quarta-feira, 22 de setembro de 2010

I.

(...)

- hahahaha, e sabe o que ela me respondeu?: "eu não tenho cabelos vermelhos e o meu vestido não é amarelo. eu sou só uma menina invisível, deitada na grama invisível que a moça que não sabia desenhar, não desenhou".

- realmente... se eu bem me lembro acho que o cabelo é amarelo e o vestido vermelho (e os olhos são de assombração!). mas que importa? estamos todos num filme em preto e branco mesmo. 

- é, foda-se...

(e a conversa continou, mas eu desci antes do ponto final)

II.

"eu não tenho cabelos amarelos e o meu vestido não é invisível. eu sou só uma menina amarela, deitada na grama vermelha que a moça que não sabia desenhar, não desenhou."

"eu não tenho cabelos de grama e o meu vestido não é de moça. eu sou só um desenho deitado, amarelo no vermelho impossível que a moça invisível não desenhou."

"eu não tenho cabelo, nem vestido (nem grama, nem cor). sou só uma menina deitada no nada da moça inventada."


[é tudo sobre você
                                (- ela.
                                  - eu?
                                  - a outra.
                                  - nós todos.
                                  - ninguém.
                                  - enfim, basta.)]

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trecho em negrito roubado impiedosamente daqui:

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

teu corpo

você não sabe, não se deu conta ainda, mas deixei marcas por todo o teu corpo. furiosamente quis tê-lo (inteiro!) para mim, roubá-lo e no desespero de quem se afoga me derramei exagerado sobre ele. em minha insanidade tentei devorá-lo completamente; torná-lo meu abrigo, na fuga vã e desesperada do vazio que me ameaçava e que era eu próprio. sim, tentei habitá-lo, torná-lo minha parte mais segura. receptáculo de meus delírios e da minha descrença.

marcas indeléveis... mãos apertando muito as suas coxas e suas nádegas. minha saliva. o caminho percorrido por minha língua, da sua orelha até seu ombro. a marca dos meus dentes em seus dois peitos. meus lábios violentando os teus. o suspiro desentranhado (lívido, agressivo) entre os dentes.... e eu me liquefazia, sôfrego e extasiado na tua pele.

isso nunca se apagará... esfregue a sua pele o quanto quiser. peça para que façam igual, que façam melhor! haverá sempre um pouco de mim (da minha loucura) em você.

Ituverava
16/07
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e injetar cada pedaço do teu corpo em cada pedaço do meu corpo.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

seis horas da noite na cidade fria

seis horas da noite na cidade fria
todos como eu, nenhuma diferença,
tantos corpos, sapatos e guarda-chuvas
(mas não choveu hoje, nem choverá),
nenhuma alegria...

meus dois pés fincados sobre a capital
séculos de história me sufocam
ouço os fantasmas sussurrando
tudo é asfalto e remorso
e o que aquece é o motor à combustão.

nas minhas costas o peso do céu,
a herança que nos foi legada,
essa vida por deus cuspida,
a morte que nos será cobrada
ao dobrarmos a esquina

[ - mas não fui eu!
quando cá cheguei, assim estava...
no máximo olhei curioso
e escrevi uns versos]

a fumaça dignifica o homem,
o enche de si.
sei o que é respirar essa falta de ar todos os dias
pesa no nariz e no pulmão
comove
fede à saudade...
e os prédios são tristes e nem sabem

as coisas (todas elas)
choram pelas ruas
e eu nem posso entender por quê...
talvez por isso eu passe reto
e baixe a cabeça
talvez por isso eu fique quieto
e aperte o passo.

seis horas da manhã nesta cidade feia,
acredite minha cara,
você não é cinza sozinha.
meu olhos,
meu coração doído
(esmagado),
são cinza como você...

(que bem sei o que é respirar essa falta)

16/07
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"(...)


Já não,
já não que a lira tenho desatinada
e a voz enrouquecida
e não do canto
mas de ver que venho
falar de uma cidade endurecida,
falar de uma cidade poluída
falar de uma cidade
onde a vida é cada dia menos do que a vida:
asfalto asfalto asfalto
e mais assalto
(...)"

(F. Gullar)

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

meu amigo...

"Vamos beber uísque. vamos
beber cerveja preta e barata,
beber, gritar e morrer,
ou, quem sabe? beber apenas.

"Vamos xingar a mulher,
que está envenenando a vida
com seus olhos e suas mãos
e o corpo que tem dois seios
e tem um embigo também.
Meu amigo, vamos xingar
o corpo e tudo que é dele
e que nunca será alma."

(Carlos Drummond de Andrade)

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Estilhaçando e Recompondo

não vou lamentar um coração estilhaçado, perdido em muitos pedaços. não vou dizer que o prefiriria inteiro e indivisível (de ferro!), ainda que isso possa ser verdade. não farei isso agora (acho que isso eu já fiz demais)... quero antes olhá-lo, atento e curioso, na impossibilidade de esquecê-lo por completo, de deixá-lo por aí como uma coisa natural (a apodrecer naturalmente) e que a gente nem se dá conta .

é... tudo leva a crer que meu coração foi feito mesmo para estar por aí, espalhado por entre pessoas e lugares; para que eu o perca sempre e nunca tente encontrá-lo. por mais que às vezes seja essa minha vontade, não é comigo que ele deve estar, ainda que assim fosse mais fácil, mais seguro... e há cacos dele por todo o canto! frequentemente encontro pedaços no caminho do ônibus ou em fotos antigas, em lugares que nunca estive ou nos quais eu sempre estou e aquilo faz todo sentido pra mim! fico um tempão sem passar por aquela rua ou sem me lembrar daquela(s) pessoa(s) e quando o faço (por mero acaso ou não) percebo o quanto de mim ainda está lá... e acho que é por isso que sinto tanta saudade, tanta nostalgia: é o tanto de mim que espalho no mundo, e o meu coração é muito menor que o mundo...

pessoas que nem imaginam carregam pedaços (às vezes enormes!) dele. muitas vezes prefiro que não saibam mesmo, não vem ao caso. disfarçadamente coloco  no bolso do casaco ou na mochila e eles nem desconfiam que daquele momento em diante é um pedaço de mim (e do que há em mim de mais importante) que vai com eles, mesmo que não queiram, mesmo que preferissem que não fossem assim...

e assim eu procuro passar meus dias, estilhaçando e recompondo. desculpe-me, mas é que eu não sei fazer de outro jeito.
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"Amigos morrem,
as ruas morrem,
as casas morrem.
Os homens se amparam em retratos.
Ou no coração de outros homens."

(Ferreira Gullar)

ainda sobre isso aqui: http://carbonoeamoniaco.blogspot.com/2010/05/cardiologico.html

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

sobre duas linhas incompletas

sabe garota, eu poderia tentar escrever algo sobre você. era o que eu queria! captar uma suposta essência que fosse sua, só sua e que só eu pudesse desentranhar e colocar no papel. talvez ficasse bom e eu até ficaria satisfeito, confortável, ao reler. seria você, da maneira como existe em mim (e da maneira como eu pensei que você existisse em tudo!). porém desisti de fazê-lo ao final da segunda linha... ("ei, isso é metalinguagem barata!") eu sou sempre assim... faço e desfaço. refaço, descreio, dou a minha vida, renasço e passo a tarde a pensar. sempre, sempre assim. e nunca soube exatamente se você ria por achar graça ou por desdém... (tudo bem, os ruídos e os dentes expostos por si só valiam a pena).

talvez você reflita sobre isso daqui a dez anos e sinta orgulho de ter conhecido uma pessoa como eu... ou não, em dez anos pode ser que eu seja somente um nome (mais consoantes que vogais) ou nem isso. porém, esse é um risco que se corre, o que importa, o que cabe dizer agora é que eu queria escrever sobre você, de uma maneira doce e forte. queria que um punhado de palavras te traduzissem, te refletissem (te iluminassem), ainda que deformada (as palavras sempre deformam, não é mesmo?) mas desisti (acho que o que me define melhor são as coisas das quais eu desisti) ao perceber que isso seria escrever sobre mim (como o que eu estou fazendo neste momento...) e escrever mentiras sobre pessoas que eu nunca conheci. tentar me fazer mais claro seria inventar uma estória e obscurecer a pouca verdade sobre a qual nos sustentamos (você tem uma verdade? você dorme com ela todas as noites, por medo de ficar sozinha?) e isso é exatamente o que eu não queria fazer. não agora. não nesse momento...

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Um Sorriso

Quando
com minhas mãos de labareda
te acendo e em rosa
embaixo
te espetalas
quando
com meu facho acesso e cego
penetro a noite de tua flor que exala
urina
e mel
que busco eu com toda essa assassina
fúria de macho?
que busco eu
em fogo
aqui embaixo?
senão colher com a repentina
mão do delírio
uma outra flor: a do sorriso
que no alto o teu rosto ilumina?

(Gullar, Ferreira in Na Vertigem do Dia)
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que busco aqui embaixo senão colher a flor do sorriso que o teu rosto ilumina?
erótico e singelo, como eu queria...

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

em espiral

fixação por cores, por cheiros, por sons. todos os meus membros em alerta, eufóricos, suplicando o que há para se absorver. instintivamente rastejo por entre a matéria em busca de sensações. quero a parte pulsante das coisas, a vibração caótica dos corpos (inclusive os inertes). acho que isso é querer estar um pouco mais atento à vida (a vida?). é tentar provar a mim mesmo que estou vivo. estou tentando, meio que sem querer, chegar à conclusões. mas não daquelas que dão respostas definitivas e duradouras, que nos esmagam e excluem todas as outras possíveis respostas, mas sim a possibilidade de se adicionar novas visões, que se interpenetrem e se complementem... que haja sempre mais sons, mais cores e mais cheiros.

o parágrafo anterior está perdido. definitivamente. e não há tempo para lamentá-lo. há que se recomeçar dizendo (súbito) que peguei uma tesoura de dentro da gaveta e perfurei fundo meu peito pra ver um coração estranho batendo forte e um pulmão cheio de resentimentos. eram meus!  e estavam condenados. não pude mais ver meu sangue vermelho, ele não era mais vermelho, assim como a paisagem era tão somente preto e branco. o líquido que jorrava de mim tinha uma leve tonalidade esverdeada, um verde ocre e tímido (podre?) e isso não era de todo mal. havia algumas marcas no meu corpo e isso também não era de todo mal. só não pense, minha cara, nisso como uma declaração de amor (ou de fé). no máximo assumo, agora, minha culpa... (ao ver meu meu estado o doutor me desenganou... "a única coisa a fazer é tocar um tango argentino").

há uma última chance! não me encontro mais. rejeito covardemente tudo o que foi dito antes. é minha tentativa de redenção. é minha forma de me tornar desprezível. pelo menos é o que você me diria se estivesse aqui, se me alcançasse. não...você não diria nada, deixaria que eu me perdesse. pior: se estivesse aqui eu é que estaria pensando em nada.

desisto enfim, entre lamentoso e aliviado.
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"entendes finalmente
que o passado
é pura doença."

(ferreira gullar)

- entendes?

terça-feira, 17 de agosto de 2010



por que continuas?
há versos de amor em tudo que vês?
hein!? há versos?
há amor?
não. nada.
não há nada...

e lemos no jornal todos os dias que
o tempo de amar passou
"o amor acaba seu juíz"
foi ontem...
depois do jantar, antes da novela
o amor foi um intervalo comercial

e lemos na parede do banheiro que
a poesia também passou,
(e não deixou saudades)
foi uma foda
bem dada
mas não deixou saudades...
e bocejamos no final

...
num desatino
ainda ejaculas versos,
descontrolavelmente
na pele amarela dela
ainda procuras alívio (no tormento)
e chama amor
(e chama poesia)
a noite que passas acordado
com um cigarro entre os dedos a olhar o corpo estranho que [dorme na tua cama.


por que continuas!?

terça-feira, 3 de agosto de 2010

poderia cantar qualquer música para você agora.
desde o mais novo sucesso das rádios até aquela que só eu sei que existe (por que fui eu que fiz).

cantaria uma dessas muitas, excessivamente românticas, que dizem tudo aquilo que de tão real só pode ser mentira.
te encantaria e te faria rir quando eu, bêbado ou envergonhado, desafinasse ou esquecesse um pedaço da letra.

tudo bem, ainda assim você acharia graça e pediria para eu deixar de bobeira. mas a tua mão afagando meu cabelo e os teus olhos perdidos nos meus seriam um discreto e doce pedido para que eu continuasse: "cante para mim. mantenha-me no alto, no centro do seu universo. que eu seja ainda o motivo das suas notas, mesmo que desafinadas".

você sabe, uma canção seria o melhor que eu poderia fazer...
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"Faça silêncio por um momento
Não precisa falar
Experiências, experimentos
Não ponha letra, nem perca tempo
Só precisa tocar
Sinta o som dos instrumentos . "

(Relespública)