segunda-feira, 9 de junho de 2014

Algumas linhas sobre "Poemas Malditos, Gozosos e Devotos"

Fazia algum tempo que um livro de poesia não me impressionava de tal maneira. Este é o primeiro em versos que leio da Hilda Hilst (antes havia lido o "Cartas a um sedutor") e gostei muito da sua maneira de escrever. Sua concisão além de elegante, soa áspera, amarga e direta. Há uma pungência contida em cada palavra que atrai e por vezes atordoa. Sempre difícil de explicar, quem sabe com um exemplo a esmo:  

 "(...)
 Imagina-te a mim
 A teu lado inocente
 A mim, e a essa mistura
 De piedosa, erudita, vadia
 E tão indiferente.
Tu sabes.
Poeta buscando altura
Nas tuas coxas frias.
Se eu vivesse mil anos
Suportaria
Teu a ti procurar-se.
Te tomaria, Meu Deus,
Tuas luzes. Teu contraste."

O livro é construído inteiramente a partir de uma obsessão pela ideia de Deus. Aliás, não a ideia, mas o ser real, palpável, dotado de certas caracterísitcas. São 21 poemas belos e intensos em que a autora se propõe a tratar da sua relação igualmente sacra e profana do encontro com o divino. 

Tomamos contato com uma mulher consciente de sua insignificância, mera "poeira" e que se prostra perante seu criador, (um ente descrito à semelhança do Deus bíblico) numa tentativa de alcançá-lo, aproximar-se e estabelecer com ele uma relação marcadamente íntima, cair sobre seu colo e tocá-lo ("Poderia através/ Sentir teus dentes?/ Tocar-lhes o marfim/ E o liso da saliva"). Quase sempre dirige-se diretamente a Ele, mas deixa de lado o tom respeitoso ou suplicante. O questiona e o acusa (como em "Vive do grito/ De seus animais feridos/ Vive do sangue/ De poetas, de crianças" ou em "é rígido e mata/ Com seu corpo-estaca/ Ama mas crucifica"), o critica e o desnuda como ser terrível, ainda que adorado, portador de uma série de vícios de caráter. Até mesmo desdenha de sua condição e duvida de sua existência (. "E digo sem cerimônias/ Que vives porque te penso"). É sem dúvida um encontro tortuoso de sentimentos antagônicos, que sacraliza e profana, através de uma "devoção cética", um "temor cínico", um "amor herético".

É dessa relação complexa com o "sedutor nato" que o Eu lírico parte ao mesmo tempo para pensar sua própria existência e condição enquanto ser, tão frágil, tão passageiro. Porém, isso não o desarma. Pelo contrário, sente-se ao longo de todo o livro a presença de uma força resoluta que brota desse misto de fé e desilusão e que serve de sustentação existencial, numa busca que é de Deus, mas que torna-se também de si mesmo ("De uma infinita procura/ De tu e eu").

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