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sexta-feira, 3 de julho de 2015

Algumas linhas sobre "O Último Poema do Rinoceronte"


Esteticamente lindo e envolvente, "o último poema do rinoceronte" baseia-se na vida do poeta curdo-iraniano Sadegh Kamangar que, quando da Revolução Iraniana de 1979 (que implicou na derrubada do xá e na tomada de poder pelo aitolá Khomeini) foi injustamente preso, acusado de escrever poemas de cunho político e condenado a longos anos de cárcere, tendo sido inclusive declarado morto para sua família. 

O foco da história é Sadegh Kamangar já liberto, 30 anos depois, quando vai em busca de sua esposa e descobre que ela se casou novamente e saiu do país, indo para Turquia. Os acontecimentos do passado e seus desdobramentos vão sendo revelados pouco a pouco, através de suas lembranças, que se alternam com o tempo presente. Além disso, o filme conta com construções visuais belíssimas que retratam cenários vazios e cores esmaecidas, que transbordam a poesia de Kamangar para a tela.

É um filme essencialmente triste. O próprio protagonista parece carregar em seu rosto as marcas e o peso do passado dos quais ele não parece ser capaz de se livrar. Não há salvação possível e a própria felicidade se coloca como algo que ficou distante, perdido no passado.

Já tinha tido algum contato com esse contexto histórico (da Revolução Iraniana) com a HQ e o filme de "Persépolis", então achei ainda mais interessante o tema, principalmente pela delicadeza com que são abordados os dramas pessoais que surgem a partir de acontecimentos políticos. É aterrador pensar em quantas vidas são destroçadas por conta de diferenças ideológicas e lutas pelos poder.

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Algumas linha sobre "Ida"


e minha primeira incursão numa sala de cinema este ano não poderia ter sido melhor! Ida (2013) é um filme incrivelmente bonito, visualmente delicado e bem construído, numa sucessão por vezes brusca de quadros estáticos e frios. a fato de ter sido filmado em preto e branco e o enquadramento dos personagens na parte inferior da tela (e acima de suas cabeças grandes paredes brancas ou o céu nublado) só reforça a sensação de desconforto e vazio em que se encontram.

o filme se passa na Polônia dos anos 60 e conta a história de Anna, uma orfã crescida num orfanato católico, que às vésperas de se tornar freira fica sabendo que possui uma tia, sua única parente viva e que, por orientação da madre superiora, ela deve ir visitá-la antes de fazer seus votos. nada mais oposto à realidade daquela menina que "nunca tinha estado em lugar nenhum" do que entrar em contato com o modo de vida da tia, que mistura uma melancolia intrínseca à excessos de sexo, bebidas e tabaco. apesar do choque inicial desse encontro e de ser recebida com uma certa frieza, elas acabam se unindo pela frágil reminiscência de um passado em comum e pegando a estrada a fim de tentar descobrir onde os pais de Anna (judeus na época da II guerra) haviam morrido e sido enterrados.

não quero contar mais da história, que acaba não se resumindo à busca pelo passado perdido ou ao encontro dessas duas mulheres tão diferentes entre si. no caminho a relação entre tia e sobrinha se desenvolve, entre estranhamentos e afetos rotos, mas são mundos que nunca chegam a ser interpenetrar totalmente e que, apesar de ter um entroncamento em comum (a morte da mãe/ irmã de uma forma cruel), acabam permanecendo distanciadas. no fim da viagem, algumas perguntas são respondidas, porém outras continuam em aberto, as quais cada uma delas encara de sua própria maneira. 

a trajetória individual de Anna, antes aparentemente inequívoca, já que sem alternativas, é estremecida diante do descortinamento de seu passado e seu crescimento passa a depender também da maneira como ela aprende a lidar com essas novas formas de interação e de pertencimento ao mundo. nesse sentido, achei o desfecho fascinante, quando, após um momento de busca e reavaliação de si, acaba se sentindo pronta para optar por um caminho.

enfim, definitivamente não fui capaz de transpor a essência que tanto me agradou neste filme. vale o registro e a vontade de revê-lo.




quarta-feira, 7 de janeiro de 2015

Um pouco de cinema em 2014

Acho que não vi tantos filmes sensacionais no ano que passou. Talvez tenha tentado arriscar um pouco mais nas escolhas e visto coisas que variam entre ruins, médias e boas (mas esquecíveis).De qualquer forma, os que vêm abaixo são aqueles que acabaram por despertar mais meu interesse, cada um a sua maneira.

O Lobo de Wall Street: Ótimo roteiro e ótima interpretação do Leonardo Di Caprio (de novo), no papel de um sacana que se dá bem no mercado financeiro. O filme é ágil, inteligente e principalmente divertido, contando a história de pessoas alucinadas ganhando muito dinheiro e queimando-o das maneiras mais extravagantes. 

O Passado:  Já tinha escrito sobre ele antes (leia aqui). É um drama familiar, contado com destreza e sensibilidade, no qual os relacionamentos, passados e presentes, são expostos, revelando um redemoinho de segredos, sentimentos e problemas mal-resolvidos.

Magia ao Luar: Desde 1982, todo ano tem filme novo do W. Allen (sorte minha!). Gostei deste mais do que do Blue Jasmine (2013). Sua ambientação (sul da França da década de 20) é muito bonita e os protagonistas são cativantes. Ainda que tenha perceptivelmente um roteiro menos ambicioso, chegando a repetir alguns temas de filmes anteriores (magia/ misticismo x ceticismo) , é um filme leve e bem divertido.

Relatos Selvagens: Normalmente não gosto tanto de filmes compostos por pequenas histórias fechadas e independentes, mas este sem dúvida briga com O Lobo de Wall Street pelo título de melhor filme do ano. Roteiro genial, com humor negro e violência na medida certa, relatando situações em que pessoas normais simplesmente perdem o controle. Além disso, fiquei impressionado como a narrativa flui bem, sempre criando um impacto. Já tinha escrito sobre ele aqui.

Miss Violence: Seu maior mérito, para mim, é a forma original como trata de temas pessadíssimos como o incesto e a pedofilia e como tais perversidades tomam conta das pessoas ao seu redor. Tem uma narrativa lenta e tom seco e pesado, que acabam por passar uma sensação de repugnância, revelando aos poucos o terror de uma família atormentada.

O Critico: Ótima comédia romântica que brinca com os clichês do gênero. Conta a história de um crítico de cinema ranzinza e fechado, rigoroso em suas críticas sobre os filmes atuais (principalmente quanto às comédias românticas), que, por um "acaso do destino", passa a viver uma típica história de amor. Gostei muito da forma irônica e bem humorada como retratam o "especialista da sétima arte" e os desdobramentos de seu inesperado caso de amor.


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Algumas linhas sobre "Relatos Selvagens"


Há tempo que não saia tão empolgado de um cinema. Devo dizer que o filme é exatamente o que o título promete: uma sucessão em alto nível de relatos selvagens. 
Impressionou muito por sua originalidade e pela extrema perícia em me conduzir por aquela sucessão de acontecimentos eletrizantes, mantendo-se sempre interessante, com uma pegada dinâmica e recheado de humor negro, violência e ironias. Todas as histórias são muito boas e conseguem manter uma regularidade, prometendo muito desde a primeira, que ocorre antes dos créditos iniciais e termina com chave de ouro com um casamento no qual as coisas dão um pouco errado. Talvez o ponto alto, pelo menos para mim, seja a história do "Bombita".
Basicamente trata de pessoas comuns, que de uma maneira explosiva e não convencional tentam lidar com suas frustrações cotidianas, como um desentendimento de trânsito que perde completamente os limites ou a asfixia causada pela burocrática e ineficiente administração pública que injustamente e de forma reiterada guincha e multa um carro por estar mal estacionado. É ainda e em suma sobre a nossa realidade e nossas frustrações, tendo entre seus ingredientes o passado mal resolvido, o desejo de vingança, a corrupção nas relações humanas, a traição, a violência urbana, compondo situações factíveis e próximas de algo que vivemos ou que no mínimo ouvimos falar, ainda que com desdobramentos absurdos e que, por isso mesmo no causam risos nervosos, descrença e uma oscilação entre a negação e o reforço da forma como aqueles personagens escolheram reagir nas situações em que se encontram, nem sempre sendo bem sucedido. Afinal, entre um rompante de sagacidade ou de burrice há somente uma linha tênue.

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

algumas linhas sobre "medianeras" (ou "a solidão e a cidade" - segunda parte)

dois solitários que se esbarram mas não se encontram, uma metrópole que sufoca e deprime, um mundo cada vez mais virtual e distanciado... esses são os elementos de "medianeras", filme sensacional que conheci quase por acaso. ainda que a principio seu subtítulo tenha me deixado com um pé atrás ("Buenos Aires na era do amor virtual"), ele é muito mais do que a comédia romântica que eu temia encontrar (ainda bem!).

é fácil se identificar com tema do filme. a interessantíssima apresentação que é feita sobre buenos aires ("cidade que vira as costas para seu rio") logo na abertura serviria para a maioria das grandes cidades contemporâneas. parte-se de uma reflexão sobre a arquitetura da cidade - cheia de prédios irregulares, erguidos a esmo, conferindo um aspecto caótico à paisagem urbana - para fazer refletir também sobre como as pessoas vivem nela e convivem entre si. ao mesmo tempo, vemos emergir uma sociabilidade virtual que nos promete muito mais interação e proximidade, ainda que, na prática, se revele um tanto quanto fria e superficial.

o enredo é cheio de boas sacadas e, ainda que de maneira muito leve, nos leva a pensar sobre como é estar no meio de tanto concreto e asfalto, sentindo-se aturdido e deslocado. as pessoas vivem em espaços apertados (em suas caixas de sapato escuras), amontoados e organizados como podem e mesmo dividindo espaço com milhões de habitantes estão cada vez mais isoladas e solitárias. nesse contexto a internet torna-se cada vez mais (oni)presente, substituindo em tudo quanto possível o convívio e o contato direto entre as pessoas (fios e cabos que servem pra nos apoximar ou nos manter cada um em seu lugar?).

nesse cenário um tanto quanto desolador, somos apresentados a Martin e Mariana, dois jovens que moram sozinhos em buenos aires. ele um webdesigner, um "fóbico em recuperação", ela uma arquiteta que trabalha como vitrinista, e que tenta lidar com o término de um relacionamento. ambos têm muita coisa em comum (e creio que com muitos de nós também), são um tanto quanto antissociais e têm suas próprias mania e limitações, o que oscila entre o trágico e o cômico. são dois deslocados na cidade em que vivem, tentando sobreviver a ela e às lembranças indesejáveis e a crônica falta de contato humano de que sofrem. até tentam se adequar e construir algum tipo de sociabilidade, ainda que virtual, mas não conseguem muito bem. continuam se sentido dois perdidos na busca de algo que não sabem bem o que é (e nisso a referência a "Onde está o Wally" é simplesmente genial). 

interessante perceber o quanto o espaço urbano afeta diretamente os personagens, sendo que seus sentimentos e humores estão ligados à maneira como se inserem nele. exemplo significativo nesse sentido é o quanto a entrada da luz do sol, a partir de uma janela irregular construída na medianera do prédio, muda perceptivelmente os ares des seus pequenos apartamentos e o próprio desenrolar de suas histórias.

por fim, o mais legal de tudo, é a competência em contar essa história de maneira tão agradável e bem humorada. Buenos Aires, Martin e Mariana são três protagonistas adoráveis (ainda que cheios de problemas) e algumas situações fazem rir justamente pela identificação que causam e por um sutil mas sempre presente toque de ironia.

tenho certeza que não consegui fazer jus ao filme, que é mais legal do que esses meus parágrafos. assistam que vale bastante a pena (tem no netflix e no youtube).

sexta-feira, 18 de julho de 2014

"A solidão e a cidade"

"- (...) tenho um método totalmente involuntário. um gene budista que faz meus dias felizes não tão felizes e meus dias tristes não tão tristes.
- um termostato da alma."


ia falar sobre o filme como um todo, mas foda-se. fiquemos apenas com essa pequena definição de um certo tipo de gente com a qual me identifico e que a genética e buda explicam tão bem...

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Algumas linhas sobre "O Passado"

Filme mais recente do diretor iraniano Asghar Farhadi, que ficou famoso por "Uma Separação " de 2010, que chegou a ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro (e que eu não vi).

Conta a história de um iraniano que vai para a França, a fim de formalizar seu divórcio com Marie, quatro anos depois de sua partida. Lá reencontra-se com a sua ex-mulher e as filhas dela (de um casamento anterior), Lucie e Lea e acaba conhecendo também o homem com quem Marie está envolvida, Samir, e seu filho, Fuad. O que começa como uma situação aparentemente sob controle (ainda que incomôda), vai se mostrando cada vez mais tensa e conflituosa.

É basicamente um grande drama familiar que se desvenda aos poucos, mostrando as relações dolorosas e cada vez mais complexas nas quais se inserem aqueles indivíduos. No começo sabemos muito pouco sobre as motivações de cada um e é muito lentamente que vamos entrando em contato (ainda que nunca totalmente) com aquelas pessoas. Como uma sombra, o passado a que remete o título afeta a todos de diferentes formas. A filha mais velha, Lucie, se opõe ao novo casamento da mãe e se mostra bastante arredia por algum motivo. A (ex) mulher de Samir está em coma, também por motivos desconhecidos de início. O próprio Ahmad se vê envolvido até o pescoço com os problemas da família que deixou pra trás, sendo que, inclusive sua situação com Marie se mostra um tanto quanto mal-resolvida. As camadas de complicações vão se sucedendo e se acumulando gradativamente e a história toda fica cada vez mais problemática e de difícil solução. As crianças, Lea e principalmente Fuad, são especialmente afetadas, ficam no meio de todas as brigas sem conseguir entender o que está acontecendo.

A atmosfera toda do filme é triste e pesada, mas sem nunca cair no melodramático ou no simplório. São pessoas normais, em suas vidas comuns, lidando com situações passíveis de acontecer com qualquer um. E acho que o que mais me prendeu à narrativa toda tenha sido justamente essa capacidade de se contar uma história dessas com muito equilíbrio e honestidade. Não cai na tentação de se facilitar tomando partido e definindo quem está certo e o errado, ou quem praticas boas ou más ações. São somente pessoas sendo pessoas, lidando com seus anseios, ciúmes, remorso, raiva, insegurança, da melhor forma que conseguem e por isso acabam, justamente por isso se machucando e machucando os outros a seu redor. Mas para mim é justamente dessa sensibilidade em captar a fragilidade humana que nasce a maior qualidade do filme.



quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Cinema em 2013

Com certeza não vi tudo o que queria no cinema no ano que passou. Muitas vezes falta tempo, dinheiro ou disposição. Mas enfim, daquilo que eu vi acho que os seguintes merecem ser relembrados:

Django Livre  - Inevitável que este estivesse aqui.  Aguardava com curiosidade esse novo filme do Tarantino, dessa vez com uma temática western que me atrai bastante. A parceria entre o caçador de recompensas e o escravo Django deixa a história bem interessante, assim como sua posterior jornada para enfrentar um poderoso aristocrata e libertar sua esposa, carregada de tensão e claro, muita violência e litros de sangue.

No - O Gael Garcia Bernal é um puta ator e a história é contada de forma muito interessante. Baseado em fatos reais, passa-se no Chile, na época da ditadura militar e mostra os esforços da oposição em defender e propagar seu posicionamento político no momento em que o governo é pressionado a propor um referendo sobre a permanência ou não do Pinochet no poder. Gostei muito do enfoque dado ao marketing como arma política num país controlado.

Anna Karênina - Uma história grandiosa, contada de forma exuberante. Essa versão tem umas ousadias estéticas que me agradaram, como sugerir em alguns momentos pedaços de um palco, como se a cena se passasse no teatro. Gostei muito da direção de arte e da atuação da Keira Keithley e do Jude Law.

Hannah Arendt - Filme lento, de ideias. Mostra uma mulher brilhante e intensa, num dos episódios que marcaram sua vida intelectual, quando de maneira polêmica e corajosa analisa o julgamento de um ex-oficial nazista (Eichmann). Na contramão das opiniões da época questiona a pretensa "monstruosidade" que queriam atribuir a ele, bem como a resposabilidade dos líderes judeus na forma como conduziram as decisões relativas a seu povo na época do holocausto. Enquanto filme não é nenhuma maravilha, mas me interessou muito por me aproximar ainda mais da admirável pensadora que foi Arendt.

Pedalando com Molière - Dois atores se encontram para fazer leituras dramáticas de "O Misantropo". Um deles, ator famoso, tenta convencer o outro, um recluso, afastado há anos dos palcos, a encenar essa peça. O tema da misantropia (desgosto pela sociabilidade, ódio pela humanidade) vem à tona e é trabalhado no filme (pr'além da peça) de forma muito instigante, principalmente na relação de amizade e de rivalidade que eles nutrem um pelo outro.

Gravidade - Gostei muito do foco da história, que é a sobrevivência quase como instinto. Não há atos de heroísmo e nem grandes peripécias e o ser humano é colocado como totalmente vunerável, exposto à força avassaladora da natureza, o que causa uma constante aflição. A protagonista tem muito medo e pouca coisa a fazer para se salvar, devendo inclusive vencer suas barreiras psicológicas. O final é inspirador e emocionante, tanto como desfecho quanto como metáfora sobre o (re)nascimento. O filme visualmente é lindo, com o espaço sendo retratado de maneira grandiosa.

Vovô sem Vergonha - Com Johnny Knoxville (aquele do Jackass) no papel de um avô que viaja o país para levar o neto para morar com o pai, é para quem gosta de filmes tipo Borat, em que as cenas são gravadas sem que as pessoas que participam saibam, sendo surpreendidas com as situações mais inusitadas e absurdas pelos atores. Recheado estupidez e escatologias variadas, me fez sair do cinema com o rosto doendo de tanto rir. O molequinho que faz o papel do neto é um sarro e a última cena dele é a melhor do filme.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

algumas linhas sobre ''a lista de schindler"

depois de muitos anos na minha lista de filmes a assistir, finalmente tive a oportunidade de encarar as mais de 3 horas de duração de "a lista de schindler". 

antes de tudo tenho que dizer que, apesar de ser longo, ele transcorre de maneira muito suave e agradável, prendendo a atenção do espectador e mantendo um bom ritmo durante todo o filme. não posso dizer que tenha havido alguma passagem que eu considerasse desnecessária ou enfadonha. cenas de extrema degradação e violência são constrastadas com a opulência dos oficiais nazistas, numa fotografia em preto e branco belíssima, que acentua a crueza e o horror sempre presentes.

Liam Neeson está ótimo no papel de Oskar Schindler, um personagem sedutor e cheio de si, mas para mim quem rouba a cena é o contador judeu Itzak Stern, que mesmo ciente da situação desesperadora em que se encontra, consegue manter-se numa certa posição de dignidade, sóbrio e comedido, conquistando a confiança e admiração de Schindler.

a história mantem-se o tempo todo interessante, contada com maestria e que consegue, sem dúvida sensibilizar e chocar. conta, em linhas bem gerais, a história de Oskar Schindler, empresário alemão e membro do partido nazista que, com o intuíto de ganhar muito dinheiro, se propõe a empregar mão de obra judia (pela qual se pagava menos) em sua fábrica. o que a princípio era somente um "aproveitar-se da situação" (que envolvia contar com investimento de judeus e conquistar a simpatia do governo, para contar com vantajosos contratos), acaba ganhando contornos humanitários, quando trabalhar na fábrica de Schindler torna-se uma segurança para centenas de judeus que viam dia a dia suas condições de vida se precarizar. mesmo que não compartilhando o sentimento anti-semita dos outros nazistas, o empresário está mais preocupado em maximizar seus lucros, mas acaba tomando partido na tentativa de salvar o máximo possível de judeus e, graças a sua influência com os oficiais nazistas e despendendo a fortuna que conseguiu juntar, ele suborna o comandante do campo de concentração, para que os trabalhadores de sua fábrica pudessem ser levados para Tchecoslováquia e não para Auschwitz, para trabalharem numa fábrica munições. Mesmo correndo o risco de contar uma parte que eu não deveria da história, chega a ser engraçado quando ficamos sabendo que nos sete meses em que a fábrica funcionou ela foi (propositalmente) um exemplo de ineficiência, na qual  Schindler gastou todo o restante de sua recem adquirida fortuna.

o que se vê na tela, e o que mais me espantou, é a crescente negação da humanidade dos judeus. mais do que um grupo a ser exterminado, eles perdem completamente sua condição de seres humanos, passando as mais degradantes humilhações, contra as quais mal podiam resistir. tornam-se um número, seres indesejáveis, desprezíveis, incomôdos na sua existência e na sua morte, contra os quais a única preocupação passou a ser como eliminá-los da formas mais eficaz. fica no ar a pergunta, difícil de responder, de como é possível que se possa negar, com tanta convicção e naturalidade os direitos mais básicos de dignidade a parte do seres humanos. a despeito do anti-semitismo histórico e sempre presente, qual é a lógica que opera num regime que em poucos anos consegue convencer todo um país de que faz-se necessário que uma parte enorme das pessoas devam deixar de existir, deixar de ser reconhecidas como pessoas, num processo que desarma e subjulga de tal forma as vítimas, que elas se veem sem condição de resistir ou reagir, submetendo-se totalmente ao seu algoz.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

algumas linhas sobre "levada da breca"



tinha quase nenhuma referência para assistir à "levada da breca" ("bringing up baby", no original), de 1939, além de saber que seu diretor, howard hawks, é um nome importante da fase clássica de hollywood. continuo sem ter muitas informações, mas pelo menos agora sei que é dele um dos filmes mais divertidos que pude ter a oportunidade de assistir. poucas vezes na vida achei um filme tão engraçado. justo eu, que adoro comédias e que por isso mesmo sempre me decepciono, talvez por esperar demais que elas me façam rir.

a história em si não é tão original. fala sobre um zoólogo que está as voltas de seu casamento, do término de seu trabalho de anos reconstituindo o esqueleto de um brontossauro e a oportunidade de se levantar uma gorda doação para suas pesquisas. claro que nada poderia ser assim tão simples e o atrapalhado cientista acaba cruzando com uma simpática maluca que desde o início o coloca nos mais diversos apuros, se apaixonando por ele depois. tudo bem sessão da tarde, mas esse filme tem uma inocência e uma genuidade que o torna muito cativante.  o casal protagonista é muito engraçado interagindo e os outros personagens, num tipo de humor rápido e insano, também acabam agradando bastante. a sucessão de maluquices e mal-entendidos vai crescendo incessantemente, como uma bola de neve e te leva junto, ansioso por saber onde tudo aquilo vai parar. o ponto alto da história e das gargalhadas da platéia se dá quando todos se encontram na delegacia, em uma avalanche de situações insólitas e dialógos rápidos.

tão doce e ingênuo quanto cômico, foi uma boa descoberta, que compensou te ficado de olho  na programação do que rola de cinema em são paulo, apesar de no início eu ter ficado com um pé atrás pela sinopse e pelo nome do filme (sim, isso acaba importando e não tem como ler o título em português e não fazer referência à "Punky, a levada da breca" que passava no sbt na minha infância). esse, no caso, passou no centro cultural de são paulo, como parte da mostra howard hawks e valeu cada centavo do r$ 1,00 que me cobraram de entrada.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

algumas linhas sobre "somos tão jovens"

posso dizer com certa segurança que a legião urbana é a banda da minha vida. afinal, foi a primeira que eu realmente gostei e que continuou por anos a fio sendo a minha favorita. se hoje eu quase não ouço mais, ainda reconheço a extrema importância que ela teve e tem para mim e para o cena musical brasileira e principalmente a potência e alcance de suas músicas. cada uma delas é uma descoberta de força e beleza.

por conta disso, não precisaria dizer que assistir ao "somos tão jovem" era quase que obrigatório pra mim. foi muito interessante ver aquela época sendo retratada no cinema, de maneira tão viva. uma garotada querendo transformar ócio em música e contestação, tentando fazer alguma coisa diferente. e mesmo que o foco tenha sido especificamente o renato russo (expoente maior daquela geração?), é muito interessante ver toda a turma ao seu redor, da qual inclusive surgiram outras bandas relevantes como a plebe rude e o capital inicial.

gostei muito do ator que fez o renato russo, achei convincente, inclusive na maneira de falar e nos trejeitos. passou bem a sensação que eu sempre tive de uma pessoa muito cheia de grilos e manias, intensa, inteligente, sensível, carismática e, por que não dizer, quase arrogante.

o filme retrata de 78 a 82, ou seja pega o surgimento e o fim do aborto elétrico e o início da legião urbana, ainda enquanto banda regional e sem sua formação definitiva (com o bonfá na bateria e o dado na guitarra). e pra mim esse recorte veio muito bem a calhar, pois valoriza justamente uma parte da história menos conhecida e muito vibrante, quando tocar rock era nadar contra a corrente. aquela geração teve que correr atrás e aprender  tudo praticamente sozinha, com a gana de quem encontrou ali uma forma de se rebelar contra tediosa brasília e a situação política e social do país.

pra não ficar só elogiando o filme, tem algumas cenas que me soaram artificiais e gratuitas. elas até retratam algum acontecimento interessante, mas parecem destoar da fluxo da narrativa e deixam a história um tanto quanto truncada. mas em resumo, "somos tão jovens" é o tipo de filme com o qual eu tenho uma forte ligação afetiva, então é quase impossível que eu não goste.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Cinema em 2012!

Fui pouco ao cinema em 2012, muitos filmes preferi esperar pra ver em casa, inclusive pelo preço abusivo dos ingressos. Ainda assim, acho que alguns deles merecem ser citados aqui, até como forma de relembrar:

Os Vingadores: gosto muito de filmes de super-heróis e ver um monte deles juntos na tela arrebentando tudo foi bem divertido. Nada de novo, óbvio, mas estava na expectativa há alguns anos e não me decepcionei.

Flores do Oriente: Se passa na China e trata da guerra sino-japonesa e dos esforços de um americano, a princípio meio insensível, de proteger algumas jovens que viviam numa igreja, contando com a ajuda inesperada de prostitutas que também buscam abrigo na igreja. História contada de uma maneira bela e tocante, como não poderia deixar de ser.

Para Roma com Amor: Woody Allen! Só isso já justificaria minha ida ao cinema. Definitivamente não é o meu preferido do diretor, mas isso não importa... é um ótimo filme, tem aquela atmosfera agradável e tão característica, ótimos diálogos, personagens carismáticos, situações inusitadas e cômicas. Divide-se em quatro histórias, todas elas com a cidade de Roma como pano de fundo. 

Batman: Cavaleiro das Trevas Ressurge: Sou muito fã desse batman do Nolan e esperei pacientemente o desfecho da trilogia. Gosto da profundidade da trama e do personagem, construído a partir do trauma e da dor, fazendo surgir um herói mais sombrio e humano. Como pontos negativos estão o excesso de voltas que a história dá (tornando-se prolixo) e o teor excessivamente caótico dos acontecimentos, que desviam um pouco o foco do batman com o qual estava acostumado. mas isso acho que é reflexo do meu excesso de expectativa.

007 - Operação Skyfall: Acho James Bond uma figura interessantíssima, um clássico, ainda que me entedie um pouco a fórmula exaustivamente repetida de seus filmes por 50 anos. Justamente por isso me agradou este novo filme da franquia, que traz um 007 mais taciturno, um veterano tendo que provar mais uma vez o seu valor. Gostei também da relação mais próxima com a M. De resto, tiros, espionagem e a elegância caracterísitica do James Bond.

terça-feira, 6 de março de 2012

o que eu aprendi com "a dama de ferro":

"Vigie seus pensamentos; eles se tornam palavras.
Vigie suas palavras; elas se tornam ações.
Vigie suas ações; elas se tornam hábitos.
Vigie seus hábitos; eles formam seu caráter.
Vigie seu caráter; ele se torna seu destino."

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Terras das Oportunidades parte 2 - Manderlay

manderlay segue a proposta estética de dogville em sua quase ausência de cenário (lembrando muito nesse ponto uma peça teatral) e segue a história do anterior basicamente de onde ela parou. ainda estão presentes a mesma maneira de divisão do filme por capítulos e um narrador irônico que acompanha todo o desenrolar da história. um ponto negativo para mim foi mudança da atriz da personagem .
dessa vez o tema do qual se parte é mais específico (a escravidão nos EUA) e talvez por isso mesmo menos impactante inicialmente, apesar de podermos expandir seus resultados e nos surpreender com eles.
após sair de dogville, grace se depara com uma fazenda na qual a escravidão dos negros ainda perdura, 70 anos após sua abolição. ela se indigna com aquilo e, com a morte da senhora dona dos escravos ela os declara livres. receando que não soubessem o que fazer com aquela liberdade recém conquistada e convicta de que poderia fazer algo por eles, ela acaba decidindo ficar no lugar para ensiná-los a se auto-organizarem e cultivarem sua liberdade como algo positivo.
claro que nem tudo sai como ela planeja, uma série de problemas surgem na comunidade quando a relação senhor e escravo é rompida. o que nos leva a pensar que, por mais que eles estivessem numa condição anteriormente de sujeição, ainda assim havia uma lógica social em funcionamento, uma acomodação na qual ambos os lados estavam inseridos. podemos perceber de maneira clara o quanto uma relação de dominação, a partir da interiorização do status quo, pode ser dupla, desejada por ambos. E não só desejada, já que ela só pode se manter através da aceitação geral. grace só percebe isso após muito tempo, o que nos sugere a ingenuidade ou ineficiência de sua ideia de liberdade a qualquer preço, antes da emancipação do pensamento.
podemos expandir as conclusões que o tema traz e refletir justamente sobre como funcionam a dinâmica entre dominantes e dominados em qualquer relação social (seja entre classes inteiras ou entre indivíduos). a partir do momento em que o mundo como nós o conhecemos faz todo sentido e molda profundamente a identidade dos seres humanos e a maneira como devem se relacionar, fica extremamente difícil sair daquela condição. e isso é que grace e nós descobrimos de maneira amarga no decorrer do filme. a escravidão é desejável para aquelas pessoas na medida em que tal condição os insere no mundo a partir de uma ideologia já conhecida e tornada legítima. é o oprimido que muitas vezes que ratifica e cristaliza sua condição. quase como que dizendo que a vida é mais fácil de ser vivida daquela maneira (acho até que falam algo de ser mais fácil viver culpando os outros pelo mal do que a si mesmo). e perder a senhora a quem deviam obediência os desnorteia e os faz desejarem tentar recuperar a situação perdida. tanto é que eles acabam usando a assembléia e votação (instrumentos democráticos que grace se esforça para introduzir na comunidade) para escolherem quem seria sua nova senhora, responsável para manter a lei conforme sempre foi.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Terra das Oportunidades parte 1 - Dogville

pude ver no último final de semana dois ótimos filmes do polêmico diretor lars von trier: dogville (2003, que eu já tinha visto uns dois anos atrás) e manderlay (2005). ambos surgiram inicialmente como parte de uma trilogia que tem como tema central os EUA (USA: Lands of Opportunities), apesar da terceira parte (Wasignton) nunca ter sido lançada.
sou fã do diretor, principalmente pelo seu tom provocativo, apesar dos filmes deles me causarem um certo mal-estar indefinido. acho que têm em comum (pelo menos os que eu vi) um pessimismo intrínseco, uma perversão e crueldade do ser humano, por mais indefinível que isso possa parecer.

no caso específico desses dois filmes, o grande diferencial está no fato de eles praticamente não terem cenário, se resumindo a linhas marcadas no chão e alguns poucos móveis. não sei dizer ao certo qual a intenção do diretor (e nem se há de fato uma intenção clara), só sei dizer que pra mim essa peculiaridade soa como uma tentativa raio-x, que foca os personagens em seu íntimo e em suas relações, em detrimento de todo o resto, que poderia ser interpretado como superficial; uma desmontagem daquilo que não importa, quase que desnudando os indivíduos ali presentes e narrativa da qual fazem parte.

no primeiro filme, a história gira em torno dos "amáveis cidadãos" de um pobre e pacato vilarejo perdido no meio-oeste americano, que ao serem surpreendidos com uma fugitiva em seus domínios precisam escolher se arriscam e lhe dão abrigo ou se a entregam para os gângsters que estavam em sua busca. a princípio, Grace, a moça fugitiva é aceita e tem duas semanas para se integrar à comunidade e convencer os cidadão de dogville de que seria bem vinda ali e para tanto ela passa a se oferecer para ajudar os outros habitantes. o que inicialmente parece uma boa estratégia se torna a sua perdição. é através desse estado de servidão e complacência que dogville começa a mostrar suas presas. ela se torna escrava de sua situação, passa a ser ameaçada e acaba se sujeitando as mais humilhantes situações. mesmo assim, a garota acaba justificando o comportamento dos cidadãos, culpando as circunstâncias em que vivem. claro que há uma grande reviravolta em sua maneira de ver as coisas, depois de uma espetacular conversa com seu pai e, depois de uma profunda crise moral ela chega a conclusão de que o mundo seria um lugar melhor sem a existência de dogville.

se sobressai e choca acompanharmos a ideia de que bastou a oportunidade para que aqueles bons indivíduos mostrassem seu lado sombrio e perverso, escravizando a garota, destituindo-a de sua humanidade, de maneira que ela passou a ser tratada como um objeto ou animal, útil às suas necessidades e só. sempre amparados por argumentos hipócritas e cínicos os habitantes de dogville "absorvem" aquele ser forasteiro de maneira mesquinha e egoísta.

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

um pouco sobre cinema em 2011

acho que o ano que passou foi um pouco mais fraco em relação aos lançamentos de filmes, apesar de eu também não poder afirmar isso com muito certeza, já que acabei não vendo muitos que me interessaram (como "melancolia" e "a pele que habito", por exemplo)...
mas se eu tivesse que destacar alguns, sem pensar muito já citaria "cisne negro" e "meia- noite em paris" (sobre os quais já falei aqui e aqui). sem dúvida foram os mais impactantes e cada um a sua maneira são muito cativantes e bonitos...
além desses dois que para mim estão bem acima de todos os outros, acho devo citar, os seguintes filmes:

1) "você vai conhecer o homem dos seus sonhos": ótimo filme sobre as idas e vindas dos relacionamentos, bem à maneira das histórias do woody allen. parte da ideia shakesperiana de que  "a vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, e que não significa nada";
2) "bravura indômita": refilmagem de um clássico western. ótimo filme sobre vingança e obstinação;
3) "x-men: primeira classe": pra mim o melhor filme dos x-men. gostei muito da forma como a história sobre a origem dos grupos de mutantes foi contada, da amizade entre o professor xavier e o magneto à posterior rivalidade que surge, por pensarem diferente;
4) "piratas do caribe 4: navegando em águas misteriosas": apesar de já sentir um pouco desgastada a franquia, pra mim é sempre um bom programa ver o capitão jack sparrow em suas andanças por aí;
5)  "o palhaço", uma bela história sobre uma pessoa simples na busca da sua identidade e do seu lugar no mundo. um palhaço melancólico é sempre uma figura interessante. "Eu faço todo mundo rir, mas quem é que vai me fazer rir?".

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

alguma linhas sobre "meia-noite em paris"

vi já faz um tempo, mas queria escrever alguma coisa sobre ele...

talvez deva começar com "encantador". só pelo diretor já me sentiria na obrigação, mas além de tudo é um ótimo filme, mágico, divertido, muito gostoso de se assistir (as boas sacadas e o humor refinado, típicos do woody allen estão presentes aqui). o tema central da história é basicamente a nostalgia, a saudade de algo que nunca vivemos, mas que romantizamos, idealizamos e que, por isso gostariamos vivenciar (o comum "gostaria de ter vivido aquela época"). quando olhamos a nossa volta e vemos tudo de uma maneira mais apaixonante e envolvente. e é a cidade de paris, como ela se apresenta ao protagonista, que causa essas sensações.
ele é uma figura um tanto quanto ingênua e romântica (pode-se até duvidar de sua sanidade, apesar de eu preferir ver através de seus olhos), nadando contra a corrente da vida prática e do cotidiano, representados pela sua noiva fútil e pelo seu trabalho de escritor de roteiros. tudo o que quer é se deixar levar por pequenos momentos (caminhadas sob a chuva, conversas em cafés) enquanto tenta se inspirar para escrever um romance. e tudo fica ainda mais interessante (para nós e para ele) quando é meia-noite em paris.

ainda vou assistir de novo.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

algumas linhas sobre "cisne negro"

confesso que fui assistir a esse filme com um pouco de preguiça, achando que não corresponderia as expectativas que muitos comentários me fizeram ter. o fato é que não sabia o que esperar, mas o que eu encontrei foi de tirar o fôlego.

o grande tema aqui é a busca obssessiva pela perfeição, reinventar-se, ultrapassar limites fisicos e psicológicos em favor da arte e o processo doloroso e auto-destrutivo que isso se torna. Mais ainda, a beleza estética e artística está muito mais próxima do que se imagina do horripilante, do insano. Sem querer entrar em detalhes quanto ao roteiro, o cisne negro representa de certa forma o oposto de Nina (e do cisne branco presente também no balé e no filme) e para ela, assumir tal papel é também deixar de ser quem ela é.
 
a história  tem uma atmosfera constantemente tensa e assustadora, que incomoda e absorve. parece o tempo todo que algo está para acontecer. me senti realmente imerso na psicologia da personagem principal, com suas angústias e obsessões no espaço sufocante no qual ela se insere (a extrema cobrança de si mesmo em ser perfeita, a inveja das outras bailarinas, a vida que se resume entre casa e o balé, uma mãe superportetora...). e acho que é desnecesário dizer que a natalie portman tem uma atuação empolgante.
 
enfim, há uma infinidade de pontos que eu nem de longe toquei aqui (a sexualidade de Nina e sua relação com os outros personagens, principalmente Lily e o Thomas, o diretor, por exemplo), mas fica aqui o registro de quanto o filme me absorveu.

(ah, a cena em que ela finalmente dança o cisne negro é simplesmente maravilhosa, arrepiante!)
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"eu senti. foi perfeito."

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

algumas linhas sobre "tropa de elite 2"

assisti novamente ao filme esse sábado (merecia ser revisto) e talvez tenha agora um pouco mais de clareza sobre as impressões que fiquei dele. desde que soube que tropa de elite teria continuação fiquei com muitas expectativas e com a proximidade da estreia a ansiedade só aumentou. sou muito fã do primeiro, por motivos semelhantes pelos quais adorei sua continuação.

primeiro de tudo que o filme é fortíssimo, tem uma trama muito bem estruturada que prende do início ao fim (pelo menos não lembro de ouvir opiniões ao contrário) e que de certa forma incomoda. a partir do ponto de vista do coronel nascimento, nos vemos afundando num mar de lama do qual é quase impossível sair. o "sistema" vai engolindo a tudo e a todos, dando a sensação de que não há muita escapatória.

se no primeiro as atenções se voltavam para a violência em sua expressão mais direta e a dinâmica microssocial que ela supunha (a tensa relação entre o bope, a policia, os traficantes e segmentos da sociedade de modo geral), a sequência nos traz um cenário mais amplo, que faz a violência das ruas desembocar no gabinete do governador (e por que não lá em brasília, conforme sugere uma das últimas cenas?) mostrando o quanto tal situação é movida por interesses políticos. ou seja, nós é exposto de maneira clara o quanto as ações de aparelhos do Estado (como o Bope ou o serviço de inteligência, nos exemplos do filme) são movidas por politicagem e não necessariamente por um "sentimento de dever". achei interessante essa noção (óbvia, mas nem sempre escancarada) de que toda bala tem por trás de si um histórico, um tenso jogo de interesses e de luta por poder. a indústria de violência e da corrupção tem raízes muito mais profundas do que pode-se supor num primeiro momento.

em ambos os filmes gosto da maneira como a questão da violência (e seus desdobramentos) é tratada. nunca de maneira superficial ou maniqueísta. não há nada simples, não há o certo e o errado indubitável. as situações, conforme se apresentam, são justificáveis por alguns e condenáveis por outros. o próprio "herói" do filme tem seus excessos e seus desvios de caráter. ele não está lá para ser celebrado como salvador da pátria. ele próprio se angustia e cria problemas para si nas relações com as pessoas que gosta. apesar de extramente cativante, é um personagem complexo, que nos expõe de maneira clara que ele é mais um dentro daquele intenso jogo, da relação quase caótica entre diversos grupos. ele próprio reconhece que muitas de suas ações não são exatamente elogiáveis ou que, no mínimo trazem desdobramente problemáticos. é impossível legitimarmos e defendermos todas as ações ou posições ideológicas do protagonista ou da "tropa de elite". ambos estão inserido num contexto do qual ninguém tem uma visão ampla e isenta. cada um está ali pra defender o seu.  é um retrato um tanto quanto cru e cruel, mas, na minha opinião, muito bem feito, na medida em que nos instiga a pensar de maneira complexa no todo.

bom, desnecessário falar que tecnicamente o filme é muito bem feito e não é à toa que tem levado tantas pessoas ao cinema.é um bom filme de ação (mas espero que esse seja só um dos muitos aspectos a serem levados em conta ao se assistí-lo). além disso merece ser sublinhada a excelente atuação do wagner moura no papel de um coronel nascimento treze anos mais velho, cansado e sob constante tensão.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

"os idiotas", de lars von trier.
estranho como não sei direito o que pensar desse filme, como se não houvesse um "chão", uma "base" da qual partir um entendimento.
tudo é muito estranho e nem esse estranhamento eu consigo racionalizar direito.
trata-se de um grupo de pessoas que se reunem para fazer "idiotices" (bancarem os doentes mentais) entre si e em situações do dia-a-dia.
claro, isso gera muitas cenas engraçadas, mas é também algo meio angustiante.
percebe-se que aquilo ali não é comédia.
também discordo que seja "uma forma de protesto", como li alguém defender ou que tenha um significado qualquer (pelo menos que seja perceptível de pronto).
até para os próprios personagens, aquilo não tem um significado coerente.

seria algo meio niilista?
vejo a negação de muitas coisas, mas de uma maneira velada e esquizofrênica.
acho o foco (pelo menos consegui digerir melhor assim) seja realmente as sensações que geram aquelas situações despropositadas.
e se isso importar, achei o filme tenso e pertubador (por que exatamente, não sei).
o jeitão de documentário com o qual ele grava meio que enfatiza essa tensão e a agonia.

aliás estranho como os filmes desse diretor são sempre pertubadores.
sinto que os seres humanos são retratados sempre de maneira mais nua e crua (cruel?), principalmente sem o glamour do cinema.
seus personagens são deploráveis e se relacionam uns com os outros (e consigo mesmo) de maneira caótica.
mas também não sei exatamente o que pensar sobre isso...