quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

a desarmonia dos contrários

há em mim um pêndulo incessante que oscila entre um sentimentalismo profundo e nostálgico e a descrença geral, pura e cínica. às vezes uma simples frase me faz querer chorar, comovido. outras, qualquer percalço da vida (um coração despedaçado ou um genocídio) me soa como muito corriqueiro e natural; expressão por excelência do que há de humano (desumano?) em nós...

hesito, atordoado, como se fosse dois, entre o racional e o non-sense. em alguns momentos sinto tudo cair sobre minhas costas, um peso que mal consigo suportar, condensação de uma melancolia da qual parece se constituir minha alma, o universo e a experiência que temos dele. a desventura na qual somos todos companheiros. em outras, veja só, me sinto um bufão a exaltar o niilismo e a rir de toda e qualquer imagem que fazemos de nós mesmos e do mundo, das perguntas e das respostas (esqueça-as todas!). a ausência de sentido, o caos por essência e a nossa hipocrisia delirante tentando estabelecer um mínimo de ordem e lógica...

sinto que ando o tempo todo em areia movediça e se por um momento paro e penso ser possível construir meu castelo de certezas, logo percebo que não há terreno confiável, não há base sólida que possa me sustentar... e sigo, sempre, entre dormente e eufórico, numa eterna e desgastante ambiguidade que a primeira vista parece unir os opostos que suponho me constituir (não será isso também uma mera alucinação?), sem saber exatamente que esperar.
de mim.
do resto...
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Que droga foi que me inoculei?

Ópio de inferno em vez de paraíso?...
Que sortilégio a mim próprio lancei?
Como é que em dor genial eu me eternizo?

Nem ópio, nem morfina. O que me ardeu,
Foi álcool mais raro e penetrante:
É só de mim que ando delirante -
Manhã tão forte que me anoiteceu.

(Mário de Sá-Carneiro)

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

"Se eu existo, logo Deus deve existir também. É uma gentileza que eu faço com um desconhecido.”

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me parece razoável...

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

do ano que passou

puxa vida, mais um ano se passou...sei, não poderia ter escolhido frase mais desgastada e repetida do que essa para começar a escrever. mas de fato, me surpreendo (sempre) com a veloz sucessão dos acontecimentos, que eu quase não consigo alcançar e com a constante nostalgia que me assola e me comove. ainda mais se paro pra pensar restropectivamente, como agora, no começo de um novo ano. afinal é areia que temos nas nossas mãos e assistimos atônitos ela cair como chumbo ante nossos pés...

e muita areia caiu... o sólido se desmanchou no ar diante dos meus olhos resignados e resolutos. o tempo das bicicletas voadoras e do céu vermelho passou (será que já não tinha passado há muito tempo?)... um misto de  lamento raivoso e desvario se formou em mim e a "certeza da incerteza" me fez rir e descrer... "o que era refúgio, tornou-se armadilha". mas quando quiseram me pegar eu não estava mais lá (apesar de ter sido por um triz).

houve um momento profundo de depuração, de confiar somente nas próprias pernas, no movimento e no equilíbrio que elas trazem. pude me reescrever, sentir o que era alegria e o que era tristeza. abraçar ambos num gesto egoísta como exclusivamente meus, sentí-los como a sustentação do que eu poderia ser em cada um dos momentos que passei.

fez-se uma breve pausa para a música alta, para o copo cheio (até a borda), para o corpo sôfrego. tudo ao mesmo tempo agora. deixar-se estar. ficar e partir. me partir em quantos fosse possível. deixar estilhaços desse coração pequeno e roto em quantos lugares fossem possíveis, para pessoas que talvez não saibam que o carregam consigo (e que se soubessem talvez preferissem não carregá-lo). por sorte, meus sorrisos (os sinceros e os amarelos) encontraram companhia em muitos outros sorrisos...

mas, sabe, o melhor eu ainda não contei: fiquei fascinado pelo sol e passei a acordar mais cedo, na expectativa de poder vê-lo nascer. todos os dias, até nos nublados. e no meio de tanta gente eu me perdia a olhá-lo curioso. eram minutos curtos mas resplandecentes. até me fizeram querer que fosse sempre sol. quase um heliófilo! e de fato, numa noite dessas em que não pude dormir, o vi nascer no meio da noite, quente, vigoroso. me senti tocado profundamente e não anoiteceu mais... agora percebo que ainda há motivos pra "querer começar tudo de novo, tropeçar nos próprios pés, mas ter a certeza de sempre ir em frente". caminhando, lento. daqui até a lua.

enfim, sem mais divagações grosseiras. sei lá, acho que só queria frisar esse momento de renovação,  ainda que somente por convenção do calendário (eu sei, no fim é tudo sempre igual...).

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

de um segundo

"(...) é tão bom saber que tem essas pessoas nas nossas vidas que só esperam que sejamos felizes porque acham que a gente merece ser feliz."

li isso há trinta segundos atrás (http://bettypurpurina.wordpress.com/ postado em 15/12/2010) e não pude evitar que, de alguma forma, também me tocasse de uma maneira inesperada e me fizesse pensar... Gosto da maneira incomum como relações interpessoais conseguem me sensibilizar, observar e perceber essa cadeia de vínculos e afetos que vai se formando e como o que você faz e diz (às vezes as menores besteiras) acaba marcando profundamente quem está ao seu redor, mesmo que não tenha sido essa a intenção imediata. Sei  lá, talvez o caso seja que eu dê valor agora, como nunca antes, (ou perceba de uma nova maneira) às pessoas que acreditam que você é mais do que você mesmo acredita ser e acabam por fazer você querer ser assim. Somos nós, no fim nos amparando em outros corações...

E digo mais: muito melhor do que ter pessoas dessas na sua vida é quando é você que encontra alguém que você quer que seja feliz, porque você acredita nela e sabe que merece, simplesmente por ser quem é (numa certeza egoísta e arbitrária). E tentar fazer esse alguém feliz acaba sendo o mínimo que se pode fazer, por você e por ela (ainda que não se acredite nessa tal felicidade). É... acho que é mais ou menos o que eu sinto, viu?

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

"A literatura nos dá sempre algo que a vida não nos acaba de dar. E isso se deve à condição humana: fomos feito de tal maneira que vivemos só uma vida, mas temos uma imaginação, uns desejos, uns apetite que nos faz querer não uma, senão mil vidas."

(Mario Vargas Llosa)

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

nota

ela não sabe, mas ao abrir seus dois braços curtos (brancos) - ao oferecê-los para mim num abraço forte, vigoroso - consegue alcançar a lua.

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simples assim...

"Quero que todos os dias do ano
todos os dias da vida
de meia em meia hora
de 5 em 5 minutos
me digas: Eu te amo.

Ouvindo-te dizer: Eu te amo,
creio, no momento, que sou amado.
No momento anterior
e no seguinte,
como sabê-lo?"

(...)

"No momento em que não me dizes:
Eu te amo,
inexoravelmente sei
que deixaste de amar-me,
que nunca me amastes antes.
Se não me disseres urgente repetido
Eu te amoamoamoamoamo,
verdade fulminante que acabas de desentranhar,
eu me precipito no caos,
essa coleção de objetos de não-amor."

(Carlos Drummond de Andrade)

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

termo

venha sem aviso
de repente
invisível

e me leve o mais
rapidamente
possível

(arnaldo antunes. n.d.a.)
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...assim, sem meio termo

porque quando eu abro esse livro [essa beira de abismo] é teu cheiro que eu sinto...
e eu ainda tenho uma história inteira pra ler [na tua letra cursiva].

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

"deveríamos ser tolerantes com qualquer tipo de estupidez, falha e vício, pensando que o que está diante de nós é tão-somente nossa própria estupidez falha e vício, já que esses são erros da humanidade, na qual também nos incluímos, e consequentemente temos também todas as falhas, até mesmo aquelas que nos causam indignação, apenas porque, neste momento, não as manifestamos."

(A. Schopenhauer)
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"Sou humano, e nada que é humano me é estranho"

"ei, amigo, aonde vai? não sabe que estamos todos no mesmo barco e que ele afunda lenta e irremediavelmente?"

[mas isso é tão difícil de colocar em prática, não é mesmo? a primeira coisa que fazemos é dividir o mundo inteiro em nós e os outros, certos e errados, inocentes e culpados, bons e maus. acho revigorante a ideia de que essa dualidade está em cada um de nós. se há algo para mudarmos no mundo deve ser o que há por trás dos olhos.]

sexta-feira, 19 de novembro de 2010

acho que ainda não me acostumei com seu sorriso.
poderia ficar horas a fio só a olhá-lo fixamente e sentir essa meninice inexplicável brincar em mim.
o frio na barriga que sobe até garganta e se transfigura num sorriso-resposta tolo.
estranho pensar que exatamente agora é pra mim que ele se exibe, doce, radiante.
o sorriso que nasce nos olhos, escorre pelas bochechas e morre (renasce) nos lábios, num fluxo infinito... esforço-me pra decorar cada um dos dentes que você me mostra.
atônito, comovido, tento em vão captar a essência íntima (a poesia) que transborda da tua boca e escorre pela minha.
(tento me guardar em mim, mas você sabe, sempre, exatamente onde estou.)
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...

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

sobre os três dias que virão...

"E só de te ver eu penso em trocar
A minha TV num jeito de te levar
A qualquer lugar que você queira
E ir onde o vento for
Que pra nós dois
Sair de casa já é se aventurar."

(Último Romance)
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Por que a gente não troca toda essa burocracia (essa tv...) por duas (ou três, sei lá) noites no deserto?