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quarta-feira, 17 de junho de 2015

Sozinhos somos...

Com tanta delicadeza
Reordena minhas ideias
Muda a ordem dos capítulos
Me relê de trás pra frente

Traz sentido para as partes em que nem eu me entendo
Traz leveza para as tardes em que nem eu me suporto, não.

Há um risco inerente
Nesses corpos que se chocam
Mas você tira de letra
E corrige a minha rota

Talvez eu me perca no argumento
Ou descubra o infinito

Num rascunho inacabado de uma noite de novembro
Na obra definitiva que ainda não escrevemos, não, não...

Deixa o sim sair, assim, sereno.
O céu é seu, é o sol surgindo
Sei não há saudade que resista
Sozinhos somos a multidão

Tem aqui.
_________________________

Porque "trás pra frente" pode acabar sendo a ordem certa.
E entre o rascunho e a obra definitiva a gente vai perdendo os argumentos e descubrindo o infinito...

terça-feira, 19 de maio de 2015

Woody Allen, a falta de sentido da vida e uma música da década passada...

Estava lendo sobre o novo filme do Woody Allen, que estreou no festival de Cannes semana passada (Irrational Man) e numa de suas respostas me deparei com um pensamento que, apesar de bastante recorrente em sua obra, me pegou mais uma vez:
"Como artista, você tem que passar ao público a ideia de que a vida tem um sentido. Mas você está trapaceando, porque não tem nenhum sentido. Qualquer coisa que você criar vai desaparecer, assim como o Sol, a Terra, Shakespeare, os Beatles. Tudo o que você pode fazer na vida é se distrair e ter alguns bons momentos, se manter ocupado. É o que farei até o dia em que eu for velho... Num futuro muito distante" (W. Allen) 
É isso! A arte com um refúgio, um argumento, ainda que fugidio e limitado, para a vida. A possibilidade de criar sentido, de encantar o mundo, de fazer rir e chorar... ainda que se saiba que de forma temporária, frágil e sem nos levar a lugar algum. Afinal, não há lugar aonde ir, o nosso lugar é aqui mesmo.

Confesso que, particularmente, sou partidário dessa forma de ver as coisas. Não creio que o universo enquanto tal possua um sentido em si, absoluto. Não há pote de ouro no fim do arco-íris. Em breve tudo irá desaparecer. Não importa quão grandioso ou aparentemente definitivo, irá desmoronar... Outros gigantes já viraram pó antes e nós mesmos estamos fadados ao esquecimento. Seremos sucedidos por outros e outros, num ciclo a perder de vista. 

Mas veja, essa não é exatamente uma negação da vida e só a princípio soa pessimista. Pelo contrário, se soubermos conviver com isso, ao nos livrarmos do peso excessivo da continuidade, da linearidade, do definitivo, podemos ser mais livres para criar e recriar, para sermos nós mesmos. Não somos (enquanto civilização ou indivíduos) o centro do universo, muito pelo contrário. Ainda bem! 

Nesse sentido, o niilismo pode ser um belo ponto de partida para a leveza, o bom humor e a capacidade de "entendimento". A partir do momento em que não podemos fugir da nosso própria insignificância, temos que nos valer dela própria para nos situarmos no mundo. Pintar, escrever, atuar (ou tomar uma cerveja no bar com um amigo) acabam se tornando tarefas mais humanas, expressões ao mesmo tempo limitadas e poderosas da nossa existência e de como compartilhamos isso uns com os outros, enquanto é tempo.

Talvez tenha ficado abstrato demais, pretensioso. Só queria mesmo dizer que essa referida falta de sentido da vida pode ser libertadora, divertida e um tanto quanto mais honesta intelectualmente. 

Quando li a declaração, me lembrei imediatamente de "Suportar", a sexta música do disco "Sublime Mundo Crânio" do Lasciva Lula, banda que, se não me engano, já não existe mais, mas que, com pouquíssimas palavras também consegue tratar do caráter incerto e fugaz da vida:

"suportar
 ocupar o tempo 
 suportar 
 ocupar o tempo 
 como estepe, manter 
 talvez tentar ser feliz  
 nada mais."

Sei que acaba por adquirir um teor um pouco desiludido, mas gosto da maneira crua e sem subterfúgios com que se enfrenta a questão: é suportar, ocupar o tempo e talvez tentar ser feliz. Acho que esses pontos, por si só, já nos mantêm suficientemente ocupados na nossa busca por "viver". E é isso que me faz imensamente grato pelo Sr. Woody Allen continuar lançando anualmente ótimos filmes, de forma ajudar a ocupar meu tempo da melhor maneira que posso imaginar. Até quando formos bem velhinhos.
Nada mais...




domingo, 15 de março de 2015

a canção de outros tempos

ouça aqui: https://soundcloud.com/carbonoeamoniaco/a-cancao-de-outros-tempos

por que você não passa aqui?
eu tenho um vinho bom
e podemos conversar
sobre tanta coisa

eu sei que você ri de mim
quando eu começo a gaguejar
por não saber o que dizer
e quase nunca sei

você me pede pra contar
o que eu andei fazendo todo esse tempo
ah, eu desvio o olhar
acho que prefere não saber

você me pede pra cantar
as canções de outros tempos
mas eu já não sou o mesmo
e nunca lembro a letra

por que você não fica mais?
eu passo um café
e a gente espera o sol nascer
sentado na varanda

gosto de te ver assim,
sob a luz branca da manhã
emoldurando o seu rosto
enquanto rói as unhas

e me pede pra contar
o que eu andei fazendo todo esse tempo
você percebe num olhar
acho que não preciso te dizer

você me pede pra cantar
as canções de outros tempo
mas eu já não sou o mesmo
e nunca lembro o refrão
que te pedia pra ficar
um pouco mais que a vida inteira
você diz não acreditar no que se diz numa canção
então esqueça os três minutos
que eu te conto o que passou
e a gente inventa o que será

terça-feira, 3 de março de 2015

Algumas linhas sobre "Trovões a me atingir"

Demorei um pouco pra ter uma opinião mais consolidada sobre o novo álbum do Jair Naves, "Trovões a Me Atingir". Confesso que numa primeira ouvida não me pareceu lá grande coisa, no máximo uma boa continuidade do anterior. Porém, é o tipo de álbum que não se pega de primeira e segue num crescente. Foi preciso tempo para apreciar os pequenos e inúmeros detalhes que o constroi. 

Primeiro de tudo, o trabalho me soou muito coeso e bem acabado. As harmonias e os arranjos estão excelentes, uma combinação bem dilapidada de diversas sonoridades. A ponto de me pegar esperando, por exemplo, o teclado e o backing vocal de "5/4", o trompete e a percussão no final da belíssima "B", o violão delicadamente arranhado e o violoncelo de "Prece Atendida" ou ainda a linha de baixo da parte final de "No Meu Encalço". Enfim, são pequenos grandes momentos que, aliados à já caracterísca intensidade do Jair, me agradaram demais, formando músicas poderosas, na mensagem e no som, sem preciosismos.

As letras continuam com a pungência e a profundidade poética já características. Tratam de temas como desilusão, solidão, relacionamentos, sempre de uma maneira densa e de uma perspectiva pessoal. Desde que o conheci me agradou a maneira como ele mistura tão bem delicadeza e lirismo com uma virulência latente que se insinua em sua voz grave, na métrica "alongada" de versos doloridos. Há urgência e "verdade" no que ele canta. Porém, aqui, perceptivelmente a forma do Jair Naves cantar está mais suave, sua energia está mais dosada e canalizada. Há mais sussurros e menos gritos. Aprofunda essa impresão os muito bem-vindos vocais femininos, inclusive na quarta faixa, "B", em que a Bárbara Eugênia canta.

Devo comentar também que o projeto gráfico do álbum físico está muito bonito, inclusive a capa em que, a despeito do nome do disco, o que atinge o músico são os raios de um dia ensolarado. Haveria aí um jogo intencional entre palavra e imagem?

Sempre me sinto limitado ao tentar comentar sobre música. O fato é que cada acorde me soou relevante, as nove músicas de "Trovões a me atingir" formam um disco agradável, cheio de qualidades e muito maduro, numa instigante evolução em relação ao álbum anterior de um artista que sem dúvida está entre os meus favoritos.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

Música para ler - MIS

Ontem, dia 12/08,  tive o privilégio de acompanhar no MIS um bate-papo divertidíssimo sobre música, ou melhor "música para ler" com três grandes jornalistas e escritores, André Forastieri, Ricardo Alexandre e André Barcinski para falar de seus livros sobre música e cultura pop nacional.

Os caras conhecem muito do assunto e contam histórias curiosas e hilárias sobre o cenário musical brasileiro dos últimos 30 ou 40 anos. Uma avalanche de informações interessantes num formato descontraído, que poderia muito bem ter acontecido numa mesa de bar. Análises sobre o mercado musical, relatos sobre artistas, opiniões sobre o que ainda está por vir, a trajetória de cada um enquanto jornalista, as lembranças pessoais de como a música influenciou cada um deles, enfim, muita coisa legal, que poderia ter durado mais uma hora ou duas.

Poderia destacar por exemplo, a história de um tal de "Os Carbonos", banda de estúdio entrevistada por Barcinski, que durante décadas gravou milhares de músicas para todo tipo de artista. Ou a história das "Melindrosas", grupo inventado de última hora (com a Gretchen e a Sula Miranda!) na esteira de sucesso de um disco lançado com músicas infantis em ritmo de discoteca e que, portanto, precisava ter uma cara (ou, no caso, três garotas bonitinhas) pra aparecer na televisão. Ou ainda o fenômeno dos "Secos e Molhados", que de forma totalmente inesperada, dada sua peculiaridade visual e musical em tempos de ditadura, vendeu centenas de milhares de discos para todo tipo de gente brasil afora. Enfim, são muitos causos que ajudam a entender o que foi e o que é fazer/vender/ouvir música no brasil.

Barcinski estava com o seu novíssimo "Pavões Misteriosos", que apesar de relativamente curto, contem muita coisa legal do período de 74 a 83. Pelo que ele falou, foram entrevistadas 65 pessoas, algumas delas até então relegadas ao ostracismo ou à ridicularização que a mídia sempre reservou praquilo que é popular. Ainda não li o livro (que comprei ontem), mas sou muito fã da maneira como ele escreve e acho que a iniciativa de um lançar livro sobre esse período foi ótima. Principalmente quando se tem noção da "furada" que é escrever livros num país sem leitores.

Não pude deixar de comprar também os livros do Forastieri, "O dia em que o rock morreu", e do Alexandre, "Cheguei bem a tempo de ver o palco desabar" (deste eu já li o ótimo e ambicioso "Dias de Luta", sobre o rock e a cultura nacional nos anos 80). A julgar pelo alto nível do papo de ontem, creio que os três serão ótimas leituras, sobre um tema que eu gosto muito, desde os meus 12 anos, quando comecei a me interessar por rock nacional e conheci o BRock, do Artur Dapiev.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Um Arco-íris de Verdade

ouça aqui

eu não sei se vai chover ou fazer sol
quero os dois e um arco-íris sobre o céu da cidade,
você já viu um arco-íris de verdade?

eu não sei se você vai me querer por um ano ou só por essa tarde,
mas eu queria alguma coisa sua que marcasse a minha vida,
seja sua unha na minha pele ou uma aliança no meu dedo

e se chover nem vem de guarda-chuva, que eu quero mesmo é te beijar molhada
e a gente dança e pisa em tantas poças
e a gente brinca de estar apaixonado

eu não sei se você vem no vento que assobia
de cabelo bagunçado e lenço no pescoço
mas vê se espanta essa frente fria
e me traz um pouco de calor na sua mochila

e se chover nem vem de guarda-chuva,
que eu quero mesmo é te beijar molhada
e a gente dança e pisa em tantas poças
e a gente brinca de estar apaixonado

e se chover nem vem de guarda-chuva,
que eu quero mesmo é te beijar molhada
e se o sol sair me leva lá pra fora,
me põe embaixo do seu céu de cores cintilantes


quinta-feira, 18 de julho de 2013

algumas linhas sobre "the man comes around"de jonnhy cash



desde 2010 ouvi esse cd centenas de vezes. e de vez em quando sinto a necessidade de voltar a ele, como se houvesse algo ali que não encontrasse em nenhum outro lugar. adoro a aura do disco como um todo, que soa como se fosse desentranhado do fundo da alma de Cash com força e verdade. a voz de um senhor calejado pela vida e perceptívelmente velho e cansado (e que já pouco havia do rebelde e problemático jovem músico), cantando com tanta dor e austeridade e fazendo de cada acorde uma lembrança e uma despedida.

a primeira música que me chamou a atenção, até por ser largamente veiculada na mtv em 2003, foi "hurt", originalmente do Nine Inch Nails, que ficou profundamente dolorosa na versão do Jonnhy Cash. ganhou contornos de um acerto de contas com o passado e o que ficou de saudades e remorso.

"give my love to rose" conta a história de um homem  recém saído da prisão que é encontrado à beira da morte próximo ao trilho do trem e pede ajuda a quem o encontrou para que leve o seu dinheiro e suas última palavras para sua mulher (a rose do título) e a seu filho, que não chegou a conhecer. é triste e linda, num estilão country que poucas vezes me agradou tanto.

tenho que destacar também "hung my head" que conta uma história bem ao estilo velho oeste, sobre um assassinato cometido sem motivo aparente e o profundo arrependimento que assola o assassino. são de arrepiar os seguintes versos: "eu senti o poder da morte sobre a vida/ deixei orfão seu filho/ enviuvei sua esposa/ eu implorei por seu perdão/ desejei estar morto/ eu abaixei minha cabeça".

"personal jesus" tem um violão de peso, com belos riffs e um elegante piano sempre presente. gosto da imagem que ela me passa de uma mão amiga, ainda que pesada, disposta a dar amparo a um solitário que procure a fé (em seu próprio jesus). por fim, para não acabar falando de todas as músicas, preciso falar da mais bela melodia do cd, que é "desperado", um tocante conselho para que um cara durão e solitário (para quem "a prisão é andar sozinho por este mundo") "volte a si", "esqueça aquilo que ele não pode ter" e "deixe alguém amá-lo antes que seja tarde demais".

a última música do cd ("we'll meet again")é uma doce despedida que diz: "nós vamos nos encontrar de novo/ não sei onde e não quando/ mas eu sei que vamos nos encontrar de novo em algum dia de sol". não seria tão arrepiante se não fosse de fato a despedida de jonnhy cash, que morreu algum tempo depois, meses após sua esposa, june carter.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

canção de quase-amor

para ouvir clique aqui

vem aqui pra fora
que o céu está cinzento
e há tanto a se conversar

vem, mas não demora
que o dia logo acaba
desfaz-se o encantamento antes de começar

e se eu cair num poço fundo
de abraços quentes e velozes
ando em círculos desejando ser melhor ator
volto pra casa assoviando uma canção de quase-amor

vem, vamos embora
os prédios vão dançando
me ofereça a tua boca pra me consolar

eu sei que não é hora
de confessar meus devaneios
mas confundo gostar tanto com quase amar

e te ofereço a eternidade
meio ingênuo, meio fraude
viro água, pego fogo, colho a flor
te inundo, te incendeio, te mostro a dor
escancarada num sussurro,
que afaga teu ouvido
devora tua alma, transforma-se em vício
numa declaração de quase-amor

quinta-feira, 30 de maio de 2013

a valsa dos derrotados

clique aqui para ouvir:

te vejo sozinha
olhando pro nada
lembrando uma história
omitindo detalhes
um pouco confusa
os olhos dançando
os olhos só bastam
pra dançar
a valsa dor derrotados
e o que era ternura
tornou-se essa apatia
raivosa

te vejo assistindo
sozinha no escuro
a história inventada
uma coleção de absurdos
um roteiro tão fraco
com personagens banais
pobres ególatras,
quase reais
mas a realidade é só um melodrama
com toques de humor
uma ficção mau escrita por um ser supostamente superior

ainda há sangue nas suas veias
e um coração a ser despedaçado
minha garota,
sorrindo pro mundo
que dança inerte
a valsa dos derrotados

sexta-feira, 24 de maio de 2013

algumas linhas sobre "nadadenovo"

seguindo a onda de resgatar cds antigos, nesta semana tenho ouvindo à exaustão o primeiro do mombojó.
dos três primeiros deles (o mais recente eu ainda não ouvi) esse era o que eu menos gostava. nunca me atraí muito por nenhuma música em específico (talvez com excessão de "a missa") e um quase exagero de arranjos eletrônicos não me agradava tanto, então sempre passou meio batido. mas agora me pegou de jeito e de uma maneira completamente inesperada.
claro que o show deles na virada cultural no último domingo contribuiu muito pra isso. saí de lá com "a missa" e principalmente "deixe-se acreditar" borbulhando na minha cabeça.
sempre me agradou a dinâmica e feliz mistura que eles fazem de samba, rock, eletrônica (o que raramente acontece) criando ótimas sonoridades, entre doces e contagiantes, que mostram uma banda com um som bem resolvido e de personalidade. e claro que o sotaque pernambucano tende a deixar a música deles ainda mais legal.
destacaria ainda desse cd, "absorva" (me absorve que hoje eu quero ser só seu/ me dissolve e mexe com a colher/ o seu prato predileto é quando eu digo não/ não quero mais ser só/ não quero mais ser seu só) e "merda" (uma bela declaração de más intenções).

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Algumas linhas sobre a Virada Cultural 2013

Não tema, esse é o reino da alegria. - Mombojó
Sou um grande entusiasta de eventos como esse, que permitam que as pessoas vivam sua cidade, tenham a oportunidade de interagir com ela de maneira mais festiva e alegre. Permitam que as ruas sejam vistas como espaço para convivência e diversão. Simples assim. Mais do que o evento em si, ter a oportunidade de estar com pessoas agradáveis, curtindo junto e dando risada faz toda a diferença.

Logo no início do evento já estava por lá, pra ver o Lobão na São João. Tava mais cheio do que eu esperava e por ter chegado em cima da hora não consegui ver muito de perto. Mas foi um bom show pra começar a maratona. Sou muito fã do cara e fiquei bem empolgado pra vê-lo, acabei achando o repertório de mediano para bom. Mas bobagem, afinal sempre algumas músicas que a gente gosta acaba ficando de fora.

Depois disso, passada no Páteo do Colégio, onde uma banda interessantíssima estava se apresentando. Uma tal de Surdomudo Impossible Orchestra, mandando um som muito legal, indefinível. Pena que não peguei do começo. Mas ainda assim reforçou minha impressão de que o melhor da virada é ser surpreendido com coisas inesperadas. Vale citar também um ótimo samba que tava rolando num coreto perto da BM&F. Agrádavel de se ouvir de leve, enquanto se conversa e toma alguma coisa.

A cidade numa noite de festa é um charme a parte, e me agrada muito andar o máximo possível pelos diversos cantos do centro. Passamos, além dos lugares citados, pela Praça do Patriarca (forró), pelo Mercado Municipal (onde tava rolando um chorinho muito bom), entre outros caminhos sem muito destino.

A partir das 04h00, uma tríade de artistas no palco da 25 de Março, que eu estava muito afim de ver: Lirinha, Vanguart e Mombojó. O novo CD do Lirinha tá muito bom e valeu tê-lo ouvido ao vivo. Vanguart eu conheço pouco, mas também empologou. Mas sem a menor sombra de dúvida o ponto alto pra mim de toda a Virada foi o Mombojó. Ao vivo eles soam ainda melhores e passam uma energia que deixou todo mundo empolgado. Incrível como eu estava muito mais animado (e menos cansado) ao final do show deles. Destaque para Casa Caiada e Deixe-se Acreditar.

No fim ainda lamentei um tanto por não ter pique de ver outros artistas como Criolo, Otto e Fundo de Quintal, mas depois de 16 horas eu realmente precisava ir para casa. 

Claro que depois a gente ouve na TV problemas relacionados a segurança. Roubos, furtos, confusões, entre outros, inevitavelmente fazem parte de um grande evento que reúne milhões de pessoas. Mas eu espero que isso não prejudique sua imagem e a vontade do poder público e da sociedade civil de fazerem ainda mais e melhor.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

algumas linhas sobre "mary star of the sea" (zwan)


já conhecia esse disco pelo menos desde 2005, mas não sei por que ele bateu em mim com tanta intensidade só em 2010. desde então, e principalmente por uns meses daquele ano, o ouvi dezenas de vezes. ontem, depois de um bom tempo ele me veio novamente à cabeça como uma boa alternativa sonora e com isso me deu também vontade de escrever algumas linhas.

ouvindo agora, me lembro muito da época em que ele foi a trilha sonora dos meus dias (quase três anos atrás). mais do que isso, me lembro de lugares em que estive, coisas que ocupavam meu pensamento e por um momento quase posso sentir o vento frio de algum fim de tarde em que saía do trabalho ouvindo ele. interessante como algumas canções têm essa capacidade.

não sei dizer exatamente o que me agrada no disco. sempre gostei do smashing pumpkins e claro que por influência do billy corgan, o zwan lembra muito aquela banda. mas de maneira geral as composições me soam mais leves e radiantes (dois adjetivos que dizem pouco sobre música, eu sei). há mais violões e menos guitarras, apesar de elas aindas estarem lá, na medida certa e com belos timbres.

acho que assim de pronto eu poderia destacar lyric, que abre o cd de forma contagiante, declaration of faith, a bela heartsong (but heart songs are all I am/ I use the same words to say the same things), a agitada "baby, let's rock" (you can kick, you can cry, you can fuss, but let's rock),  e as duas últimas (que formam uma só, de mais de 14 minutos) Jesus, I e Mary Star of the Sea. Mas ainda assim, faz muito mais sentido enquanto disco, do começo ao fim.


segunda-feira, 6 de maio de 2013

algumas linhas sobre "somos tão jovens"

posso dizer com certa segurança que a legião urbana é a banda da minha vida. afinal, foi a primeira que eu realmente gostei e que continuou por anos a fio sendo a minha favorita. se hoje eu quase não ouço mais, ainda reconheço a extrema importância que ela teve e tem para mim e para o cena musical brasileira e principalmente a potência e alcance de suas músicas. cada uma delas é uma descoberta de força e beleza.

por conta disso, não precisaria dizer que assistir ao "somos tão jovem" era quase que obrigatório pra mim. foi muito interessante ver aquela época sendo retratada no cinema, de maneira tão viva. uma garotada querendo transformar ócio em música e contestação, tentando fazer alguma coisa diferente. e mesmo que o foco tenha sido especificamente o renato russo (expoente maior daquela geração?), é muito interessante ver toda a turma ao seu redor, da qual inclusive surgiram outras bandas relevantes como a plebe rude e o capital inicial.

gostei muito do ator que fez o renato russo, achei convincente, inclusive na maneira de falar e nos trejeitos. passou bem a sensação que eu sempre tive de uma pessoa muito cheia de grilos e manias, intensa, inteligente, sensível, carismática e, por que não dizer, quase arrogante.

o filme retrata de 78 a 82, ou seja pega o surgimento e o fim do aborto elétrico e o início da legião urbana, ainda enquanto banda regional e sem sua formação definitiva (com o bonfá na bateria e o dado na guitarra). e pra mim esse recorte veio muito bem a calhar, pois valoriza justamente uma parte da história menos conhecida e muito vibrante, quando tocar rock era nadar contra a corrente. aquela geração teve que correr atrás e aprender  tudo praticamente sozinha, com a gana de quem encontrou ali uma forma de se rebelar contra tediosa brasília e a situação política e social do país.

pra não ficar só elogiando o filme, tem algumas cenas que me soaram artificiais e gratuitas. elas até retratam algum acontecimento interessante, mas parecem destoar da fluxo da narrativa e deixam a história um tanto quanto truncada. mas em resumo, "somos tão jovens" é o tipo de filme com o qual eu tenho uma forte ligação afetiva, então é quase impossível que eu não goste.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

[o livro de areia e a canção da fraternidade]

"Beatriz não quis ver o navio; a despedida, em sua opinião, era uma ênfase, uma insensata festa da infelicidade, e ela detestava as ênfases. (...) Sou um homem covarde; não lhe deixei meu endereço, para evitar a angústia de esperar cartas."

(jorge luis borges/ o congresso)

________________________________
vem, volta pra casa
eu fiz uma garrafa enorme de café
essa chuva não faz mal
mas se você se resfriar eu cuido de você
eu não meço esforços
é porque eu me importo

vem, termina esse trago
você ainda tem um maço inteiro
eu ainda não cansei
de te dizer o quanto isso faz mal
eu não meço esforços
é porque eu me importo

(Aroflogilo Pai/ Canção da Fraternidade)

ouça aqui essa pequena tosqueira tão bonita

quinta-feira, 28 de março de 2013

"Se você sofresse
Tanto quanto eu sofro com a solidão
Se você soubesse
O quanto eu preciso da solidão
Não me pediria pra repetir
Frases banais das quais já me arrependi

Duas pessoas são duas verdades
E, na verdade, são dois mundos"

(EngHaw/ Vozes)
_______________________________
sofrer por algo que nos é necessário
nos traz à tona,
sentir a nós mesmos de maneira crua
e cruel
tanto quanto possível


 



segunda-feira, 4 de março de 2013

banda estranha num lugar esquisito!

a novidade do fim de semana foi uma banda barulhenta (guitarras distorcidas, vocais sujos...) tocando num porão pequeno e fedendo a mofo. resultado? foda!
o nome da banda é top surprise, de minas gerais e totalmente desconhecidada por mim até então. o vocalista me deu um cd com as músicas da banda, que estou ouvindo exatamente agora, muito interessado no som lo-fi, potente e quase bonitinho.
o lugar em que tocaram é o centro cultural walden, pequeno bar escondido na praça da república. tem um clima bem intimista e amistoso. logo na entrada tem o bar e uns puffs espalhados, no andar de cima um sofá e uma mesa de sinuca e no andar de baixo um pequeno palco. confortável e convidativo.
legal que no cd que o cara me deu ainda veio mais alguns discos de artistas independentes, lançados entre 2010 e 2012 pela pug records. tem muita coisa legal que eu nem imaginava que rolava por aí!

ouça aqui: http://topsurprise.bandcamp.com/album/klouds-ep

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

sobre o "nó na orelha"


o cd do criolo é bom para caralho!
digo isso após ouví-lo pela quarta vez... nem precisava tanto.
no fim da segunda música eu já tinha certeza disso e até o fim ele não me decepcionou.
nunca ritmo e poesia fizeram tanto sentido pra mim, me pegaram de jeito.
letras fortes, poesia inspirada, misturas musicais empolgantes.
indiscutivelmente um nó na orelha.
______________________________________

"são paulo é um buquê
buquê são flores mortas
num arranjo lindo
arranjo lindo feito pra você
não existe amor em sp"

"vamos as atividades do dia:
lavar os copos, contar os corpos e sorrir"

"cientista social, casas bahia e tragédia gosta de favelado mais que nutella"

quinta-feira, 26 de julho de 2012

de carona...


lembro que não gostei muito do terceiro disco, é muito difícil o terceiro ser tão bom quantos os outros. mas não tenho certeza... será que eu não gostei de você e acabei desgostando dele junto? impressão minha ou você veio com o vinil debaixo do braço pra me mostrar? sei lá, se parar pra pensar assim parece bobagem... acho que é mais porque eu ouço muita coisa e demoro um pouco pra perceber que aquilo que eu deveria ter ouvido lá atrás na verdade passou batido por mim. claro, sempre dá pra correr atrás do prejuízo. e é boa a curiosidade de querer descobrir algo que já se conhece (apesar de não o bastante ou simplesmente de uma maneira difente).
se eu fosse um pouco mais sensato pensaria que estou (estamos? não posso afirmar... cada um terá que responder por si) sempre trocando meus ouvidos. aí, com um ouvido diferente eu ouço tudo diferente e a música que já existe há séculos se parece vagamente com a que eu ouço agora. e o que meu ouvido antigo achava não tão vem bem a calhar para esse novo. se eu ousasse ainda mais em minha sensatez, diria que troco sempre meus olhos, meu nariz, minhas mãos... ótimo, bom motivo pra querer (re)conhecer tudo de novo. boa coisa pra me manter ocupado por um tempo. afinal, como ouvi na tv um dia desses, a vida é muito longa e como disse um cara afeito à escrever coisas bonitas, nessa vida é "preciso estar sempre bêbado, de vinho, poesia ou virtude" (à escolha do freguês). mas não vem ao caso agora...

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Tributo à Legião Urbana


Legal o tributo à Legião Urbana de ontem. Foi bem interessante ver os dois remanescentes da banda de novo no palco, acompanhado por um vocalista carismático e fã declarado da banda.
O Wagner Moura foi até esforçado, deu a real impressão que tinha um gosto enorme em fazer aquilo, mas devo dizer que infelizmente a voz que ele tinha como missão substituir (e com a qual é impossível não haver comparações) foi a mais potente do rock nacional. O Renato Russo cantava demais e as músicas ganhavam uma outra amplitude com a sua interpretação.
Isso não é demérito, de jeito nenhum. Gostei de ver a empolgação genuína, sentir a força daquelas músicas de 20, 30 anos atrás... Pontos altos pra mim foram: Sereníssima, 1965 (Duas Tribos), Antes das Seis e, principalmente Se Fiquei Esperando Meu Amor Passar. Meu lembrou muito a época em que cada música dessas batia de uma maneira tão certeira em mim, eu sentia cada acorde desses como se fosse único. Sei lá, essa coisa que só rola na adolescência. Um sentimento que eu imagino que nunca irei ter de novo... Ainda assim é legal rolar essa identificação. Algo cantado por milhões, feito por alguém que nunca te viu na vida e não faz a menor ideia de quem é você, gerar uma ligação profunda dessas, como se fosse feito pra você (aposto que todo mundo tem algumas músicas com as quais se sintam assim).
Enfim, o show de ontem valeu pra mostrar o que não somos mais, mas que ainda assim merece ser lembrado.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

acabei de reler esse livro depois de 13 anos. estranho pensar que já faz todo esse tempo,  mas a tendência é essa mesmo, eu usar números cada vez maiores para indicar coisas que fiz no passado... ganhei ele no meu aniversário de 12 anos, quando estava começando a me interessar por música e principalmente rock nacional dos anos 80. a primeira banda a realmente me interessar foi a legião urbana. muitas outras eu só fui realmente conhecer no decorrer dos anos (tipo ouvir com atenção alguns cds, procurar outras referências) e era comum eu pegar o livro pra consultar o capítulo que falava dela. de lá pra cá, acabei me interessando por engenheiros do hawaii, nenhum de nós, plebe rude, ira!, barão vermelho, paralamas do sucesso e lobão.

claro que ler em 98 e em 2011 foram duas experiências completamente diferentes. pensando agora todo esse tempo maturou e ampliou muito meu gosto musical, mas sem dúvida esse livro representa um pontapé inicial, o momento em que eu comecei a gostar de maneira mais sólida de algo do mundo adulto. lembro que cada linha do livro era uma imensa novidade. conhecer nomes, bandas, discos, histórias. eu não sabia nada e por isso era bem empolgante. muita coisa passava batida como as citações de bandas estrangeiras e estilos, como dead kennedys, the clash, ac/dc, rock progressivo, new wave, pós-punk, entre muitos outros, mas bem ou mal foi o primeiro contato e me fez querer conhecer um pouco mais. agora o legal é perceber que consigo entender quase a totalidade do livro (bom, no mínimo eu sei do que o autor está falando).
em 200 e poucas páginas o autor condensa o surgimento do rock no brasil, fazendo uma preparação de terreno com o que aconteceu nos anos anteriores (jovem guarda e tropicalismo, po exemplo) até o surgimento de bandas que realmente foram os pilares do rock brasil e que fizeram a estética e a atitude do rock ser levada a sério no mainstream, como legião, titãs, paralamas, barão vermelho. pela primeira vez grupos de rock nacionais lotavam casas de show e vendiam milhões de discos. claro que não se resume a isso e nem acho que seja o mais importante, mas reconheço o quanto isso foi um divisor de águas. dezenas de bandas médias e pequenas, que por um motivo ou outro não chegaram a fazer tanto sucesso (de crítica, público ou ambos), mas que ainda assim eram a prova de que algo novo e forte estava acontecendo no cenário musical do brasil.

fica nisso, um misto de nostalgia pessoal ao retomar histórias que estão na base do meu gosto musical e o gosto por informações e histórias interessantes.