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quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

o apego à palavra exata
o peso de não encontrá-la
(dois versos se foram e ainda estou longe...)
queria tanto...

a falta que faz
o que não se escreve
mês passado éramos jovens
havia tinta pra tudo

arrisco, mas não.
leio carlos, releio manoel
vejo notícia antiga e foto velha...
busco o dicionário,
morro na página 3

a máquina gira o mundo
eu não digo,
mas quero ser feliz

me escapa a ironia
escondida no desastre
de ser humano e crer

meio poema deixado em aberto
metalinguagem criando ferrugem
éramos jovens ontem à tarde
mas não... (queria tanto)

não fingirei que fui capaz
de encontrar.
nenhum verso me ampara,
o dia se arrasta
arrastado fluo também

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Dacnomania

vem cá, te explico
cada dente é um argumento,
torto e dolorido,
que tua pele escuta atenta.
incisivo, te convenço
canino, te convido

conto, na mordida,
da fome por tua vida
te faço presa, rio,
num blefe, te desafio
no jogo que não venço
com regras que não sigo

mastigo o teu disfarce
por esporte e por instinto
cuspo o teu discurso
de metal enferrujado
só me interessa o frágil frêmito
da razão abocanhada





terça-feira, 2 de dezembro de 2014

nos versos de neruda

escondido
na página certa
um verso
amarelo do tempo
à espera
da voz ansiosa e líquida
da menina que sente
entre tantos fonemas
o amor do poeta


rouba o verso
e me oferta
e eu sei que o verso é dela,
não de quem o tranca
na dureza da forma
ou na página muda
o verso é de quem ama,
assim como ela ama,
nos versos de neruda.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

do ínfimo infinito


impaciente-
mente
sente
pelos
pelos
todo
sal
toda
saliva.
a carne
viva, 
pulsa e
impele.

tateia
lento,
o lume
úmido,
passeia 
lábio e língua
quentes
em cada
canto
em brasa 
ateia fogo
e abraça
o ínfimo infinito...

quinta-feira, 5 de junho de 2014

do verso inventado

verso inventado
enquanto espero
concentrado na mancha
de óleo no chão
que forma teu rosto
do jeito que lembro

vento invertido
correndo ao contrário
me arrepia o pescoço
antecipa o inverno
que esse ano não vem
talvez nunca mais...

pés fincados no asfalto
a memória e o chão
sujos de óleo,
um rosto esquecido
e um poema mal-feito,
como se masca chiclete
ou se come as unhas,
enquanto espero



sexta-feira, 7 de março de 2014

não te canto,
não te conto
verdade inteira,

toda encanto
etérea, terrena

nem te corto
ou te escondo
na tristeza da tinta
que turva e teima
(traição suprema!)

posto que a vibração
da sua presença
entorpece já
meu desatino
gotejado túmido
em tantas folhas

não te canto
toda, em cantos
tímidos, escondidos
na existência incerta
que compartilhamos,

seres que se tocam
e se repelem,
forças que se inflamam
e tentam a busca
do último retiro

(...sou torto,
não sei dançar
teu tango)

sábado, 1 de março de 2014

quatro tentativas perdidas (e recuperadas por uma garota insolente)

I. "Me vi mil vezes saindo por aquela porta...
Por força da inércia acabei ficando, mas minha alma saiu e me fez mais ausente do que qualquer um lá fora".

II. "Quis dizer tudo o que há muito já estava em minha cabeça. Pensamentos revolucionários, megalomaníacos, ousados
Grandes demais para uma vida 
(ou duas)
Calei-me
(Talvez a grande rebeldia seja se calar)"

III."Faço tudo que de mais previsível e explícito poderia fazer. E me suponho como dono de uma discrição sem igual. Afinal, você sabe tudo o que eu penso e que digo sim ao dizer não e usa isso contra mim.
Ou não!"

IV. "Uma folha em branco e te faço tão branca como a folha.
Tão folha quanto linda
Tão minha...
Bola de papel que vai p/ o lixo."


...: Não foi. 
     Nunca folha em branco.



(Lá de 2007)

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

você e vinícius

quem escreveu o livro?
foi você ou
o velho vinícius

que armou a armadilha
do real amor
fictício?

poeta e poetisa
arquitetam em conluio
o precipício

bomba de celulose à espreita,
na iminência
do suicídio

explode serena
no luxo do desperdício
como se fosse nada,
como se fosse possível
não ler o fim
e se lembrar do início.

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

corpo cortado

corpo frágil,
                     corpo
faca na mão.
palavra, não lâmina
é o que fazia sofrer

penumbra
corpo e outro
                      corpo impassível,
a dor fina do corte
que eu mesmo inflingi

corpo abraçado
                          no corpo
o que restou,
é a porta pequena
desafiando a sair


pés decompostos
em passos 
perdidos
pedaços do corpo
fluindo

fim...


_________________________

"Nenhum metal pode perfurar o coração com tanta força quanto um ponto final colocado no lugar certo" (Isaac Babel)

quinta-feira, 26 de setembro de 2013

exercício de fraternidade nº 2

sente-se
caro amigo
de bom grado
divido contigo,
nesta mesa,
o tempo, servido
como petisco
enquanto bebemos a vida
sem sede e sem fé

saúdo-te
num abraço
fraterno, atrasado
de outra encarnação.
faremos planos
de incendiar o congresso
ou viajar nas férias
(pausa para a risada,
sua explosão anárquica)

apoio-me
na sua existência
e fico menos deserto

sua alma, gigante,
não cabe no corpo,

escorre no asfalto
e sem se dar conta
me aponta os caminhos
de volta pra casa

(gosto de falar com você quando não está prestando atenção)
 _______________________
"ah, a bem-vinda alienação de sentar em uma mesa sem telefones espertos, somente a cerveja despejada nos copos de requeijão e um bocado de inconsequência para distrair os nossos ouvidos e algumas risadas que serão sufocadas entre alguns suspiros matutinos. Ergamos nossos pulsos enfurecidos! E enquanto isso, o mundo gira e voltamos para a casa mais vivos; cuspindo sangue, com navalhas nos bolsos furados e dentes no travesseiro, dormindo (perdidos) entre a ponte dos nossos sonhos."

domingo, 4 de agosto de 2013

poema-convite

ah!
tuas coxas brancas,
tuas pernas curtas,
no ângulo reto em que florescem
úmidas
e tomam a forma do meu desejo
trêmulo
torno-me de novo devotado
púbere
acompanho atento o movimento
            rítmico          
em que se insinuam e fogem
hipnóticas
(mistério que não desvendo)

amo, sem saber rimar
tuas pernas ao meu desatino,
lívidas
nascem suaves em dedos
mínimos
serpenteiam ao meu redor
lânguidas
e vigorosas morrem
líquidas
(como eu morro)
no calor de teu quadril-convite

terça-feira, 23 de julho de 2013

exercício de fraternidade nº 1

há dias para se lamentar
os dias
que nunca serão
o que deseja o pueril coração.
dias em que
tudo nos falta
mesmo sem nada faltar...

mas hoje não...
hoje é o dia dos risos
que ecoam pela rua
e a deixa mais familiar.
seu farto riso corporal
enquanto caminhamos
confiantes por estarmos juntos

e em ti me amparo
enquanto ombro a ombro
desbravamos a terra
inóspita dos homens,
e indolentes dançamos
ouvindo canções
de despedida e reencontro

com passos cautelosos
vencemos a cidade crua,
entregamos a nossa parte mais nobre
o fio de alegria que resta
que nasce num e transborda noutro
fluxo contínuo
que te torna parte de mim.

ideias tolas confortam,
mãos em conversas fraternas,
sei, pertencemos ao mesmo mundo
e com coragem desentranho
minha força da sua
encho nossos copos de orgulho
mas você distraída beberica à vida

terça-feira, 25 de junho de 2013

sigo
em frente,
enfrento!
fraco
o fracasso
profundo
do mundo
que sou
(e que somos)
minto, in-
vento afagos
enfeito
meus feitos
tantas
rusgas,
tantos defeitos...

- sinto
muito
sibilo ou
sussurro
ofereço
indefeso
a face aflita
ao murro
duro
(e escuro!)
da mão
que contém
a promessa
que não
se cumpriu
e nem se
confessa

segunda-feira, 17 de junho de 2013

das perdas

a estrofe anterior está perdida!
definitivamente...
não há tempo para lamentos
há que se recomeçar
                                 súbito
contando
                 da tesoura
com a qual perfurei fundo meu peito
em busca
                de um coração estranho
                de um pulmão rancoroso
                (e tripas sentimentais)

contando
               do líquido
que jorrou farto de minhas entranhas
                                                        e não era vermelho
                                                                  era verde,
ocre e tímido!
e que ainda assim me faz um de vocês
é preciso que eu seja um de vocês!
e que seja capaz de um abraço
fraternal e dilacerante

só não pense nisso como uma declaração de amor
ou de fé
(no fim do poema ainda restam as perdas...)

sexta-feira, 14 de junho de 2013

alisa, furtivo,
o seio macio
da moça ao lado.
sem saber
que a dois passos dali,
a outra observa
e disfarça
olhando pra água
deseja
as mãos em seus seios
também...

quinta-feira, 30 de maio de 2013

a valsa dos derrotados

clique aqui para ouvir:

te vejo sozinha
olhando pro nada
lembrando uma história
omitindo detalhes
um pouco confusa
os olhos dançando
os olhos só bastam
pra dançar
a valsa dor derrotados
e o que era ternura
tornou-se essa apatia
raivosa

te vejo assistindo
sozinha no escuro
a história inventada
uma coleção de absurdos
um roteiro tão fraco
com personagens banais
pobres ególatras,
quase reais
mas a realidade é só um melodrama
com toques de humor
uma ficção mau escrita por um ser supostamente superior

ainda há sangue nas suas veias
e um coração a ser despedaçado
minha garota,
sorrindo pro mundo
que dança inerte
a valsa dos derrotados

quarta-feira, 29 de maio de 2013

da garota sem rosto

ouviu de mim as palavras mais doces
entre ardilosa e confusa,
desviou o olhar, devolveu:
"...eu não sei".

na verdade sempre soube...
deitada na minha cama,
seguia um roteiro:
deixou ir o anel,
abandonou em seguida os dedos

uma ligação bastou
"fiquemos por aqui". assenti
e não pude te encriminar
você é o que eu sou

tranquei bem o portão
cortejei ruas, caminhos possíveis
o nariz gelado me apontou a direção
às duas da manhã voltei a ser quem nunca fui
confesso que me diverti

você vinha como uma febre
uma dúvida, um desejo
súbito, perdeu o viço,
partida, não me decifrou,
distraído, não quis te devorar

mudei seu nome para que coubesse no poema,
o esqueci antes de por no papel,
no lugar, fiz um desenho
de quando você ainda tinha um rosto

sexta-feira, 17 de maio de 2013

o sorriso roxo

O vinho barato lubrifica o sorriso
Roxo, fica ainda mais belo
Se eu dissesse, porém, riria
Duvidando das minhas intenções

Duvido também...
Imagino teus seios por baixo da blusa
Esforço-me para parecer sério
Mas estou transparente demais

Lá fora o céu é quase claro de novo
Jurava que daria meia-noite
Mas meus ponteiros já não são confiáveis
Os olhos se perdem, lânguidos
Passeio mentalmente pela curva dos seus lábios
Sem prestar atenção no que eles dizem
Balanço a cabeça sem quaquer convicção
Uma hora atrás responderia algo interessante

Olho para os copos, ainda meio cheios,
Destampa a garrafa e os completa
Ergue o seu e propõe um derradeiro brinde
- À quê?
                 - Não sei,
                                Acho bonito os som dos copos a se tocarem no
                    ar







terça-feira, 14 de maio de 2013

o livro laranja

o livro laranja
no galho da estante

no pé-de-laranja
um sonho distante

quantos anos levando porrada?
quantos namorando a vizinha?

o vento laranja
soprou num instante

dançaram as folhas
fugiu minha amante

troquei de assunto
troquei de cidade
não como o fruto
nem colho o verso

quarta-feira, 24 de abril de 2013

os móveis da casa

os móveis da casa bravamente
resistem
à poeira do tempo
envernizados de realidade
permitem-se
o encontro com a matéria de que sou feito
sem mistério
sem lamentos
concentrados que estão em ser
                                                 eternos,
não sucumbem
a estes dedos
                      que sabem de si,
                      que sonham
                      e anseiam
e que os marcam
onde quer que toquem...
permanecem
                      mudos
em respeito ao vivo
                               que ora sou,
(silêncio que se faz indispensável
à sobriedade do ambiente)
espalham-se graves
contra as paredes,
não prestam atenção
e jamais testemunhariam contra mim
que me ocupo em ser só.