
tenta ser engraçadinho e raso na maneira de escrever, como se precisasse "facilitar"a comunicação para ser entendido. pelo menos pra mim isso cansa e deixa o texto mais pobre (às vezes lembra a galera que escreve comentários na internet).


quinta-feira, 26 de setembro de 2013

exercício de fraternidade nº 2

sente-se
caro amigo
de bom grado
divido contigo,
nesta mesa,
o tempo, servido
como petisco
enquanto bebemos a vida
sem sede e sem fé

saúdo-te
num abraço
fraterno, atrasado
de outra encarnação.
faremos planos
de incendiar o congresso
ou viajar nas férias
(pausa para a risada,
sua explosão anárquica)

apoio-me
na sua existência
e fico menos deserto

sua alma, gigante,
não cabe no corpo,

escorre no asfalto
e sem se dar conta
me aponta os caminhos
de volta pra casa

(gosto de falar com você quando não está prestando atenção)
 _______________________
"ah, a bem-vinda alienação de sentar em uma mesa sem telefones espertos, somente a cerveja despejada nos copos de requeijão e um bocado de inconsequência para distrair os nossos ouvidos e algumas risadas que serão sufocadas entre alguns suspiros matutinos. Ergamos nossos pulsos enfurecidos! E enquanto isso, o mundo gira e voltamos para a casa mais vivos; cuspindo sangue, com navalhas nos bolsos furados e dentes no travesseiro, dormindo (perdidos) entre a ponte dos nossos sonhos."

terça-feira, 24 de setembro de 2013

os meus centavos sobre o julgamento do mensalão

vou ser tentar ser o mais direto e claro possível, até porque sei pouco sobre o assunto, mas como bom brasileiro, quero dar meu pitaco sobre aquilo que não entendo:

1) o mensalão existiu. ficou feio pro partido que até então pregava a ética e a honestidade. corrupção é corrupção e pronto, não interessa qual seu objetivo, não há justificativas. é ridículo ver muito petista cego negando o mensalão ou tentando justificá-lo, como se fosse um mal necessário em prol de algum objetivo virtuoso...

2) tenho convicção de que a troca de dinheiro por apoio político (vulgo mensalão) tem sido amplamente utilizada através do tempo como modus operandi dos governos em todas as esferas da nossa bela democracia. então para com essa porra de "o maior caso de corrupção da história desse país". apesar da maioria do povo acreditar, isso é besteira.

3) os outros partidos, de maneira geral, são tão ou mais corruptos do que o pt. na verdade eu creio que eles sejam ainda mais, (duvida? clique aqui, o pt aparece num modesto nono lugar no ranking de partidos com mais políticos cassados). portanto, tenho nojo do uso político que os adversários do pt fazem, querendo se colocar acima deles, de forma cínica e deslavada, numa tentativa de cooptar a opinião pública.

4) é evidente que a grande mídia também vem usando desde 2005 de maneira suspeita esse caso, por interesse próprio e rusgas ideológicas. fala-se muito menos de outros casos de corrupção que estouraram no mesmo período (mensalão do dem e cartel do metrô, por exemplo). tem toda essa repercursão porque é o pt...

5) lamentável o quanto as pessoas querem dar palpite e criticar a postura do stf, sem entender porra nenhuma de direito e do funcionamento do judiciário. não se deseja um julgamento arrazoado, mas um linchamento em praça pública. nesse sentido, achei muito interessante o jurista ives gandra vir a público dizer que o zé dirceu foi condenado sem provas (clique aqui). se está certo ou errado eu não sei, mas passa credibilidade e é maduro da parte dele, enquanto uma figura consevadora e nem um pouco simpática ao pt, conseguir analisar os fatos de maneira isenta.

6) irrita o quanto puxam o saco de maneira ignorante do tal do joaquim barbosa. ele NÃO é um justiceiro, assim como alguns outros ministros do stf não são filhos da puta porque suspotamente votaram de maneira técnica, baseados em suas próprias conclusões, a partir dos autos e absolveram alguns ou todos os réus. quer dizer, eles podem até ser, eventualmente, filhos da puta, mal intencionados, mas é canalhice da nossa parte supor isso de antemão, sem tentar entender tudo o que envolve o julgamento e o que está contido no processo. 

7) parece até aqui que estou defendendo os envolvidos no caso do mensalão, mas não estou. acho que será lindo o dia em que os culpados forem finalmente pra cadeia, assim como é fato que não voto no pt (também por outros fatores), porém acho besteira esse negócio de querer mandar as bruxas pra fogueira. me irrita lidar com assuntos tão sérios assim como se fosse um fla x flu. sou a favor de um julgamento justo, razoável e baseado em provas, não no clamor popular, altamente manipulável e irracional.


segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Um Arco-íris de Verdade

ouça aqui

eu não sei se vai chover ou fazer sol
quero os dois e um arco-íris sobre o céu da cidade,
você já viu um arco-íris de verdade?

eu não sei se você vai me querer por um ano ou só por essa tarde,
mas eu queria alguma coisa sua que marcasse a minha vida,
seja sua unha na minha pele ou uma aliança no meu dedo

e se chover nem vem de guarda-chuva, que eu quero mesmo é te beijar molhada
e a gente dança e pisa em tantas poças
e a gente brinca de estar apaixonado

eu não sei se você vem no vento que assobia
de cabelo bagunçado e lenço no pescoço
mas vê se espanta essa frente fria
e me traz um pouco de calor na sua mochila

e se chover nem vem de guarda-chuva,
que eu quero mesmo é te beijar molhada
e a gente dança e pisa em tantas poças
e a gente brinca de estar apaixonado

e se chover nem vem de guarda-chuva,
que eu quero mesmo é te beijar molhada
e se o sol sair me leva lá pra fora,
me põe embaixo do seu céu de cores cintilantes


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

"Ocorre que, por vivermos em um mundo plural, não podemos prever plenamente as consequências de nossas ações, e isto não se deve a uma deficiência cognitiva, mas sim a um certo grau de imprevisibilidade de toda ação, haja vista que, por estarmos inseridos em uma rede de relações, onde toda ação gera reações, não podemos saber integralmente qual o resultado do processo irreversível que desencadeamos no mundo. Por isso Arendt diz que apesar de agirmos, não somos os autores da história, pois o significado da mesma somente pode ser encontrado no 'fim', isto é, de maneira retrospectiva por quem se dispõe a narrá-la. Nessa linha, podemos dizer que a constituição de nós mesmos, de nossa biografia, do sentido de nossa existênca, bem como a constituição da comunidade política em que vivemos é uma atividade plural, que é incapaz de ser realizada solitariamente, pois a antes mencionada rede de relações que está por detrás dos negócios humanos não permite que realmente sejamos soberanos e onipotentes (...)."

(TORRES, Ana Paula Repolês. O Sentido da Política em Hannah Arendt.)
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Entrar em contato com as ideias de Hannah Arendt é sempre inspirador... 
A maneira como ela coloca cada um de nós nos seu "devido lugar" (nada mais e nada menos) ao frisar que não somos capazes de constituirmos individualmente nem a nós mesmos e nem uma comunidade política é forte e original. Afinal de contas (e sendo esse um dos pontos mais marcantes de seu pensamento), é somente na interação entre os homens, no exercício da liberdade entre iguais que nos é possibilitado tanto a construção de nós mesmos enquanto pertencentes ao mundo, quanto a construção do próprio mundo, enquanto espaço para a ação do homem. 
É através do olhar do(s) outro(s) que nos percebemos e é justamente a pluralidade de olhares e dos sujeitos que emergem a partir dessa relação que permite o surgimento do espaço público e da política, enquanto diálogo e troca.
Nesse sentido, gosto da ideia que ela elucida da história como algo que nos escapa, uma narrativa que se dá posteriormente aos acontecimentos, quando alguém se prestará a narrá-los. Nós agimos no presente, mas o significado e o desenrolar que nos levará a um "fim" é sempre incerto,  já que volátil.
Tampouco temos controle sobre a irradiação de nossas ações e não é no isolamento que se forma o "eu" e o "outro", mas antes nas reações às nossas ações, que ecoam por essa rede de relações e que inevitavelmente acabam voltando para nós mesmo das maneiras mais inimagináveis e constituindo de muitas formas o sentido de nossa existência.



segunda-feira, 12 de agosto de 2013

do que eu aprendi...

começo ponderando se posso realmente chamar isso de aprendizado. sei que sou irritantemente prevísivel e logo de cara questiono a mim mesmo (antes que alguém o faça?). não consigo dar um passo firme numa direção sem antes hesitar, olhar para os meus pés e ao meu redor (isso é o que me mata e me constitui)... não consigo dizer ao certo que sou mais sábio agora do que era antes, que sou melhor. será que, pelo contrário, simplesmente deixei de ser uma coisa para passar a ser outra? não é isso mesmo que fazemos o tempo todo? a despeito da falta de resposta que se anuncia ao questionar-me sobre o título, ousarei chamar o acúmulo de dias e anos e as experiências que de alguma maneira absorvi de aprendizado. afinal, desse intervalo de tempo que tenho me mantido vivo, fiz algumas coisas e elas também acabaram por fazer algo de mim.

quer dizer, nesse universo infinitamente aberto de saberes possíveis, só posso falar de fato em aprendizado se estabelecer de antemão um ponto de partida e um objetivo. caso contrário tudo se torna válido. ir ou ficar, ser ou não ser, toda e qualquer interação do ser humano consigo, com os outros e o ambiente implica em causar reações a si mesmo, alterar sua formação, imprimir marcas às quais podemos dar o nome de "aprendizado". entende aonde quero chegar? tentamos enxergar na escuridão do mundo com a chama de um palito de fósforo e o que iluminamos sempre será mísera partícula se comparada a tudo aquilo que nos escapa...

vencido dois parágrafos de fútil papo furado e arriscando em fazer um balanço entre a mesma pessoa separada pelo tempo, posso dizer que consegui usar a meu favor os percalços experienciados e que acabaram por contribuir para uma certa solidificação do "eu". isso sim é algo que posso considerar relevante: conseguir se tornar algo "duro" no universo. e quando eu uso tal expressão, por favor, considerem essa dureza de maneira relativa, no sentido de oferecer alguma resistência às diversas correntezas que nos assolam ininterruptamente e contra as quais invariavelmente nadamos, de conseguirmos ir em frente (supondo que é pra frente que seguimos) e de podermos ser um corpo um tanto quanto impermeável, que não sofra a todo tempo a invasão de outros corpos. e aqui estão dois pontos que se mostram relevantes para qualquer ser humano: ter minimamente a força, a pulsão, de seguir um caminho, enquanto sujeito "autônomo" e com "vontade própria" e ao mesmo tempo conseguir ser um todo minimamente coeso, capaz de proteger a si mesmo das invasões que nos ameaçam. algo como um "caminhar com a próprias pernas" e mais do que isso, estabelecer por conta própria o caminho que será caminhado. claro, sem perder a capacidade de contemplar a pluralidade possível e que nos traz beleza (e tormento).

acho que é isso, posso esboçar conclusões. creio que tenha aprendido e esteja sempre apredendo a pensar (e repensar, num processo contínuo) meu caminho possível e desejável, bem como caminhá-lo com retidão e firmeza. julgo ter aprendido também a olhar para a frente, sem deixar de prestar atenção ao meu redor, estar atento ao que me circunda e sempre com o passado nas costas (fardos e delícias com os quais não aprendi a viver sem). ainda suscetível a retrocessos e vacilações, mas igualmente preparado para fazer delas companheiras que me transmitam algo, tentar torná-las parte (importante) do caminho, que me caracterize e me aproxime de mim mesmo.

e vejam, se falo assim em termos tão abstratos e genéricos é justamente para que se possa ganhar essa amplitude, para não me fechar em especificidades, para que eu possa falar de mim como um todo. mas, sei, estou simplesmente falando da ação de um homem no mundo dos humanos e da ação que esse mesmo mundo causa num certo homem. e mais especificamente da capacidade de se autodeterminar e de ser um ponto de resistência. porém, não me iludo no alcance dessa autodeterminação e resistência. na realidade podemos muito pouco e sabemos quase nada. as possibilidades que nos apresentam são limitadas. ok, isso posto (e com o perdão do clichê), ainda creio ser possível fazermos limonada com os limões que a vida nos dá. ou ainda, quem sabe, com um pouco de sorte, uma bela caipirinha...

domingo, 4 de agosto de 2013

poema-convite

ah!
tuas coxas brancas,
tuas pernas curtas,
no ângulo reto em que florescem
úmidas
e tomam a forma do meu desejo
trêmulo
torno-me de novo devotado
púbere
acompanho atento o movimento
            rítmico          
em que se insinuam e fogem
hipnóticas
(mistério que não desvendo)

amo, sem saber rimar
tuas pernas ao meu desatino,
lívidas
nascem suaves em dedos
mínimos
serpenteiam ao meu redor
lânguidas
e vigorosas morrem
líquidas
(como eu morro)
no calor de teu quadril-convite

terça-feira, 23 de julho de 2013

exercício de fraternidade nº 1

há dias para se lamentar
os dias
que nunca serão
o que deseja o pueril coração.
dias em que
tudo nos falta
mesmo sem nada faltar...

mas hoje não...
hoje é o dia dos risos
que ecoam pela rua
e a deixa mais familiar.
seu farto riso corporal
enquanto caminhamos
confiantes por estarmos juntos

e em ti me amparo
enquanto ombro a ombro
desbravamos a terra
inóspita dos homens,
e indolentes dançamos
ouvindo canções
de despedida e reencontro

com passos cautelosos
vencemos a cidade crua,
entregamos a nossa parte mais nobre
o fio de alegria que resta
que nasce num e transborda noutro
fluxo contínuo
que te torna parte de mim.

ideias tolas confortam,
mãos em conversas fraternas,
sei, pertencemos ao mesmo mundo
e com coragem desentranho
minha força da sua
encho nossos copos de orgulho
mas você distraída beberica à vida

segunda-feira, 22 de julho de 2013

algumas linhas sobre "levada da breca"



tinha quase nenhuma referência para assistir à "levada da breca" ("bringing up baby", no original), de 1939, além de saber que seu diretor, howard hawks, é um nome importante da fase clássica de hollywood. continuo sem ter muitas informações, mas pelo menos agora sei que é dele um dos filmes mais divertidos que pude ter a oportunidade de assistir. poucas vezes na vida achei um filme tão engraçado. justo eu, que adoro comédias e que por isso mesmo sempre me decepciono, talvez por esperar demais que elas me façam rir.

a história em si não é tão original. fala sobre um zoólogo que está as voltas de seu casamento, do término de seu trabalho de anos reconstituindo o esqueleto de um brontossauro e a oportunidade de se levantar uma gorda doação para suas pesquisas. claro que nada poderia ser assim tão simples e o atrapalhado cientista acaba cruzando com uma simpática maluca que desde o início o coloca nos mais diversos apuros, se apaixonando por ele depois. tudo bem sessão da tarde, mas esse filme tem uma inocência e uma genuidade que o torna muito cativante.  o casal protagonista é muito engraçado interagindo e os outros personagens, num tipo de humor rápido e insano, também acabam agradando bastante. a sucessão de maluquices e mal-entendidos vai crescendo incessantemente, como uma bola de neve e te leva junto, ansioso por saber onde tudo aquilo vai parar. o ponto alto da história e das gargalhadas da platéia se dá quando todos se encontram na delegacia, em uma avalanche de situações insólitas e dialógos rápidos.

tão doce e ingênuo quanto cômico, foi uma boa descoberta, que compensou te ficado de olho  na programação do que rola de cinema em são paulo, apesar de no início eu ter ficado com um pé atrás pela sinopse e pelo nome do filme (sim, isso acaba importando e não tem como ler o título em português e não fazer referência à "Punky, a levada da breca" que passava no sbt na minha infância). esse, no caso, passou no centro cultural de são paulo, como parte da mostra howard hawks e valeu cada centavo do r$ 1,00 que me cobraram de entrada.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

algumas linhas sobre "the man comes around"de jonnhy cash



desde 2010 ouvi esse cd centenas de vezes. e de vez em quando sinto a necessidade de voltar a ele, como se houvesse algo ali que não encontrasse em nenhum outro lugar. adoro a aura do disco como um todo, que soa como se fosse desentranhado do fundo da alma de Cash com força e verdade. a voz de um senhor calejado pela vida e perceptívelmente velho e cansado (e que já pouco havia do rebelde e problemático jovem músico), cantando com tanta dor e austeridade e fazendo de cada acorde uma lembrança e uma despedida.

a primeira música que me chamou a atenção, até por ser largamente veiculada na mtv em 2003, foi "hurt", originalmente do Nine Inch Nails, que ficou profundamente dolorosa na versão do Jonnhy Cash. ganhou contornos de um acerto de contas com o passado e o que ficou de saudades e remorso.

"give my love to rose" conta a história de um homem  recém saído da prisão que é encontrado à beira da morte próximo ao trilho do trem e pede ajuda a quem o encontrou para que leve o seu dinheiro e suas última palavras para sua mulher (a rose do título) e a seu filho, que não chegou a conhecer. é triste e linda, num estilão country que poucas vezes me agradou tanto.

tenho que destacar também "hung my head" que conta uma história bem ao estilo velho oeste, sobre um assassinato cometido sem motivo aparente e o profundo arrependimento que assola o assassino. são de arrepiar os seguintes versos: "eu senti o poder da morte sobre a vida/ deixei orfão seu filho/ enviuvei sua esposa/ eu implorei por seu perdão/ desejei estar morto/ eu abaixei minha cabeça".

"personal jesus" tem um violão de peso, com belos riffs e um elegante piano sempre presente. gosto da imagem que ela me passa de uma mão amiga, ainda que pesada, disposta a dar amparo a um solitário que procure a fé (em seu próprio jesus). por fim, para não acabar falando de todas as músicas, preciso falar da mais bela melodia do cd, que é "desperado", um tocante conselho para que um cara durão e solitário (para quem "a prisão é andar sozinho por este mundo") "volte a si", "esqueça aquilo que ele não pode ter" e "deixe alguém amá-lo antes que seja tarde demais".

a última música do cd ("we'll meet again")é uma doce despedida que diz: "nós vamos nos encontrar de novo/ não sei onde e não quando/ mas eu sei que vamos nos encontrar de novo em algum dia de sol". não seria tão arrepiante se não fosse de fato a despedida de jonnhy cash, que morreu algum tempo depois, meses após sua esposa, june carter.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Excertos de uma entrevista de H. Miller


Sobre a importância do inconsciente no processo criativo:

"A mente desperta é, como se sabe, o que há de menos útil nas artes. No ato de escrever, a gente está lutando por trazer à tona o que nós próprios desconhecemos. Escrever meramente aquilo de que se tem consciência não nos conduz , na verdade, a parte alguma. Qualquer um pode fazer isso com um pouco de prática, cada qual pode converter-se nessa espécie de escritor."

Sobre a importância do surrealismo em suas obras:

"Isto [escrever surrealisticamente] significava ir ao extremo, mergulhar no inconsciente, obedecendo apenas aos nossos próprios instintos, seguindo nossos impulsos, quer fossem do coração, das entranhas ou o que quer que se deseje chamá-los."

Sobre o dadaísmo:

"(...) o dadaísmo foi mais importante para mim que o surrealismo. O movimento dadaísta foi algo verdadeiramente revolucionário. Foi um esforço cosncientemente intencional no sentido de virar as mesas de pernas para o ar, no sentido de mostrar a absoluta insignificância de todos os nossos valores. Houve homens maravilhosos no movimento dadaísta, e todos eles possuiam senso de humor. Era algo para fazer-nos rir, mas também para fazer-nos pensar."

Sua distinção entre obsceno e pornográfico:

"O obsceno seria o franco, o direto, e a pornografia seria o indireto, o perifrástico. Acho que se deve dizer a verdade, apresentando-a friamente, de modo chocante, se necessário, sem disfarcá-la. Em outras palavras, a obscenidade é um processo purificador enquanto a pornografia apenas aumenta a sujeira."

Sobre o tabu no mundo contemporâneo:

"Os tabus, afinal de contas, não passam de coisas remanescentes, de produtos de mentes enfermas, poder-se-ia dizer, de gente pusilânime que não teve a coragem de viver e que, em nome da moralidade e da religião, nos impôs tais coisas. (...) A religião em vigor, entre gente civilizada, é sempre falsa e hipócrita, exatamente o oposto daquilo que os iniciadores de qualquer religião pretendiam."

("Escritores em Ação", pags. 195 e 196 - Ed. Paz e Terra )

Este é um autor com o qual eu tenho nenhuma familiaridade (devo confessar que nunca ouvi falar de nenhum de seus livros...) mas o qual me chamou a atenção a partir da oportunidade que tive de ler uma entrevista sua. Achei particularmente interessante a  concepção que ele tem sobre o ato de escrever muito atrelado ao inconsciente e ao instinto enquanto fios condutores, numa proximidade com ideias surrealistas, de forma que é, por assim dizer, muito mais através da mente livre e na ausência de esforços cognitivos se que cria. Claro que sempre podemos discutir o quanto de fato é possível produzir algo dessa maneira, distanciados tanto quanto possivel da técnica e do raciocínio, mas de qualquer forma acho que essa mentalidade acabou sendo revigorante para as artes em geral.

Outro ponto que me chamou a presença da obscenidade enquanto característica presente tanto no "ritmo" de sua obra, quanto como uma "técnica de choque". Ou seja, algo espontâneo e intrínseco ao autor e ao mesmo tempo uma maneira deliberada de causar impressões no leitor. Imagino que isso deve ter causado polêmica na primeira metade do século XX. Me soa bela a ideia da obscenidade como purificação e como instrumento para se dizer aquilo que se quer dizer, liberto de amarras.

P.S.: O livro que contém essa entrevista me caiu às mãos bem por acaso e a sua leitura tem sido extremamente agradável e informativa.  É muito legal ler autores como Huxley e Hemingway contando sobre suas trajetórias, seus métodos de trabalho, suas referências e as opiniões sobre outros escritores. Os dois citados, mais Henry Miller são os que eu li até agora, mas estou com grande expectativa para saber o que Ezra Pound, T.S. Elliot, Willian Faulkner, Truman Capote, entre outros têm a me dizer...

sexta-feira, 12 de julho de 2013

canção de quase-amor

para ouvir clique aqui

vem aqui pra fora
que o céu está cinzento
e há tanto a se conversar

vem, mas não demora
que o dia logo acaba
desfaz-se o encantamento antes de começar

e se eu cair num poço fundo
de abraços quentes e velozes
ando em círculos desejando ser melhor ator
volto pra casa assoviando uma canção de quase-amor

vem, vamos embora
os prédios vão dançando
me ofereça a tua boca pra me consolar

eu sei que não é hora
de confessar meus devaneios
mas confundo gostar tanto com quase amar

e te ofereço a eternidade
meio ingênuo, meio fraude
viro água, pego fogo, colho a flor
te inundo, te incendeio, te mostro a dor
escancarada num sussurro,
que afaga teu ouvido
devora tua alma, transforma-se em vício
numa declaração de quase-amor

terça-feira, 25 de junho de 2013

sigo
em frente,
enfrento!
fraco
o fracasso
profundo
do mundo
que sou
(e que somos)
minto, in-
vento afagos
enfeito
meus feitos
tantas
rusgas,
tantos defeitos...

- sinto
muito
sibilo ou
sussurro
ofereço
indefeso
a face aflita
ao murro
duro
(e escuro!)
da mão
que contém
a promessa
que não
se cumpriu
e nem se
confessa

segunda-feira, 17 de junho de 2013

das perdas

a estrofe anterior está perdida!
definitivamente...
não há tempo para lamentos
há que se recomeçar
                                 súbito
contando
                 da tesoura
com a qual perfurei fundo meu peito
em busca
                de um coração estranho
                de um pulmão rancoroso
                (e tripas sentimentais)

contando
               do líquido
que jorrou farto de minhas entranhas
                                                        e não era vermelho
                                                                  era verde,
ocre e tímido!
e que ainda assim me faz um de vocês
é preciso que eu seja um de vocês!
e que seja capaz de um abraço
fraternal e dilacerante

só não pense nisso como uma declaração de amor
ou de fé
(no fim do poema ainda restam as perdas...)

sexta-feira, 14 de junho de 2013

alisa, furtivo,
o seio macio
da moça ao lado.
sem saber
que a dois passos dali,
a outra observa
e disfarça
olhando pra água
deseja
as mãos em seus seios
também...

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Feedback Song for a Dying Friend

Há aqui em algum canto de mim as palavras certas para te consolar, caro amigo.
Não as encontro, porém...  
Encaro teu desamparo, mudo, envergonhado. A fragilidade com que se equilibra, com que se pretende muralha, e se despedaça no primeiro ataque do inimigo.
(“há versos de amor em tudo que vês?”)
Aquela canção que fiz serviria pra você, mas não quero que você saiba:
“ainda há sangue nas tuas veias e um coração a ser despedaçado”?
Despedaçá-lo seria, por acaso, o melhor a se fazer?
Aturdido, não ouso responder...

Queria te preservar, mas os perigos do mundo são o próprio mundo. Abdicar de um é abdicar do outro.
E não é por indiferença que digo que amar é aceitar com devoção uma arma engatilhada, colocada contra a própria cabeça. Jamais diria pra não fazê-lo. Creio que viver é o exercício de procurar algo pelo qual valha a pena morrer...
A sua dor é só sua. Tenho eu o direito de tentar tirá-la de você? Tenho eu o direito de dizer que você NÃO deve sentí-la? Que não vale a pena?
Não, estou certo que não... mas ainda assim preferia que de alguma forma eu tivesse a palavra certa, o gesto certo, que te fizesse melhor.

Nem mãos, nem olhos... nem mesmo as palavras que saem confusas e estéreis da minha boca, ecoam por todos os cantos da sala e se desfazem e meras ondas sonoras... Nada do que eu faça te alcança, porque você está muito longe.
Me debato desesperançado... será que do muito que eu li, do pouco que eu sei, nada poderá nos (me) ajudar?

Estou cercado de sentimentos ambíguos...
Quero te bater e te abraçar. Acho que você merece ambos.

(poderei eu escrever o necrológio dos desiludidos do amor?)

quinta-feira, 30 de maio de 2013

a valsa dos derrotados

clique aqui para ouvir:

te vejo sozinha
olhando pro nada
lembrando uma história
omitindo detalhes
um pouco confusa
os olhos dançando
os olhos só bastam
pra dançar
a valsa dor derrotados
e o que era ternura
tornou-se essa apatia
raivosa

te vejo assistindo
sozinha no escuro
a história inventada
uma coleção de absurdos
um roteiro tão fraco
com personagens banais
pobres ególatras,
quase reais
mas a realidade é só um melodrama
com toques de humor
uma ficção mau escrita por um ser supostamente superior

ainda há sangue nas suas veias
e um coração a ser despedaçado
minha garota,
sorrindo pro mundo
que dança inerte
a valsa dos derrotados

quarta-feira, 29 de maio de 2013

da garota sem rosto

ouviu de mim as palavras mais doces
entre ardilosa e confusa,
desviou o olhar, devolveu:
"...eu não sei".

na verdade sempre soube...
deitada na minha cama,
seguia um roteiro:
deixou ir o anel,
abandonou em seguida os dedos

uma ligação bastou
"fiquemos por aqui". assenti
e não pude te encriminar
você é o que eu sou

tranquei bem o portão
cortejei ruas, caminhos possíveis
o nariz gelado me apontou a direção
às duas da manhã voltei a ser quem nunca fui
confesso que me diverti

você vinha como uma febre
uma dúvida, um desejo
súbito, perdeu o viço,
partida, não me decifrou,
distraído, não quis te devorar

mudei seu nome para que coubesse no poema,
o esqueci antes de por no papel,
no lugar, fiz um desenho
de quando você ainda tinha um rosto

sexta-feira, 24 de maio de 2013

algumas linhas sobre "nadadenovo"

seguindo a onda de resgatar cds antigos, nesta semana tenho ouvindo à exaustão o primeiro do mombojó.
dos três primeiros deles (o mais recente eu ainda não ouvi) esse era o que eu menos gostava. nunca me atraí muito por nenhuma música em específico (talvez com excessão de "a missa") e um quase exagero de arranjos eletrônicos não me agradava tanto, então sempre passou meio batido. mas agora me pegou de jeito e de uma maneira completamente inesperada.
claro que o show deles na virada cultural no último domingo contribuiu muito pra isso. saí de lá com "a missa" e principalmente "deixe-se acreditar" borbulhando na minha cabeça.
sempre me agradou a dinâmica e feliz mistura que eles fazem de samba, rock, eletrônica (o que raramente acontece) criando ótimas sonoridades, entre doces e contagiantes, que mostram uma banda com um som bem resolvido e de personalidade. e claro que o sotaque pernambucano tende a deixar a música deles ainda mais legal.
destacaria ainda desse cd, "absorva" (me absorve que hoje eu quero ser só seu/ me dissolve e mexe com a colher/ o seu prato predileto é quando eu digo não/ não quero mais ser só/ não quero mais ser seu só) e "merda" (uma bela declaração de más intenções).

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Algumas linhas sobre a Virada Cultural 2013

Não tema, esse é o reino da alegria. - Mombojó
Sou um grande entusiasta de eventos como esse, que permitam que as pessoas vivam sua cidade, tenham a oportunidade de interagir com ela de maneira mais festiva e alegre. Permitam que as ruas sejam vistas como espaço para convivência e diversão. Simples assim. Mais do que o evento em si, ter a oportunidade de estar com pessoas agradáveis, curtindo junto e dando risada faz toda a diferença.

Logo no início do evento já estava por lá, pra ver o Lobão na São João. Tava mais cheio do que eu esperava e por ter chegado em cima da hora não consegui ver muito de perto. Mas foi um bom show pra começar a maratona. Sou muito fã do cara e fiquei bem empolgado pra vê-lo, acabei achando o repertório de mediano para bom. Mas bobagem, afinal sempre algumas músicas que a gente gosta acaba ficando de fora.

Depois disso, passada no Páteo do Colégio, onde uma banda interessantíssima estava se apresentando. Uma tal de Surdomudo Impossible Orchestra, mandando um som muito legal, indefinível. Pena que não peguei do começo. Mas ainda assim reforçou minha impressão de que o melhor da virada é ser surpreendido com coisas inesperadas. Vale citar também um ótimo samba que tava rolando num coreto perto da BM&F. Agrádavel de se ouvir de leve, enquanto se conversa e toma alguma coisa.

A cidade numa noite de festa é um charme a parte, e me agrada muito andar o máximo possível pelos diversos cantos do centro. Passamos, além dos lugares citados, pela Praça do Patriarca (forró), pelo Mercado Municipal (onde tava rolando um chorinho muito bom), entre outros caminhos sem muito destino.

A partir das 04h00, uma tríade de artistas no palco da 25 de Março, que eu estava muito afim de ver: Lirinha, Vanguart e Mombojó. O novo CD do Lirinha tá muito bom e valeu tê-lo ouvido ao vivo. Vanguart eu conheço pouco, mas também empologou. Mas sem a menor sombra de dúvida o ponto alto pra mim de toda a Virada foi o Mombojó. Ao vivo eles soam ainda melhores e passam uma energia que deixou todo mundo empolgado. Incrível como eu estava muito mais animado (e menos cansado) ao final do show deles. Destaque para Casa Caiada e Deixe-se Acreditar.

No fim ainda lamentei um tanto por não ter pique de ver outros artistas como Criolo, Otto e Fundo de Quintal, mas depois de 16 horas eu realmente precisava ir para casa. 

Claro que depois a gente ouve na TV problemas relacionados a segurança. Roubos, furtos, confusões, entre outros, inevitavelmente fazem parte de um grande evento que reúne milhões de pessoas. Mas eu espero que isso não prejudique sua imagem e a vontade do poder público e da sociedade civil de fazerem ainda mais e melhor.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

o sorriso roxo

O vinho barato lubrifica o sorriso
Roxo, fica ainda mais belo
Se eu dissesse, porém, riria
Duvidando das minhas intenções

Duvido também...
Imagino teus seios por baixo da blusa
Esforço-me para parecer sério
Mas estou transparente demais

Lá fora o céu é quase claro de novo
Jurava que daria meia-noite
Mas meus ponteiros já não são confiáveis
Os olhos se perdem, lânguidos
Passeio mentalmente pela curva dos seus lábios
Sem prestar atenção no que eles dizem
Balanço a cabeça sem quaquer convicção
Uma hora atrás responderia algo interessante

Olho para os copos, ainda meio cheios,
Destampa a garrafa e os completa
Ergue o seu e propõe um derradeiro brinde
- À quê?
                 - Não sei,
                                Acho bonito os som dos copos a se tocarem no
                    ar







terça-feira, 14 de maio de 2013

o livro laranja

o livro laranja
no galho da estante

no pé-de-laranja
um sonho distante

quantos anos levando porrada?
quantos namorando a vizinha?

o vento laranja
soprou num instante

dançaram as folhas
fugiu minha amante

troquei de assunto
troquei de cidade
não como o fruto
nem colho o verso

quinta-feira, 9 de maio de 2013

algumas linhas sobre "mary star of the sea" (zwan)


já conhecia esse disco pelo menos desde 2005, mas não sei por que ele bateu em mim com tanta intensidade só em 2010. desde então, e principalmente por uns meses daquele ano, o ouvi dezenas de vezes. ontem, depois de um bom tempo ele me veio novamente à cabeça como uma boa alternativa sonora e com isso me deu também vontade de escrever algumas linhas.

ouvindo agora, me lembro muito da época em que ele foi a trilha sonora dos meus dias (quase três anos atrás). mais do que isso, me lembro de lugares em que estive, coisas que ocupavam meu pensamento e por um momento quase posso sentir o vento frio de algum fim de tarde em que saía do trabalho ouvindo ele. interessante como algumas canções têm essa capacidade.

não sei dizer exatamente o que me agrada no disco. sempre gostei do smashing pumpkins e claro que por influência do billy corgan, o zwan lembra muito aquela banda. mas de maneira geral as composições me soam mais leves e radiantes (dois adjetivos que dizem pouco sobre música, eu sei). há mais violões e menos guitarras, apesar de elas aindas estarem lá, na medida certa e com belos timbres.

acho que assim de pronto eu poderia destacar lyric, que abre o cd de forma contagiante, declaration of faith, a bela heartsong (but heart songs are all I am/ I use the same words to say the same things)a agitada "baby, let's rock" (you can kick, you can cry, you can fuss, but let's rock),  e as duas últimas (que formam uma só, de mais de 14 minutos) Jesus, I e Mary Star of the Sea. Mas ainda assim, faz muito mais sentido enquanto disco, do começo ao fim.


segunda-feira, 6 de maio de 2013

algumas linhas sobre "somos tão jovens"

posso dizer com certa segurança que a legião urbana é a banda da minha vida. afinal, foi a primeira que eu realmente gostei e que continuou por anos a fio sendo a minha favorita. se hoje eu quase não ouço mais, ainda reconheço a extrema importância que ela teve e tem para mim e para o cena musical brasileira e principalmente a potência e alcance de suas músicas. cada uma delas é uma descoberta de força e beleza.

por conta disso, não precisaria dizer que assistir ao "somos tão jovem" era quase que obrigatório pra mim. foi muito interessante ver aquela época sendo retratada no cinema, de maneira tão viva. uma garotada querendo transformar ócio em música e contestação, tentando fazer alguma coisa diferente. e mesmo que o foco tenha sido especificamente o renato russo (expoente maior daquela geração?), é muito interessante ver toda a turma ao seu redor, da qual inclusive surgiram outras bandas relevantes como a plebe rude e o capital inicial.

gostei muito do ator que fez o renato russo, achei convincente, inclusive na maneira de falar e nos trejeitos. passou bem a sensação que eu sempre tive de uma pessoa muito cheia de grilos e manias, intensa, inteligente, sensível, carismática e, por que não dizer, quase arrogante.

o filme retrata de 78 a 82, ou seja pega o surgimento e o fim do aborto elétrico e o início da legião urbana, ainda enquanto banda regional e sem sua formação definitiva (com o bonfá na bateria e o dado na guitarra). e pra mim esse recorte veio muito bem a calhar, pois valoriza justamente uma parte da história menos conhecida e muito vibrante, quando tocar rock era nadar contra a corrente. aquela geração teve que correr atrás e aprender  tudo praticamente sozinha, com a gana de quem encontrou ali uma forma de se rebelar contra tediosa brasília e a situação política e social do país.

pra não ficar só elogiando o filme, tem algumas cenas que me soaram artificiais e gratuitas. elas até retratam algum acontecimento interessante, mas parecem destoar da fluxo da narrativa e deixam a história um tanto quanto truncada. mas em resumo, "somos tão jovens" é o tipo de filme com o qual eu tenho uma forte ligação afetiva, então é quase impossível que eu não goste.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

[o livro de areia e a canção da fraternidade]

"Beatriz não quis ver o navio; a despedida, em sua opinião, era uma ênfase, uma insensata festa da infelicidade, e ela detestava as ênfases. (...) Sou um homem covarde; não lhe deixei meu endereço, para evitar a angústia de esperar cartas."

(jorge luis borges/ o congresso)

________________________________
vem, volta pra casa
eu fiz uma garrafa enorme de café
essa chuva não faz mal
mas se você se resfriar eu cuido de você
eu não meço esforços
é porque eu me importo

vem, termina esse trago
você ainda tem um maço inteiro
eu ainda não cansei
de te dizer o quanto isso faz mal
eu não meço esforços
é porque eu me importo

(Aroflogilo Pai/ Canção da Fraternidade)

ouça aqui essa pequena tosqueira tão bonita

quarta-feira, 24 de abril de 2013

os móveis da casa

os móveis da casa bravamente
resistem
à poeira do tempo
envernizados de realidade
permitem-se
o encontro com a matéria de que sou feito
sem mistério
sem lamentos
concentrados que estão em ser
                                                 eternos,
não sucumbem
a estes dedos
                      que sabem de si,
                      que sonham
                      e anseiam
e que os marcam
onde quer que toquem...
permanecem
                      mudos
em respeito ao vivo
                               que ora sou,
(silêncio que se faz indispensável
à sobriedade do ambiente)
espalham-se graves
contra as paredes,
não prestam atenção
e jamais testemunhariam contra mim
que me ocupo em ser só.

sábado, 20 de abril de 2013

"(...)Sinto necessidade de escrever, o quê, não saberia dizer.
Vontade, no entanto, de ficar assim, sentado, com caneta e papel, à espera de alguma coisa.
Não disse alguém que o homem escreve para matar a morte? Talvez seja esse o sentimento que me coloca, a contragosto, nessa posição para mim meio ridícula como um espírita em vias de psicografar mensagens do Além."

(V. de Moraes/ Mistério a Bordo)
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sim, vinícius, entendo perfeitamente essa sua necessidade de "matar a morte". sinto-a também algumas vezes e de maneira muito imprecisa, quase infantil, ouso eu mesmo formar as minha próprias linhas. por sorte o papel aceita generosamente toda sorte de escritor, sem juízos de valor, inclusive aqueles que não o são (até que digam a si mesmo que são...), mas que por um momento podem sê-lo.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

excertos de "poema sujo"


(...)

"um bicho que o universo fabrica e vem sonhando desde as entranhas

(...)

"bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?

(...)

"mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos mudou de casa
e de tempo: mas está comigo está
                  perdido comigo
                  teu nome
                  em alguma gaveta

(...)

"Não sei de que tecido é feita minha carne e essa vertigem
que me arrasta por avenidas e vaginas entre cheiros de gás
e mijo a me consumir feito um facho-corpo sem chama,

(...)

"E todos buscavam
                   num sorriso num gesto
                   nas conversas da esquina
                   no coito em pé na calçada escura do Quartel
                   no adultério
                   no roubo
                   a decifração do enigma

                  - Que faço entre as coisas?
                  - De que me defendo? 

                        (...) Mas que é o corpo?
                               Meu corpo feito de carne e de osso.
                        Esse osso que não vejo, maxilares, costelas,
                        flexível armação que me sustenta no espaço
                                  que não me deixa desabar como um saco
                                   vazio        
                        que me guarda as vísceras todas
                                                                          funcionando

                        como retortas e tubos
                        fazendo o sangue que faz a carne e o pensamento
                                  e as palavras
                                  e as mentiras
e os carinhos mais doces mais sacanas
          mais sentidos
para explodir como uma galáxia
          de leite
          no centro de tuas coxas no fundo
          de tua noite ávida
cheiros de umbigo e de vagina
          graves cheiros indecifráveis
          como símbolos
          do corpo
(...)

"meu corpo de 1,70m que é meu tamanho no mundo

(...)

          "Corpo meu corpo corpo
que tem um nariz assim uma boca
          dois olhos
          e um certo jeito de sorrir
          de falar
que minha mãe identifica como sendo de seu filho
          que meu filho identifica
          como sendo de seu pai
corpo que se para de funcionar provoca
          um grave acontecimento na família:
          sem ele não há José de Ribamar Ferreira
          não há Ferreira Gullar

(...)

         "esse coração oculto
pulsando no meio da noite, da neve, da chuva
debaixo da capa, do paletó, da camisa
debaixo da pele, da carne,
combatente clandestino aliado da classe operária
                            meu coração de menino"
   
(F. Gullar/ Buenos Aires - 1975)
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é que este dia sujo implora, deseja que se resgate um poema tão sujo quanto...

quinta-feira, 28 de março de 2013

"Se você sofresse
Tanto quanto eu sofro com a solidão
Se você soubesse
O quanto eu preciso da solidão
Não me pediria pra repetir
Frases banais das quais já me arrependi

Duas pessoas são duas verdades
E, na verdade, são dois mundos"

(EngHaw/ Vozes)
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sofrer por algo que nos é necessário
nos traz à tona,
sentir a nós mesmos de maneira crua
e cruel
tanto quanto possível


 



quarta-feira, 13 de março de 2013

Antanas Sutkus

                     Antanas Sutkus - Um Olhar Livre (Caixa Cultural - São Paulo - SP)

segunda-feira, 4 de março de 2013

banda estranha num lugar esquisito!

a novidade do fim de semana foi uma banda barulhenta (guitarras distorcidas, vocais sujos...) tocando num porão pequeno e fedendo a mofo. resultado? foda!
o nome da banda é top surprise, de minas gerais e totalmente desconhecidada por mim até então. o vocalista me deu um cd com as músicas da banda, que estou ouvindo exatamente agora, muito interessado no som lo-fi, potente e quase bonitinho.
o lugar em que tocaram é o centro cultural walden, pequeno bar escondido na praça da república. tem um clima bem intimista e amistoso. logo na entrada tem o bar e uns puffs espalhados, no andar de cima um sofá e uma mesa de sinuca e no andar de baixo um pequeno palco. confortável e convidativo.
legal que no cd que o cara me deu ainda veio mais alguns discos de artistas independentes, lançados entre 2010 e 2012 pela pug records. tem muita coisa legal que eu nem imaginava que rolava por aí!

ouça aqui: http://topsurprise.bandcamp.com/album/klouds-ep

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

a paixão quase enlouquecida

"Para que os indivíduos saiam de uma certa inércia, tomem iniciativas e ajam, nas condições de ceticismo e desconfiança que se difundiram na época contemporânea, eles precisam reconhecer e assumir resolutamente seus interesses. E tem mais: quando um determinado interesse particular se sobrepõe aos demais, é preciso que nele se concentre toda a energia do sujeito, e os outros interesses cedem espaço ao interesse principal, que se caracteriza, então como paixão."

(KONDER, Leandro. Sobre o Amor. pág. 67, São Paulo : Boitempo)
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Achei particularmente inspiradora a maneira como Leandro Konder expõe a visão hegeliana acerca da paixão: ela seria "a exasperação de um sentimento necessário à obtenção de algo", uma força criadora, que impulsiona o ser humano a buscar um determinado objetivo entre tantos possíveis e, arrisco dizer, "realizar-se enquanto sujeito". Segundo Hegel "nada de grande se realizou no mundo sem paixão" e me parece razoável atribuir à ela essa capacidade de conquistar, construir, destruir e reconstruir, transformar as coisas ao nosso redor ativamente, deixando, acima de tudo as marcas da nossa passagem pela vida, por mais insignificantes que sejam do ponto de vista da História.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

"As batalhas de identidade não podem realizar a sua tarefa de identificação sem dividir tanto quanto, ou mais do que, unir. Suas intenções includentes se misturam com (ou melhor, são complementadas por) suas intenções de segregar, isentar e excluir. Há apenas uma exceção a essa regra (...) a verdadeira e plenamente includente identidade da raça humana."

(BAUMAN, Zygmunt; "Identidade", págs. 85 e 86).
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penso muito nisso: o quanto é arriscado aprofundar diferenças, destacar o grupo em relação à sociedade (ou a humanidade) como um todo. levantar barreiras que deixem claro que, daqui pra dentro compartilhamos identidades, somos iguais e nos reconhecemos como tal, enquanto lá fora o que paira é a desconfiança e a insegurança dos "outros". quase sempre esse posicionamento vem acompanhado de um processo de auto-afirmação, de evidenciação das qualidades do "meu grupo" em detrimento do restante. vemos isso no que tange à religião, futebol, política, nacionalidade, gosto musical... enfim, parece que qualquer característica que nos aproxime de uns, forçamente nos afasta do restante e se não tomarmos cuidado faz com que os menosprezemos baseado em preconceitos e estigmas.

claro que as relações sociais funcionam assim, um processo contínuo de criar identidades com uns e diferenças com outros, desde os assuntos mais banais até questões que envolvem toda a vida do indivíduo e até suas concepções sobre o além-vida. o que me preocupa é cristalizar essas diferenças de tal maneira que se perca de vista o caráter frágil e menor dessas identidades. no meu ponto de vista, nada se sobrepõe ao fato de compartilharmos a identidade humana, por mais que estejamos inseridos (por opção ou contra a vontade) em identidades opostas e mutuamente excludentes, não vejo nenhuma justifica para fazer disso um guerra, ou um motivo para o ódio ou a intolerância.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Arte, Inimiga do Povo


Desde o título, esse livro, que releio agora, cinco anos depois, se mostra polêmico e muito instigante. Se tem uma ideia que dificilmente questionamos é o caráter pretensamente universal, sublime e superior daquilo que é considerado arte em nossa sociedade. Mesmo as pessoas que não se identificam com ela, aprendem a reconhecê-la como uma manifestação elevada à qual somento pessoas de espírito superior têm acesso. Dominar seu conhecimento, possuir a sensibilidade para contemplá-la é coisa para poucos.

O autor busca desconstruir o quase consenso que paira sobre o assunto, ao demonstrar que essa noção (do que é ou não é arte) se desenvolve historicamente, em condições sociais específicas e é mascarada através de um discurso que defende a universalidade e a plenitude da arte enquanto realização do ser humano. Em suas palavras:  "[a arte] não passa de uma grande farsa, um jogo de cena das classes dominantes para vender seu estilo de vida como algo superior e elevado". Ou seja, há um direcionamento ideologico de um grupo de pessoas auto-interessadas, que confere tal classificação as suas próprias preferências e a usa como um símbolo distintivo de classe. Convencem, através de uma suposta legitimidade auto-conferida, que falam em nome da humanidade que isso e não aquilo é arte e que portanto é algo a ser apreciado e valorizado como tal. Assim, até mesmo aqueles que criticam a ideologia burguesa de alguma forma acabam endossando sua visão.

Não posso deixar de concordar que a "alta cultura" só é superior de maneira muito artificial e questionável e é usada para menosprezar as práticas e preferências do restante da população. Somos bombardeados o tempo inteiro e de maneira quase imperceptível sobre o que tem qualidade e o que é porcaria no âmbito da cultura. E a própria massa, de maneira geral, apesar de não se sentir atraída pelo hábito culturais da elite, aceita e dissemina essa noção dando a ela um tratamento respeitoso e reverente, como "coisa de gente culta". Escritores, pintores, compositores são manipulados como símbolo de distinção de classe.

O autor propõe, a partir dessa desmistificação, uma "ofensiva popular", que negue qualquer traço de superioridade do mundo da arte, não apenas por ser falsa, mas  "porque é parte integral da opressão social infligida à maioria das pessoas". (p. 32)