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sábado, 27 de dezembro de 2014

porque na verdade eu quero continuar errando os mesmo erros. os meus próprios e indispensáveis erros (com a calma de quem vê passar a vida). que eles tomem a minha forma e se confundam comigo mesmo (quem eu seria se não mais os tivesse junto a mim?). quero continuar nadando contra a maré, mesmo sem saber nadar e sem ter pra onde ir... quanto tempo será que eu me debato antes de me afogar? acho que eu pago pra ver...
sim eu me contento (me regojizo) em ser o exército de um homem só, o bloco do eu sozinho. ainda que misturado aos outros e bem comportado. não abro mão de conservar esse pequena e frágil tentativa de (fingir) ser um pouco mais. e não se preocupe, eu ainda vou estar aqui.
e é por saber que não há nenhum lugar pra ir que não me alcance eu mesmo, que vou ficando por aqui. já dizia meu amigo álvaro de campos: "O tédio que chega a constituir nossos ossos encharcou-me o ser", não há como fugir.
não me veja como um conformista, um derrotado. procuro fazer disso a minha força e não me furto nem da necessidade de lutar e nem da dor de não vencer. só não me peça pra ser tão heroico quanto vocês...

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

dialógico (revisitando farsas)

"mas que bobagem pensar nessas coisas. será que não entendes, finalmente, que o passado é pura doença?"

"sim, eu sei. o velho maranhense, em um de seus inúmeros versos me disse exatamente isso e eu fui capaz de acreditar... realmente tenho andado muito aflito, sinto-me profundissimamente hipocondríaco. revivo a queda e o horror a cada instante, a morte da minha última quimera. a iminência do desastre me arrepia. sinto que este é o último suspiro e eu não quero morrer, não quero apodrecer no poema!"

"ora, ora, sossegue, meu caro, esqueça... o momento agora é de calma extrema. deixar-se estar descrente e sereno... cinicamente sereno. estar atento e manter-se frio. não creia, não ore, não peça nada, desconfie do que se supõe ver."

"o seu discurso requentado não convence... estou cansado de tentar entender o que deveria ser, esse sempre ensaiado ritual ridículo de auto-multilação simbólica! a verborragia na qual me desmancho e com a qual me violento... não tenho forças e nem desejo ter, só quero que os dias passem e que eu passe . acho que afinal tornei-me melhor homem-medíocre do que imaginava."

"sinceramente, não me importo no que você se tornou ou acha que se tornou... não tenho paciência pra essa sua lamentação ensaiada. o mau cheiro que exala a sua auto-piedade não é movimento crítico! meu irmão, aposte todas as suas fichas na vida e esteja pronto pra morrer!. você não sairá vivo daqui. aceite lirismo do esmagamento da alma e não hesite em revidar a ferocidade com que o mundo te golpeia! encare como uma dádiva as centenas de milhares de seres humanos esperando pela oportunidade de te apedrejar, escarrar-lhe a boca! essa é a beleza, é o universo bruto pulsante! fascinante e assustador! não há escapatória, estamos sempre por um triz e o empurrão derradeiro vem exatamente de onde menos se espera. a armadilha é o refúgio e o refúgio é a armadilha. saiba guardar o rancor do teu irmão e deixe que ele molde o teu espírito, mas não perca nunca o ritmo da música e o humor. o beijo, meu amigo, é a véspera do escarro e da traição! "

"não me venha com as ideias roubadas desse paraibano mórbido! dispenso seus conselhos e sua beliche de egoísmos, sou mera ficção e tenho frio. refuto o mundo, não tenho forças...enquanto tarda o abismo e o silêncio quero estar sozinho."

"hahaha, fala de mim, mas parafraseia constrangedoramente um louco inventado por outro louco... realmente, você se deixou levar pela covardia e a pobreza de espírito. perdeu-se até o furor literário. não há nada o que fazer a não ser tocar logo de uma vez o maldito tango argentino e pedir perdão pelo que se fez. beijo-te a face como judas o fez. odeie-me fraternalmente, pelo menos isso.  chega, me canso dos seus comentários, quero te bater ou te abraçar..."

"... o que você achar melhor."



terça-feira, 25 de maio de 2010

Aniversário

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz e ninguém estava morto.
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,
De ser inteligente para entre a família,
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças.
Quando vim aolhar para a vida, perdera o sentido da vida.


Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de serões de meia-província,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui...
A que distância!...
(Nem o acho... )
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a umidade no corredor do fim da casa,
Pondo grelado nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas),
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,
É terem morrido todos,
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio...


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes!

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui...
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos,
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado,
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . .

Pára, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!
Hoje já não faço anos.
Duro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ...


O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!...

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interessante como álvaro de campos se mostra aqui especialmente saudoso, sensibilizado por suas lembranças, lamentando que tenha perdido o que hoje não há (a casa vendida, os que se foram...) e não pode trazer consigo. e a consciência da perda, por si só, já é não poder alcançar...

datas como o meu aniversário me dão (ou já me deram) essa sensação de nostalgia. momento (quase involuntário) de avaliar o que passou e o que está. algumas vezes deixando, no fim das contas, um certo gosto amargo por algo que nem se sabe exatamente o que é (a vida inteira que poderia ter sido e não foi? quem explica?). talvez por isso tenha optado por deixar passar o mais imperceptível, o mais suave possível. esperar pouco, me manter centrado.
e ainda me divirto mais.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

161

Sucata de alma vendida pelo peso do corpo,
Se algum guindaste te eleva é para te despejar...
Nenhum guindaste te eleva senão para te baixar.

Olho analiticamente, sem querer, o que romantizo sem querer...


(Pessoa, Fernando; Poesia de Álvaro de Campos)

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e no fim das contas nem análise e nem romance...

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

143

Começo a conhecer-me. Não existo.
Sou o intervalo entre o que desejo ser e o que os outros me fizeram,
Sou isso, enfim...
Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulhos de chinelos no corredor.

Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.
É um universo barato.


(Pessoa, Fernando. Poesia de Álvaro de Campos)
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Conhecer-se; ter a consciência de que não se existe.
Dois movimentos aparentemente contraditórios,
(Não se pode dar a conhecer algo que não existe).
Porém, esse não existir é o conflito entre o que se deseja para si e o que os outros impõem.
No fim não se é nem uma coisa, nem outra.
Dilema individualista, negação do que extrapola o "eu".
Fuga para dentro de si, não por crença, mas pelo que se nega, por cinismo.
Enfim... um cale a boca e deixe estar (é o melhor que se pode fazer).



terça-feira, 19 de maio de 2009

Algumas linhas sobre "O Fingidor"

Vi um tempo atrás à peça "O Fingidor", baseada em Fernando Pessoa. Apesar de resgatar em linhas gerais o personagem, a história é fictícia. Mostra Pessoa, a partir de uma crise sobre si e sua poesia, passando-se por Jorge (outro heterônimo?) e indo trabalhar como datilógrafo para um escritor literário que estava justamente preparando uma apresentação sobre seu trabalho.
Não vou contar mais partes de história. Só fique registrado que é interessante ver uma figura como essa retratada, ainda que de maneira aproximada. Mais legal ainda foi ver os heterônimos Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis "encarnados", ainda que fruto da imaginação do autor. Deu pra dar um rosto e uma personalidade um tanto mais condensada para eles, para além de meras descrições ou da idéia que fazemos a partir das obras de cada um. Mas claro, sempre fica uma sensação do tipo "ah, imaginava eles de forma diferente...". Comigo isso ocorreu principalmente com o Alberto Caeiro, que eu imaginava um pouco mais "rústico". Outro ponto interessante é a relação conflituosa entre o ortônimo e seus heterônimos, que chegam a ganhar certa vida própria e evidenciam o não tão simples processo criativo do poeta.


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Em tempo: Acredito que o título se refira ao fato do personagem fingir ser outra pessoa e através desse fingimento se dar o argumento principal da história, mas também ao próprio ofício de poeta:

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

"Mas eu nem sempre quero ser feliz.
É preciso ser de vez em quando infeliz
Para poder ser natural...
Nem tudo é dias de sol,
E a chuva, quando falta muito, pede-se
(...)
E quando se vai morrer, lembrar-se de que o dia morre,
E que o poente é belo e é bela a noite que fica..."

(Pessoa, Fernando. Poesia completa de Alberto Caeiro. Pág. 46. Companhia das Letras, 2005)

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Vai mais ou menos ao encontro do que se disse antes sobre (in)felicidade. Alberto Caeiro, vê as duas como parte de um mesmo processo, sendo que o dia que morre, ainda que morra, também traz consigo beleza e também se faz necessário para que seja natural. E ele contempla a vida em sua plenitude, de maneira calma e natural, sem pensá-la. Assim, busca se inserir, enquanto ser pertencente ao mundo, sendo e sentindo. Sem desejos ou racionalizações. "Há metafísica o bastante em não pensar em nada"...

quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Não: não quero nada.
Já disse que não quero nada.

Não me venham com conlusões!
A única conclusão é morrer.

Não me tragam estéticas!
Não me falem de moral!
Tirem-me daqui a metafísica!
Não me apregoem sistemas completos, não me enfileirem conquistas
Das ciências (das ciências, Deus meu, das ciências!) -

Que mal eu fiz aos deuses todos?

Se têm a verdade, guardem-na!

[...]

Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?
Queriam-me o contrário disto, o contrário de qualquer coisa?
Se eu fosse outra pessoa, fazia-lhes, a todos, a vontade.
Assim, como sou, tenham paciência!
Vão para o diabo sem mim,
Ou deixem-me ir sozinho!
Pra que havemos de ir juntos?

Não me peguem no braço!
Não gosto que me peguem no braço. Quero ser sozinho.
Já disse que sou sozinho!
Ah, que maçada quererem que eu seja da companhia!

[...]

Deixem-me em paz! Não tardo, que eu nunca tardo...
E enquanto tarda o Abismo e o Silêncio quero estar sozinho!

(Álvaro de Campos/ Lisbon Revisited)