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sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

"o pensamento não é neutro; ou ele é confirmação do estado das coisas, ou é crítico e transformador das subjetividades na direção de um pensamento lúcido entrelaçado a práticas lúcidas em tempos obscurantistas"

(TIBURI, Márcia. "Como Conversar Com Um Facista", Ed. Record)

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partindo do princípio, muito claro para mim, de que o pensamento não é neutro (pensar em algo é não pensar em todas as outras coisas, é estabelecer uma ordem para as ideias e para o mundo), podemos utilizar nossa capacidade cognitiva e reflexiva para transformar ou simplesmente reforçar o status quo. podemos ser meros replicadores do passado estabelecido ou propor e considerar novas posturas frente a eternas questões. 

porém, considerar-se questionador ou somente opor-se ao estado das coisas não basta. a crítica por si só é limitada em sua capacidade de transformar e induzir o processo dialético. tanto quanto possível, há que se buscar, enquanto sujeito, a lucidez teórica e prática como forma de combater o obscurantismo que sempre ronda muito perto todas as nossas formas de pensamento.

por que eu estou dizendo isso? não sei exatamente. um pouco talvez pelo desalento que me causa ver a vontade e a ação transformadora se deixarem seduzir tão facilmente pelo atalho das ideias pré-concebidas. me pergunto (e já sei a resposta) até que ponto é válido supor-se crítico quando o que se faz, na verdade, é substituir um pensamento obscurantista por outro, com a aparência um pouco mais moderninha...

acho que é isso. que venha 2016...

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Uma coisa sobre Victor Hugo

"Pensar no prolongamento das coisas defuntas e no governo dos homens por embalsamamento, restaurar os dogmas em mau estado, tornar a dourar a caixa de relíquias, renovar os claustros, tornar a benzer relicários, reviver as superstições, reabastecer o fanatismo, colocar novos cabos nos sabres e nos aspersórios, reconstituir o monaquismo e o militarismo, crer na salvação da sociedade pela multiplicação dos parasitas, impor o passado ao presente, tudo isso parece estranho. No entanto, há teóricos para essas teorias. Esses teóricos, aliás pessoas de espírito, têm um procedimento bem simples, aplicam ao passado um reboco a que dão o nome de ordem social, direito divino, moral, família, respeito pelos antepassados, autoridade antiga, tradição santa, legitimidade, religião; e vão gritando: 'Vejam! Tomem isso, homens de bem!'. Essa lógica também era conhecida dos antigos. Cobriam de cal uma novilha preta, e diziam: "É branca"."

(HUGO, Victor; Os Miseráveis, p. 557)
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Impressionante como Victor Hugo escreveu essas linhas há mais de 150 anos e se encaixam PERFEITAMENTE na nossa realidade! Em pleno ano de 2015 (não que isso faça muita diferença) vemos crescer de maneira generalizada os brados acalorados pelo militarismo e, se não pelo monaquismo (vida em retiro, totalmente consagrada a Deus no silêncio, na penitência e no trabalho), pelo menos por algum tipo muito peculiar e ferrenho de "religiosidade" que tem na bancada evangélica do congresso nacional a sua mais alta e perigosa representação. Há uma tentativa recorrente e cada vez mais forte de se "impor o passado ao presente". Temos lido sobre isso quase todos os dias nas páginas que cobrem a política e o comportamente e não há nenhuma previsão de melhora.
Ainda mais certeira é a maneira como Victor Hugo analisa o procedimento desses "teóricos", que aplicam ao passado um reboco a que chamam de ORDEM SOCIAL, MORAL, FAMÍLIA, DIREITO DIVINO, exatamente como é feito hoje em dia. Depois vendem esse passado para o indignado "homem de bem", que sedento por "tornar a dourar a caixa de relíquias", atribui os males do mundo ao distanciamento de valores que se perderam. Defendem que "bom era antigamente" e clamam por mais moral, por mais família, por mais direito divino. Pegue qualquer um desses assuntos relevantes e polêmicos da atualidade (homofobia, aborto, tolerância religiosa, maioridade penal, descriminalização das drogas...) e constate que eles estão, afinal, pautados pelos "teóricos das coisas defuntas" através das ideologias citadas acima e de um tempo pra cá isso tem se tornado ainda mais perceptível e preocupante.


sábado, 13 de junho de 2015

Uma coisa sobre Arthur Schopenhauer

"Ele [Schopenhauer] entendeu que se pudermos reconhecer que nossa separação do universo é essencialmente uma ilusão (porque as vontade individuais e a Vontade do universo são uma única coisa) podemos descobrir uma empatia com o mundo e tudo o mais, e a bondade moral pode surgir de uma compaixão universal."

(O Livro da Filosofia)
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às vezes me perguntam no que eu acredito, metafisicamente falando. penso bastante sobre o assunto, mas acho que acredito mesmo em muito pouca coisa. não consigo deixar de perceber, aqui e ali, a limitação e a fragilidade dos grandes sistemas cosmológicos, o absurdo das explicações do universo e das revelações religiosas. principalmente não acredito nos homens que as professam.

mas se tem um raciocínio que me é particularmente instigante é o de Schopenhauer, acima. a ideia de que cada um de nós, enquanto indivíduos, estamos essencial e irreversivelmente ligados uns aos outros, e mais, ligados ao universo como um todo, me parece fazer bastante sentido. estamos todos no mesmo barco, não temos pra onde fugir, carregamos entre nós muito mais identidades do que diferenças. enquanto espécie, compartilhamos os mesmos vícios e virtudes em potencial e funcionamos de um jeito muito parecidos, através da vontade, diria Schopenhauer, essa força indefinida presente em tudo e que leva o homem a desejar e a buscar sempre mais.

o que são todas as tragédias humanas, lutas, guerras, injustiças, opressões, sofrimento, que não, de uma forma ou de outra a intolerância, a negação do outro e a busca quase irrefreável por algo mais? acreditamos que somos diferentes, que estamos mais certos/ mais iluminados/ mais escolhidos por deus e que devemos fazer valer essa diferença, nos auto afirmar e nos impor sobre o outro, exercer domínio, quando na verdade o que temos é uma origem, um destino e um fim basicamente comuns.

não que eu compre tais ideias necessariamente como Verdade absoluta, acho que se simplifica em alguns pontos e acaba beirando ao misticismo. Também não nego a condição propriamente conflituosa das relações humanas, mas acho, sim, que é essa uma interpretação muito menos belicosa e destrutiva, ainda que utópica, de nos esforçarmos para criar pontos de tolerância, empatia e identificação com o outro (seja seu vizinho, seja o País no outro lado do mundo) e que de alguma forma arrefeçam (ou escancarem quão ridícula e vazia é) essa gana humana pelo exercício de supremacia e dominação.


terça-feira, 19 de maio de 2015

Woody Allen, a falta de sentido da vida e uma música da década passada...

Estava lendo sobre o novo filme do Woody Allen, que estreou no festival de Cannes semana passada (Irrational Man) e numa de suas respostas me deparei com um pensamento que, apesar de bastante recorrente em sua obra, me pegou mais uma vez:
"Como artista, você tem que passar ao público a ideia de que a vida tem um sentido. Mas você está trapaceando, porque não tem nenhum sentido. Qualquer coisa que você criar vai desaparecer, assim como o Sol, a Terra, Shakespeare, os Beatles. Tudo o que você pode fazer na vida é se distrair e ter alguns bons momentos, se manter ocupado. É o que farei até o dia em que eu for velho... Num futuro muito distante" (W. Allen) 
É isso! A arte com um refúgio, um argumento, ainda que fugidio e limitado, para a vida. A possibilidade de criar sentido, de encantar o mundo, de fazer rir e chorar... ainda que se saiba que de forma temporária, frágil e sem nos levar a lugar algum. Afinal, não há lugar aonde ir, o nosso lugar é aqui mesmo.

Confesso que, particularmente, sou partidário dessa forma de ver as coisas. Não creio que o universo enquanto tal possua um sentido em si, absoluto. Não há pote de ouro no fim do arco-íris. Em breve tudo irá desaparecer. Não importa quão grandioso ou aparentemente definitivo, irá desmoronar... Outros gigantes já viraram pó antes e nós mesmos estamos fadados ao esquecimento. Seremos sucedidos por outros e outros, num ciclo a perder de vista. 

Mas veja, essa não é exatamente uma negação da vida e só a princípio soa pessimista. Pelo contrário, se soubermos conviver com isso, ao nos livrarmos do peso excessivo da continuidade, da linearidade, do definitivo, podemos ser mais livres para criar e recriar, para sermos nós mesmos. Não somos (enquanto civilização ou indivíduos) o centro do universo, muito pelo contrário. Ainda bem! 

Nesse sentido, o niilismo pode ser um belo ponto de partida para a leveza, o bom humor e a capacidade de "entendimento". A partir do momento em que não podemos fugir da nosso própria insignificância, temos que nos valer dela própria para nos situarmos no mundo. Pintar, escrever, atuar (ou tomar uma cerveja no bar com um amigo) acabam se tornando tarefas mais humanas, expressões ao mesmo tempo limitadas e poderosas da nossa existência e de como compartilhamos isso uns com os outros, enquanto é tempo.

Talvez tenha ficado abstrato demais, pretensioso. Só queria mesmo dizer que essa referida falta de sentido da vida pode ser libertadora, divertida e um tanto quanto mais honesta intelectualmente. 

Quando li a declaração, me lembrei imediatamente de "Suportar", a sexta música do disco "Sublime Mundo Crânio" do Lasciva Lula, banda que, se não me engano, já não existe mais, mas que, com pouquíssimas palavras também consegue tratar do caráter incerto e fugaz da vida:

"suportar
 ocupar o tempo 
 suportar 
 ocupar o tempo 
 como estepe, manter 
 talvez tentar ser feliz  
 nada mais."

Sei que acaba por adquirir um teor um pouco desiludido, mas gosto da maneira crua e sem subterfúgios com que se enfrenta a questão: é suportar, ocupar o tempo e talvez tentar ser feliz. Acho que esses pontos, por si só, já nos mantêm suficientemente ocupados na nossa busca por "viver". E é isso que me faz imensamente grato pelo Sr. Woody Allen continuar lançando anualmente ótimos filmes, de forma ajudar a ocupar meu tempo da melhor maneira que posso imaginar. Até quando formos bem velhinhos.
Nada mais...




quarta-feira, 18 de março de 2015

Meus centavos sobre as manifestações de domingo


Domingo, dia 15/03,  houve manifestação em diversas cidades do Brasil para protestar contra o governo federal e a corrupção (do PT) e que reuniram, segundo os organizadores, 3 milhões de pessoas e segundo as PMs 2,4 milhões. Não tenho motivos para acreditar em tais números, mas reconheço que muitas pessoas foram às ruas para reclamar, em mais um episódio da recente crise institucional e de insatisfação com o governo Dilma. Abaixo algumas considerações sobre o tema:

1. Acho espantoso como o PT e o governo como um todo têm conseguido se auto-sabotar. Têm demonstrado falta de habilidade em ouvir e negociar, se isolando cada vez mais, causando estremecimento na "base aliada", desmobilizando sua militância e simpatizantes e dando muita munição para a oposição (inclusive a midiática) com declarações e medidas pouco inteligentes, além da falta de diálogo e de habilidade política. Conseguiu-se erigir uma enorme antipatia pela presidente e seu partido que, ainda que confusa, baseada em preconceitos e insuflada pela mídia, é, em grande parte fruto dos próprios feitos petistas.

2. Pontuada a inegável responsabilidade do PT sobre a atual situação econômica, política e social do País, quero destacar que uma parcela da população foi às ruas no domingo passado após uma descarada e calorosa propaganda da grande midia, que fez questão de vender os protestos da forma mais simpática possível, em tom convocatório. Assisti ao esporte espetacular por meia hora na manhã de domingo e ouvi mais sobre as manifestações do que sobre esporte. A própria maneira como se referiam a elas durante todo o dia tinha o claro objetivo de convidar as pessoas à participarem.

3. Considero que manifestações populares são justas, salutares e necessárias para qualquer regime minimamente democrática. Todo tipo de pessoa pode e deve sair às ruas para dar voz às suas opiniões, por mais que eu me contorça por dentro ao tomar conhecimento de seu conteúdo. Afinal, liberdade para se expressar é fácil, difícil mesmo é liberdade para o outro, que está no lado oposto, poder dizer o que pensa (ou às vezes que não pensa). 

4. Por outro lado, também acho justo, necessário e salutar que discordemos (até veementemente) das opiniões alheias. Se há o direito de expressar, também há o de discordar e contra-argumentar. Ambos se complementam. E é dessa forma que eu me coloco diante das manifestações que ocorreram domingo. Claro que eu acho que o governo precisa ser pressionado, principalmente diante das graves denúncias de corrupção e também quanto às medidas que vêm sendo adotadas, mas não consigo me identificar nem um pouco com um movimento daqueles, que reuniu saudosos da ditadura ("intervenção militar constitucional", hahaha), golpistas e conservadores em geral, numa histeria coletiva raivosa e desinformada. A pauta que se colocava ali, ainda que pulverizada e difusa, não passa nem perto da minha. Pior ainda, quando boçais como Silas Malafaia e Bolsonaro convocam a população para uma manifestação é sinal de que eu definitivamente NÃO tenho nada pra fazer ali...

5. Na MÉDIA, estavam presentes pessoas mais brancas, mais ricas, mais velhas e, principalmente, muito mais conservadoras, expondo o que eu considero um patriotismo ufanista, constrangedor e agressivo que só reforça a polarização e a falta de diálogo. A oposição minimamente coerente e articulada era irrisória diante de tantos "defensores da pátria" com as cores da bandeira e camisas da CBF, segurando faixas e entoando gritos ofensivos e desconexos. A impressão que dava ali é que pouco importava a corrupção em si, o importante era atacar o PT, por ser o PT e nada mais. Aqui em SP não se viu nenhuma plaquinha contra o governo do estado ou contra qualquer outro partido. Todos os males do Brasil parecem ser culpa do PT, numa associação infantilizada. Quando colocamos as coisas desse jeito estamos livrando a cara de todos os outros e virando as costas pr'aquilo que realmente importa.

6. Especificamente sobre os delirantes defensores de um regime militar, não preciso dizer o quão ridícula e ultrajante me soa essa ideia. Pior ainda quando clamada pelo "povo" supostamente "ofendido" pelo "mar de lama" que se tornou a política nacional, numa demonstração de que se entende pouco e se fala muito quando o assunto é política. Sem querer soar clichê, mas um governo que censura, cassa adversários, tortura, mata, aliena a população, nunca será a resposta para os nossos problemas. Sim, eu até acredito que a maioria dos presentes não defendia tal bandeira, mas acho estranho não se incomodarem de dar força e visibilidade a esse pessoal...

7. Quanto aos pedidos de impeachment, os considero despropositados e voltados simplesmente para desestabilizar o governo. Se a intenção é melhorar/ moralizar a forma de se fazer política no Brasil, não consigo ver esse caminho como minimamente razoável. Soa como raivinha juvenil ao se focar excessivamente no PT e na Dilma e livrar a barra de todos os outros. Isso me preocupa, pois distorce a realidade, fragiliza ainda mais nossa democracia, acirra os ânimos e demonstra uma preguiça horrível de se pensar um pouco mais além. Simplesmente se contenta em repetir à exaustão que a culpa é do PT e pronto, já temos a bruxa para queimar na fogueira. Porém, veja que ironia: Em outras épocas era o PT (o "arauto" da honestidade e da moralidade na política) que pedia o impeachment do FHC e hoje tem que ouvir tal clamor de cabeça baixa e sem muitos argumentos em sua defesa.

8. Os nossos problemas enquanto Estado e sociedade são muito maiores e mais antigos, não começam e nem terminam na era PT como querem fazer acreditar os nobres defensores da pátria. Diz respeito à nossa cultura política e tanto ao sistema eleitoral quanto ao sistema político. Envolve todos os partidos e a forma como eles se relacionam com o poder.  O financiamento privado de campanha, por exemplo, é um piada em todos os sentidos. Não há NENHUMA justificativa para empresas """doando""" milhões de reais para a campanha de políticos, que culminarão em relação escusas entre os futuros eleitos e essas empresas. A quantidade de partidos e a forma como eles chegam ao poder também é falha e precisa ser mudada urgentemente (a famosa reforma política), pois reforçam o clientelismo, o fisiologismo e a troca de favores.

9. Finalizando, acho que não preciso dizer que sei que o governo atual tem um caminhão de problemas e que, a despeito da atuação parcial da mídia, quero que todos os responsáveis por maus feitos nessa investigação e em outras, sejam duramente responsabilizados e inclusive que o PT sofra o que tiver que sofrer no que tange à sua credibilidade frente ao eleitor. Lembro que o Lula falou no início do seu governo, que o PT não poderia errar. Pois bem, erraram feio e vão ter que pagar a conta...

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

e quando chegou domingo...

...acabei votando na dilma mesmo. um votinho mixuruca, envergonhado. nem olhei pra tela da urna eletrônica. 

lembrei das centenas de milhões de reais que a máquina eleitoral da dilma gastou (e que ganhou de grandes empresas), lembrei dos marqueteiros profissionais que tornam a campanha uma grande enganação,  dos grandes caciques da política que a apoiam, da falta de diálogo com a sociedade civil e movimentos sociais, lembrei das patinadas da economia e das promessas de campanha não cumpridas e tive que fazer um esforço tremendo pra me convencer da tese do "voto crítico", de que, apesar de tudo há o que se preservar.

é que psdb não dá pra engolir, mesmo. quer dizer, continuo achando que no essencial ambos, entre defeitos e virtudes são mais ou menos parecidos (numa ânsia de captar o numeroso eleitorado do centro). mas conta tambem quem acabou se unindo do "lado de lá". o que esperar de um candidato que é apoiado por silas malafaia e bolsonaros (pai e filhos)? o queridinho dos mercados ("ganhamos com a dilma, mas preferimos ganhar com o aécio"), do agronegócio, dos milicos, da bancada religiosa... enfim, a lista é grande. fora que, o próprio eleitorado tucano mais "combativo" é formado em grande parte por pessoas intolerantes e elitistas, que de maneira pouco disfarçada usam seu preconceito como plataforma política e seu ódio ao populacho como princípio moralizador do governo. por fim, se um candidato é defendido com unhas e dentes pela veja é sinal de que NÃO devo votar nele. 

dito isso, segue o barco, mais ou menos na mesma toada. o pt ganhou uma chance de ouro por muito pouco e terá que ter habilidade para aproveitá-la (até porque a oposição saiu fortalecida). apesar de me manter desconfiadamente na oposição, espero que o segundo mandato da dilma ganhe impulso. que consiga se dinamizar e dialogar com as diversas forças da sociedade, que viabilize as tão necessárias reformas institucionais e, se não for pedir demais que dê um salto de qualidade nos serviços públicos (saúde e educação, principalmente). sei que vai ser complicado, mas menos que isso não dá pra esperar.


terça-feira, 30 de setembro de 2014

Meus centavos sobre ciclovias e mobilidade urbana

Tenho acompanhado com muito entusiasmo os esforços da prefeitura de SP em implantar ciclovias por toda a cidade. Até agora foram 78,3 km e a meta é chegar a 400 km até o final do ano. Há muito tempo me sinto incomodado e penso na questão da mobilidade urbana, principalmente no questionamento da lógica ultrapassada do transporte individual e, consequentemente, da necessidade crescente da implantação de modos alternativos de locomoção.

Desde 2004 tenho fases em que utilizo a bicicleta (quando minha rotina a favorece, o que não é o caso desde o começo deste ano) e sei dos seus inúmeros benefícios. Sei também que o poder público levar a sério o ciclista, como tem feito, é coisa rara. Temos uma ideia atrasada e extremamente arraigada de que o carro é o senhor por excelência das ruas (e da cidade) e que cabe ao Estado dar condições à esse "reinado". Uma espécie de hierarquia, na qual o topo, naturalmente é de quem anda de carro. Em segundo plano fica o cidadão que é obrigado a andar de transporte público e por último vêm os malucos que tem a audácia de usar a via pública sobre uma bicicleta ("brinquedo e não meio de transporte") e ainda o pedestre, esse ser desprovido de tudo e que se arrisca pelas calçadas estreitas e esburacadas da cidade fedida e perigosa.

Enfim, acho que levar a sério a busca de alternativas sobre o assunto demonstra amadurecimento na gestão pública. E nem é ação de vanguarda. Ninguém aqui está inventando a roda. Pelo contrário, corre-se atrás do prejuízo. Outras cidades já têm modelos integrados de mobilidade muito eficientes e que desestimulam o uso do transporte individual. Criando-se uma cidade mais acolhedora e melhor para se viver.

Aí sempre vem o ignorante e atrasado esbravejar que "isso aqui não é Europa pra querer ficar andando de bicicleta", "isso é pura demagogia e não resolve em nada o problema do transporte", "que esses ciclistas imbecis só atrapalham o trânsito", "que essas ciclovias são todas mal feitas" e outras declarações similares. A ele eu responderia: Verdade, para muitos trajetos SP não é propricia ao uso da bicicleta. Vias muito íngremes, muito movimentadas, distâncias muito grandes... tudo isso dificulta ou impossibilita o uso da bicicleta como único meio de transporte. Mas o ponto não é esse. Antes de tudo é a mudança de mentalidade de quem pensa a cidade, é a possibilidade das próprias pessoas decidirem encontrar a melhor alternativa para si e, principalmente a democratização do espaço público. Para trajetos menores (até uns 8km, digamos) a bicicleta é muito boa, sendo até mais rápida que outros transportes a motor. 

Cabe a nós questionar por que quem sai de casa com uma máquina de uma tonelada, que polui e ocupa um grande espaço público tem mais direitos do que quem resolve sair com uma outra "máquina" que não polui e ocupa muito menos espaço? 17 mil quilometros de vias para carros, tudo bem, mas 400 km de ciclovias aí já é "delírio autoritário" (como disse aquele imbecil do Aloysio Nunes). É claro que podemos e devemos criticar a forma como essa política pública é implantada. O fato de concordar com a proposta não quer dizer que ela não deva ser constantemente aperfeiçoada e fruto do debate entre diferentes pontos de vista.

É óbvio que a bicicleta nem de longe se desenha como solução para a locomoção diária de milhões de pessoas. Fora do transporte de massas não há solução e para isso a gente espera a boa vontade do nosso governador vitalício para construir com uma lentidão irritante o metropolitano de são paulo... De qualquer forma eu ainda vejo essa nova maneira de pensar o problema como necessária e benéfica a médio e longo prazo. O que não dá mais é para viver numa cidade feita para o trânsito de carros.

sábado, 2 de agosto de 2014

Dois excertos de "Verdade e Poder'

"O que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente que ele não pesa só como uma força que diz não, mas que de fato ele permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso. Deve-se considerá-lo como uma força produtiva que atravessa todo o corpo social muito mais do que uma instância negativa que tem por função reprimir"

"(...) a verdade não existe fora do poder ou sem poder (...). A verdade é deste mundo, ela é produzida nele graças a múltiplas coerções e nele produz efeitos regulamentadores de poder."

(FOUCAULT, M. Verdade e Poder in Microfísica do Poder.) 

Gosto da maneira perspicaz com que Foucault pensa os conceitos de poder e saber/ verdade e expõe o entrelaçamento entre ambos, no qual um depende do outro para se sustentar. Afinal, o poder, mais do que ser essa força repressora ou destruidora, se mantém pelo convencimento, pela atração e produz a verdade e a sustenta de maneira circular. Ou seja, não há uma verdade definitiva e anterior ao poder, ela é produzida neste mundo.

terça-feira, 29 de julho de 2014

legal mesmo era no tempo da videolocadora...

sim, este é um texto saudosista, daqueles que, de maneira absurda e pouco convincente, acabam celebrando hábitos passados que, se comparados com o que temos atualmente, mostram-se dificeis e rudimentares.

hoje em dia temos um acesso super facilitado a quase todo tipo de filme. com alguns cliques e um pouco de boa vontade pode-se acessar, legalmente ou não, de lançamentos a clássicos perdidos, de blockbusters hollywoodianos a obscuras produções independentes. o intercâmbio de obras cinematográficas não conhece mais praticamente nenhum obstáculo. milhares de títulos de todas as épocas e todas os países a disposição de qualquer um. isso pode soar como um sonho para toda pessoa que gosta de cinema, inclusive eu, mas não consigo deixar de pensar no quanto as coisas acabam se tornando banais e menos interessantes e confesso que já me peguei sentindo falta de como era assistir filmes em casa há umas duas décadas atrás.

para quem não sabe, nos anos 90 as videolocadoras eram muito populares (me imagino explicando isso para os meus filhos...). tinha praticamente uma em cada esquina. eu era criança nesse tempo e me lembro o barato do ritual de ir com minha família até a que tinha perto de casa e andar demoradamente por aquelas prateleiras repletas de opções. pequenas caixas de plástico das quais eu raramente tinha mais conhecimento do que vinha escrito na capa e no verso. era praticamente contar com a sorte levar uma daquelas fitas, já que capas bonitas e filmes com nomes interessantes poderiam trazer verdadeiras bombas. enfim, o fato é que, de maneira bizarra eu (e minhas irmãs também) alugávamos muitas vezes os mesmos filmes. e não adiantava minha mãe querer argumentar "mas filho, esse já passa direto na televisão" ou "esse você já cansou de assistir". acho que pra criança tão ou mais legal do que a novidade seja ver e rever tanto quanto possível as mesmas histórias.

tinha também aquele recorrente sentimento de decepção quando o filme que você queria muito alugar (pela décima vez ou não) já havia sido levado por outra pessoa. ou ainda meu esforço de convencimento para que minhas irmãs alugassem algo que do meu interesse, já que o combinado era um filme para cada um.

chegar em casa, colocar o vhs no videocassete, assistir aos trailers cheio de expectativas, após o término rebobinar a fita e no dia seguinte assistí-la novamente, já que teríamos que devolvê-la em breve... acreditem, tudo isso tinha o seu charme e era muito divertido. talvez quem tenha vivido essa época concorde. provável que quem não compartilhe dessas lembranças não veja graça nenhuma.

depois, quando o dvd surgiu e se popularizou ainda aluguei filmes mais algumas vezes, mas já não era a mesma coisa e na era da cópia digital e do dvd pirata já não fazia tanto sentido.

claro que sou satisfeito pelo jeito como as coisas são hoje em dia, sei reconhecer os benefícios da tecnologia e fico feliz de abrir um netflix da vida e ter dezenas de opções. os tempos mudam, às vezes rápido demais e a gente se adapta a eles, entre prós e contras. mas, ainda assim, tenho a sensação de que alguma coisa ficou perdida lá atrás, nos corredores das antigas videolocadoras.

quarta-feira, 25 de junho de 2014

sobre a copa do mundo no brasil

devo dizer que está bem empolgante a copa do mundo do brasil. eu sei, parece que estou me contradizendo, já que há pouco mais de dois anos atrás escrevi aqui criticando as reais intenções dos envolvidos e os preparativos para o evento, mas são duas posições que mantenho e que não chegam a se anular. 

dentro de campo, até agora temos visto bons jogos, movimentados, disputados e com uma quantidade inesperada de gols. fora de campo, é muito legal ver tantos estrangeiros que vieram para cá. a oportunidade do convívio entre tantas culturas num clima de festa e confraternização é algo único. trabalho no centro de são paulo e é interessante ver turmas de croatas, alemães, mexicanos, holandeses, entre outros, por aqui, conhecendo e apreciando locais que acabam sendo banalizados na nossa rotina diária.

mas é claro que reconhecer a parte positiva do evento, em hipótese nenhuma diminui tudo de deplorável que aconteceu e tem acontecido. quando a gente para pra pensar em quem está se beneficiando (e muito!) com a copa, não dá pra não ficar desiludido... relendo o que escrevi lá atrás, percebo que a maioria das coisas infelizmente se concretizaram, como o que reproduzo abaixo:
"esqueça essa história de legado. é pra boi dormir. o brasil não estará melhor depois da copa, não haverá o tão alardeado e necessário investimento em áreas estratégicas como transporte, aeroportos, turismo, etc. vão dar um bela maquiada e bola pra frente! serão construídos alguns elefantes brancos, aquelas obras faraônicas e desnecessárias, estádios que após um mês de uso ficarão sub utilizados..."
apesar de não ser tão falado agora, o fato é que o que temos em todas a cidades-sedes são inúmeras obras inacabas e disfarçadas com tapumes e propagandeadas melhorias urbanísticas que por uma incapacidade atroz de planejamento e muita politicagem acabaram sendo canceladas ou postergadas para algum dia no futuro. conseguiram acabar os estádios e olhe lá, que muita coisa também teve que ser deixada inacabada e com problemas. além disso, sabemos que gastou-se um absurdo, principalmente de dinheiro público, sendo que na época garantiu-se que os investimentos seriam totalmente privados. ou seja, fizeram, mas fizeram pela metade, mal-feito, superfaturado e com dinheiro público. foi uma vergonha escancarada para o mundo todo ver.

o que mais me irrita é a contínua desfaçatez e cinismo por parte dos porta-vozes que, para salvarem sua pele, repetiram à exaustão que estava tudo certo, tudo bem e que quem discordasse era pessimista, oposicionista, espiríto de porco. isso é ridículo, tentar calar qualquer tipo de de crítica e questionamento quando se é evidente que a preparação foi feita nas coxas. pra ficarmos num exemplo, o estádio da estreia quase foi excluído, ultrapassou todos os limites de atraso, não tendo nem sido testado em sua capacidade máxima antes do jogo inaugural.

gosto de futebol, gosto de copa do mundo e vejo os pontos positivos desta que está acontecendo no brasil. mas em nenhuma hipótese posso ignorar todos os problemas que aconteceram por essa mistura tão conhecida por nós de incompetência, ganância e corrupção.

terça-feira, 20 de maio de 2014

breve consideração sobre um parágrafo (II)

"Ter a sensação de que por trás de tudo que pode ser vivido há alguma coisa que nossa mente não consegue captar, e cujas beleza e sublimidade só nos atingem indiretamente, na forma de um débil reflexo, isso é religiosidade. Nesse sentido sou religioso."

encontrei essa citação de Einstein em "Deus, Um delírio". ainda estou no começo da leitura e não sei bem o que pensar sobre o livro (que traz um contundente posicionamento ateísta), mas a passagem acima me pareceu bem pertinente ao tratar do assim chamado sentimento religioso de uma maneira intelectualmente mais "sofisticada" e humana do que a maioria das religiões estabelecidas e seus adeptos. 
esse sentimento do qual Einstein trata, que mistura incompreensão, desamparo e deslumbramento com um universo que é tão avassaladoramente complexo e enigmático tem assolado os seres humanos há milênios. nós acabamos expressando-o através não só das muitas acepções possíveis para a divindidade ou a transcendência, mas também pela produção artística em suas inúmeras formas e pela reflexão filosófica. 
acho que o que o pensamento dogmático acaba nos roubando (por nos dar as respostas inquestionáveis para todas as perguntas) é justamente esse estado de inquietação e de procura de algo que (possivelmente) está lá e não conseguimos captar (ou, se conseguimos, é de uma maneira muito frágil, imperfeita). como o próprio Dawkins diz na obra em questão "um dos efeitos verdadeiramente negativos da religião é que ela nos ensina que é uma virtude satisfazer-se com o não-entendimento". valorizo a beleza presente na liberdade de termos sensações a partir de nossas próprias incompreensões e questionamentos pessoais.
isso pode ser considerado profundamente religioso, ao mesmo tempo em que refuta qualquer tipo de religião.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Algumas linhas sobre "O Passado"

Filme mais recente do diretor iraniano Asghar Farhadi, que ficou famoso por "Uma Separação " de 2010, que chegou a ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro (e que eu não vi).

Conta a história de um iraniano que vai para a França, a fim de formalizar seu divórcio com Marie, quatro anos depois de sua partida. Lá reencontra-se com a sua ex-mulher e as filhas dela (de um casamento anterior), Lucie e Lea e acaba conhecendo também o homem com quem Marie está envolvida, Samir, e seu filho, Fuad. O que começa como uma situação aparentemente sob controle (ainda que incomôda), vai se mostrando cada vez mais tensa e conflituosa.

É basicamente um grande drama familiar que se desvenda aos poucos, mostrando as relações dolorosas e cada vez mais complexas nas quais se inserem aqueles indivíduos. No começo sabemos muito pouco sobre as motivações de cada um e é muito lentamente que vamos entrando em contato (ainda que nunca totalmente) com aquelas pessoas. Como uma sombra, o passado a que remete o título afeta a todos de diferentes formas. A filha mais velha, Lucie, se opõe ao novo casamento da mãe e se mostra bastante arredia por algum motivo. A (ex) mulher de Samir está em coma, também por motivos desconhecidos de início. O próprio Ahmad se vê envolvido até o pescoço com os problemas da família que deixou pra trás, sendo que, inclusive sua situação com Marie se mostra um tanto quanto mal-resolvida. As camadas de complicações vão se sucedendo e se acumulando gradativamente e a história toda fica cada vez mais problemática e de difícil solução. As crianças, Lea e principalmente Fuad, são especialmente afetadas, ficam no meio de todas as brigas sem conseguir entender o que está acontecendo.

A atmosfera toda do filme é triste e pesada, mas sem nunca cair no melodramático ou no simplório. São pessoas normais, em suas vidas comuns, lidando com situações passíveis de acontecer com qualquer um. E acho que o que mais me prendeu à narrativa toda tenha sido justamente essa capacidade de se contar uma história dessas com muito equilíbrio e honestidade. Não cai na tentação de se facilitar tomando partido e definindo quem está certo e o errado, ou quem praticas boas ou más ações. São somente pessoas sendo pessoas, lidando com seus anseios, ciúmes, remorso, raiva, insegurança, da melhor forma que conseguem e por isso acabam, justamente por isso se machucando e machucando os outros a seu redor. Mas para mim é justamente dessa sensibilidade em captar a fragilidade humana que nasce a maior qualidade do filme.



sexta-feira, 9 de maio de 2014

de dois assuntos irrelevantes que se misturam...

vivo de repente uns picos inexplicáveis de felicidade. um frio na barriga, uma fúria de abocanhar o mundo. como se lá fora algo de muito bom estivesse me esperando e eu acabasse de ficar sabendo. fico ansioso, quero tudo! essa sensação (orgásmica!?) dura uns quinze segundos. logo passa e o que fica é a mesma indiferença morna de antes, por todo o corpo. a vida que pinga em conta gotas... de onde surge essa estranha felicidade? tento entender. parece que por alguns momentos tudo faz sentido e chego a conclusão que a vida é boa. não que não seja. é! só que pensando assim é só mais um pensamento estéril, acomodado. o que muda nesses quinze segundos, então? não sou nem mais nem menos do que no instante anterior ou no seguinte. sou o mesmo. um corvarde que faz da racionalidade escudo contra a dor da vida e que dessa forma se priva do êxtase. ou talvez um místico, que à sua própria maneira (tergiversando sempre!) suplica pela interseção do sobrenatural. continuo no ensaio, no rascunho, não crio coragem para gritar "valendo". não me arrisco muito, nem dou a cara a tapa. acabo sempre descrendo da cara e do tapa. não peça pra levar a sério. tenho vontade de rir quando vejo tanta gente se matando por esse algo a mais, pelo pote de ouro que eles acreditam que há no final do arco-íris. talvez o melhor mesmo seja somente crer no arco-íris.

quinta-feira, 20 de março de 2014

conservadores lunáticos e a saudade da ditadura

Sou um profundo defensor do direito que as pessoas têm em serem imbecis, em acreditarem e propagarem qualquer tipo de ideia estapafúrdia. Qualquer um tem o direito de jogar seu respeito e credibilidade intelectual no lixo. Mas tem alguns momentos que não dá pra simplesmente deixar passar, como se não fosse nada.

Ultimamente leio aqui e ali umas aberrações defendendo a volta da ditadura militar, como uma solução mágica e infantil de nossos problemas enquanto sociedade. Nós, seres humanos, somo assim, aguardamos ansiosamente uma solução mágica, um herói que nos livrará de todo o mal, colocar ordem na casa, uma figura paterna severa, que tomará para si a tarefa de educar seus filhos e tomar todas as decisões por eles. Pode reparar, esses "amantes da ditadura" não pedem por mais poder de decisão para si e para os outros, não pedem mais eficiência das instituições democráticas. Elas querem é que um ente superior resolva todos os seus problemas através da concentração do poder. Querem continuar confortavelmente na sua alienação mediocre de quem não tem nenhuma responsabilidade".

Isso é irreal. Dá pena de quem pensa assim. Não existe ditadura boa, todas elas são ruins porque não aceitam questionamento, oposição, não se curvam a nenhum poder superior a elas. Confiar somente nas boas intenções dos detentores desse poder centralizado é arriscado demais. E isso aconteceu na na nossa ditadura militar. Setores da sociedade e da imprensa, que a principio regojizaram pelo golpe foram pouco a pouco sentido o baque, foram percebendo que liberdades e direitos garantidos pelo Estado são importantes e fazem falta quando perdemos. Bem ou mal neste país, estamos tentando fazer com que o poder político soberano respeite a lei, que é feita pelos legisladores, que são eleitos pelo povo. Ok, esse modelo funciona muito mal, está cheio de vícios. Mas ainda assim é melhor do que alguém que use da força e da coação como preferir.

Os governos militares a partir de 1964 foram tão ou mais corruptos do que os pós-reabertura. Muita gente enriqueceu ilicitamente, a máquina estatal era aparelhada e servia aos interesses do governo, decisões políticas e econômicas desastrosas foram tomadas, não havia quase nenhum respeito às "regras do jogo". A oposição servia de enfeite. Pior, perseguia-se, matava-se opositores políticos, censurava-se a imprensa. Como que alguém, em são consciência consegue concluir que uma situação dessas é melhor do que a que temos hoje (e a que podemos alcançar amannhã)? Foi um regime imoral, medonho, indefensável sobre todos os ângulos.

Fala-se tanto do "mensalão", como um exemplo de falência das instituições, mas vocês acham que se fosse numa ditadura, tal esquema de corrupção teria sido denunciado? Investigado? Julgado? Ou que algum agente público teria sido condenados? Podemos discordar de muitas coisas sobre o processo, podemos amar ou odiar os réus e os "PTralhas", mas não podemos negar que esse julgamento foi histórico, impossível de ter acontecido no tempo passados. E, repito, pode ter certeza que muita coisa pior acontecia naquela época.

Chego a conclusão que, de maneira geral, esses saudosistas da ditadura não sabem o que estão falando. Assistem o Datena e leem a Veja e têm alguns rompantes reacionários e autoritários. Concluem em suas cabecinhas quase ocas que está tudo uma porcaria e que a solução é acabar de uma vez com nossa frágil democracia. Não, não é.

Sim, ela é corrupta, ela funciona mal, é fisiologista, corporativista, demagógica, mas ainda assim é a nossa pouca garantia que as coisas não possam ser ainda piores. Pelo menos eu sei que posso falar mal e discordar do governo, eu sei que bem ou mal há uma oposição lá no congresso fiscalizando o governo, sei que tenho alguns direitos fundamentais que ninguém pode me tirar e que justamente por serem violados todos os dias é que temos lutar cada vez mais por eles. 

Sério, vão por mim, é mais seguro e garantido viver numa sociedade na qual o Estado não tenha o poder de te ameaçar, entrar na sua casa a qualquer hora do dia, te torturar para conseguir informação, ou te matar e dizer que você se suicidou. É melhor quando a gente sabe, através de umas letrinhas escritas no papel (também chamadas de lei) exatamente quais são nossos deveres e nossos direitos e que os representantes do Estado também tem que seguir aquelas letrinhas. A ditadura que enrabar o outro pode muito bem acabar enrabando você...

Sinto que estamos perdendo um tempo enorme tratando fantasiosamente de coisas absurdas, como se fossem as coisas mais naturais do mundo. Sinto que eu estou perdendo meu tempo com lunáticos. Faça um favor para você mesmo pueril e delirante adorador de ditaduras, mantenha-se calado e evite que as pessoas saibam o tamanho da sua imbecilidade.

quinta-feira, 13 de março de 2014

Então, adeus...

Gostava quando você tossia. Alguma coisa em mim se animava ao ouvir aquele "cof, cof" (na falta de onomatopéia melhor...). Era você de volta. Era eu me apegando a qualquer coisa passada que me trouxesse um pouco de comforto. Um gesto tão inequivocamente seu, que eu sentia que você estava de volta. A mesma tosse que há muito tempo atrás vinha da cozinha e eu ouvia deitado no sofá da sala. A leveza por saber que você estava lá e que tudo estava bem. Nós sempre estamos nos gestos mais despretensiosos e corriqueiros: um jeito de apertar os lábios ou de ajeitar os óculos, de rir fechando os olhos, de andar devagar.

Às vezes me lembro... Uma lembrança débil, nebulosa, confusa, que se esforça pra se fazer presente. Me assusto com o fato de que cada vez menos consigo me lembrar de como era antes, lá atrás. Sinto dificuldade em aceitar que você não é mais e que, com isso, eu também sou menos. Porque a gente nunca é só a "gente" mesmo. Eu sou também o que os outros fazem de mim. E eu gostava tanto do que você me fazia ser... 

Aí eu percebo que viver é sempre pela última vez. Percebe? Sou eu me fazendo e desfazendo continuamente. Às vezes na porrada! E sempre que eu ia embora e voltava você me jogava essa verdade inconveniente na cara. Ao não me chamar pelo nome, ao não me olhar nos olhos, ao não fazer o que você sempre fez, você negava um pouco a minha própria existência. Por isso era importante reconhecer e me apegar àquele seu pequeno gesto. Era eu sabendo que, afinal não estava perdido por completo. E eu pensava em você e no resto das coisas e de alguma forma percebia que é sempre pela última vez. No fundo eu sabia que partir é só uma questão de quando e que não me seria permitido ensaiar despedidas. Se assoprarmos a camada de rotina e fixidez que nos cobre e nos acalenta podemos perceber que é sim, sempre sobre adeus.
Então, adeus.

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

breve consideração sobre um parágrafo...

"(...) o homem contemporâneo, estimulado por uma série de cirscunstâncias, deu grande relevo às necessidades e aos interesses de natureza econômica, obtendo-se um extraordinário crescimento nessa área, praticamente em todo mundo. Entretanto, para obtenção desse resultado, vêm sendo deixado para trás setores inteiros da sociedade, constatando-se, então, que o crescimento, que é apenas o aumento das quantidades, não é acompanhado por um desenvolvimento, que exige melhoria qualitativa. Em outras palavras, esse inegável crescimento econômico não é o produto da utilização adequada dos recursos sociais, no sentido de atendimento do bem comum, revelando-se, portanto, absolutamente inútil e, às vezes, até  prejudicial para esse fim"

(DALARI, Dalmo de Abreu; Elementos de Teoria Geral do Estado, p. 16. Ed. Saraiva)
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Sempre me causou certa estranheza e descontentamento esse tipo de ideologia e esse modo de governar voltado basicamente para o crescimento econômico, se limitando a melhorar a todo o custo os indicadores (aumentar o PIB, reduzir o desemprego, exportar mais, alcançar metas de superávit...) como se o nosso objetivo enquanto nação e sociedade fosse basicamente produzir mais e consumir mais, num ciclo eterno, um fim em si mesmo que se cala sobre tantas outras questões que deveriam ser colocadas na pauta. Esquecemos de nos perguntar por quê, pra quê e até que ponto desejamos essa maior circulação de riquezas.
Não que deixe de ser importante que o país mantenha-se economicamente saudável (e aqui me abstenho de entrar no mérito sobre o que exatamente seria isso), mas Dalari toca no ponto quando questiona se, no final das contas, essa corrida cega e irracional não acaba por colocar em segundo plano outros objetivos sociais que também deveriam ser considerados essenciais. Por exemplo o direito a um meio ambiente saudável, que tem sido desde sempre ignorado por uma lógica que persegue o crecimento econômico doe a quem doer (e a gente sabe em quem doi...). A maioria de nós, brasileiros, vivemos em cidades hostis, violentas, poluídas e que de maneira geral não nos dá qualidade de vida.
Não sei (e não sabemos) exatamente o que é esse tal de "bem comum", mas se ele envolve minimamente as diversas aspirações dos seres humanos, devemos logo de saída nos questionar sobre a necessidade de repensar e reinventar nossas metas e estratégias enquanto sociedade.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Algumas linhas sobre "Beleza e Tristeza"

Não sei ao certo por que escrever sobre esse livro. Não foi o melhor que li na minha vida, talvez nem mesmo no ano (e estamos apenas no segundo mês!).

Arrisco dizer que há nele algo de marcante que eu não havia encontrado antes em nenhum outro, uma força intrínseca que é de fato ao mesmo tempo bela e triste. Sei, isso é demasiadamente vago. Terei condições de me explicar melhor?

Não quero falar muito sobre o enredo em si. Mas adianto que o cerne é um doloroso caso de amor de um homem caso com uma jovem. Eles se afastam, mas as feridas permanecem indeléveis em cada um. Ninguém está totalmente imune aos acontecimento; é o que os une e os afasta e o que determina a maneira como eles se relacionam entre si e consigo mesmos. Como um fantasma que está sempre presente e do qual não se consegue escapar. Logo todos estão sufocados em sentimentos como remorso, amor, solidão, vingança, ciúmes... Presos ao passado o mundo se torna um lugar amargo e difícil. Há uma leve e permanente camada de melancolia sobre todos a trajetória deles. Não é possível ser feliz, deixar o passado para trás.

Mas é desse estado melancólico que surge a beleza aludida no título, sempre acompanhada de um certo amargor, mas ainda assim plena. Os protagonistas canalizaram a sua dor na arte. Ele, um famoso escritor, tem nos relatos de suas memórias sua obra-prima, ela uma talentosa pintora, encontra nas artes plásticas uma maneira de recomeçar sua vida. Ambos carregam esse pesado fardo de uma maneira digna, constrita, silenciosa. Aceitam a tragédia e a dor indissociável de suas trajetórias, não renegam, mas criam,  a partir delas, coisas belas. Não ha escapatória possível, os sentimentos que nutrem é o que os fazem ser quem são, é o que os impossibilita de ser feliz.

A própria maneira como a história se desenrola é sutil, contemplativa. Lenta e delicadamente o autor vai construindo uma rica pintura, em longas descrições das paisagens japonesas, de sua natureza e seus antigo templos, o que acabou me remetendo a delicadas pinturas de tons suaves. O movimento ambíguo dos personagens, seus diálogos, a forma ora frágil, ora pungente como interagem entre si e com o ambiente, tudo ali guarda uma grande beleza, que misturada à inescapável melancolia que permeia toda a história, acaba por causar no leitor uma sensação de deslumbramento e vazio.

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

extermínio de mendigos, censura e pena de morte hoje...

"Mendigo não tem que votar. Mendigo não faz nada na vida. Ele não tem que tomar atitude nenhuma. Aliás, eu acho que deveria até virar ração para peixe".
Uma declaração como essa me arrepia, me indigna, me desilude (ainda mais). Não só por vir de um parlamentar, membro de um partido político e representante de toda a população de um município. Mas porque, de certa forma, é assim que pensa uma parte considerável dos brasileiros. Tudo bem que o vereador de Piraí (RJ) teve que se superar em burrice e coragem para fazer um discurso que é conservador, totalitário e claramente criminoso (afinal é um político dizendo que pessoas que moram na rua deve morrer), mas eu duvido que ele não tenha ganho a admiração de muitos que tomaram conhecimento de suas ideias "inovadoras" no tratamento às pessoas em situação de rua. 

Primeiro, ele diz que mendigo não tem que votar. Ou seja, ao morar na rua (por qualquer que seja o motivo) todo cidadão brasileiro deveria ter seus direitos políticos negados. 

Segundo, presume-se e afirma-se, numa lógica simplista e nojenta, que se está na rua é porque é vagabundo, não faz nada na vida, deliberadamente. Esse é um raciocínio falso, raso, hipócrita e cínico.

Terceiro, e o mais grave, defende-se que pessoas nessa condição devam ser mortas, exterminadas sumariamente, por serem indesejáveis. 

Nega-se, assim todos os direitos de uma parte dos seres humanos deste país. Não têm o direito de serem cidadãos e nem mesmo de existir. É de um obscurantismo e de uma intolerância atroz. Mais do que isso, não se discute em nenhum momento a questão dos "mendigos" como um problema social crônico, fruto direto da miséria e da desigualdade pornográfica que sempre existiu no Brasil. Não se precisa ser muito esperto pra entender que sair das ruas não é só questão de um "vai trabalhar, vagabundo" (bom, talvez um pouco mais esperto do que o nobre vereador em pauta). Existe um intrincado ciclo vicioso da miséria que se reproduz continuamente e do qual muitas pessoas não conseguem sair facilmente.

Pode não parecer, mas estamos muito próximos de uma lógica bem sucedida no regime nazista e que costuma contar com a calorosa aprovação das massas, desejosas de um mundo "mais seguro para os cidadãos de bem". Nas palavras do historiador Robert Gellately: 
"O regime [nazista] se vangloriava de sua nova abordagem contra criminosos reincidentes, alcoólatras crônicos, criminosos sexuais, desempregados e mendigos. Hitler prometeu 'limpar as ruas', e a maioria das pessoas aprovou a medida. Algumas acreditavam de fato no Hitler e no nazismo".
Ou seja, essa ideia de limpar as ruas do lixo social não é nova e nos aproxima muito do que existiu de pior em matéria de ideais políticos e sociais. Quando um vereador a expõe com todas as letras na tribuna de uma casa legislativa ele está basicamente reforçando uma mentalidade da qual uma parte significante da população se identifica e diante da qual não podemos de maneira nenhuma nos calar.



P.S.: Continuando seu discurso absurdo e desatroso, o mesmo vereador ainda defendeu a pena de morte, argumentando que, se o criminoso soubesse que iria morrer ele ia pensar duas vezes antes de cometer seus crimes, e a censura, em suas palavras: “Fim da censura. Eu acho isso ruim. Tem que ter censura. Nas propagandas de filmes e de novelas, passa gente transando escandalosamente na frente de criança. Eu acho ridículo acabar com a censura."


 

terça-feira, 29 de outubro de 2013

algumas linhas sobre ''a lista de schindler"

depois de muitos anos na minha lista de filmes a assistir, finalmente tive a oportunidade de encarar as mais de 3 horas de duração de "a lista de schindler". 

antes de tudo tenho que dizer que, apesar de ser longo, ele transcorre de maneira muito suave e agradável, prendendo a atenção do espectador e mantendo um bom ritmo durante todo o filme. não posso dizer que tenha havido alguma passagem que eu considerasse desnecessária ou enfadonha. cenas de extrema degradação e violência são constrastadas com a opulência dos oficiais nazistas, numa fotografia em preto e branco belíssima, que acentua a crueza e o horror sempre presentes.

Liam Neeson está ótimo no papel de Oskar Schindler, um personagem sedutor e cheio de si, mas para mim quem rouba a cena é o contador judeu Itzak Stern, que mesmo ciente da situação desesperadora em que se encontra, consegue manter-se numa certa posição de dignidade, sóbrio e comedido, conquistando a confiança e admiração de Schindler.

a história mantem-se o tempo todo interessante, contada com maestria e que consegue, sem dúvida sensibilizar e chocar. conta, em linhas bem gerais, a história de Oskar Schindler, empresário alemão e membro do partido nazista que, com o intuíto de ganhar muito dinheiro, se propõe a empregar mão de obra judia (pela qual se pagava menos) em sua fábrica. o que a princípio era somente um "aproveitar-se da situação" (que envolvia contar com investimento de judeus e conquistar a simpatia do governo, para contar com vantajosos contratos), acaba ganhando contornos humanitários, quando trabalhar na fábrica de Schindler torna-se uma segurança para centenas de judeus que viam dia a dia suas condições de vida se precarizar. mesmo que não compartilhando o sentimento anti-semita dos outros nazistas, o empresário está mais preocupado em maximizar seus lucros, mas acaba tomando partido na tentativa de salvar o máximo possível de judeus e, graças a sua influência com os oficiais nazistas e despendendo a fortuna que conseguiu juntar, ele suborna o comandante do campo de concentração, para que os trabalhadores de sua fábrica pudessem ser levados para Tchecoslováquia e não para Auschwitz, para trabalharem numa fábrica munições. Mesmo correndo o risco de contar uma parte que eu não deveria da história, chega a ser engraçado quando ficamos sabendo que nos sete meses em que a fábrica funcionou ela foi (propositalmente) um exemplo de ineficiência, na qual  Schindler gastou todo o restante de sua recem adquirida fortuna.

o que se vê na tela, e o que mais me espantou, é a crescente negação da humanidade dos judeus. mais do que um grupo a ser exterminado, eles perdem completamente sua condição de seres humanos, passando as mais degradantes humilhações, contra as quais mal podiam resistir. tornam-se um número, seres indesejáveis, desprezíveis, incomôdos na sua existência e na sua morte, contra os quais a única preocupação passou a ser como eliminá-los da formas mais eficaz. fica no ar a pergunta, difícil de responder, de como é possível que se possa negar, com tanta convicção e naturalidade os direitos mais básicos de dignidade a parte do seres humanos. a despeito do anti-semitismo histórico e sempre presente, qual é a lógica que opera num regime que em poucos anos consegue convencer todo um país de que faz-se necessário que uma parte enorme das pessoas devam deixar de existir, deixar de ser reconhecidas como pessoas, num processo que desarma e subjulga de tal forma as vítimas, que elas se veem sem condição de resistir ou reagir, submetendo-se totalmente ao seu algoz.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

a felicidade como um ventre...

"Adorno observa que não é possível estabelecer, com a felicidade, uma relação de posse. Não é certo dizer 'temos felicidade', 'somos donos de uma coisa chamada felicidade'. Não a temos, diz Adorno, 'mas sim estamos dentro dela'.
"Ele continua: 'a felicidade é sentir-se envolvido, é uma reminiscência do ventre materno. Por isso, quem é feliz nunca pode saber que o é. Para dar-se conta da felicidade seria necessário sair de dentro dela. Quem afirma ser feliz está mentindo, e, ao invocar a felicidade, peca contra ela. Só quem afirma: 'fui feliz' é fiel à felicidade. A única relação da consciência com a felicidade é a da gratidão: nisto consiste sua incomparável dignidade".

( COELHO, Marcelo. A dificuldade de ser feliz in Tempo Medido, São Paulo: Publifolha, 2007)
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 sabido esse adorno...

sempre pensei mesmo nessa tal de felicidade como frágil e incerta, algo que se dissipa no ar ao ser pronunciado.
parar pra pensar, procurá-la, definí-la, apreendê-la, já seria uma forma de renunciar a ela, colocar-se "do lado de fora". 
como quando sonhamos, prestar atenção na sua existência é não vivenciá-la...