"Os sóciobiólogos, ou os que popularizavam suas descobertas, sugeriam que as características (masculinas) herdadas dos milênios durante os quais o homem primitivo fora selecionado para adaptar-se , como caçador, a uma existência mais predatória em habitats abertos (Wilson, 1977) ainda dominavam nossa existência social."
(HOBSBAWN, Eric. Era dos Extremos: O Breve Século XX, pág. 533, 534. Editora Companhia das Letras)
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Alguns comentários sobre as questões colocadas nos trechos extraídos acima:
1) Realmente, é bem percepitível o esforço de teóricas feministas, principalmente a partir da década de 70, de erodir a noção fortemente arraigada de que homem e mulher em seu comportamento e maneira de se relacionar eram dois seres naturais, e portanto, imutáveis em sua inserção social. Chegou-se na época a extremos ideológicos que visavam quase uma sociedade andrógena, defendendo inclusive que a gravidez não mais devesse ser um atributo femino, mas sim que se desse em laboratórios (vale aqui mais do que o exemplo, a ideia mais ampla que a permeia). De qualquer forma o que prevaleceu (e acho que acertadamente) foi a redefinição dos dois "sexos" (agora gêneros), enquanto realidades biológicas sim (ou seja, havendo diferenças que pudessem ser atribuídas ao ser masculino e feminino), mas também de forma irrefutável como papéis sociais, explicados e justificados sobre bases culturais.
Existem esses dois seres reconhecidamente diferente, porém e mais importante é como as culturas dão significados diversos a essas diferenças, como dão contornos os mais variados a ambos de acordo com o "universo simbólico" do qual fazem parte. Uma série de autores, a começar pela antropóloga Margareth Mead em "Sexo e Temperamento", buscam demonstrar como o comportamento esperado (enquanto natural) para homens e mulheres varia entre uma sociedade e outra. O esforço era (e ainda é) justamente questionar a ordem das coisas naturalizada e justificada em termos biológicos e trazer à tona, como já dito, seu caráter social e portanto, questionável e mutável. A "mulher" (esse conceito abstrato) passa cada vez mais a tomar corpo enquanto agente político, denunciando a desigualdade sofrida frente ao homem e reivindicando uma nova inserção na sociedade, sendo que tal movimento só foi possível na medida em que se desconstruiu a noção de mulher, na qual tudo se justificava em vista de sua natureza.
Por outro lado, a própria força que o movimento feminino alcançou no decorrer das décadas trouxe complicações para os estudos voltados de alguma forma para os gêneros, mostrando o quanto a ciência está imbricada com a política, sendo influenciada e influenciando. Como exposto no excerto acima, adentrar tal terreno é estar num campo minado.
2) Acho interessante (no mau sentido) a quantidade de explicações sociobiológicas que recebemos o tempo todo que justificam diversos aspectos do comportamento o humano. Por que comemos demais (ou de menos), por que mentimos, por que fazemos assim ou assado determinados coisas, entre muitas outras coisas. Pior ainda quando são para explicar o porquê das diferenças entre homens e mulheres. Vira e mexe a ciência propõe-se a tentar explicar por seus meios o comportamento mais variados de homens e mulheres (principalmente temas como traição, atração sexual, comportamento sexual, etc). Tentam dar bases naturais a características supostamente femininas (fragilidade, docilidade, submissão) ou masculinas (agresividade, dominação). Ou ainda fazem um ligação direta entre nós e o homem pré-histórico ("somos/fazemos assim, por que nossos antepassados também eram/faziam assim"). Acho que seria muito radical negar totalmente a validade dessas explicação. Porém, tenho certeza que tal "ciência" é utilizada em demasia, como um atalho para elucidar o comportamento humano. É mais fácil justificar determinada característica com base naquilo que não temos controle (como nos nossos genes e no próprio funcionamento do nosso corpo) do que estabelecer sua contigência social e política.
Como já disseram muitos antes, a cultura é a lente pela qual vemos o mundo. A maneira como vemos e lidamos com nós mesmo e com o(s) outro(s) não é dada deterministicamente pela natureza humana, mas está indissociada dos valores e da visão de mundo que tenho para mim e que compartilho com os que me rodeiam (num duplo e simultâneo processo, no qual sou influenciado pelo mundo exterior, enquanto pertencente a ele, mas também na qual minha visão individual do mundo toma forma).