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terça-feira, 16 de julho de 2013

Excertos de uma entrevista de H. Miller


Sobre a importância do inconsciente no processo criativo:

"A mente desperta é, como se sabe, o que há de menos útil nas artes. No ato de escrever, a gente está lutando por trazer à tona o que nós próprios desconhecemos. Escrever meramente aquilo de que se tem consciência não nos conduz , na verdade, a parte alguma. Qualquer um pode fazer isso com um pouco de prática, cada qual pode converter-se nessa espécie de escritor."

Sobre a importância do surrealismo em suas obras:

"Isto [escrever surrealisticamente] significava ir ao extremo, mergulhar no inconsciente, obedecendo apenas aos nossos próprios instintos, seguindo nossos impulsos, quer fossem do coração, das entranhas ou o que quer que se deseje chamá-los."

Sobre o dadaísmo:

"(...) o dadaísmo foi mais importante para mim que o surrealismo. O movimento dadaísta foi algo verdadeiramente revolucionário. Foi um esforço cosncientemente intencional no sentido de virar as mesas de pernas para o ar, no sentido de mostrar a absoluta insignificância de todos os nossos valores. Houve homens maravilhosos no movimento dadaísta, e todos eles possuiam senso de humor. Era algo para fazer-nos rir, mas também para fazer-nos pensar."

Sua distinção entre obsceno e pornográfico:

"O obsceno seria o franco, o direto, e a pornografia seria o indireto, o perifrástico. Acho que se deve dizer a verdade, apresentando-a friamente, de modo chocante, se necessário, sem disfarcá-la. Em outras palavras, a obscenidade é um processo purificador enquanto a pornografia apenas aumenta a sujeira."

Sobre o tabu no mundo contemporâneo:

"Os tabus, afinal de contas, não passam de coisas remanescentes, de produtos de mentes enfermas, poder-se-ia dizer, de gente pusilânime que não teve a coragem de viver e que, em nome da moralidade e da religião, nos impôs tais coisas. (...) A religião em vigor, entre gente civilizada, é sempre falsa e hipócrita, exatamente o oposto daquilo que os iniciadores de qualquer religião pretendiam."

("Escritores em Ação", pags. 195 e 196 - Ed. Paz e Terra )

Este é um autor com o qual eu tenho nenhuma familiaridade (devo confessar que nunca ouvi falar de nenhum de seus livros...) mas o qual me chamou a atenção a partir da oportunidade que tive de ler uma entrevista sua. Achei particularmente interessante a  concepção que ele tem sobre o ato de escrever muito atrelado ao inconsciente e ao instinto enquanto fios condutores, numa proximidade com ideias surrealistas, de forma que é, por assim dizer, muito mais através da mente livre e na ausência de esforços cognitivos se que cria. Claro que sempre podemos discutir o quanto de fato é possível produzir algo dessa maneira, distanciados tanto quanto possivel da técnica e do raciocínio, mas de qualquer forma acho que essa mentalidade acabou sendo revigorante para as artes em geral.

Outro ponto que me chamou a presença da obscenidade enquanto característica presente tanto no "ritmo" de sua obra, quanto como uma "técnica de choque". Ou seja, algo espontâneo e intrínseco ao autor e ao mesmo tempo uma maneira deliberada de causar impressões no leitor. Imagino que isso deve ter causado polêmica na primeira metade do século XX. Me soa bela a ideia da obscenidade como purificação e como instrumento para se dizer aquilo que se quer dizer, liberto de amarras.

P.S.: O livro que contém essa entrevista me caiu às mãos bem por acaso e a sua leitura tem sido extremamente agradável e informativa.  É muito legal ler autores como Huxley e Hemingway contando sobre suas trajetórias, seus métodos de trabalho, suas referências e as opiniões sobre outros escritores. Os dois citados, mais Henry Miller são os que eu li até agora, mas estou com grande expectativa para saber o que Ezra Pound, T.S. Elliot, Willian Faulkner, Truman Capote, entre outros têm a me dizer...

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Escrevendo

"Não me lembro mais onde tudo começou, foi por assim dizer escrito todo ao mesmo tempo. Tudo estava ali, ou devia estar, como no espaço-temporal de um piano aberto, nas teclas simultâneas do piano. Escrevi procurando com muita atenção o que se estava organizando em mim e que só depois da quinta paciente cópia é que passei a perceber. Meu receio era de que, por impaciência com a lentidão que tenho em me compreender, eu estivesse apressando antes da hora um sentido.(...) Se eu pudesse escrever por intermédio de desenhar na madeira ou de alisar uma cabeça de menino ou de passear pelo campo, jamais teria entado pelo caminho da palavra."

LISPECTOR, Clarice. Para Não Esquecer, pág. 122-123. Rio de Janeiro, Editora Rocco, 1999.

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e ainda: "a certeza só aparentemente paradoxal de que o que atrapalha ao escrever é ter de usar palavras".

...porque é assim mesmo. se aventurar "a vestir uma ideia com palavras" é tarefa incerta, mania cansativa e frustrante. as palavras são tão poucas (5 milhões, digamos), enquanto há um infinito (infinito e meio) a se dizer por meio delas.
as teclas de um piano são todas, os dedos a tocarem-nas são tão poucos, que eu só posso tocar uma canção por vez...


[é que a clarice tocou nesse assunto e eu fiquei a pensar nele...]

sexta-feira, 16 de março de 2012

autores cretinos de ideias estúpidas

estamos elegendo políticos sem o menor senso democrático, sem respeito aos direitos individuais do cidadão, sem uma visão global da sociedade e sem a menor preocupação pela sociabilidade e pelo convívio harmônico nas cidades.
sim, os políticos que aí estão, pelo menos uma grande parte, que se regojizam em aparecer publicamente com ideias estúpidas, demagógicas e rasas, parecem a reunião da liga das senhoras católicas, querendo manter a moral e os bons costumes. e quem duvida que vem mais por aí?

escrevo isso pensando em muitas "ótimas ideias" vomitadas de diferentes esferas do poder. a mais recente é a do deputado estadual campos machado querendo proibir o consumo de bebidas alcoólicas em vias públicas. sim, ninguém mais vai poder tomas umas no portão de casa ou na praia (!), sabe o motivo alegado? evitar que as pessoas dirijam bêbadas. puta que o pariu!!! isso é uma piada? é a mesma coisa que eu matar meu cachorro pra eliminar as pulgas dele. não faz o menor sentido. e ainda dizem que em outras cidades do mundo já existem leis assim. ótimo, se é pra copiar o primeiro mundo, londres tem 400km de metrô, então quero em sp também.

o josé mentor do pt criou um projeto de lei que visa proibir a exibição na tv de lutas violentas (ou seja, o mma). os argumentos são explicitamente moralistas (só ler aqui) e em resumo diz que mma é coisa de troglodita, que incita a violência nos seres humanos e que a tv, sendo concessão pública não deveria  "promover [esses] valores esportivos e civilizatórios do cidadão brasileiro". agora eu pergunto (perguntaria se tivesse a oportunidade): quem ele pensa que é pra dizer pra mim o que eu devo ou não assistir (e no caso eu nem gosto de assistir esse bagaça)? baseado em tais argumentos (de se "preservar" o cidadão) eu posso proibir QUALQUER coisa (se for pra ser assim, preserve minha saúde mental estirpando o bbb da tv, por favor), assim como se faz países autoritários. Eu tenho uma ideia melhor: que tal uma educação maciça e extrema qualidade que, entre outras coisas, desenvolva a capacidade de reflexão e de discernimento do cidadão. Sim, aí ELE vai poder decidir o que é bom ou não. Nós NÃO precisamos de um Estado tutor nos "preservando", CENSURANDO o que podemos assistir. Não há NENHUM indício que programas de tv violentos deixem as pessoas violentas, afinal a violência já existia antes de televisionarem o mma e vai continuar existindo com ele ou sem ele. se vier a existir pessoas que se influenciam por programas de televisão para justificar seus atos, ELAS são o problema e não o contrário. Têm pessoas que matam outras em nome da religião, mas nem por isso se propoem o fim das religiões (e nem quero isso).

Outro caso, o mais esdrúxulo na minha opinião, é a retirada de circulação do dicionário houaiss, que segundo um promotor público federal, trazia um significado perjorativo para a palavra "cigano".  essa é ainda mais absurda, afinal, supostamente o ministéio púlico possui em seus quadros promotores que passaram por um rigoroso processo seletivo para exercer o cargo e deveriam ser pessoas mais centradas e ponderadas, já que não dependem do voto do eleitorado - e da demagogia, ao contrário dos dois aloprados acima - para sobreviver em sua profissão.  porra, não é possível que sejam tão obtusos e ignorantes assim. alguém, por favor, avisa pra ele que os dicionário trazem os SIGNIFICADOS das palavras e muitas vezes vindo de diversos contextos sociais, e não o contrário. se popularmente "cigano" tem uma acepção perjorativa (assim como milhares de outras palavras que designam milhares de outros grupos sociais e que acabam ganhando significados extras) a culpa não é do dicionário. proibí-lo de tentar retratar o mais fielmente possível o que determinado verbete quer ou quis dizer em algu momento, em certo contexto social e indicando explicitamente que aquela é uma definição popular e perjorativa é uma ideia burra, risível e PERIGOSA. mais uma vez no  vemos diante de uma tentativa de restringir a circulação e o acesso à informação. parece besteira dizer isso? mas vamos supor que com o passar dos anos se torne praxe cada vez mais uma vigilância sobre os dicionários, aí começam a suprimir ou mudar o significado de uma palavra aqui, outra ali e no fim das contas estaremos à mercê de censores. o que além de tudo seria um desserviço ao conhecimento. o ser humano é generalizadamente preconceituoso e não é no dicionário que devemos tentar mudar isso, mas sim na ação efetiva, na ideias e nas atitudes de um para com os outros. Detalhe: procurei ao acaso o significado de francês no próprio houaiss e lá no fim está escrito assim: "8 falsamente delicado; hipócrita, fingido". fica a dica pra algum francês que se sentir discriminado por tal acepção. ou ainda em "baleia" uma das definições possíveis é "indivíduo muito gordo, obeso", o que, na lógica daquele distinto órgão seria também puro preconceito.

enfim, o problema não é se vão me dar enquadro ao tomar cerveja na rua, nem se vão proibir de passarem ufc na tv e muito menos se vou poder consultar o dicionário houaiss ou não. tô pouco me fodendo pra isso tudo. me preocupa, isso sim, representantes públicos com uma mentalidade tão tacanha, moralista, anti-democrática e beirando a ignorância, enquanto ações mais simples e efetivas trariam melhores resultados. em vez de ficar matutando qual vai ser a probição da vez, que tal (e sem querer ser demagogo) um profundo esforço coletivo pela educação, que transmita aos jovens noções de cidadania, capacidade de reflexão sobre as questões humanas, princípios de respeito e tolerância ao outro e que os ensine que as palavras, enquanto produto da vida em sociedade trazem significados que não necesariamente são aqueles que queremos. olha só que ideia simples! pode parecer chocante, afinal ninguém nunca pensa em  desenvolver a mentalidade do cidadão e a capacidade de formar e defender suas opiniões, mas, tal qual um grande rebanho, buscam somente traçar um caminho a ser percorrido, sem maiores esforços. com isso eu nunca vou concordar.

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

sobre duas linhas incompletas

sabe garota, eu poderia tentar escrever algo sobre você. era o que eu queria! captar uma suposta essência que fosse sua, só sua e que só eu pudesse desentranhar e colocar no papel. talvez ficasse bom e eu até ficaria satisfeito, confortável, ao reler. seria você, da maneira como existe em mim (e da maneira como eu pensei que você existisse em tudo!). porém desisti de fazê-lo ao final da segunda linha... ("ei, isso é metalinguagem barata!") eu sou sempre assim... faço e desfaço. refaço, descreio, dou a minha vida, renasço e passo a tarde a pensar. sempre, sempre assim. e nunca soube exatamente se você ria por achar graça ou por desdém... (tudo bem, os ruídos e os dentes expostos por si só valiam a pena).

talvez você reflita sobre isso daqui a dez anos e sinta orgulho de ter conhecido uma pessoa como eu... ou não, em dez anos pode ser que eu seja somente um nome (mais consoantes que vogais) ou nem isso. porém, esse é um risco que se corre, o que importa, o que cabe dizer agora é que eu queria escrever sobre você, de uma maneira doce e forte. queria que um punhado de palavras te traduzissem, te refletissem (te iluminassem), ainda que deformada (as palavras sempre deformam, não é mesmo?) mas desisti (acho que o que me define melhor são as coisas das quais eu desisti) ao perceber que isso seria escrever sobre mim (como o que eu estou fazendo neste momento...) e escrever mentiras sobre pessoas que eu nunca conheci. tentar me fazer mais claro seria inventar uma estória e obscurecer a pouca verdade sobre a qual nos sustentamos (você tem uma verdade? você dorme com ela todas as noites, por medo de ficar sozinha?) e isso é exatamente o que eu não queria fazer. não agora. não nesse momento...

terça-feira, 22 de junho de 2010

.

"Said the hero in the story
'It is mightier than swords
I could kill you sure
But I could only make you cry with these words'".
(Get Me Away From Here, I'm Dying/ Belle and Sebastian)

"Nenhum metal pode perfurar o coração com tanta força quanto um ponto final colocado no lugar certo"
(Isaac Bábel)
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Ainda sobre essa coisa toda de palavras (e pontos finais), a força que elas contêm e sua capacidade de mover o mundo (e protagonizar muitos outros acontecimentos menores e ainda assim relevantes).

Sim, pode-se matar com espadas. Pode-se matar de muitas outras maneiras. É um ato relativamente simples e sem mistérios. Muitos animais matam outros animais o tempo todo. Não somos exatamente originais ao fazê-lo. Mas a capacidade de fazer chorar com palavras sim é algo próprio do ser humano. É a colisão de existências a princípio separadas umas das outras. É fazer-se presente frente ao outro da maneira mais contundente possível. Tomar de assalto seus sentidos e seus pensamentos...

Gosto desses dos dois trechos acima justamente por evidenciarem isso. Como algo imaterial, que não existe senão simbolicamente e por convenção, pode ter toda essa efetividade latente. Como podemos tocar um outro distante e praticamente inacessível por meio do que se diz ou do que se escreve. Sim, se fôssemos ilhas as palavras seriam pequenos barcos que, ainda que de maneira tímida e pouco eficaz, permitiriam esse contato. Permitiriam que eu pudesse causar reações no outro sem encostá-lo, sem nem mesmo conhecê-lo.

O que é um ponto final (e a escrita de maneira mais geral)? Tudo e nada ao mesmo tempo. Friamente analisado é uma marca (uma mancha), que pode dizer absolutamente nada, não fazer sentido algum. Mas frente aos olhos certos (e ao coração certo?) pode causar as mais diferentes sensações. E é estranho sentir o coração perfurado dessa maneira. Parece loucura quando se lê ou se ouve determinadas palavras (ou ainda certos silêncios) e as sentimos como se elas fossem vivas, ou como se ali pudessemos presenciar uma vida, no sentido mais material e pungente possível. Um soco no estômago ou o chão perdendo sua consistência sob pernas bambas... Coisas "inventadas" que tem a força de coisas "reais".

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acho que complementam:

http://carbonoeamoniaco.blogspot.com/2010/04/urgentissimo.html

http://carbonoeamoniaco.blogspot.com/2010/04/ainda-sobre-urgencia.html

segunda-feira, 3 de maio de 2010

ainda sobre a urgência

Talvez e só talvez (aliás tenhamos essa palavra sempre à mão, para que possamos afrouxar as ideias e arriscar mais) tenha me passado pela cabeça o desejo (ou a curiosidade) de que cada palavra fosse a palavra mais exata, que só viesse à tona por absoluta necessidade, pela falta que ela faz no mundo e que em cada uma delas transparecêssemos sem rodeios.

Simples: Nada de dizer e desdizer. Ou dizer sem ter certeza, esperando a possibilidade de voltar atrás depois. Que cada palavra dita (e por sua vez ouvida) cobre o seu preço, que se faça sentir na pele. Que fique marcada em nós sua pulsão de objeto vivo e forte... Nunca haveríamos de sentir tanto o que dizemos e se ainda assim disséssemos seria por pura falta de opção. Falamos sempre tanto, nos perdemos entre milhares de palavras frívolas, rasas. Quase objetos de decoração... Se fosse dizer que ama, deveria amar a ponto de estar disposto a sentir essas palavras doerem e ainda assim seria menos dor do que calá-las. A mesma coisa ao dizer que odeia. Ou que mata. Se diz que é assim, que seja mesmo. E de uma maneira tão visceral e profunda que não reste nada mais, a não ser aquelas palavras e o que elas trazem consigo de urgente.

Cada palavra com a força de uma vida. Aí sim haveria poesia.

terça-feira, 27 de abril de 2010

urgentíssimo

que cada palavra dita se torne uma chaga!
queime sua carne não sendo palavra exata
só acredito em quem sangra o que diz
por pulsão! necessidade de se fazer ouvir
(e se não dissesse, aí sim, estaria perdida)

que cada palavra, de sua boca, saia dolorida
e a dor só reforce a urgência da língua
que te rasgue a garganta, te abra em ferida
só assim pra saber que morreria pelo que diz
e que estar em silêncio seria deixar de existir

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ainda assim você repetiria as mesmas palavras? morreria por elas?

sábado, 13 de fevereiro de 2010

na volta (ou ainda mais do mesmo)

"seu burocratazinho de merda! achou que ficaria bem, escondido atrás dessas palavras inertes? atrás do dicionário e da estrutura gramatical da língua?
que podem fazer elas por você?

"está entorpecido permanentemente pela falsa segurança que elas te passam.
as palavras são a degenerescência da alma (e eu próprio me mutilo ao dizer isto).
quer ser ouvido? quer que te entendam?
que se sensibilizem pelo seu drama de homem comum, de cidadão médio? não com palavras.

"no máximo terá uma resposta, tão inorgânica e fria quanto não poderia deixar de ser.
no máximo se tornará a auto-falsificação disso que é por pouco tempo e que logo deixará de ser.
no máximo se tornará risível, se tornará simplorio e quererá morrer antes que se dê conta.
ora, prefira bombas em embaixadas. o gesto ensandecido! homens-bomba são ouvidos, urros guturais, olhares fixos, o suor frio e o coração em disparada também o são. o movimento já trôpego, mas ritmado de dois corpos. o que não é dito move o mundo!

"as palavras?
ah sim, ela enchem os jornais.
mas nem por isso se torna ele mais eficaz em sua função efetiva
(de aquecer corpos numa noite fria)."




quinta-feira, 24 de setembro de 2009

comentários sobre o ser humano e o mundo

"(...) pois o mundo não é humano simplesmente por ser feito por seres humanos, e nem se torna humano simplesmente porque a voz humana nele ressoa, mas apenas quando se tornou objeto de discurso. Por mais afetados que sejamos pelas coisas do mundo, por mais profundamente que possam nos instigar e estimular, só se tornam humanas para nós quando podemos discutí-las com nossos companheiros."
"Humanizamos o que ocorre no mundo e em nós mesmos apenas ao falar disso, e no curso da fala aprendemos a ser humanos."

(ARENDT, Hanna. Homens em Tempos Sombrios. Companhia das Letras, pág. 31)
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O mundo e suas coisas se tornam humanos a partir do discurso e da interação entre os indivíduos que ele supõe. Mesmo que estejamos em contato direto e constante com o mundo que nos cerca e que ele tenha efeito direto sobre nós, é somente pela linguagem que podemos efetivamente nos apropriar dessa experiência e compartilhá-la. O mundo somente adquire caráter humano ao se tornar objeto passível de discussão, passível de ser "explicado" e "compreendido" (essas duas palavras em sentido amplo, não de uma explicação última e definitiva) nas suas diversas acepções.

Essa "humanização" do mundo através do discurso se dá ao se estabelecer canais de comunicação entre os indivíduos, que fazem do espaço público, o local por excelência da troca, da interação e, por consequência, da construção do diálogo múltiplo que nos diferencia dos outros seres.

Contrapondo-se à fala está a incapacidade de se dizer o que se percebe. O silêncio daquilo que não se sabe exatamente o que é, como expressá-lo. Ou ainda o mesmo silêncio por outro motivo: por retirar-se do mundo, deixar de participar do diálogo. Privar-se, assim, do espaço próprio à interação e ao debate, e, por consequência, desumanizando o mundo.

[me interessei pela maneira como Arendt descreve esse processo que ela chama de humanização do mundo - mas que inclui a humanização do indivíduo também]

sábado, 11 de outubro de 2008

pequeno comentário (ou sobre pessoas e ilhas)

estou cansado. e não é mais sobre você, é sobre mim mesmo: esta suposta ilha de certezas, cercada de dúvidas por todos os lados,(indivíduo com nome e sobrenome, certidão de nascimento, rg, cpf, título de eleitor, carteira de trabalho, reservista, comprovante de residência, foto 3x4...)toda esta subjetividade que não vence.
estou cansado de falar: palavras que são como frágeis navegantes, que naufragam assim que arriscam e saem da "ilha de certezas", ou que são capturados e torturados para que confessem tudo sobre qualquer outro território hostil ("há tantas outras ilhas armadas de certeza").

sabe, você fabrica bombas com as minhas verdades...

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-não que eu acredite em ilhas. creio mais é na pangéia e nas placas tectônicas.

domingo, 31 de agosto de 2008

há quem diga que carbono e amoníaco é uma dupla sertaneja underground. ou personagens de algum obscuro seriado americano dos anos 80. também já ouvi falar que se trata de pequenos trechos de uma vida em linha reta e previsível. ou alucinações quixotescas em lirismo repetido (como pão amanhecido) e passos comedidos.
um amigo, profundo conhecedor das coisas supõe que amoníaco seja "a parte que acha que fede mas pensa que isso é movimento critico" e carbono "a parte que acha que é inevitável pra sua própria vida". não ousarei colocar em dúvida tais palavras...
para um outro, conhecido de prateleiras, o carbono é um "elemento (número 6 da classificação periódica) representado pelo símbolo C, capaz de formar extensas cadeias de átomos, sendo um dos principais constituintes da matéria orgânica" e o amoníaco um "gás incolor, de cheiro intenso, sabor acre e com efeitos lacrimogéneos; gás composto de azoto e hidrogênio, que se encontra na urina e nas matérias em decomposição".
talvez seja tudo isso (e muito mais!). realmente tem efeitos lacrimogênios e está em decomposição, constitui a matéria orgânica e se acha inevitável à própria vida. quem viu por aí garante que toca violão, usa chapéu e canta em falsete. talvez seja mentira (uma mentira repetida). mas uma coisa é certa: a incerteza é parte, a multiformidade é parte e o manifesto desencantado (ou o desencanto como manifesto poético) também é parte.

cabe aqui ainda um observação pertinente para o momento: como é difícil terminar algo que não se sabe por que foi começado!

quarta-feira, 14 de maio de 2008

"Tudo o que dizemos possui um 'antes' e um 'depois' - uma 'margem' na qual outros podem escrever. O significado é inerentemente instável: ele busca um fechamento (identidade), mas é constantemente rompido (pela diferença). (...) Há sempre significados suplementares sobre os quais não temos qualquer controle, que surgirão e subverterão nossas tentativas de criar palavras fixas e estáveis."

(HALL, Stuart; A Questão da Identidade Cultural, pág. 31)
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Interessante essa noção de que o que dizemos, as palavras que usamos (e a forma como as usamos), possuem uma história distinta da nossa, que existiam antes de nós e ainda existirão depois (desconsiderando os neologismo, mas que mesmo assim nascem distante de quem as usa). A linguagem assim, tida como artefato e instituição social, que só possui sua significação no interior de uma série de relações, construídas no tempo e no espaço e que nos escapa constantemente. As palavras que sempre mudam de significado e dizem mais (ou menos) do que gostariamos que dissesse. Deixam margens, para que sejamos mal-interpretados ou reinterpretados.
[as palavras traem...]