sábado, 2 de julho de 2016

final de uma ode

'(...) Quisera dividir o corpo em heterônimos - medito aqui no chão, imóvel tóxico do tempo."

domingo, 15 de maio de 2016

Sexagésimo nono soneto de amor

TALVEZ NÃO SER É SER SEM QUE TU SEJAS,
sem que vás cortando o meio-dia
como uma flor azul, sem que caminhes
mais tarde pela névoa e os ladrilhos,

sem essa luz que levas na mão
que talvez outros não verão dourada,
que talvez ninguém soube que crescia
como a origem rubra da rosa,

SEM QUE SEJAS, ENFIM, SEM QUE VIESSES
BRUSCA, INCITANTE, CONHECER MINHA VIDA,
aragem de roseira, trigo de vento

E DESDE ENTÃO SOU PORQUE TU ÉS,
E DESDE ENTÃO ÉS, SOU E SOMOS
E POR AMOR SEREI, SERÁS, SEREMOS.

(NERUDA, Pablo in Cem Sonetos de Amor)
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quinta-feira, 21 de abril de 2016

"- Não se preocupe - me disse - É assim que deve ser. Os que fazem da objetividade uma religião mentem. Eles não querem ser objetivos, mentira: querem ser objetos, para salvar-se da dor humana."

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Ainda Galeano, que página a página bate e abraça mais.


sábado, 19 de março de 2016

d'Os Abraços

- "(...) talvez a gente seja as palavras que contam o que a gente é".

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 "Os poetas andavam em busca de palavras que não conheciam, e também buscavam palavras que conheciam e tinha perdido".

(o apego à palavra exata. o peso de não encontrá-la...)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

o apego à palavra exata
o peso de não encontrá-la
(dois versos se foram e ainda estou longe...)
queria tanto...

a falta que faz
o que não se escreve
mês passado éramos jovens
havia tinta pra tudo

arrisco, mas não.
leio carlos, releio manoel
vejo notícia antiga e foto velha...
busco o dicionário,
morro na página 3

a máquina gira o mundo
eu não digo,
mas quero ser feliz

me escapa a ironia
escondida no desastre
de ser humano e crer

meio poema deixado em aberto
metalinguagem criando ferrugem
éramos jovens ontem à tarde
mas não... (queria tanto)

não fingirei que fui capaz
de encontrar.
nenhum verso me ampara,
o dia se arrasta
arrastado fluo também

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

"o pensamento não é neutro; ou ele é confirmação do estado das coisas, ou é crítico e transformador das subjetividades na direção de um pensamento lúcido entrelaçado a práticas lúcidas em tempos obscurantistas"

(TIBURI, Márcia. "Como Conversar Com Um Facista", Ed. Record)

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partindo do princípio, muito claro para mim, de que o pensamento não é neutro (pensar em algo é não pensar em todas as outras coisas, é estabelecer uma ordem para as ideias e para o mundo), podemos utilizar nossa capacidade cognitiva e reflexiva para transformar ou simplesmente reforçar o status quo. podemos ser meros replicadores do passado estabelecido ou propor e considerar novas posturas frente a eternas questões. 

porém, considerar-se questionador ou somente opor-se ao estado das coisas não basta. a crítica por si só é limitada em sua capacidade de transformar e induzir o processo dialético. tanto quanto possível, há que se buscar, enquanto sujeito, a lucidez teórica e prática como forma de combater o obscurantismo que sempre ronda muito perto todas as nossas formas de pensamento.

por que eu estou dizendo isso? não sei exatamente. um pouco talvez pelo desalento que me causa ver a vontade e a ação transformadora se deixarem seduzir tão facilmente pelo atalho das ideias pré-concebidas. me pergunto (e já sei a resposta) até que ponto é válido supor-se crítico quando o que se faz, na verdade, é substituir um pensamento obscurantista por outro, com a aparência um pouco mais moderninha...

acho que é isso. que venha 2016...

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Dacnomania

vem cá, te explico
cada dente é um argumento,
torto e dolorido,
que tua pele escuta atenta.
incisivo, te convenço
canino, te convido

conto, na mordida,
da fome por tua vida
te faço presa, rio,
num blefe, te desafio
no jogo que não venço
com regras que não sigo

mastigo o teu disfarce
por esporte e por instinto
cuspo o teu discurso
de metal enferrujado
só me interessa o frágil frêmito
da razão abocanhada





quarta-feira, 12 de agosto de 2015

sobre os incovenientes da linguagem...

"Não sei o que estou dizendo, tudo se suja quando digo..."

(Júlio Cortázar)
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(e se eu continuasse, sujaria ainda mais e mais)

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Algumas linhas sobre "O Último Poema do Rinoceronte"


Esteticamente lindo e envolvente, "o último poema do rinoceronte" baseia-se na vida do poeta curdo-iraniano Sadegh Kamangar que, quando da Revolução Iraniana de 1979 (que implicou na derrubada do xá e na tomada de poder pelo aitolá Khomeini) foi injustamente preso, acusado de escrever poemas de cunho político e condenado a longos anos de cárcere, tendo sido inclusive declarado morto para sua família. 

O foco da história é Sadegh Kamangar já liberto, 30 anos depois, quando vai em busca de sua esposa e descobre que ela se casou novamente e saiu do país, indo para Turquia. Os acontecimentos do passado e seus desdobramentos vão sendo revelados pouco a pouco, através de suas lembranças, que se alternam com o tempo presente. Além disso, o filme conta com construções visuais belíssimas que retratam cenários vazios e cores esmaecidas, que transbordam a poesia de Kamangar para a tela.

É um filme essencialmente triste. O próprio protagonista parece carregar em seu rosto as marcas e o peso do passado dos quais ele não parece ser capaz de se livrar. Não há salvação possível e a própria felicidade se coloca como algo que ficou distante, perdido no passado.

Já tinha tido algum contato com esse contexto histórico (da Revolução Iraniana) com a HQ e o filme de "Persépolis", então achei ainda mais interessante o tema, principalmente pela delicadeza com que são abordados os dramas pessoais que surgem a partir de acontecimentos políticos. É aterrador pensar em quantas vidas são destroçadas por conta de diferenças ideológicas e lutas pelos poder.