quarta-feira, 30 de outubro de 2013

extermínio de mendigos, censura e pena de morte hoje...

"Mendigo não tem que votar. Mendigo não faz nada na vida. Ele não tem que tomar atitude nenhuma. Aliás, eu acho que deveria até virar ração para peixe".
Uma declaração como essa me arrepia, me indigna, me desilude (ainda mais). Não só por vir de um parlamentar, membro de um partido político e representante de toda a população de um município. Mas porque, de certa forma, é assim que pensa uma parte considerável dos brasileiros. Tudo bem que o vereador de Piraí (RJ) teve que se superar em burrice e coragem para fazer um discurso que é conservador, totalitário e claramente criminoso (afinal é um político dizendo que pessoas que moram na rua deve morrer), mas eu duvido que ele não tenha ganho a admiração de muitos que tomaram conhecimento de suas ideias "inovadoras" no tratamento às pessoas em situação de rua. 

Primeiro, ele diz que mendigo não tem que votar. Ou seja, ao morar na rua (por qualquer que seja o motivo) todo cidadão brasileiro deveria ter seus direitos políticos negados. 

Segundo, presume-se e afirma-se, numa lógica simplista e nojenta, que se está na rua é porque é vagabundo, não faz nada na vida, deliberadamente. Esse é um raciocínio falso, raso, hipócrita e cínico.

Terceiro, e o mais grave, defende-se que pessoas nessa condição devam ser mortas, exterminadas sumariamente, por serem indesejáveis. 

Nega-se, assim todos os direitos de uma parte dos seres humanos deste país. Não têm o direito de serem cidadãos e nem mesmo de existir. É de um obscurantismo e de uma intolerância atroz. Mais do que isso, não se discute em nenhum momento a questão dos "mendigos" como um problema social crônico, fruto direto da miséria e da desigualdade pornográfica que sempre existiu no Brasil. Não se precisa ser muito esperto pra entender que sair das ruas não é só questão de um "vai trabalhar, vagabundo" (bom, talvez um pouco mais esperto do que o nobre vereador em pauta). Existe um intrincado ciclo vicioso da miséria que se reproduz continuamente e do qual muitas pessoas não conseguem sair facilmente.

Pode não parecer, mas estamos muito próximos de uma lógica bem sucedida no regime nazista e que costuma contar com a calorosa aprovação das massas, desejosas de um mundo "mais seguro para os cidadãos de bem". Nas palavras do historiador Robert Gellately: 
"O regime [nazista] se vangloriava de sua nova abordagem contra criminosos reincidentes, alcoólatras crônicos, criminosos sexuais, desempregados e mendigos. Hitler prometeu 'limpar as ruas', e a maioria das pessoas aprovou a medida. Algumas acreditavam de fato no Hitler e no nazismo".
Ou seja, essa ideia de limpar as ruas do lixo social não é nova e nos aproxima muito do que existiu de pior em matéria de ideais políticos e sociais. Quando um vereador a expõe com todas as letras na tribuna de uma casa legislativa ele está basicamente reforçando uma mentalidade da qual uma parte significante da população se identifica e diante da qual não podemos de maneira nenhuma nos calar.



P.S.: Continuando seu discurso absurdo e desatroso, o mesmo vereador ainda defendeu a pena de morte, argumentando que, se o criminoso soubesse que iria morrer ele ia pensar duas vezes antes de cometer seus crimes, e a censura, em suas palavras: “Fim da censura. Eu acho isso ruim. Tem que ter censura. Nas propagandas de filmes e de novelas, passa gente transando escandalosamente na frente de criança. Eu acho ridículo acabar com a censura."


 

terça-feira, 29 de outubro de 2013

algumas linhas sobre ''a lista de schindler"

depois de muitos anos na minha lista de filmes a assistir, finalmente tive a oportunidade de encarar as mais de 3 horas de duração de "a lista de schindler". 

antes de tudo tenho que dizer que, apesar de ser longo, ele transcorre de maneira muito suave e agradável, prendendo a atenção do espectador e mantendo um bom ritmo durante todo o filme. não posso dizer que tenha havido alguma passagem que eu considerasse desnecessária ou enfadonha. cenas de extrema degradação e violência são constrastadas com a opulência dos oficiais nazistas, numa fotografia em preto e branco belíssima, que acentua a crueza e o horror sempre presentes.

Liam Neeson está ótimo no papel de Oskar Schindler, um personagem sedutor e cheio de si, mas para mim quem rouba a cena é o contador judeu Itzak Stern, que mesmo ciente da situação desesperadora em que se encontra, consegue manter-se numa certa posição de dignidade, sóbrio e comedido, conquistando a confiança e admiração de Schindler.

a história mantem-se o tempo todo interessante, contada com maestria e que consegue, sem dúvida sensibilizar e chocar. conta, em linhas bem gerais, a história de Oskar Schindler, empresário alemão e membro do partido nazista que, com o intuíto de ganhar muito dinheiro, se propõe a empregar mão de obra judia (pela qual se pagava menos) em sua fábrica. o que a princípio era somente um "aproveitar-se da situação" (que envolvia contar com investimento de judeus e conquistar a simpatia do governo, para contar com vantajosos contratos), acaba ganhando contornos humanitários, quando trabalhar na fábrica de Schindler torna-se uma segurança para centenas de judeus que viam dia a dia suas condições de vida se precarizar. mesmo que não compartilhando o sentimento anti-semita dos outros nazistas, o empresário está mais preocupado em maximizar seus lucros, mas acaba tomando partido na tentativa de salvar o máximo possível de judeus e, graças a sua influência com os oficiais nazistas e despendendo a fortuna que conseguiu juntar, ele suborna o comandante do campo de concentração, para que os trabalhadores de sua fábrica pudessem ser levados para Tchecoslováquia e não para Auschwitz, para trabalharem numa fábrica munições. Mesmo correndo o risco de contar uma parte que eu não deveria da história, chega a ser engraçado quando ficamos sabendo que nos sete meses em que a fábrica funcionou ela foi (propositalmente) um exemplo de ineficiência, na qual  Schindler gastou todo o restante de sua recem adquirida fortuna.

o que se vê na tela, e o que mais me espantou, é a crescente negação da humanidade dos judeus. mais do que um grupo a ser exterminado, eles perdem completamente sua condição de seres humanos, passando as mais degradantes humilhações, contra as quais mal podiam resistir. tornam-se um número, seres indesejáveis, desprezíveis, incomôdos na sua existência e na sua morte, contra os quais a única preocupação passou a ser como eliminá-los da formas mais eficaz. fica no ar a pergunta, difícil de responder, de como é possível que se possa negar, com tanta convicção e naturalidade os direitos mais básicos de dignidade a parte do seres humanos. a despeito do anti-semitismo histórico e sempre presente, qual é a lógica que opera num regime que em poucos anos consegue convencer todo um país de que faz-se necessário que uma parte enorme das pessoas devam deixar de existir, deixar de ser reconhecidas como pessoas, num processo que desarma e subjulga de tal forma as vítimas, que elas se veem sem condição de resistir ou reagir, submetendo-se totalmente ao seu algoz.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

a felicidade como um ventre...

"Adorno observa que não é possível estabelecer, com a felicidade, uma relação de posse. Não é certo dizer 'temos felicidade', 'somos donos de uma coisa chamada felicidade'. Não a temos, diz Adorno, 'mas sim estamos dentro dela'.
"Ele continua: 'a felicidade é sentir-se envolvido, é uma reminiscência do ventre materno. Por isso, quem é feliz nunca pode saber que o é. Para dar-se conta da felicidade seria necessário sair de dentro dela. Quem afirma ser feliz está mentindo, e, ao invocar a felicidade, peca contra ela. Só quem afirma: 'fui feliz' é fiel à felicidade. A única relação da consciência com a felicidade é a da gratidão: nisto consiste sua incomparável dignidade".

( COELHO, Marcelo. A dificuldade de ser feliz in Tempo Medido, São Paulo: Publifolha, 2007)
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 sabido esse adorno...

sempre pensei mesmo nessa tal de felicidade como frágil e incerta, algo que se dissipa no ar ao ser pronunciado.
parar pra pensar, procurá-la, definí-la, apreendê-la, já seria uma forma de renunciar a ela, colocar-se "do lado de fora". 
como quando sonhamos, prestar atenção na sua existência é não vivenciá-la...

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

algumas linhas sobre o "guia politicamente incorreto da história do mundo"

esse novo "guia politicamente incorreto" não foge aos dois primeiros: se empenha em bater num suposto monopólio esquerdista do pensamento e traz um catado de temas desde a antiguidade até o mundo contemporâneo. muitas coisas servem como curiosidades, não sendo tratadas muito a fundo e por vezes misturando fatos com opiniões pessoais (o que pode ser perigoso).

assim como os outros livros que tratam de temas do brasil e da américa latina, é impossível lê-lo indiferente. o objetivo é declaradamente incomodar, fazer barulho e nesse objetivo o livro é feliz. claro que tem falhas graves, é provocativo e para isso arrisca-se a raciocínios simplificados e interpretações questionáveis dos fatos. ao discordar de uma visão histórica supostamente estabelecida e majoritária ele comete o mesmo erro de ser tendencioso. é como se o que foi dito até então (o que por si só já é uma simplificação, já que a própria historigrafia é ampla e diversificada) fosse o "errado" e o que ele diz agora seja o "certo". além disso me incomodou o fato de tentar escrever de forma descolada e engraçadinha, como se estivesse falando com pessoas que têm dificuldade de entender.

se tem uma mensagem que esse livro traz (pelo menos implicitamente) e que eu não posso deixar de concordar é a de que a História é muito mais complexa do que nós aprendemos na escola. eu não saberia fazer um julgamento acurado sobre Nero ou Gandhi, por exemplo, mas tenho a convicção de que foram personalidades grandiosas, cheias de nuances, muito mais do que nos acostumamos a ver depois, num discurso consolidado. Não é possível e nem desejável colocá-los de antemão no lado dos mocinhos ou dos bandidos. até porque a própria maneira como os fatos chegam até nós está totalmente imbricada a quem escreve e ao espírito da época em que se escreve e, sendo impossível fugir totalmente disso, temos que nos posicionar de maneira cautelosa em relação ao todo. é interessante perceber essa tendência, ao saber que a maneira como nos acostumamos a ver os samurais hoje em dia é uma forma romanceada como se passou a retratar a época, meio que num movimento de nostalgia e saudosismo, um bom tempo depois. assim também, creio realmente que a idade média foi muito mais do que uma época de obscurantismo e que o facismo enquanto movimento político não foi simplesmente o resultado de mentes monstruosas arquitentando a dominação mundial. a história é sempre muito mais do que nos dizem sobre ela...

porém Narloch deixa isso claro ao mostrar o contraste entre opiniões destoantes (a dele e a dos "politicamente corretos") e não sendo um analista ponderado (até porque não creio que tenha sido esse seu objetivo). assim, ao dizer que o capitalismo foi a melhor coisa que poderia acontecer aos pobres (sim, ele fala isso!) ele deixa exposto que se isso não é verdadeiro (e só uma mente grosseira poderia corroborar tal afirmação), ao mesmo tempo coloca algumas pulgas atrás da orelha, ao tentarmos ser mais honestos e avaliar o que aconteceu na revolução indústrial como o acúmulo e a convergência de uma série de acontecimentos anteriores que culminaram num novo sistema produtivo e de organização social. politicamente pode-se posicionar em relação a essa forma de interação humana como "contra" ou "a favor", "feio" ou "bonito" mas ao buscarmos uma análise histórica abrangente temos que ir muito além. entre o preto e branco há uma infinidade de outras tonalidades às quais o historiador deve-se atentar ao compor um quadro. o autor faça isso, muito pelo contrário, mas meio que num processo dialético, ao negar algumas supostas verdades ele pelo menos deixa à mostra a fragilidade com que os discursos são produzidos.

enfim, leiam se os temas abordados interessarem, mas tenham cuidado para não dar mais legitimidade ao livro do que ele merece.

não saberia ser mais claro sobre minhas opinões, então prefiro resumí-las entre os pontos positivos e negativos:

PRÓS

busca oxigenar e trazer outros pontos de vista a fatos do passado. mesmo que passíveis de refutação, pelo menos nos fazem questionar. tira do lugar comum e da acomodação de uma verdade estabelecida.

ao dizer coisas não comumente ditas sobre esses fatos, nos incentiva a problematizar e vê-los de uma maneira mais humana e complexa.


é extramente instigante, capta a atenção mesmo quando escreve coisas absurdas e a partir disso me obriga a rever e reforçar  meus posicionamentos. 
CONTRAS

na ânsia de ser polêmico e procativo, acaba defendendo pontos de vista de maneira totalmente simplificada e precipitada. assim, incorre no mesmo erro de que acusa a história majoritária dos livros escolares ao "ideologizar" a informação.
não dá pra dar crédito a muita coisa que ele defende por que percebe-se uma argumentação frágil e descontextualizada. me parece que não entende de muita coisa que diz.
tenta ser engraçadinho e raso na maneira de escrever, como se precisasse "facilitar"a comunicação para ser entendido. pelo menos pra mim isso cansa e deixa o texto mais pobre (às vezes lembra a galera que escreve comentários na internet).


quinta-feira, 26 de setembro de 2013

exercício de fraternidade nº 2

sente-se
caro amigo
de bom grado
divido contigo,
nesta mesa,
o tempo, servido
como petisco
enquanto bebemos a vida
sem sede e sem fé

saúdo-te
num abraço
fraterno, atrasado
de outra encarnação.
faremos planos
de incendiar o congresso
ou viajar nas férias
(pausa para a risada,
sua explosão anárquica)

apoio-me
na sua existência
e fico menos deserto

sua alma, gigante,
não cabe no corpo,

escorre no asfalto
e sem se dar conta
me aponta os caminhos
de volta pra casa

(gosto de falar com você quando não está prestando atenção)
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"ah, a bem-vinda alienação de sentar em uma mesa sem telefones espertos, somente a cerveja despejada nos copos de requeijão e um bocado de inconsequência para distrair os nossos ouvidos e algumas risadas que serão sufocadas entre alguns suspiros matutinos. Ergamos nossos pulsos enfurecidos! E enquanto isso, o mundo gira e voltamos para a casa mais vivos; cuspindo sangue, com navalhas nos bolsos furados e dentes no travesseiro, dormindo (perdidos) entre a ponte dos nossos sonhos."

terça-feira, 24 de setembro de 2013

os meus centavos sobre o julgamento do mensalão

vou ser tentar ser o mais direto e claro possível, até porque sei pouco sobre o assunto, mas como bom brasileiro, quero dar meu pitaco sobre aquilo que não entendo:

1) o mensalão existiu. ficou feio pro partido que até então pregava a ética e a honestidade. corrupção é corrupção e pronto, não interessa qual seu objetivo, não há justificativas. é ridículo ver muito petista cego negando o mensalão ou tentando justificá-lo, como se fosse um mal necessário em prol de algum objetivo virtuoso...

2) tenho convicção de que a troca de dinheiro por apoio político (vulgo mensalão) tem sido amplamente utilizada através do tempo como modus operandi dos governos em todas as esferas da nossa bela democracia. então para com essa porra de "o maior caso de corrupção da história desse país". apesar da maioria do povo acreditar, isso é besteira.

3) os outros partidos, de maneira geral, são tão ou mais corruptos do que o pt. na verdade eu creio que eles sejam ainda mais, (duvida? clique aqui, o pt aparece num modesto nono lugar no ranking de partidos com mais políticos cassados). portanto, tenho nojo do uso político que os adversários do pt fazem, querendo se colocar acima deles, de forma cínica e deslavada, numa tentativa de cooptar a opinião pública.

4) é evidente que a grande mídia também vem usando desde 2005 de maneira suspeita esse caso, por interesse próprio e rusgas ideológicas. fala-se muito menos de outros casos de corrupção que estouraram no mesmo período (mensalão do dem e cartel do metrô, por exemplo). tem toda essa repercursão porque é o pt...

5) lamentável o quanto as pessoas querem dar palpite e criticar a postura do stf, sem entender porra nenhuma de direito e do funcionamento do judiciário. não se deseja um julgamento arrazoado, mas um linchamento em praça pública. nesse sentido, achei muito interessante o jurista ives gandra vir a público dizer que o zé dirceu foi condenado sem provas (clique aqui). se está certo ou errado eu não sei, mas passa credibilidade e é maduro da parte dele, enquanto uma figura consevadora e nem um pouco simpática ao pt, conseguir analisar os fatos de maneira isenta.

6) irrita o quanto puxam o saco de maneira ignorante do tal do joaquim barbosa. ele NÃO é um justiceiro, assim como alguns outros ministros do stf não são filhos da puta porque suspotamente votaram de maneira técnica, baseados em suas próprias conclusões, a partir dos autos e absolveram alguns ou todos os réus. quer dizer, eles podem até ser, eventualmente, filhos da puta, mal intencionados, mas é canalhice da nossa parte supor isso de antemão, sem tentar entender tudo o que envolve o julgamento e o que está contido no processo. 

7) parece até aqui que estou defendendo os envolvidos no caso do mensalão, mas não estou. acho que será lindo o dia em que os culpados forem finalmente pra cadeia, assim como é fato que não voto no pt (também por outros fatores), porém acho besteira esse negócio de querer mandar as bruxas pra fogueira. me irrita lidar com assuntos tão sérios assim como se fosse um fla x flu. sou a favor de um julgamento justo, razoável e baseado em provas, não no clamor popular, altamente manipulável e irracional.


segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Um Arco-íris de Verdade

ouça aqui

eu não sei se vai chover ou fazer sol
quero os dois e um arco-íris sobre o céu da cidade,
você já viu um arco-íris de verdade?

eu não sei se você vai me querer por um ano ou só por essa tarde,
mas eu queria alguma coisa sua que marcasse a minha vida,
seja sua unha na minha pele ou uma aliança no meu dedo

e se chover nem vem de guarda-chuva, que eu quero mesmo é te beijar molhada
e a gente dança e pisa em tantas poças
e a gente brinca de estar apaixonado

eu não sei se você vem no vento que assobia
de cabelo bagunçado e lenço no pescoço
mas vê se espanta essa frente fria
e me traz um pouco de calor na sua mochila

e se chover nem vem de guarda-chuva,
que eu quero mesmo é te beijar molhada
e a gente dança e pisa em tantas poças
e a gente brinca de estar apaixonado

e se chover nem vem de guarda-chuva,
que eu quero mesmo é te beijar molhada
e se o sol sair me leva lá pra fora,
me põe embaixo do seu céu de cores cintilantes


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

"Ocorre que, por vivermos em um mundo plural, não podemos prever plenamente as consequências de nossas ações, e isto não se deve a uma deficiência cognitiva, mas sim a um certo grau de imprevisibilidade de toda ação, haja vista que, por estarmos inseridos em uma rede de relações, onde toda ação gera reações, não podemos saber integralmente qual o resultado do processo irreversível que desencadeamos no mundo. Por isso Arendt diz que apesar de agirmos, não somos os autores da história, pois o significado da mesma somente pode ser encontrado no 'fim', isto é, de maneira retrospectiva por quem se dispõe a narrá-la. Nessa linha, podemos dizer que a constituição de nós mesmos, de nossa biografia, do sentido de nossa existênca, bem como a constituição da comunidade política em que vivemos é uma atividade plural, que é incapaz de ser realizada solitariamente, pois a antes mencionada rede de relações que está por detrás dos negócios humanos não permite que realmente sejamos soberanos e onipotentes (...)."

(TORRES, Ana Paula Repolês. O Sentido da Política em Hannah Arendt.)
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Entrar em contato com as ideias de Hannah Arendt é sempre inspirador... 
A maneira como ela coloca cada um de nós nos seu "devido lugar" (nada mais e nada menos) ao frisar que não somos capazes de constituirmos individualmente nem a nós mesmos e nem uma comunidade política é forte e original. Afinal de contas (e sendo esse um dos pontos mais marcantes de seu pensamento), é somente na interação entre os homens, no exercício da liberdade entre iguais que nos é possibilitado tanto a construção de nós mesmos enquanto pertencentes ao mundo, quanto a construção do próprio mundo, enquanto espaço para a ação do homem. 
É através do olhar do(s) outro(s) que nos percebemos e é justamente a pluralidade de olhares e dos sujeitos que emergem a partir dessa relação que permite o surgimento do espaço público e da política, enquanto diálogo e troca.
Nesse sentido, gosto da ideia que ela elucida da história como algo que nos escapa, uma narrativa que se dá posteriormente aos acontecimentos, quando alguém se prestará a narrá-los. Nós agimos no presente, mas o significado e o desenrolar que nos levará a um "fim" é sempre incerto,  já que volátil.
Tampouco temos controle sobre a irradiação de nossas ações e não é no isolamento que se forma o "eu" e o "outro", mas antes nas reações às nossas ações, que ecoam por essa rede de relações e que inevitavelmente acabam voltando para nós mesmo das maneiras mais inimagináveis e constituindo de muitas formas o sentido de nossa existência.



segunda-feira, 12 de agosto de 2013

do que eu aprendi...

começo ponderando se posso realmente chamar isso de aprendizado. sei que sou irritantemente prevísivel e logo de cara questiono a mim mesmo (antes que alguém o faça?). não consigo dar um passo firme numa direção sem antes hesitar, olhar para os meus pés e ao meu redor (isso é o que me mata e me constitui)... não consigo dizer ao certo que sou mais sábio agora do que era antes, que sou melhor. será que, pelo contrário, simplesmente deixei de ser uma coisa para passar a ser outra? não é isso mesmo que fazemos o tempo todo? a despeito da falta de resposta que se anuncia ao questionar-me sobre o título, ousarei chamar o acúmulo de dias e anos e as experiências que de alguma maneira absorvi de aprendizado. afinal, desse intervalo de tempo que tenho me mantido vivo, fiz algumas coisas e elas também acabaram por fazer algo de mim.

quer dizer, nesse universo infinitamente aberto de saberes possíveis, só posso falar de fato em aprendizado se estabelecer de antemão um ponto de partida e um objetivo. caso contrário tudo se torna válido. ir ou ficar, ser ou não ser, toda e qualquer interação do ser humano consigo, com os outros e o ambiente implica em causar reações a si mesmo, alterar sua formação, imprimir marcas às quais podemos dar o nome de "aprendizado". entende aonde quero chegar? tentamos enxergar na escuridão do mundo com a chama de um palito de fósforo e o que iluminamos sempre será mísera partícula se comparada a tudo aquilo que nos escapa...

vencido dois parágrafos de fútil papo furado e arriscando em fazer um balanço entre a mesma pessoa separada pelo tempo, posso dizer que consegui usar a meu favor os percalços experienciados e que acabaram por contribuir para uma certa solidificação do "eu". isso sim é algo que posso considerar relevante: conseguir se tornar algo "duro" no universo. e quando eu uso tal expressão, por favor, considerem essa dureza de maneira relativa, no sentido de oferecer alguma resistência às diversas correntezas que nos assolam ininterruptamente e contra as quais invariavelmente nadamos, de conseguirmos ir em frente (supondo que é pra frente que seguimos) e de podermos ser um corpo um tanto quanto impermeável, que não sofra a todo tempo a invasão de outros corpos. e aqui estão dois pontos que se mostram relevantes para qualquer ser humano: ter minimamente a força, a pulsão, de seguir um caminho, enquanto sujeito "autônomo" e com "vontade própria" e ao mesmo tempo conseguir ser um todo minimamente coeso, capaz de proteger a si mesmo das invasões que nos ameaçam. algo como um "caminhar com a próprias pernas" e mais do que isso, estabelecer por conta própria o caminho que será caminhado. claro, sem perder a capacidade de contemplar a pluralidade possível e que nos traz beleza (e tormento).

acho que é isso, posso esboçar conclusões. creio que tenha aprendido e esteja sempre apredendo a pensar (e repensar, num processo contínuo) meu caminho possível e desejável, bem como caminhá-lo com retidão e firmeza. julgo ter aprendido também a olhar para a frente, sem deixar de prestar atenção ao meu redor, estar atento ao que me circunda e sempre com o passado nas costas (fardos e delícias com os quais não aprendi a viver sem). ainda suscetível a retrocessos e vacilações, mas igualmente preparado para fazer delas companheiras que me transmitam algo, tentar torná-las parte (importante) do caminho, que me caracterize e me aproxime de mim mesmo.

e vejam, se falo assim em termos tão abstratos e genéricos é justamente para que se possa ganhar essa amplitude, para não me fechar em especificidades, para que eu possa falar de mim como um todo. mas, sei, estou simplesmente falando da ação de um homem no mundo dos humanos e da ação que esse mesmo mundo causa num certo homem. e mais especificamente da capacidade de se autodeterminar e de ser um ponto de resistência. porém, não me iludo no alcance dessa autodeterminação e resistência. na realidade podemos muito pouco e sabemos quase nada. as possibilidades que nos apresentam são limitadas. ok, isso posto (e com o perdão do clichê), ainda creio ser possível fazermos limonada com os limões que a vida nos dá. ou ainda, quem sabe, com um pouco de sorte, uma bela caipirinha...

domingo, 4 de agosto de 2013

poema-convite

ah!
tuas coxas brancas,
tuas pernas curtas,
no ângulo reto em que florescem
úmidas
e tomam a forma do meu desejo
trêmulo
torno-me de novo devotado
púbere
acompanho atento o movimento
            rítmico          
em que se insinuam e fogem
hipnóticas
(mistério que não desvendo)

amo, sem saber rimar
tuas pernas ao meu desatino,
lívidas
nascem suaves em dedos
mínimos
serpenteiam ao meu redor
lânguidas
e vigorosas morrem
líquidas
(como eu morro)
no calor de teu quadril-convite