quarta-feira, 25 de junho de 2014

sobre a copa do mundo no brasil

devo dizer que está bem empolgante a copa do mundo do brasil. eu sei, parece que estou me contradizendo, já que há pouco mais de dois anos atrás escrevi aqui criticando as reais intenções dos envolvidos e os preparativos para o evento, mas são duas posições que mantenho e que não chegam a se anular. 

dentro de campo, até agora temos visto bons jogos, movimentados, disputados e com uma quantidade inesperada de gols. fora de campo, é muito legal ver tantos estrangeiros que vieram para cá. a oportunidade do convívio entre tantas culturas num clima de festa e confraternização é algo único. trabalho no centro de são paulo e é interessante ver turmas de croatas, alemães, mexicanos, holandeses, entre outros, por aqui, conhecendo e apreciando locais que acabam sendo banalizados na nossa rotina diária.

mas é claro que reconhecer a parte positiva do evento, em hipótese nenhuma diminui tudo de deplorável que aconteceu e tem acontecido. quando a gente para pra pensar em quem está se beneficiando (e muito!) com a copa, não dá pra não ficar desiludido... relendo o que escrevi lá atrás, percebo que a maioria das coisas infelizmente se concretizaram, como o que reproduzo abaixo:
"esqueça essa história de legado. é pra boi dormir. o brasil não estará melhor depois da copa, não haverá o tão alardeado e necessário investimento em áreas estratégicas como transporte, aeroportos, turismo, etc. vão dar um bela maquiada e bola pra frente! serão construídos alguns elefantes brancos, aquelas obras faraônicas e desnecessárias, estádios que após um mês de uso ficarão sub utilizados..."
apesar de não ser tão falado agora, o fato é que o que temos em todas a cidades-sedes são inúmeras obras inacabas e disfarçadas com tapumes e propagandeadas melhorias urbanísticas que por uma incapacidade atroz de planejamento e muita politicagem acabaram sendo canceladas ou postergadas para algum dia no futuro. conseguiram acabar os estádios e olhe lá, que muita coisa também teve que ser deixada inacabada e com problemas. além disso, sabemos que gastou-se um absurdo, principalmente de dinheiro público, sendo que na época garantiu-se que os investimentos seriam totalmente privados. ou seja, fizeram, mas fizeram pela metade, mal-feito, superfaturado e com dinheiro público. foi uma vergonha escancarada para o mundo todo ver.

o que mais me irrita é a contínua desfaçatez e cinismo por parte dos porta-vozes que, para salvarem sua pele, repetiram à exaustão que estava tudo certo, tudo bem e que quem discordasse era pessimista, oposicionista, espiríto de porco. isso é ridículo, tentar calar qualquer tipo de de crítica e questionamento quando se é evidente que a preparação foi feita nas coxas. pra ficarmos num exemplo, o estádio da estreia quase foi excluído, ultrapassou todos os limites de atraso, não tendo nem sido testado em sua capacidade máxima antes do jogo inaugural.

gosto de futebol, gosto de copa do mundo e vejo os pontos positivos desta que está acontecendo no brasil. mas em nenhuma hipótese posso ignorar todos os problemas que aconteceram por essa mistura tão conhecida por nós de incompetência, ganância e corrupção.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Algumas linhas sobre "Poemas Malditos, Gozosos e Devotos"

Fazia algum tempo que um livro de poesia não me impressionava de tal maneira. Este é o primeiro em versos que leio da Hilda Hilst (antes havia lido o "Cartas a um sedutor") e gostei muito da sua maneira de escrever. Sua concisão além de elegante, soa áspera, amarga e direta. Há uma pungência contida em cada palavra que atrai e por vezes atordoa. Sempre difícil de explicar, quem sabe com um exemplo a esmo:  

 "(...)
 Imagina-te a mim
 A teu lado inocente
 A mim, e a essa mistura
 De piedosa, erudita, vadia
 E tão indiferente.
Tu sabes.
Poeta buscando altura
Nas tuas coxas frias.
Se eu vivesse mil anos
Suportaria
Teu a ti procurar-se.
Te tomaria, Meu Deus,
Tuas luzes. Teu contraste."

O livro é construído inteiramente a partir de uma obsessão pela ideia de Deus. Aliás, não a ideia, mas o ser real, palpável, dotado de certas caracterísitcas. São 21 poemas belos e intensos em que a autora se propõe a tratar da sua relação igualmente sacra e profana do encontro com o divino. 

Tomamos contato com uma mulher consciente de sua insignificância, mera "poeira" e que se prostra perante seu criador, (um ente descrito à semelhança do Deus bíblico) numa tentativa de alcançá-lo, aproximar-se e estabelecer com ele uma relação marcadamente íntima, cair sobre seu colo e tocá-lo ("Poderia através/ Sentir teus dentes?/ Tocar-lhes o marfim/ E o liso da saliva"). Quase sempre dirige-se diretamente a Ele, mas deixa de lado o tom respeitoso ou suplicante. O questiona e o acusa (como em "Vive do grito/ De seus animais feridos/ Vive do sangue/ De poetas, de crianças" ou em "é rígido e mata/ Com seu corpo-estaca/ Ama mas crucifica"), o critica e o desnuda como ser terrível, ainda que adorado, portador de uma série de vícios de caráter. Até mesmo desdenha de sua condição e duvida de sua existência (. "E digo sem cerimônias/ Que vives porque te penso"). É sem dúvida um encontro tortuoso de sentimentos antagônicos, que sacraliza e profana, através de uma "devoção cética", um "temor cínico", um "amor herético".

É dessa relação complexa com o "sedutor nato" que o Eu lírico parte ao mesmo tempo para pensar sua própria existência e condição enquanto ser, tão frágil, tão passageiro. Porém, isso não o desarma. Pelo contrário, sente-se ao longo de todo o livro a presença de uma força resoluta que brota desse misto de fé e desilusão e que serve de sustentação existencial, numa busca que é de Deus, mas que torna-se também de si mesmo ("De uma infinita procura/ De tu e eu").

quinta-feira, 5 de junho de 2014

do verso inventado

verso inventado
enquanto espero
concentrado na mancha
de óleo no chão
que forma teu rosto
do jeito que lembro

vento invertido
correndo ao contrário
me arrepia o pescoço
antecipa o inverno
que esse ano não vem
talvez nunca mais...

pés fincados no asfalto
a memória e o chão
sujos de óleo,
um rosto esquecido
e um poema mal-feito,
como se masca chiclete
ou se come as unhas,
enquanto espero



terça-feira, 20 de maio de 2014

breve consideração sobre um parágrafo (II)

"Ter a sensação de que por trás de tudo que pode ser vivido há alguma coisa que nossa mente não consegue captar, e cujas beleza e sublimidade só nos atingem indiretamente, na forma de um débil reflexo, isso é religiosidade. Nesse sentido sou religioso."

encontrei essa citação de Einstein em "Deus, Um delírio". ainda estou no começo da leitura e não sei bem o que pensar sobre o livro (que traz um contundente posicionamento ateísta), mas a passagem acima me pareceu bem pertinente ao tratar do assim chamado sentimento religioso de uma maneira intelectualmente mais "sofisticada" e humana do que a maioria das religiões estabelecidas e seus adeptos. 
esse sentimento do qual Einstein trata, que mistura incompreensão, desamparo e deslumbramento com um universo que é tão avassaladoramente complexo e enigmático tem assolado os seres humanos há milênios. nós acabamos expressando-o através não só das muitas acepções possíveis para a divindidade ou a transcendência, mas também pela produção artística em suas inúmeras formas e pela reflexão filosófica. 
acho que o que o pensamento dogmático acaba nos roubando (por nos dar as respostas inquestionáveis para todas as perguntas) é justamente esse estado de inquietação e de procura de algo que (possivelmente) está lá e não conseguimos captar (ou, se conseguimos, é de uma maneira muito frágil, imperfeita). como o próprio Dawkins diz na obra em questão "um dos efeitos verdadeiramente negativos da religião é que ela nos ensina que é uma virtude satisfazer-se com o não-entendimento". valorizo a beleza presente na liberdade de termos sensações a partir de nossas próprias incompreensões e questionamentos pessoais.
isso pode ser considerado profundamente religioso, ao mesmo tempo em que refuta qualquer tipo de religião.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

10 anos de Virada Cultural


Aconteceu no último final de semana a 10ª Virada Cultural de São Paulo. Dispensável dizer que sou grande entusiasta do evento em si e da proposta de fazer uma enorme festa (principalmente, mas não só) no coração da cidade, a região central, tão mal-tratada no dia-a-dia louco da metrópole. Claro que há inúmeros problemas de organização e principalmente de segurança, mas tenho a convicção de que apesar de tudo temos de continuar tentando fazer da nossa cidade um bom lugar pras pessoas conviverem, se divertirem, saírem às ruas e realmente vivenciá-las em suas infinitas opções. Isso deveria ser algo óbvio e natural para todos nós, que pudéssemos não só sobreviver em São Paulo, mas de fato nos apropriar dela, de suas belezas e encantos escondidos. 

Falo isso por experiência própria, mais do que as atrações do evento, é ótima a sensação de caminhar pelo Viaduto do Chá, 25 de Março, Estação da Luz e mais um monte de lugares que muitas vezes a gente nem percebe o quanto é bonito e agradável. Repito, nem tudo são flores, mas é algo pelo que vale a pena continuar se esforçando. Aliás, essa é uma posição que mantenho há algum tempo e escrevi algo próximo disso também no ano passado.

Este ano não tive tanta sorte na minha programação. Das minhas quatro opções, só um deu certo. Queria ver a volta do Ira!, cheguei quando o show já tinha começado e tinha tanta gente, que eu simplesmente não consegui ver o palco e ainda tive que ter paciência com o aperto e o empurra-empurra. Não tem jeito, melhor mesmo é ver os shows menos concorridos. Fomos ver o Riachão depois e aí estava bem melhor, com pouca gente deu pra curtir muito mais. Ontem (domingo) a ideia era ver O Terno e depois o Apanhador Só. Porém, depois de uma meia hora do início d'O Terno começou a chover muito forte e os dois shows acabaram não acontecendo. 

Acho que essa foi a 6ª ou 7ª virada da qual participei e posso dizer que nunca presenciei nenhum tipo de violência ou bate-boca (ano passado brincava com as pessoas dizendo que o maior desentendimento que vi foi um casal discutindo). Claro que estamos sujeitos a todo tipo de violência que a mídia adora noticiar a cada ano, mas espero que o medo não supere a vontade de fazer um evento à altura da grandeza de São Paulo.
Fazendo uma retrospectiva de cabeça, listo alguns dos bons shows que pude ver até hoje na Virada: Pato Fú, Plebe Rude, Inocentes, Garotos Podres, Ratos de Porão, Hermeto Pascoal, Mundo Livre S/A, Marcelo Camelo, Autoramas, Cachorro Grande, Lobão, Riachão, Mombojó, Lirinha, Vanguart. Mas tão interessante quanto ir com programação certa é andar meio que a esmo pelo centro e acabar vendo um monte de shows muito interessantes de músicos até então desconhecidos.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Algumas linhas sobre "O Passado"

Filme mais recente do diretor iraniano Asghar Farhadi, que ficou famoso por "Uma Separação " de 2010, que chegou a ganhar o Oscar de melhor filme estrangeiro (e que eu não vi).

Conta a história de um iraniano que vai para a França, a fim de formalizar seu divórcio com Marie, quatro anos depois de sua partida. Lá reencontra-se com a sua ex-mulher e as filhas dela (de um casamento anterior), Lucie e Lea e acaba conhecendo também o homem com quem Marie está envolvida, Samir, e seu filho, Fuad. O que começa como uma situação aparentemente sob controle (ainda que incomôda), vai se mostrando cada vez mais tensa e conflituosa.

É basicamente um grande drama familiar que se desvenda aos poucos, mostrando as relações dolorosas e cada vez mais complexas nas quais se inserem aqueles indivíduos. No começo sabemos muito pouco sobre as motivações de cada um e é muito lentamente que vamos entrando em contato (ainda que nunca totalmente) com aquelas pessoas. Como uma sombra, o passado a que remete o título afeta a todos de diferentes formas. A filha mais velha, Lucie, se opõe ao novo casamento da mãe e se mostra bastante arredia por algum motivo. A (ex) mulher de Samir está em coma, também por motivos desconhecidos de início. O próprio Ahmad se vê envolvido até o pescoço com os problemas da família que deixou pra trás, sendo que, inclusive sua situação com Marie se mostra um tanto quanto mal-resolvida. As camadas de complicações vão se sucedendo e se acumulando gradativamente e a história toda fica cada vez mais problemática e de difícil solução. As crianças, Lea e principalmente Fuad, são especialmente afetadas, ficam no meio de todas as brigas sem conseguir entender o que está acontecendo.

A atmosfera toda do filme é triste e pesada, mas sem nunca cair no melodramático ou no simplório. São pessoas normais, em suas vidas comuns, lidando com situações passíveis de acontecer com qualquer um. E acho que o que mais me prendeu à narrativa toda tenha sido justamente essa capacidade de se contar uma história dessas com muito equilíbrio e honestidade. Não cai na tentação de se facilitar tomando partido e definindo quem está certo e o errado, ou quem praticas boas ou más ações. São somente pessoas sendo pessoas, lidando com seus anseios, ciúmes, remorso, raiva, insegurança, da melhor forma que conseguem e por isso acabam, justamente por isso se machucando e machucando os outros a seu redor. Mas para mim é justamente dessa sensibilidade em captar a fragilidade humana que nasce a maior qualidade do filme.



sexta-feira, 9 de maio de 2014

de dois assuntos irrelevantes que se misturam...

vivo de repente uns picos inexplicáveis de felicidade. um frio na barriga, uma fúria de abocanhar o mundo. como se lá fora algo de muito bom estivesse me esperando e eu acabasse de ficar sabendo. fico ansioso, quero tudo! essa sensação (orgásmica!?) dura uns quinze segundos. logo passa e o que fica é a mesma indiferença morna de antes, por todo o corpo. a vida que pinga em conta gotas... de onde surge essa estranha felicidade? tento entender. parece que por alguns momentos tudo faz sentido e chego a conclusão que a vida é boa. não que não seja. é! só que pensando assim é só mais um pensamento estéril, acomodado. o que muda nesses quinze segundos, então? não sou nem mais nem menos do que no instante anterior ou no seguinte. sou o mesmo. um corvarde que faz da racionalidade escudo contra a dor da vida e que dessa forma se priva do êxtase. ou talvez um místico, que à sua própria maneira (tergiversando sempre!) suplica pela interseção do sobrenatural. continuo no ensaio, no rascunho, não crio coragem para gritar "valendo". não me arrisco muito, nem dou a cara a tapa. acabo sempre descrendo da cara e do tapa. não peça pra levar a sério. tenho vontade de rir quando vejo tanta gente se matando por esse algo a mais, pelo pote de ouro que eles acreditam que há no final do arco-íris. talvez o melhor mesmo seja somente crer no arco-íris.

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Algumas linha sobre "Dossiê Drummond"

O maior poeta que este país já viu? A esmagadora maioria diz que sim. Alguns outros dizem que não ou preferem não entrar no mérito. Concordo, besteira esse negócio de pódio. Eu mesmo tenho alternado, ao longo dos anos, a resposta sobre meu poeta favorito. Isso é bom: repetir a pergunta e chegar a diferentes conclusões...

Ainda assim, meu fascínio por Carlos Drummond de Andrade é evidente. O gauche itabirano, para recorrer a um clichê ou o "burocrata que fazia versos", segundo a sua própria (e injusta) definição é sem dúvida um dos grandes autores do século XX e que ainda ecoa pelo nosso tempo, ao contrário do que previa, a dizer que "em vinte anos estaria esquecido". Não está e não fosse o português língua marginal, Drummond teria reconhecimento mundial. Independente disso, lê-lo, para mim, é uma experiência pessoal inigualável e muito representativa de fases da minha vida. Abrir algum de seus livros (o "Alguma Poesia" ou o "Sentimento do Mundo", por exemplo) é correr o risco de encontrar algo de mim mesmo ali naquelas páginas. Um sentimento quase adolescente de profunda identificação.


Tive a oportunidade de ler recentemente "Dossiê Drummond", de Geneton Moraes Neto, que traz um apanhado de pequenas revelações sobre sua vida e obra. Principalmente sua vida, que era bem pouco conhecida por mim. O livro é dividido em partes, que incluem uma longa entrevista com o autor (a última), até então conhecido por ser avesso à entrevistas e outras formas de exposição midiática. Depois vários "retratos falados", declarações e "causos" interessantes de amigos e admiradores. Vale citar também a transcrição de uma fita que ele gravou com sua "namorada", Lygia Fernandes, na qual discorrem longamente, entre gracejos e chamegos, sobre alguns pontos da obra de Drummond e sobre a própria relação deles, num tom despretensioso.

Vemos emergir das páginas do dossiê uma figura muito humana, com suas idiossincrasias, limitações, defeitos e virtudes. Chama a atenção a sua descrição como um homem em geral tímido, discreto, avesso aos contatos sociais, modesto em relação a sua produção poética, metódico em sua organização pessoal e profissional. Por outro lado é considerado espirituoso e falante com os mais chegados, ainda que mantendo certa reserva.
Tomamos conhecimento de episódios da sua biografia, principalmente a vida cotidiana. Seu breve envolvimento com a política (quando fez parte de um jornal comunista), seu trabalho como chefe de gabinete do Ministro da Educação no governo de Getúlio Vargas, suas opiniões sobre determinados fatos da época, seus gostos e desgostos. A própria relação que ele tinha com a sua obra chama a atenção por ser marcadamente crítica, relutando em reconhecer sua inegável importância.

Dois fatos me parecerem mais relevantes. O primeiro, bastante conhecido, é a devoção que o poeta tinha pela sua filha única, Maria Julieta, a pessoa que mais amou na vida. Além de se sentir muito conectada com ela, enquanto amiga e confidente, a considerava sua herdeira intelectual. Drummond ficou extremamente abalado com sua morte, morrendo alguns dias depois que ela. O outro, até então desconhecido por mim, é a existência de uma amante em sua vida ao longo de 36 anos. Seu nome é Lygia Fernandes. Ambos se conheceram quando Lygia foi trabalhar no Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, onde Drummond já trabalhava. Ela tinha 24 anos e ele 49. Se apaixonaram, ficando juntos até o fim da vida, porém sem que Drummond largasse a esposa "oficial", num caso curioso e inesperado de bigamia. Ao que parece, foi ela seu grande amor. A parte em que ambos falam numa gravação é muito bonita, e demonstra a existência de uma cumplicidade profunda e muito afeto entre eles.

Enfim, o livro como um todo é a grata oportunidade de espiar, mesmo que vagamente, o poeta pr'além da sua poesia. Ainda que continue achando que o que vale é a "verdade de um poema", no sentido de que o autor é secundário diante de sua obra, achei muito interessante poder "ouvir" o que Drummond tinha a dizer ou o que tinham a dizer sobre ele.



segunda-feira, 31 de março de 2014

vhils

Dias atrás passei por uma exposição na Caixa Cultural, "Street Art - Um Panorama Urbano". Apesar de ter umas coisas muito legais, foi meio decepcionante por ser bem reduzida. Devo ter demorado uns 20 minutos pra ver todos os trabalhos que tinha ali e senti que ficou inacabado.

Deixando isso de lado, além do Banksy que é um artista sensacional, me impressionou a obra de um cara que eu nunca tinha ouvido falar, um tal de Vhils. É um português de 20 e tantos anos que tem um jeito meio inusitado de criar. Pelo pouco que pude perceber, consiste basicamente em formar desenhos em muros através da "destruição". Utilizando-se de marreta, talhadeira e sei lá mais o quê, o cara vai quebrando e descascando as paredes, fazendo buracos de tamanhos variados, expondo tijolos e reboco, para, no final, fazer surgir rostos super realistas. 

É interessante demais o processo pelo qual ele faz suas obras. Elas passam ao mesmo tempo uma sensação de ruína e de beleza. Esculpindo a parede, quebrando-a, ele vai formando rostos que chamam a atenção pelos detalhes e que, ao se chegar perto não são mais do que velhas paredes destruídas. Não há cores vibrantes, somente os tons esmaecidos, próprios do concreto e da cidade. Não há formas além daquelas que surgem da depredação da parede. O que forma o desenho é aquilo que se destrói, o escombro. Mais "urbano" impossível.

Sua arte surge da decomposição. Não se põe nada ali além do que já existe. Nenhuma cor ou nenhum material além. Os rostos, estão sempre sérios e observam a cidade. Impregnados no cinza do muro duro me soam como almas esquecidas. Algo que sempre esteve ali, só faltava alguém que tivesse o trabalho (ou a audácia) de mostrar.


quinta-feira, 20 de março de 2014

conservadores lunáticos e a saudade da ditadura

Sou um profundo defensor do direito que as pessoas têm em serem imbecis, em acreditarem e propagarem qualquer tipo de ideia estapafúrdia. Qualquer um tem o direito de jogar seu respeito e credibilidade intelectual no lixo. Mas tem alguns momentos que não dá pra simplesmente deixar passar, como se não fosse nada.

Ultimamente leio aqui e ali umas aberrações defendendo a volta da ditadura militar, como uma solução mágica e infantil de nossos problemas enquanto sociedade. Nós, seres humanos, somo assim, aguardamos ansiosamente uma solução mágica, um herói que nos livrará de todo o mal, colocar ordem na casa, uma figura paterna severa, que tomará para si a tarefa de educar seus filhos e tomar todas as decisões por eles. Pode reparar, esses "amantes da ditadura" não pedem por mais poder de decisão para si e para os outros, não pedem mais eficiência das instituições democráticas. Elas querem é que um ente superior resolva todos os seus problemas através da concentração do poder. Querem continuar confortavelmente na sua alienação mediocre de quem não tem nenhuma responsabilidade".

Isso é irreal. Dá pena de quem pensa assim. Não existe ditadura boa, todas elas são ruins porque não aceitam questionamento, oposição, não se curvam a nenhum poder superior a elas. Confiar somente nas boas intenções dos detentores desse poder centralizado é arriscado demais. E isso aconteceu na na nossa ditadura militar. Setores da sociedade e da imprensa, que a principio regojizaram pelo golpe foram pouco a pouco sentido o baque, foram percebendo que liberdades e direitos garantidos pelo Estado são importantes e fazem falta quando perdemos. Bem ou mal neste país, estamos tentando fazer com que o poder político soberano respeite a lei, que é feita pelos legisladores, que são eleitos pelo povo. Ok, esse modelo funciona muito mal, está cheio de vícios. Mas ainda assim é melhor do que alguém que use da força e da coação como preferir.

Os governos militares a partir de 1964 foram tão ou mais corruptos do que os pós-reabertura. Muita gente enriqueceu ilicitamente, a máquina estatal era aparelhada e servia aos interesses do governo, decisões políticas e econômicas desastrosas foram tomadas, não havia quase nenhum respeito às "regras do jogo". A oposição servia de enfeite. Pior, perseguia-se, matava-se opositores políticos, censurava-se a imprensa. Como que alguém, em são consciência consegue concluir que uma situação dessas é melhor do que a que temos hoje (e a que podemos alcançar amannhã)? Foi um regime imoral, medonho, indefensável sobre todos os ângulos.

Fala-se tanto do "mensalão", como um exemplo de falência das instituições, mas vocês acham que se fosse numa ditadura, tal esquema de corrupção teria sido denunciado? Investigado? Julgado? Ou que algum agente público teria sido condenados? Podemos discordar de muitas coisas sobre o processo, podemos amar ou odiar os réus e os "PTralhas", mas não podemos negar que esse julgamento foi histórico, impossível de ter acontecido no tempo passados. E, repito, pode ter certeza que muita coisa pior acontecia naquela época.

Chego a conclusão que, de maneira geral, esses saudosistas da ditadura não sabem o que estão falando. Assistem o Datena e leem a Veja e têm alguns rompantes reacionários e autoritários. Concluem em suas cabecinhas quase ocas que está tudo uma porcaria e que a solução é acabar de uma vez com nossa frágil democracia. Não, não é.

Sim, ela é corrupta, ela funciona mal, é fisiologista, corporativista, demagógica, mas ainda assim é a nossa pouca garantia que as coisas não possam ser ainda piores. Pelo menos eu sei que posso falar mal e discordar do governo, eu sei que bem ou mal há uma oposição lá no congresso fiscalizando o governo, sei que tenho alguns direitos fundamentais que ninguém pode me tirar e que justamente por serem violados todos os dias é que temos lutar cada vez mais por eles. 

Sério, vão por mim, é mais seguro e garantido viver numa sociedade na qual o Estado não tenha o poder de te ameaçar, entrar na sua casa a qualquer hora do dia, te torturar para conseguir informação, ou te matar e dizer que você se suicidou. É melhor quando a gente sabe, através de umas letrinhas escritas no papel (também chamadas de lei) exatamente quais são nossos deveres e nossos direitos e que os representantes do Estado também tem que seguir aquelas letrinhas. A ditadura que enrabar o outro pode muito bem acabar enrabando você...

Sinto que estamos perdendo um tempo enorme tratando fantasiosamente de coisas absurdas, como se fossem as coisas mais naturais do mundo. Sinto que eu estou perdendo meu tempo com lunáticos. Faça um favor para você mesmo pueril e delirante adorador de ditaduras, mantenha-se calado e evite que as pessoas saibam o tamanho da sua imbecilidade.