a janela em frente me convida ao pulo
queria antes um beijo de boa sorte...
se eu voltasse com vida, seria outro homem
pularia o seu portão, te amaria no seu quintal
talvez você durma a essa hora
ou chore baixinho, com medo do escuro
do alto do nono andar quase posso te ver
com a luz do corredor acessa...
a conversa animada agora se foi
eu sou o antigo, mas me rastejo no presente
acho que eu só queria compaixão e desprezo
o pouco que eu valho, daria pra você contente
há um adeus na palma das mãos
vazias, ensaiam a dissolução do corpo
esfregá-las não adianta...
não adianta sabão, nem lâmina
uma ideia fixa, um gosto vazio na boca
alguns pontos luminosos lá embaixo
o cálice de vinho, amigo que não se foi
juventude sônica fazendo cócegas no meu ouvido...
caralho! eu tento evitar
mas a janela em frente que me convida ao pulo...
por sorte eu tenho o costume de ficar,
até os créditos finais...
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
terça-feira, 13 de novembro de 2012
a palavra é um verme
branco e vivo
que rasteja desprezível
onde há um, há muitos
e se apegam, patéticos,
à realidade perecendo
o cheiro da vida em decomposição
é o cheiro da palavra
impregnado nos jornais e nos homens
(até então burgueses e sadios)
há que se comer o verme
com o merecido nojo.
gosma na garganta, ânsia
e adorar o verme
como solução possível
pra que eu não viva sempre
(e não me torne estéril)
branco e vivo
que rasteja desprezível
onde há um, há muitos
e se apegam, patéticos,
à realidade perecendo
o cheiro da vida em decomposição
é o cheiro da palavra
impregnado nos jornais e nos homens
(até então burgueses e sadios)
há que se comer o verme
com o merecido nojo.
gosma na garganta, ânsia
e adorar o verme
como solução possível
pra que eu não viva sempre
(e não me torne estéril)
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
sonetinho duma noite de outubro
noite mais escura do que esta não há
atravesso-a tenso, lento, alerta
os dois olhos desenham uma janela,
imaginada salvação solta no ar
neste colchão há tanta solidão, demais
umideço-o de considerações e impertinências
sombra que sou, desdobro-me em penitências
arrebatamento tardio das fantasias matinais
sobre o leito, esfacelado, ainda me lembro,
corroi-me o eterno lamento de um segundo
que, perdido, evapora-se na madrugada
ontem mesmo nutria sonhos e era setembro
havia em mim toda a esperança do mundo,
mas agora, finda a tarde, só me resta o nada
____________________________________
"A Noite vai crescendo apavorante
E dentro do meu peito, no combate,
A Eternidade esmagadora bate
Numa dilatação exorbitante!"
(Augusto dos Anjos)
atravesso-a tenso, lento, alerta
os dois olhos desenham uma janela,
imaginada salvação solta no ar
neste colchão há tanta solidão, demais
umideço-o de considerações e impertinências
sombra que sou, desdobro-me em penitências
arrebatamento tardio das fantasias matinais
sobre o leito, esfacelado, ainda me lembro,
corroi-me o eterno lamento de um segundo
que, perdido, evapora-se na madrugada
ontem mesmo nutria sonhos e era setembro
havia em mim toda a esperança do mundo,
mas agora, finda a tarde, só me resta o nada
____________________________________
"A Noite vai crescendo apavorante
E dentro do meu peito, no combate,
A Eternidade esmagadora bate
Numa dilatação exorbitante!"
(Augusto dos Anjos)
segunda-feira, 8 de outubro de 2012
provinciano
A cidade insana,
agônica,
doente dos pulmões e das pernas.
Encravada num mapa,
Embolorada,
morimbunda sem saber sofrer
As ruas estreitas sucumbem
à grossa poeira
amarelada.
As construções se equilibram
Sobre as ladeiras
Tristes,
Contemplam o vazio e
Parecem querer se atirar
A fumaça que a faz arder,
Sufoca,
Apodrece-a por dentro,
Mas ridícula sussurra:
"tenho muita vida ainda,
nessas serras de tijolo e telhado
há duzentas mil e mais"
(Enquanto os homens na praça esfregam as mãos e sorriem).
A cidade em chamas,
insípida,
Sente o veneno escorrer
Por sua veia rasgada
que leva
por corredores sombrios
até o fim do brasil!
_______________________________
"os homens na praça esfregam a mão e sorriem,
os amigos do novo rei repartem o tesouro entre si,
enquanto eu derrotado só quero o sono tranquilo da cidade adormecida"
agônica,
doente dos pulmões e das pernas.
Encravada num mapa,
Embolorada,
morimbunda sem saber sofrer
As ruas estreitas sucumbem
à grossa poeira
amarelada.
As construções se equilibram
Sobre as ladeiras
Tristes,
Contemplam o vazio e
Parecem querer se atirar
A fumaça que a faz arder,
Sufoca,
Apodrece-a por dentro,
Mas ridícula sussurra:
"tenho muita vida ainda,
nessas serras de tijolo e telhado
há duzentas mil e mais"
(Enquanto os homens na praça esfregam as mãos e sorriem).
A cidade em chamas,
insípida,
Sente o veneno escorrer
Por sua veia rasgada
que leva
por corredores sombrios
até o fim do brasil!
_______________________________
"os homens na praça esfregam a mão e sorriem,
os amigos do novo rei repartem o tesouro entre si,
enquanto eu derrotado só quero o sono tranquilo da cidade adormecida"
quinta-feira, 4 de outubro de 2012
o pt nas eleições: "fazemos qualquer negócio!"
as pessoas que por ventura acessam este blog podem até me achar um pouco repetitivo nestes tipo de assunto, mas infelizmente, há coisas que não consigo digerir assim tão rápido e como ficam martelando na minha cabeça acabo voltado a elas vez ou outra. e também foda-se, eu posto o que eu quiser. =]
é que eu fico extremamente impressionado e desiludido (apesar de desilução ser um sentimento antigo) com a capacidade que o pt tem se reinventar, de rasgar bandeiras históricas e compromisso éticos em favor da obtenção de poder e de espalhar ainda mais seus tentáculos de "lula" pelo brasil afora:
a) aqui na capital paulista, o pt está coligado com o famigerado pp, partido de ninguém menos que o corrupto e reacionário dr. paulo maluf, até pouco tempo sua antítese ideológica. e não é segredo pra ninguém que chegou a namorar uma aliança com o psd do kassab.
b) em são luis do maranhão o pt está coligado com o dem (ex-pfl). isso mesmo, o partido dos antigos coronéis, herdeiro da ditadura militar e que faz oposição ferrenha (à direita) ao governo federal.
c) em salvador o candidato do pt tem ao seu lado uma imensa coligação de 15 partidos e entre eles está o psd, um verdadeiro catadão fisiológico interessado em cargos e que faz qualquer negócio para isso. ou seja, bate nele aqui em sp, mas em outros lugares são aliados.
d) no rio de janeiro, uma coligação ainda maior, de VINTE partidos compõem um grande balcão de negócios que fatiará a cidade após a eleição. lá eles apoiam o candidato do pmdb numa aberração que reúne pps (oposição no nível federal), prb (partido da universal e do russomano), psd e pp.
ou seja, fica escaranda uma crescente incoerência, que eles tentam justificar das mais diferentes maneiras, de acordo com a necessidade. e o nosso amigo luís inácio viaja feliz o brasil inteiro saindo em fotos e dando depoimentos favoráveis à todos aqueles que estejam do seu lado.
só para contrastar, voltando alguns pouco anos atrás, vemos uma situação completamente diferente. em 2000, as coligações do pt eram as seguintes:
a) em são paulo: pt, pc do b, pcb, phs
b) o rio de janeiro: pt e pc do b
c) em salvador: pt, pv e pcb
d) em são luís o pt lançou candidatura sem fazer coligação.
em todos os quatro casos fica muito evidente o que esses poucos anos fizeram do pt. se antes as coligações eram muito mais contidas e justíficáveis num espectro ideológico hoje flexibilizou-se ao extremo as possibilidades de conversa e negócios e fica difícil entender o que partidos tão (supostamente) diferentes fazem juntos num mesmo palanque, como os casos citados acima. e não dá pra saber até onde ele e que valores estão dispostos a negociar para ganhar votos. hoje o partido é extremamente rico, tem a máquina pública ao seu dispor e manipula com sagacidade a popularidade dilma-lulista.
segunda-feira, 1 de outubro de 2012
meus centavos sobre as eleições 2012
uma das coisas que mais irrita nas eleições e na festejada democracia representativa é o esvaziamento político quase total que a disputa sofre e a quantidade de mentiras que são contadas sem o menor pudor:
2) dispara-se a torto e a direito frases de efeito que quase aleatoriamente contêm palavras como "renovação", "honestidade", "experiência", "avançar", "educação", "saúde", "transporte", blá, blá blá... propostas reais e factíveis e principalmente uma agenda programática bem embasada e coerente ficam em segundo plano. o que deveria-se realçar é que, por mais que todo candidato inclua soluções mágicas e definitivas para todos os problemas da cidade, cada um deles tem uma visão própria, uma maneira diferente de resolver os problemas e é isso que deveria ser levado em conta. mas no fim das contas ganha o populismo que consegue agradar ao maior número de pessoas, aquele que melhor incorpora o "pai dos pobres", "o salvador da pátria".
3) os programas eleitorais tratam o eleitor como imbecis, crianças que só conseguem prestar atenção em algo constrangedoramente colorido, com musiquinhas de quinta categoria e nos moldes de programinha vespertino. ou seja, o que se leva em conta é o marketing, a roupagem que se dá e não o as questões políticas e de interesse público.
4) o eleitor médio aparentemente não tem capacidade de analisar nada de maneira mais aprofundada. consegue se contradizer e ser incoerente com suas próprias demandas. e aqui não estou criticando as pessoas que tenham uma opinião política diferente da minha, mas sim as pessoas que não conseguem conciliar o seu pensamento com o seu voto. tipo o cara que desde sempre detesta o político dr. paulo e vota no candidato fernando (nomes meramente ilustrativos) que o próprio paulo apóia. se esquece que são historicamente adversários e até pouco tempo atrás representavam ideologias diferentes. as desculpas para isso são muitas, mas nenhuma delas esconde o fato de que uma aliança política envolve troca de favores e uma mínimo de interesses comuns. ou seja, se eles agora estão juntos no mesmo palanque há algo de muito diferente e estranho no ar.
5) aliás a população de modo geral adora detestar a política. acha bonito ser um analfabeto político e vocifera velhos clichês como "nenhum político não presta", "é tudo ladrão" ou "não gosto de política"... eu posso até concordar com isso e entendo as razões para as pessoas acabarem se desiludindo, mas acho que seria bem conveniente ter algo a mais para pensar e falar.
6) por fim, a eleição para vereador é um show de horror. metade ali caiu de pára-quedas e não tem a menor noção de nada. vomitam em poucos segundos um textinho de dar vergonha, normalmente afirmando que vão melhorar isso, aquilo e aquilo outro. tem os que querem ser engraçadinho ou se sustentam na fama conquistada por outros meios e os políticos profissionais, corruptos e desonestos (ou no mínimo acostumados com benesses e confortos moralmente questionáveis) de longa data que sempre conseguem uma boquinha no legislativo, porque a população em geral escolhe parlamentar como quem escolhe a cueca a ser usada no dia... não me espanta a gritante inoperância da câmara dos vereadores, que só vota nome de rua e dia a se homenagear esse ou aquele.
é isso. boa festa da democracia pra vocês.
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
a galera no mundo muçulmano está doida!!!
tenho acompanhado, ainda que superficialmente, toda a ensandecida onda de protestos em vários países muçulmanos (em sua totalidade ou em quantidade relevante). sudão, catar, afeganistão, paquistão, filipinas, iêmem, índia (região da caxemira). milhares de pessoas nas ruas, atentados, mortes, bandeiras queimadas, gritos de guerra, os libaneses do hezbollah conclamando para novos protestos. e tudo isso por causa de um filme de quartorze minutos!
tá certo, eu entendo que a situação é muito mais complexa do que a princípio pode-se supor. como disseram à exaustão, retratar maomé de maneira tão perjorativa como foi feito é um pecado gravíssimo. caracterizaram-no no filme como um mulherengo, homossexual, molestador de crianças, tolo, falso religioso e sanguinário. satirizar o profeta deles é quase como satirizar toda a população, em suas crenças, costumes e identidade. é quase uma declaração de guerra.
entendo também que o histórico da relação com o ocidente (especialmente os EUAl) é desastroso e que qualquer faísca faz tudo ir pelos ares na região. boa parte da população tem um forte sentimento anti-americano bem arraigado e que todos nós sabemos muito bem por quê (basicamente uma política externa imperialista).
porém, mesmo ciente desses dois pontos, não posso achar tranquilo que o direito quase sagrado de liberdade de expressão seja cerceado simplesmente por que alguns grupos achem que outras pessoas não devem se comportar daquela maneira. elas tem todo direito de estabelecer condutas no interior de seu grupo (ou seja, quem é muçulmano deve seguir os preceitos da religião) e acho até aceitável que o estado, baseado em sua soberania e em suas leis proibam certas condutas. nada de novo até aí. porém não posso concordar que pessoas morram e que se crie um profundo mal-estar mundial por causa da porra de um filme de mau gosto. as leis deles devem servir para eles, devemos respeitar, assim como deve-se respeitar que em outros países as coisas funcionem de maneira diferente.
maomé é sagrado para os muçulmanos, assim como outras religiões têm seus símbolos sagrados, mas ninguém pode querer que o restante do mundo os considere igualmente sagrados e digno de interdições. uma coisa é respeitar o povo, sua cultura e religião, outra bem diferente é querer que eu daqui, compartilhe das mesmas ideias e das mesmas crenças. as pessoas por aí criticam e satirizam jesus cristo, moisés, o papa e o diabo a quatro e deve ser assim, por que é também legítimo o direito enquanto ser humano de se expressar, de criticar, de me posicionar de forma diferente, por mais que se considere o que se diz de uma imbecilidade absurda. as réplicas e os contra-ataques devem estar sempre no plano do diálogo, da opinião pública e de atitudes ponderadas.
e ontem uma revista francesa lançou uma edição cheia de charges retratando maomé. o governo francês está morrendo de medo da reação dos fundamentalistas. eu pessoalmente acho válido o lançamento da tal revista, apesar de questionar o oportunismo do momento.
segunda-feira, 3 de setembro de 2012
sobre o "nó na orelha"
o cd do criolo é bom para caralho!
digo isso após ouví-lo pela quarta vez... nem precisava tanto.
no fim da segunda música eu já tinha certeza disso e até o fim ele não me decepcionou.
nunca ritmo e poesia fizeram tanto sentido pra mim, me pegaram de jeito.
letras fortes, poesia inspirada, misturas musicais empolgantes.
indiscutivelmente um nó na orelha.
______________________________________"são paulo é um buquê
buquê são flores mortas
num arranjo lindo
arranjo lindo feito pra você
não existe amor em sp"
"vamos as atividades do dia:
lavar os copos, contar os corpos e sorrir"
"cientista social, casas bahia e tragédia gosta de favelado mais que nutella"
domingo, 2 de setembro de 2012
mês nove
"Mas vem junho e me apunhala
vem julho me dilacera
setembro expõe meus despojos
pelos postes da cidade
(me recomponho mais tarde,
costuro as partes, mas os intestinos
nunca mais funcionarão direito)"
(Gullar, Ferreira)
___________________________________
setembro... ah, setembro.
vem julho me dilacera
setembro expõe meus despojos
pelos postes da cidade
(me recomponho mais tarde,
costuro as partes, mas os intestinos
nunca mais funcionarão direito)"
(Gullar, Ferreira)
___________________________________
setembro... ah, setembro.
quinta-feira, 23 de agosto de 2012
"- Ora, a famosa lucidez. Você é engraçado, meu caro, tem um medo tão louco de iludir a si mesmo que recusaria a mais bela aventura do mundo para não se arriscar a uma mentira."
E ela continua:
"- (...) sabe o que eu penso? Que você está se esterelizando aos poucos. Pensei isso hoje. Oh! Tudo é limpo e nítido em você; cheira a roupa lavada, é como se você tivesse passado pela estufa. Só que falta sombra. Nada de inútil, de hesitante, de estranho. É tórrido. e não me venha dizer que é por mim que faz isso; segue a sua tendência: você gosta de se analisar."
(SARTRE, Jean-Paul; A Idade da Razão)
__________________________
Ora, por que me diz tudo isso? Como sabe tanto de mim?
"Existir é isto: beber-se a si próprio sem sede."
E ela continua:
"- (...) sabe o que eu penso? Que você está se esterelizando aos poucos. Pensei isso hoje. Oh! Tudo é limpo e nítido em você; cheira a roupa lavada, é como se você tivesse passado pela estufa. Só que falta sombra. Nada de inútil, de hesitante, de estranho. É tórrido. e não me venha dizer que é por mim que faz isso; segue a sua tendência: você gosta de se analisar."
(SARTRE, Jean-Paul; A Idade da Razão)
__________________________
Ora, por que me diz tudo isso? Como sabe tanto de mim?
"Existir é isto: beber-se a si próprio sem sede."
Assinar:
Postagens (Atom)




