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quarta-feira, 16 de abril de 2014

Algumas linha sobre "Dossiê Drummond"

O maior poeta que este país já viu? A esmagadora maioria diz que sim. Alguns outros dizem que não ou preferem não entrar no mérito. Concordo, besteira esse negócio de pódio. Eu mesmo tenho alternado, ao longo dos anos, a resposta sobre meu poeta favorito. Isso é bom: repetir a pergunta e chegar a diferentes conclusões...

Ainda assim, meu fascínio por Carlos Drummond de Andrade é evidente. O gauche itabirano, para recorrer a um clichê ou o "burocrata que fazia versos", segundo a sua própria (e injusta) definição é sem dúvida um dos grandes autores do século XX e que ainda ecoa pelo nosso tempo, ao contrário do que previa, a dizer que "em vinte anos estaria esquecido". Não está e não fosse o português língua marginal, Drummond teria reconhecimento mundial. Independente disso, lê-lo, para mim, é uma experiência pessoal inigualável e muito representativa de fases da minha vida. Abrir algum de seus livros (o "Alguma Poesia" ou o "Sentimento do Mundo", por exemplo) é correr o risco de encontrar algo de mim mesmo ali naquelas páginas. Um sentimento quase adolescente de profunda identificação.


Tive a oportunidade de ler recentemente "Dossiê Drummond", de Geneton Moraes Neto, que traz um apanhado de pequenas revelações sobre sua vida e obra. Principalmente sua vida, que era bem pouco conhecida por mim. O livro é dividido em partes, que incluem uma longa entrevista com o autor (a última), até então conhecido por ser avesso à entrevistas e outras formas de exposição midiática. Depois vários "retratos falados", declarações e "causos" interessantes de amigos e admiradores. Vale citar também a transcrição de uma fita que ele gravou com sua "namorada", Lygia Fernandes, na qual discorrem longamente, entre gracejos e chamegos, sobre alguns pontos da obra de Drummond e sobre a própria relação deles, num tom despretensioso.

Vemos emergir das páginas do dossiê uma figura muito humana, com suas idiossincrasias, limitações, defeitos e virtudes. Chama a atenção a sua descrição como um homem em geral tímido, discreto, avesso aos contatos sociais, modesto em relação a sua produção poética, metódico em sua organização pessoal e profissional. Por outro lado é considerado espirituoso e falante com os mais chegados, ainda que mantendo certa reserva.
Tomamos conhecimento de episódios da sua biografia, principalmente a vida cotidiana. Seu breve envolvimento com a política (quando fez parte de um jornal comunista), seu trabalho como chefe de gabinete do Ministro da Educação no governo de Getúlio Vargas, suas opiniões sobre determinados fatos da época, seus gostos e desgostos. A própria relação que ele tinha com a sua obra chama a atenção por ser marcadamente crítica, relutando em reconhecer sua inegável importância.

Dois fatos me parecerem mais relevantes. O primeiro, bastante conhecido, é a devoção que o poeta tinha pela sua filha única, Maria Julieta, a pessoa que mais amou na vida. Além de se sentir muito conectada com ela, enquanto amiga e confidente, a considerava sua herdeira intelectual. Drummond ficou extremamente abalado com sua morte, morrendo alguns dias depois que ela. O outro, até então desconhecido por mim, é a existência de uma amante em sua vida ao longo de 36 anos. Seu nome é Lygia Fernandes. Ambos se conheceram quando Lygia foi trabalhar no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, onde Drummond já trabalhava. Ela tinha 24 anos e ele 49. Se apaixonaram, ficando juntos até o fim da vida, porém sem que Drummond largasse a esposa "oficial", num caso curioso e inesperado de bigamia. Ao que parece, foi ela seu grande amor. A parte em que ambos falam numa gravação é muito bonita, e demonstra a existência de uma cumplicidade profunda e muito afeto entre eles.

Enfim, o livro como um todo é a grata oportunidade de espiar, mesmo que vagamente, o poeta pr'além da sua poesia. Ainda que continue achando que o que vale é a "verdade de um poema", no sentido de que o autor é secundário diante de sua obra, achei muito interessante poder "ouvir" o que Drummond tinha a dizer ou o que tinham a dizer sobre ele.



quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

nota

ela não sabe, mas ao abrir seus dois braços curtos (brancos) - ao oferecê-los para mim num abraço forte, vigoroso - consegue alcançar a lua.

________________
simples assim...

"Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?"

(...)

"No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.
Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor."

(Carlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

meu amigo...

"Vamos beber uísque. vamos
beber cerveja preta e barata,
beber, gritar e morrer,
ou, quem sabe? beber apenas.

"Vamos xingar a mulher,
que está envenenando a vida
com seus olhos e suas mãos
e o corpo que tem dois seios
e tem um embigo também.
Meu amigo, vamos xingar
o corpo e tudo que é dele
e que nunca será alma."

(Carlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 9 de junho de 2010

pausa oca

"Agora percebo que estamos amputados e frios.
Não tenho voz de queixa pessoal, não sou
um homem destroçado vagueando na praia.
Muitos procuram São Paulo no ar e se concentram,
aura secreta na respiração da cidade.
É um retrato, somente um retrato,
algo nos jornais, na lembrança,
o dia estragado como uma fruta,
um véu baixando, um ríctus
o desejo de não conversar. É sobretudo uma pausa oca
e além de todo vinagre."

(Carlos Drummond de Andrade)
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agora percebo... mas ainda creio que seja melhor assim (hesito, porém).

e eu sinto cada palavra, como se fosse um corte.

[havia escrito antes, num devaneio, sobre a importância de se arrancar os dedos junto com os aneis (carbonoeamoniaco.blogspot.com/2010/05/intempestivo.html). reconheço, porém que, nos "percebermos amputados e frios" atormenta... não nego que a ausência (de algo que tinhamos por nosso) doi. só que mais doloroso seria mantê-los para lembrar-nos os aneis perdidos. e quando finalmente houver um novo dia (depois da "pausa oca e além de todo vinagre") seremos finalmente outros. afinal, é da carne viva que surge a pele nova, né? (ou será sempre cicatriz?)]

quarta-feira, 26 de maio de 2010

epílogo

"Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo."
___________________________________
Carlos, sossegue, o amor
é isso que você está vendo...


[e que diabos esse tal de carlos pensa que sabe tudo sobre mim!?]

domingo, 16 de maio de 2010

tarde de maio

"eu nada peço de ti, tarde de maio,
senão que continues, no tempo e fora dele, irreversível,
sinal de derrota que se vai consumindo a ponto de
converter-se em sinal de beleza no rosto de alguém
que precisamente, volve o rosto, e passa...
Outono é a estação em que ocorrem tais crises,
e em maio, tantas vezes morremos."

(Carlos Drummond de Andrade)
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sim! tantas que perdi a conta

terça-feira, 6 de abril de 2010

...e ainda

sabemos bem, você e eu, que, no fim, é sempre sobre adeus... so há o vazio, ausência tão real e viva. de doer o estômago!
beijos de febre, olhar em segredo, mãos, pernas, a pele clara, quente e desejosa de mim, seu corpo em confidência. seu cheiro! se tudo existiu um dia foi para que se soubesse que logo deixaria de exisitir. permaneceria assim: miragem, desejo, saudades... sombra pairando sobre meus pensamentos. todos os corpos são assim (só existem na lembrança)! sucessão de momentos fugazes, fugidios. tentamos retê-los em vão,sabemos ser impossível.
não lamento mais o triste destino de tudo que há e que logo mais deixa de haver. sou vazio, cabe em mim toda a ausência e mais. meu coração é do tamanho do mundo e ele se desfaz dia-a-dia. aceito, sereno, o acúmulo de tempo (coisa morta, que se quer viva), a recordação, entre bem-vinda e melancólica, que vez ou outra faça-se presente.
e afinal, a vida é ou foi?
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"Mas vem o tempo e a ideia do passado
visitar-te subitamente na curva de um jardim.
Vem a recordação, e te penetra
dentro de um cinema, subitamente.

"E as memórias escorrem do pescoço,
do paletó, da guerra, do arco-íris;
enroscam-se no sono e te perseguem,
à busca de pupila que as reflita.

"E depois das memórias vem o tempo
trazer novo sortimento de memórias,
até que, fatigado, te recuses
e não saibas se a vida é ou foi"


(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 8 de maio de 2008

O SEU SANTO NOME

Não facilite com a palavra amor.
Não a jogue no espaço, bolha de sabão.
Não se inebrie com o seu engalanado som.
Não a empregue sem razão acima de toda a razão (e é raro).
Não brinque, não experimente, não cometa a loucura sem remissão de espalhar aos quatro ventos do mundo essa palavra que é toda sigilo e nudez, perfeição e exílio na Terra.
Não a pronuncie.

(Carlos Drummond de Andrade)

domingo, 9 de março de 2008

[...]


É preciso salvar o país,

é preciso crer em Deus,

é preciso pagar as dívidas,

é preciso comprar um rádio,

é preciso esquecer Fulana.


É preciso estudar volapuque

é preciso estar sempre bêbedo,

é preciso ler Baudelaire,

é preciso colher as flores

de que rezam velhos autores.


(Carlos Drummond de Andrade),


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