sexta-feira, 20 de março de 2009

Interlúdio (ou sobre os fantasmas de si mesmo)

- Sabe o que eu acho cara? Que somos uma grande ficção e que nos impressionamos com isso, com as nossas sombras na parede. Contornos difusos e mal definidos, de tamanho exagerado, que causam êxtase e que assustam... Olhamos encantados nossa imagem refletida n’água e nos afogamos como se fosse inevitável. Lamentamos o movimento doloroso da auto-recusa performática.

Performance: é pura pose e poesia. O ego inflado e uma hipertrofia psíquica. E não há beleza alguma em se estar sempre no centro...

Você procura um lugar, mas só a consciência da busca já é admitir que não possui lugar algum (assim como pensar no sono é estar acordado) e que não há opção. Seu movimento crítico é estar sempre perdido. E se perde entreatos.

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"Como correr na esteira, que cansa e não leva a lugar algum."

terça-feira, 17 de março de 2009

“A ironia - para os que estão em busca de uma ‘causa’ – é que os trabalhadores, cujas reivindicações já constituíram o motor da transformação social, estão hoje mais satisfeitos com a sociedade do que os intelectuais; sua situação não é ideal, mas as expectativas que tinham eram menores e as conquistas alcançadas foram relativamente maiores.”

(Bell, Daniel. O Fim da Ideologia; Brasília, UnB, 1980)
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Um pouco desanimador perceber que as reivindicações trabalhistas atuais se resumem a manutenção de empregos e melhores salários. Reclama-se do preço do feijão e contenta-se em comprar feijão barato... Ou seja, o que está em questão não é mais a escravidão em si, mas sim seus termos.
Acho que o velho Marx deve se revirar no caixão ao perceber a capacidade histórica do capitalismo de (até certo ponto) se adaptar, fazer concessões e manter as coisas como estão. Melhor ainda: dosmesticam o suposto sujeito revolucionário que seria o proletário (a ideologia burguesa está por toda parte).

E sei lá, não que eu seja exatamente comunista, marxista ou qualquer coisa assim, mas chama a atenção o fato de que esperava-se demais e não foi o que se viu (até agora, pelo menos).

segunda-feira, 16 de março de 2009

A minha nota musical favorita é o mi...

sexta-feira, 6 de março de 2009

Ela jogou no lixo minha poesia, pensando que fosse papel velho.

E eu guardei pra mim os papéis do lixo do banheiro (pensei que fossem versos livres).

quinta-feira, 5 de março de 2009

“Contudo, nos seus aspectos mais efetivos, a religião representava mais do que isso [mobilização da emoção]: era uma forma de abordar o problema da morte. O medo da morte – poderosa e inevitável – e principalmente o medo da morte violenta perturba o sonho brilhante, mas momentâneo, do poder humano. Como Hobbes observou, o medo da morte é a fonte da consciência; e o esforço para evitar a morte violenta é a fonte da lei. Quando era possível acreditar (mas realmente acreditar) no céu e no inferno, esse medo podia ser em parte temperado, ou controlado; sem tal crença, resta apenas o aniquilamento completo da individualidade.”



(BELL, Daniel; O Fim da Ideologia, pág. 324, Ed. UnB)
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Interessante essa noção, de que a morte, assustadora e infalível, faria com que nós buscássemos abrigo nas leis, principalmente nas leis de um ser superior, que explica algo a princípio sem explicação e nos conforta do destino que é "deixar de existir".
Sei lá, talvez fique sem sentido, mas tenho pensado bastante nessas questões da religião enquanto fenômeno sociológico...

segunda-feira, 2 de março de 2009

Pequena divagação sobre um momento passado em frente ao espelho

Agora, neste exato momento, a folha de papel em branco olha para mim, num tom desafiador, me incitando a dar um fim em sua brancura com a tinta da caneta.

Confesso que hesitei por um bom tempo, cheguei a imaginar que ela sairia vencedora e voltaria triunfante pra gaveta de onde saiu. As idéias que eu julguei afiadas e extraordinárias mas traíram. Mas eis que, covardemente, resolvo apelar e desvendar o próprio impasse que se formou, o muro que se construiu entre as fantasias e as palavras. Como quem quebra o silêncio falando dele próprio, mas no fim das contas percebe que isso só piora as coisas, pois o torna mais presente.

Talvez fosse melhor falar sobre o tempo (instável) ou o trânsito (caótico). Agora martela na minha cabeça como a folha está pintada do vermelho da caneta, mas ainda continua em branco...

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Não sei por que me surpreendo, elas sempre fazem isso comigo. Mas por capricho mando-as direto para o lixo.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

O Curioso Caso de Benjamin Button

Faz um tempo já que eu o assisti e até tentei, nos dias seguintes, organizar algumas idéias que tive sobre ele, mas sem muito sucesso...

Sem dúvida é um filme muito bonito, uma história bem contada que fica entre o dramático e o cômico (a situação do protagonista é um misto das duas coisas). Benjamim Button é um caso raro (único!?) de pessoa nasceu ao contrário, ou seja, velho, para morrer como um bebê (não vou detalhar mais o roteiro, até para não estragar surpresas). A partir disso abre-se espaço para um reflexão sobre o tempo, a maneira como lidamos com ele e com as pessoas a nossa volta a partir de sua passagem, tema até certo ponto recorrente, mas que ganha frescor e chama atenção pra coisas que poderiam passar batido ao se inverter a lógica e mostrar um personagem fazendo o "caminho" contrário. A dor dele, por exemplo, passa a ser a evidente diferença de idade que vai se formando entre ele e a pessoa que amada e saber que em determinado momento isso será intransponível.

Encontros e despedidas, tão comuns na vida de qualquer pessoa ganham nova forma e paramos pra pensar (pelo menos eu parei) sobre o tempo e o que ele faz com nós. Perceber como ele age, no caso sobre Benjamim Button, é motivo para um pontada de tristeza . Sobre a forma como nos aproxima de certas pessoas, como nos distancia de outra (inclusive pela morte). Em geral, é a efemeridade da condição humana, mero brilho.

Enfim, o filme todo soa como uma grande e fantástica fábula moderna, divertida e emocionante, até mais do que eu imaginei que poderia ser. E longe de querer discorrer sobre o filme como um todo, preferi fazer um pequeno comentário sobre esse aspecto.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

segredo

ah, já sei! as ondas da mar são de Deus fazendo hidroginástica.
(anônimo)

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

o ano agora é outro (de novo!) e metade do segundo mês já se foi. risco incontrolável os dias no meu calendário. pequenas marcas por todo o corpo. uma a uma.

mas não era sobre isso que eu queria escrever (eu me repetindo, como se não pudesse evitar ser quem sou, mas meu eu lírico não sou eu e nem tem poesia). claro, estou anestesiado, me sinto pouco agora e não sei até onde isso vai. eu disse algo sobre reclamar do preço do feijão? é, falta pouco. e isso não me comove... estou anestesiado e apático. de apatia cínica, que ri de tudo, mas não vê graça. sorriso azedo, como se eu tivesse envelhecido alguns anos em poucos meses (e talvez por isso o papo sobre calendário no início). pior que pensar sobre isso faz com que eu me sinta mais inconveniente (por que eu sempre ando em círculos!?).

mas, (fora isso) a vida é boa. a cabem nove em um carro.

16/01/2009

aliás, eu sinto falta de tudo, mas me mantenho da porta pra dentro.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

"Como isso aconteceu nem ele mesmo sabia, mas de repente alguma coisa pareceu o impelir e lancá-lo aos pés dela. Ele chorava e lhe abraçava os joelhos. No primeiro momento ela levou um terrível susto, e todo o seu rosto ganhou uma palidez mortal. Ela se levantou de um salto e põs-se a fita-lo trêmula. Mas de imediato, no mesmo instante ela compreendeu, e para ela já não havia dúvida, que ele a amava, a amava infinitamente, e que enfim chegara esse momento...


"Eles quiseram falar mas não conseguiram. As lágrimas estavam em seus olhos. Os dois eram pálidos e magros. mas nesses rostos doentes e pálidos já raiava a aurora de um futuro renovado, pleno de ressurreição e vida nova. O amor ressucitara, o coração de um continha fontes infinitas de vida para o coração do outro.


"Decidiram espera e suportar. Ainda lhes restavam sete anos; mas até então, quanto suplício insuportável e quanta felicidade sem fim! Mas ele ressucitara, e o sabia, sentia todo o seu ser plenamente renovado, e ela - bem, ela vivia só da vida dele."


(Dostoiévski, Fiódor. Crime e Castigo; págs. 558 e 559. Trad. Paulo Bezerra. Ed. 34)

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"Hoje eu acordei mais leve, nem li o jornal. Tudo deve estar suspenso, nada deve pesar..."

(Ilex Paraguariensis)