vá ser triste (um pouco pelo menos)! entre um cigarro e outro, preste atenção no gosto amargo que fica na boca (tua bile) e te faz sentir remorso. prova cabal de que há vida, ainda que não saiba exatamente o que fazer com ela...
por que não se retira por um momento? nem todas as sextas-feiras têm que ser iguais... tem dia que a bebida simplesmente não desce e a secura na garganta atordoa. aceite esta pausa para o humano arrependimento.
a turba lá fora canta alto, festeja a morte próxima e o silêncio vindouro. mas você não consegue sair de casa, porque a casa está em você (mas ainda assim sente-se um estrangeiro).
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"Quem foi que te ensinou a rezar?
Que santo vai brigar por você?
Que povo aprova o que você fez?
Devolve aquela minha tv, que eu vou de vez,
Não há porque chorar por um amor que já morreu,
Deixa pra lá, eu vou, adeus.
Meu coração já se cansou de falsidade"
(santa chuva)
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Dialética
É claro que a vida é boa
E a alegria, a única indizível emoção
É claro que te acho linda
Em ti bendigo o amor das coisas simples
É claro que te amo
E tenho tudo para ser feliz
Mas acontece que eu sou triste...
(Vinícius de Moraes)
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poeta. vagabundo. vinícius.
quarta-feira, 13 de outubro de 2010
bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era...
Perdeu-se na carne fria
perdeu-se na confusão de tanta noite e tanto dia
perdeu-se na profusão das coisas acontecidas
constelações de alfabeto
noites escritas a giz
constelações de alfabeto
noites escritas a giz
pastilhas de aniversário
domingos de futebol
enterros corsos comícios
roleta bilhar baralho
mudou de cara e cabelos mudou de olhos e risos mudou de casa
e de tempo: mas está comigo está perdido comigo
teu nome
em alguma gaveta
(Ferreira Gullar)
_________________________
só não consigo me lembrar onde...
segunda-feira, 4 de outubro de 2010
uma canção
- ela segurou na minha mão e falou assim no meu ouvido: "por que a gente não vai lá pra fora, ver o sol nascer? por que a gente não pega aquela rua e vai por ela até o fim. onde ela acaba eu não sei, mas eu pago pra ver a sua cara de surpresa".
- e surpresa maior seria dar de cara com um abismo! e surpresa maior seria ter vontade de pular!
- ...bolhas multicoloridas dançavam no meu copo. havia um canção solta no ar. ela era minha aventura, o seu corpo um delírio. e o seu abraço... o seu abraço era uma facada.
- e eu senti a lâmina fria no meu peito quente!!! (e eu estranhei quando tive vontade de sorrir...).
_______________
sobre encontros inesperados (mas que sabíamos que aconteceriam)
sobre comportamentos desesperados (mas que nos renovam)
- e surpresa maior seria dar de cara com um abismo! e surpresa maior seria ter vontade de pular!
- ...bolhas multicoloridas dançavam no meu copo. havia um canção solta no ar. ela era minha aventura, o seu corpo um delírio. e o seu abraço... o seu abraço era uma facada.
- e eu senti a lâmina fria no meu peito quente!!! (e eu estranhei quando tive vontade de sorrir...).
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sobre encontros inesperados (mas que sabíamos que aconteceriam)
sobre comportamentos desesperados (mas que nos renovam)
terça-feira, 28 de setembro de 2010
não quero morrer não quero
apodrecer no poemaque o cadáver de minhas tardes
não venha feder em tua manhã feliz
e o lume
que tua boca acenda acaso das palavras
- ainda que nascido da morte -
some-se
aos outros fogos do dia
aos barulhos da casa e da avenida
no presente veloz
(Arte Poética/ Ferreira Gullar)
quarta-feira, 22 de setembro de 2010
I.
(...)
- hahahaha, e sabe o que ela me respondeu?: "eu não tenho cabelos vermelhos e o meu vestido não é amarelo. eu sou só uma menina invisível, deitada na grama invisível que a moça que não sabia desenhar, não desenhou".
- realmente... se eu bem me lembro acho que o cabelo é amarelo e o vestido vermelho (e os olhos são de assombração!). mas que importa? estamos todos num filme em preto e branco mesmo.
- é, foda-se...
(e a conversa continou, mas eu desci antes do ponto final)
II.
"eu não tenho cabelos amarelos e o meu vestido não é invisível. eu sou só uma menina amarela, deitada na grama vermelha que a moça que não sabia desenhar, não desenhou."
"eu não tenho cabelos de grama e o meu vestido não é de moça. eu sou só um desenho deitado, amarelo no vermelho impossível que a moça invisível não desenhou."
"eu não tenho cabelo, nem vestido (nem grama, nem cor). sou só uma menina deitada no nada da moça inventada."
[é tudo sobre você
(...)
- hahahaha, e sabe o que ela me respondeu?: "eu não tenho cabelos vermelhos e o meu vestido não é amarelo. eu sou só uma menina invisível, deitada na grama invisível que a moça que não sabia desenhar, não desenhou".
- realmente... se eu bem me lembro acho que o cabelo é amarelo e o vestido vermelho (e os olhos são de assombração!). mas que importa? estamos todos num filme em preto e branco mesmo.
- é, foda-se...
(e a conversa continou, mas eu desci antes do ponto final)
II.
"eu não tenho cabelos amarelos e o meu vestido não é invisível. eu sou só uma menina amarela, deitada na grama vermelha que a moça que não sabia desenhar, não desenhou."
"eu não tenho cabelos de grama e o meu vestido não é de moça. eu sou só um desenho deitado, amarelo no vermelho impossível que a moça invisível não desenhou."
"eu não tenho cabelo, nem vestido (nem grama, nem cor). sou só uma menina deitada no nada da moça inventada."
[é tudo sobre você
(- ela.
- eu?
- a outra.
- nós todos.
- ninguém.
- enfim, basta.)]
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trecho em negrito roubado impiedosamente daqui:
sexta-feira, 17 de setembro de 2010
teu corpo
você não sabe, não se deu conta ainda, mas deixei marcas por todo o teu corpo. furiosamente quis tê-lo (inteiro!) para mim, roubá-lo e no desespero de quem se afoga me derramei exagerado sobre ele. em minha insanidade tentei devorá-lo completamente; torná-lo meu abrigo, na fuga vã e desesperada do vazio que me ameaçava e que era eu próprio. sim, tentei habitá-lo, torná-lo minha parte mais segura. receptáculo de meus delírios e da minha descrença.
marcas indeléveis... mãos apertando muito as suas coxas e suas nádegas. minha saliva. o caminho percorrido por minha língua, da sua orelha até seu ombro. a marca dos meus dentes em seus dois peitos. meus lábios violentando os teus. o suspiro desentranhado (lívido, agressivo) entre os dentes.... e eu me liquefazia, sôfrego e extasiado na tua pele.
isso nunca se apagará... esfregue a sua pele o quanto quiser. peça para que façam igual, que façam melhor! haverá sempre um pouco de mim (da minha loucura) em você.
Ituverava
16/07
__________________
e injetar cada pedaço do teu corpo em cada pedaço do meu corpo.
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e injetar cada pedaço do teu corpo em cada pedaço do meu corpo.
sexta-feira, 10 de setembro de 2010
seis horas da noite na cidade fria
seis horas da noite na cidade fria
todos como eu, nenhuma diferença,
tantos corpos, sapatos e guarda-chuvas
(mas não choveu hoje, nem choverá),
nenhuma alegria...
meus dois pés fincados sobre a capital
séculos de história me sufocam
ouço os fantasmas sussurrando
tudo é asfalto e remorso
e o que aquece é o motor à combustão.
nas minhas costas o peso do céu,
todos como eu, nenhuma diferença,
tantos corpos, sapatos e guarda-chuvas
(mas não choveu hoje, nem choverá),
nenhuma alegria...
meus dois pés fincados sobre a capital
séculos de história me sufocam
ouço os fantasmas sussurrando
tudo é asfalto e remorso
e o que aquece é o motor à combustão.
nas minhas costas o peso do céu,
a herança que nos foi legada,
essa vida por deus cuspida,a morte que nos será cobrada
ao dobrarmos a esquina
[ - mas não fui eu!
quando cá cheguei, assim estava...
no máximo olhei curioso
e escrevi uns versos]
a fumaça dignifica o homem,
o enche de si.
sei o que é respirar essa falta de ar todos os dias
pesa no nariz e no pulmão
comove
fede à saudade...
e os prédios são tristes e nem sabem
as coisas (todas elas)
choram pelas ruas
e eu nem posso entender por quê...
talvez por isso eu passe reto
e baixe a cabeça
talvez por isso eu fique quieto
e aperte o passo.
seis horas da manhã nesta cidade feia,
acredite minha cara,
você não é cinza sozinha.
meu olhos,
meu coração doído
(esmagado),
são cinza como você...
(que bem sei o que é respirar essa falta)
16/07
__________________________
"(...)
Já não,
já não que a lira tenho desatinada
e a voz enrouquecida
e não do canto
mas de ver que venho
falar de uma cidade endurecida,
falar de uma cidade poluída
falar de uma cidade
onde a vida é cada dia menos do que a vida:
asfalto asfalto asfalto
e mais assalto
(...)"
(F. Gullar)
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"(...)
Já não,
já não que a lira tenho desatinada
e a voz enrouquecida
e não do canto
mas de ver que venho
falar de uma cidade endurecida,
falar de uma cidade poluída
falar de uma cidade
onde a vida é cada dia menos do que a vida:
asfalto asfalto asfalto
e mais assalto
(...)"
(F. Gullar)
quarta-feira, 8 de setembro de 2010
meu amigo...
"Vamos beber uísque. vamos
beber cerveja preta e barata,
beber, gritar e morrer,
ou, quem sabe? beber apenas.
"Vamos xingar a mulher,
que está envenenando a vida
com seus olhos e suas mãos
e o corpo que tem dois seios
e tem um embigo também.
Meu amigo, vamos xingar
o corpo e tudo que é dele
e que nunca será alma."
(Carlos Drummond de Andrade)
beber cerveja preta e barata,
beber, gritar e morrer,
ou, quem sabe? beber apenas.
"Vamos xingar a mulher,
que está envenenando a vida
com seus olhos e suas mãos
e o corpo que tem dois seios
e tem um embigo também.
Meu amigo, vamos xingar
o corpo e tudo que é dele
e que nunca será alma."
(Carlos Drummond de Andrade)
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Estilhaçando e Recompondo
não vou lamentar um coração estilhaçado, perdido em muitos pedaços. não vou dizer que o prefiriria inteiro e indivisível (de ferro!), ainda que isso possa ser verdade. não farei isso agora (acho que isso eu já fiz demais)... quero antes olhá-lo, atento e curioso, na impossibilidade de esquecê-lo por completo, de deixá-lo por aí como uma coisa natural (a apodrecer naturalmente) e que a gente nem se dá conta .
é... tudo leva a crer que meu coração foi feito mesmo para estar por aí, espalhado por entre pessoas e lugares; para que eu o perca sempre e nunca tente encontrá-lo. por mais que às vezes seja essa minha vontade, não é comigo que ele deve estar, ainda que assim fosse mais fácil, mais seguro... e há cacos dele por todo o canto! frequentemente encontro pedaços no caminho do ônibus ou em fotos antigas, em lugares que nunca estive ou nos quais eu sempre estou e aquilo faz todo sentido pra mim! fico um tempão sem passar por aquela rua ou sem me lembrar daquela(s) pessoa(s) e quando o faço (por mero acaso ou não) percebo o quanto de mim ainda está lá... e acho que é por isso que sinto tanta saudade, tanta nostalgia: é o tanto de mim que espalho no mundo, e o meu coração é muito menor que o mundo...
pessoas que nem imaginam carregam pedaços (às vezes enormes!) dele. muitas vezes prefiro que não saibam mesmo, não vem ao caso. disfarçadamente coloco no bolso do casaco ou na mochila e eles nem desconfiam que daquele momento em diante é um pedaço de mim (e do que há em mim de mais importante) que vai com eles, mesmo que não queiram, mesmo que preferissem que não fossem assim...
e assim eu procuro passar meus dias, estilhaçando e recompondo. desculpe-me, mas é que eu não sei fazer de outro jeito.
______________________________
"Amigos morrem,
as ruas morrem,
as casas morrem.
Os homens se amparam em retratos.
Ou no coração de outros homens."
(Ferreira Gullar)
ainda sobre isso aqui: http://carbonoeamoniaco.blogspot.com/2010/05/cardiologico.html
é... tudo leva a crer que meu coração foi feito mesmo para estar por aí, espalhado por entre pessoas e lugares; para que eu o perca sempre e nunca tente encontrá-lo. por mais que às vezes seja essa minha vontade, não é comigo que ele deve estar, ainda que assim fosse mais fácil, mais seguro... e há cacos dele por todo o canto! frequentemente encontro pedaços no caminho do ônibus ou em fotos antigas, em lugares que nunca estive ou nos quais eu sempre estou e aquilo faz todo sentido pra mim! fico um tempão sem passar por aquela rua ou sem me lembrar daquela(s) pessoa(s) e quando o faço (por mero acaso ou não) percebo o quanto de mim ainda está lá... e acho que é por isso que sinto tanta saudade, tanta nostalgia: é o tanto de mim que espalho no mundo, e o meu coração é muito menor que o mundo...
pessoas que nem imaginam carregam pedaços (às vezes enormes!) dele. muitas vezes prefiro que não saibam mesmo, não vem ao caso. disfarçadamente coloco no bolso do casaco ou na mochila e eles nem desconfiam que daquele momento em diante é um pedaço de mim (e do que há em mim de mais importante) que vai com eles, mesmo que não queiram, mesmo que preferissem que não fossem assim...
e assim eu procuro passar meus dias, estilhaçando e recompondo. desculpe-me, mas é que eu não sei fazer de outro jeito.
______________________________
"Amigos morrem,
as ruas morrem,
as casas morrem.
Os homens se amparam em retratos.
Ou no coração de outros homens."
(Ferreira Gullar)
ainda sobre isso aqui: http://carbonoeamoniaco.blogspot.com/2010/05/cardiologico.html
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