quinta-feira, 13 de agosto de 2009




"(...)
E assim as muitas noites
parecem uma só
ou no máximo duas:
sendo a outra
a noite de dentro de casa
iluminada a luz elétrica
A noite adormece as galinhas
e põe a funcionar os cinemas
aciona
os programas de rádio, provoca
discussões à mesa do jantar, excessos
entre jovens que se beijam e se esfregam
junto à cancela
no escuro
e quando o tesão é muito decidem se casar
(menos, por exemplo,
Maria do Carmo
que entregava os peitos enormes
pros soldados chuparem
na Avenida Silva Maia
sob os oitizeiros
e deixava que eles esporrassem
entre suas coxas quentes (sem
meter)
mas voltava pra casa
com ódio do pai
e malsatisfeita da vida) (...)"



GULLAR, Ferreira. Poema Sujo, pág. 32. Rio de Janeiro: MEDIAfashion, 2008.
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a noite num poema sujo...

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Ao deslizar meus pés sobre sua superfície infértil (num misto de horror e fascinação), percebi que não te conhecia. E nem poderia. Ninguém! Na sua inconclusão definitiva, sempre reconstruída e reinventada (pelos estupros e carícias sucessivas), só o que (acho que) sei é o que acham os outros. Só o que sinto são os meus pés oscilarem entre o profano e o sagrado da tua carne cinza.

Grande demais (frágil!), sempre prestes a se desfazer. No seu coração de pedra, no seu deslumbres de concreto armado, no calor emanado do motor a combustão, na sua respiração urgente (medida em toneladas cúbicas de monóxido de carbono). No cálculo perfeito, na obscenidade dos papéis. Tudo é tão você!

Por um momento quase te sinto por inteira e experimento a sensação de fazer parte das suas entranhas e te abraço como quem se despede todo dia, pois tê-la sob os pés é um eterno até nunca mais...

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pensei que te entendesse...

quarta-feira, 22 de julho de 2009

às vezes sinto que não sou capaz de ir além da medriocridade. outras vezes tenho (uma vaga)certeza de que não há, de fato, nenhum lugar além para ir... somente (e quando muito) um caos de desejos, fantasias e lamentações.

me torno cinicamente volúvel. e digno de riso ao querer negar e afirmar, ao mesmo tempo, a mesma coisa. numa moral da amoralidade ou coisa assim.

no que eu realmente acredito? talvez eu acredite na descrença, pura e simples. porém isso é paradoxal... fantasioso também (como se fosse possível estar isento). a sensação de "uma vida que poderia ter sido e não foi" está o tempo todo a me pertubar rivalizando com a idéia de que toda vida é mais não-ser do que qualquer outra coisa (esse suposto caos). e tem horas que eu até me culpo por não viver meus dias no piloto automático.

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p.s.1:esse assunto está frequentemente na minha cabeça (e aqui, em linha passadas). provavelmente depois eu volte a ele...

p.s.2: aprendi na escola que os textos têm introdução, desevolvimento e conclusão. como é difícil acabar algo sem concluir nada!

terça-feira, 14 de julho de 2009

é comum que sinta minha mãos e meus pés sempre gelados, eventualmente a ponta do nariz também.
ainda assim me agrada essa época do ano. os dias mais curtos, a cidade mais cinza e um tanto quanto melancólica.
a alegria e a expansividade são menos latentes e menos obrigatórias. se tornam rarefeita. é como se estivéssemos prestando mais atenção ao que está dentro, permitindo cercar-se de si, circunscrever-se a partir do bloco [carnavalesco] e da massa.
ainda assim contemporizo e digo que gosto também de dias quentes. comodamente concluo que é bom ter cada coisa em seu lugar. e a alternância nas estações do ano ainda serve pra quebra o silêncio nos elevadores.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

- por que tem se tão mantido calado?

- cheguei a conclusão de que se exponho certezas me sinto um charlatão e se exponho minhas dúvidas me sinto uma farsa (requentada)... então talvez eu fale sobre o frio, pelo menos ele é real.

terça-feira, 23 de junho de 2009

algumas linhas sobre "aquele inverno em leningrado"

acabei de ler ontem "aquele inverno em leningrado", romance que trata do cerco de leningrado (hoje são petersburgo) pelos nazistas à época da segunda guerra mundial.
a cidade não estava preparada para a guerra e seus efeitos, confiava no pacto de não agressão celebrado entre hitler e stálin.
porém, pior do que as bombas foram o "general fome" e o "general frio" que agiram implacavelmente sobre a população. estima-se que 1 milhão de pessoas tenham morrido, principalmente com as temperaturas que chegavam a -40ºC e de fome (nos piores momentos a ração chegou a ser de apenas 125 gramas de pão por dia).
gostei da história, mostrando a guerra através dos civis e de sua imensa luta para sobreviver e não na dimensão macro dos grandes personagens. pessoas que não sabiam muito o que estava acontecendo e tudo que podiam fazer era esperar... impressionante as condições de vida daquelas pessoas e que não podem simplesmente ser traduzida em palavras. cheguei a essa conclusão enquanto lia o livro, que por mais que a autora se esforçasse para retratar da maneira mais fidedigna possivel, não seria o possível fazer entender o que é morrer de fome e de frio dentro da própria casa (e nisso as bombas ficaram em segundo plano)...

sexta-feira, 19 de junho de 2009

"Sou capaz de recitar cada página. Fecho os olhos e é como se o livro estivesse na minha frente.Vou no trecho em que Tatiana sonha. As planícies, as árvores, a luz fantasmagórica e o som dos passos dela na neve: essas coisas me vêm com tal força, que é como se eu nunca tivesse lido nem pensado nelas. Quase digo alto que lastimo só ter entendido agora. Meus olhos se enchem de lágrimas, não sei por quê. Mas sei que são por causa dessas coisas, só por ela que sobrevivemos. A poesia não existe para fazer a vida bela. A poesisa é a própria vida."

(DUNMORE, Helen. Aquele Inverno em Leningrado, p. 144. Ed. Bertrand Brasil)

terça-feira, 19 de maio de 2009

Algumas linhas sobre "O Fingidor"

Vi um tempo atrás à peça "O Fingidor", baseada em Fernando Pessoa. Apesar de resgatar em linhas gerais o personagem, a história é fictícia. Mostra Pessoa, a partir de uma crise sobre si e sua poesia, passando-se por Jorge (outro heterônimo?) e indo trabalhar como datilógrafo para um escritor literário que estava justamente preparando uma apresentação sobre seu trabalho.
Não vou contar mais partes de história. Só fique registrado que é interessante ver uma figura como essa retratada, ainda que de maneira aproximada. Mais legal ainda foi ver os heterônimos Alberto Caeiro, Álvaro de Campos e Ricardo Reis "encarnados", ainda que fruto da imaginação do autor. Deu pra dar um rosto e uma personalidade um tanto mais condensada para eles, para além de meras descrições ou da idéia que fazemos a partir das obras de cada um. Mas claro, sempre fica uma sensação do tipo "ah, imaginava eles de forma diferente...". Comigo isso ocorreu principalmente com o Alberto Caeiro, que eu imaginava um pouco mais "rústico". Outro ponto interessante é a relação conflituosa entre o ortônimo e seus heterônimos, que chegam a ganhar certa vida própria e evidenciam o não tão simples processo criativo do poeta.


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Em tempo: Acredito que o título se refira ao fato do personagem fingir ser outra pessoa e através desse fingimento se dar o argumento principal da história, mas também ao próprio ofício de poeta:

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Há duas formas de ver a vida,não, na verdade há mais (sempre!), mas quero falar sobre duas em específico, sobre as quais tenho pensado com maior seriedade.

A primeira é crer que - seja um indivíduo em particular, seja a humanidade como um todo - existe um fluxo contínuo, que através de etapas leve a um "fim último" das coisas. É como se tudo estivesse linearmente intrincado pela idéia do progresso. Esse fim pode ser tanto o sucesso profissional quanto a elevação espiritual/ religiosa. No caso da história, poderia-se pensar nas sociedades como organizadas entre menos e mais desenvolvidas, por qualquer critério que seja (normalmente usa-se o econômico, técnico-científico, bélico e político). Dessa forma, as sociedades poderiam ser colocadas num contínuo, que as diferencia e as hierarquiza, sendo que a inferiores teriam que subir os degraus do progresso, assim como fizeram as mais avançadas. É comum crer que quanto mais um país produz, quanto maior sua capacidade tecnológica, mais próximo ele está de um estágio ideal de desenvolvimento, supostamente claro e desejável por todos. Ou ainda o desenrolar da história inequivocamente levando-nos ao fim dela (como em diversas religiões e na teoria marxista ortodoxa da história).

A segunda maneira, mais condizente com meu pensamento é a vida em sentido amplo se desenrolando como uma coleção mais ou menos indefinida de acontecimentos, que não seguem uma lógica superior (oracular, pré-determinada) e nem uma linearidade que nos permita traçar de antemão um objetivo ideal. Se eles (os objetivos) existem, são construido por nós a partir do "caos", do indefinido. Ou seja, no plano individual há sempre uma ideia de "ganha-se aqui, perde-se ali". Trata-se sempre de escolhas a partir de um leque amplo de opções, de abrir mão de algo em favor de outras coisas, mesmo quando não nos resta a menor dúvida sobre o que queremos. Seguir um caminho (ou construí-lo no decorrer do tempo) é deixar de seguir todos os outros, é estar à mercê de idas e vindas, avanços e retrocessos, que podemos ou não considerar como o "caminho que deveríamos ter traçado desde o início". Estar em uma posição (na carreira profissional, por exemplo), significa não estar em todas as outras, em ganhar em certos pontos, mas perder em muitos outros.
O mesmo valeria para a história num sentido macro. O que se vê como linear é um sucessão de acontecimentos, que encadeados formam uma narrativa histórica (normalmente do ponto de vista dos vencedores, que afirmam que aquele é o caminho que deveria, inevitavelmente, ser trilhado). Ao trilhá-lo, porém, seguiu-se um caminho dentre outros possíveis. O avanço tecnológico, aclamado como avanço da humanidade como um todo, pode ser considerado como uma particularidade cultural, um símbolo e uma ideologia (no sentido de um conjunto de idéias e valores restritas no espaço e no tempo) de determinadas sociedades. Ou seja, está circunscrito nas sociedades que lhe dão valor, que criam uma significação para ela. Assim, como outras formas de ver o mundo, outras cosmologias, podem levar a interpretações diversas sobre o avanço (ou não) da humanidade.

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Engraçado, isso me vem à cabeça quando vejo pessoas defendendo tal ou qual objetivo de vida, como o sucesso financeiro, por exemplo. Parece-me muito evidente que assim como ele traz benefícios, também traz limitações.
Mas como explicar para algumas pessoas que aparecer na "Caras" e possuir jóias pode não ser um desejo absoluto?

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Nota

Me sinto seco, estéril, fraco...
A chateação do tempo mecanizado e do cálculo utilitário fazem parte da minha condição agora.
Não há deslumbramento algum na monotonia e sou tão vulgar quanto qualquer outra coisa pode ser (acho que descobri o meu lugar!).
Não há contemplação, hesitação ou inconformismo no meu calar. É simples falta. E é vontade de pedir que façam o mesmo. Calem-se todos para que possamos dormir em paz. O que mais haveríamos de fazer?

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Quando maio chegou decidi que me manteria calado no mês de abril.