terça-feira, 24 de setembro de 2013

os meus centavos sobre o julgamento do mensalão

vou ser tentar ser o mais direto e claro possível, até porque sei pouco sobre o assunto, mas como bom brasileiro, quero dar meu pitaco sobre aquilo que não entendo:

1) o mensalão existiu. ficou feio pro partido que até então pregava a ética e a honestidade. corrupção é corrupção e pronto, não interessa qual seu objetivo, não há justificativas. é ridículo ver muito petista cego negando o mensalão ou tentando justificá-lo, como se fosse um mal necessário em prol de algum objetivo virtuoso...

2) tenho convicção de que a troca de dinheiro por apoio político (vulgo mensalão) tem sido amplamente utilizada através do tempo como modus operandi dos governos em todas as esferas da nossa bela democracia. então para com essa porra de "o maior caso de corrupção da história desse país". apesar da maioria do povo acreditar, isso é besteira.

3) os outros partidos, de maneira geral, são tão ou mais corruptos do que o pt. na verdade eu creio que eles sejam ainda mais, (duvida? clique aqui, o pt aparece num modesto nono lugar no ranking de partidos com mais políticos cassados). portanto, tenho nojo do uso político que os adversários do pt fazem, querendo se colocar acima deles, de forma cínica e deslavada, numa tentativa de cooptar a opinião pública.

4) é evidente que a grande mídia também vem usando desde 2005 de maneira suspeita esse caso, por interesse próprio e rusgas ideológicas. fala-se muito menos de outros casos de corrupção que estouraram no mesmo período (mensalão do dem e cartel do metrô, por exemplo). tem toda essa repercursão porque é o pt...

5) lamentável o quanto as pessoas querem dar palpite e criticar a postura do stf, sem entender porra nenhuma de direito e do funcionamento do judiciário. não se deseja um julgamento arrazoado, mas um linchamento em praça pública. nesse sentido, achei muito interessante o jurista ives gandra vir a público dizer que o zé dirceu foi condenado sem provas (clique aqui). se está certo ou errado eu não sei, mas passa credibilidade e é maduro da parte dele, enquanto uma figura consevadora e nem um pouco simpática ao pt, conseguir analisar os fatos de maneira isenta.

6) irrita o quanto puxam o saco de maneira ignorante do tal do joaquim barbosa. ele NÃO é um justiceiro, assim como alguns outros ministros do stf não são filhos da puta porque suspotamente votaram de maneira técnica, baseados em suas próprias conclusões, a partir dos autos e absolveram alguns ou todos os réus. quer dizer, eles podem até ser, eventualmente, filhos da puta, mal intencionados, mas é canalhice da nossa parte supor isso de antemão, sem tentar entender tudo o que envolve o julgamento e o que está contido no processo. 

7) parece até aqui que estou defendendo os envolvidos no caso do mensalão, mas não estou. acho que será lindo o dia em que os culpados forem finalmente pra cadeia, assim como é fato que não voto no pt (também por outros fatores), porém acho besteira esse negócio de querer mandar as bruxas pra fogueira. me irrita lidar com assuntos tão sérios assim como se fosse um fla x flu. sou a favor de um julgamento justo, razoável e baseado em provas, não no clamor popular, altamente manipulável e irracional.


segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Um Arco-íris de Verdade

ouça aqui

eu não sei se vai chover ou fazer sol
quero os dois e um arco-íris sobre o céu da cidade,
você já viu um arco-íris de verdade?

eu não sei se você vai me querer por um ano ou só por essa tarde,
mas eu queria alguma coisa sua que marcasse a minha vida,
seja sua unha na minha pele ou uma aliança no meu dedo

e se chover nem vem de guarda-chuva, que eu quero mesmo é te beijar molhada
e a gente dança e pisa em tantas poças
e a gente brinca de estar apaixonado

eu não sei se você vem no vento que assobia
de cabelo bagunçado e lenço no pescoço
mas vê se espanta essa frente fria
e me traz um pouco de calor na sua mochila

e se chover nem vem de guarda-chuva,
que eu quero mesmo é te beijar molhada
e a gente dança e pisa em tantas poças
e a gente brinca de estar apaixonado

e se chover nem vem de guarda-chuva,
que eu quero mesmo é te beijar molhada
e se o sol sair me leva lá pra fora,
me põe embaixo do seu céu de cores cintilantes


quinta-feira, 15 de agosto de 2013

"Ocorre que, por vivermos em um mundo plural, não podemos prever plenamente as consequências de nossas ações, e isto não se deve a uma deficiência cognitiva, mas sim a um certo grau de imprevisibilidade de toda ação, haja vista que, por estarmos inseridos em uma rede de relações, onde toda ação gera reações, não podemos saber integralmente qual o resultado do processo irreversível que desencadeamos no mundo. Por isso Arendt diz que apesar de agirmos, não somos os autores da história, pois o significado da mesma somente pode ser encontrado no 'fim', isto é, de maneira retrospectiva por quem se dispõe a narrá-la. Nessa linha, podemos dizer que a constituição de nós mesmos, de nossa biografia, do sentido de nossa existênca, bem como a constituição da comunidade política em que vivemos é uma atividade plural, que é incapaz de ser realizada solitariamente, pois a antes mencionada rede de relações que está por detrás dos negócios humanos não permite que realmente sejamos soberanos e onipotentes (...)."

(TORRES, Ana Paula Repolês. O Sentido da Política em Hannah Arendt.)
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Entrar em contato com as ideias de Hannah Arendt é sempre inspirador... 
A maneira como ela coloca cada um de nós nos seu "devido lugar" (nada mais e nada menos) ao frisar que não somos capazes de constituirmos individualmente nem a nós mesmos e nem uma comunidade política é forte e original. Afinal de contas (e sendo esse um dos pontos mais marcantes de seu pensamento), é somente na interação entre os homens, no exercício da liberdade entre iguais que nos é possibilitado tanto a construção de nós mesmos enquanto pertencentes ao mundo, quanto a construção do próprio mundo, enquanto espaço para a ação do homem. 
É através do olhar do(s) outro(s) que nos percebemos e é justamente a pluralidade de olhares e dos sujeitos que emergem a partir dessa relação que permite o surgimento do espaço público e da política, enquanto diálogo e troca.
Nesse sentido, gosto da ideia que ela elucida da história como algo que nos escapa, uma narrativa que se dá posteriormente aos acontecimentos, quando alguém se prestará a narrá-los. Nós agimos no presente, mas o significado e o desenrolar que nos levará a um "fim" é sempre incerto,  já que volátil.
Tampouco temos controle sobre a irradiação de nossas ações e não é no isolamento que se forma o "eu" e o "outro", mas antes nas reações às nossas ações, que ecoam por essa rede de relações e que inevitavelmente acabam voltando para nós mesmo das maneiras mais inimagináveis e constituindo de muitas formas o sentido de nossa existência.



segunda-feira, 12 de agosto de 2013

do que eu aprendi...

começo ponderando se posso realmente chamar isso de aprendizado. sei que sou irritantemente prevísivel e logo de cara questiono a mim mesmo (antes que alguém o faça?). não consigo dar um passo firme numa direção sem antes hesitar, olhar para os meus pés e ao meu redor (isso é o que me mata e me constitui)... não consigo dizer ao certo que sou mais sábio agora do que era antes, que sou melhor. será que, pelo contrário, simplesmente deixei de ser uma coisa para passar a ser outra? não é isso mesmo que fazemos o tempo todo? a despeito da falta de resposta que se anuncia ao questionar-me sobre o título, ousarei chamar o acúmulo de dias e anos e as experiências que de alguma maneira absorvi de aprendizado. afinal, desse intervalo de tempo que tenho me mantido vivo, fiz algumas coisas e elas também acabaram por fazer algo de mim.

quer dizer, nesse universo infinitamente aberto de saberes possíveis, só posso falar de fato em aprendizado se estabelecer de antemão um ponto de partida e um objetivo. caso contrário tudo se torna válido. ir ou ficar, ser ou não ser, toda e qualquer interação do ser humano consigo, com os outros e o ambiente implica em causar reações a si mesmo, alterar sua formação, imprimir marcas às quais podemos dar o nome de "aprendizado". entende aonde quero chegar? tentamos enxergar na escuridão do mundo com a chama de um palito de fósforo e o que iluminamos sempre será mísera partícula se comparada a tudo aquilo que nos escapa...

vencido dois parágrafos de fútil papo furado e arriscando em fazer um balanço entre a mesma pessoa separada pelo tempo, posso dizer que consegui usar a meu favor os percalços experienciados e que acabaram por contribuir para uma certa solidificação do "eu". isso sim é algo que posso considerar relevante: conseguir se tornar algo "duro" no universo. e quando eu uso tal expressão, por favor, considerem essa dureza de maneira relativa, no sentido de oferecer alguma resistência às diversas correntezas que nos assolam ininterruptamente e contra as quais invariavelmente nadamos, de conseguirmos ir em frente (supondo que é pra frente que seguimos) e de podermos ser um corpo um tanto quanto impermeável, que não sofra a todo tempo a invasão de outros corpos. e aqui estão dois pontos que se mostram relevantes para qualquer ser humano: ter minimamente a força, a pulsão, de seguir um caminho, enquanto sujeito "autônomo" e com "vontade própria" e ao mesmo tempo conseguir ser um todo minimamente coeso, capaz de proteger a si mesmo das invasões que nos ameaçam. algo como um "caminhar com a próprias pernas" e mais do que isso, estabelecer por conta própria o caminho que será caminhado. claro, sem perder a capacidade de contemplar a pluralidade possível e que nos traz beleza (e tormento).

acho que é isso, posso esboçar conclusões. creio que tenha aprendido e esteja sempre apredendo a pensar (e repensar, num processo contínuo) meu caminho possível e desejável, bem como caminhá-lo com retidão e firmeza. julgo ter aprendido também a olhar para a frente, sem deixar de prestar atenção ao meu redor, estar atento ao que me circunda e sempre com o passado nas costas (fardos e delícias com os quais não aprendi a viver sem). ainda suscetível a retrocessos e vacilações, mas igualmente preparado para fazer delas companheiras que me transmitam algo, tentar torná-las parte (importante) do caminho, que me caracterize e me aproxime de mim mesmo.

e vejam, se falo assim em termos tão abstratos e genéricos é justamente para que se possa ganhar essa amplitude, para não me fechar em especificidades, para que eu possa falar de mim como um todo. mas, sei, estou simplesmente falando da ação de um homem no mundo dos humanos e da ação que esse mesmo mundo causa num certo homem. e mais especificamente da capacidade de se autodeterminar e de ser um ponto de resistência. porém, não me iludo no alcance dessa autodeterminação e resistência. na realidade podemos muito pouco e sabemos quase nada. as possibilidades que nos apresentam são limitadas. ok, isso posto (e com o perdão do clichê), ainda creio ser possível fazermos limonada com os limões que a vida nos dá. ou ainda, quem sabe, com um pouco de sorte, uma bela caipirinha...

domingo, 4 de agosto de 2013

poema-convite

ah!
tuas coxas brancas,
tuas pernas curtas,
no ângulo reto em que florescem
úmidas
e tomam a forma do meu desejo
trêmulo
torno-me de novo devotado
púbere
acompanho atento o movimento
            rítmico          
em que se insinuam e fogem
hipnóticas
(mistério que não desvendo)

amo, sem saber rimar
tuas pernas ao meu desatino,
lívidas
nascem suaves em dedos
mínimos
serpenteiam ao meu redor
lânguidas
e vigorosas morrem
líquidas
(como eu morro)
no calor de teu quadril-convite

terça-feira, 23 de julho de 2013

exercício de fraternidade nº 1

há dias para se lamentar
os dias
que nunca serão
o que deseja o pueril coração.
dias em que
tudo nos falta
mesmo sem nada faltar...

mas hoje não...
hoje é o dia dos risos
que ecoam pela rua
e a deixa mais familiar.
seu farto riso corporal
enquanto caminhamos
confiantes por estarmos juntos

e em ti me amparo
enquanto ombro a ombro
desbravamos a terra
inóspita dos homens,
e indolentes dançamos
ouvindo canções
de despedida e reencontro

com passos cautelosos
vencemos a cidade crua,
entregamos a nossa parte mais nobre
o fio de alegria que resta
que nasce num e transborda noutro
fluxo contínuo
que te torna parte de mim.

ideias tolas confortam,
mãos em conversas fraternas,
sei, pertencemos ao mesmo mundo
e com coragem desentranho
minha força da sua
encho nossos copos de orgulho
mas você distraída beberica à vida

segunda-feira, 22 de julho de 2013

algumas linhas sobre "levada da breca"



tinha quase nenhuma referência para assistir à "levada da breca" ("bringing up baby", no original), de 1939, além de saber que seu diretor, howard hawks, é um nome importante da fase clássica de hollywood. continuo sem ter muitas informações, mas pelo menos agora sei que é dele um dos filmes mais divertidos que pude ter a oportunidade de assistir. poucas vezes na vida achei um filme tão engraçado. justo eu, que adoro comédias e que por isso mesmo sempre me decepciono, talvez por esperar demais que elas me façam rir.

a história em si não é tão original. fala sobre um zoólogo que está as voltas de seu casamento, do término de seu trabalho de anos reconstituindo o esqueleto de um brontossauro e a oportunidade de se levantar uma gorda doação para suas pesquisas. claro que nada poderia ser assim tão simples e o atrapalhado cientista acaba cruzando com uma simpática maluca que desde o início o coloca nos mais diversos apuros, se apaixonando por ele depois. tudo bem sessão da tarde, mas esse filme tem uma inocência e uma genuidade que o torna muito cativante.  o casal protagonista é muito engraçado interagindo e os outros personagens, num tipo de humor rápido e insano, também acabam agradando bastante. a sucessão de maluquices e mal-entendidos vai crescendo incessantemente, como uma bola de neve e te leva junto, ansioso por saber onde tudo aquilo vai parar. o ponto alto da história e das gargalhadas da platéia se dá quando todos se encontram na delegacia, em uma avalanche de situações insólitas e dialógos rápidos.

tão doce e ingênuo quanto cômico, foi uma boa descoberta, que compensou te ficado de olho  na programação do que rola de cinema em são paulo, apesar de no início eu ter ficado com um pé atrás pela sinopse e pelo nome do filme (sim, isso acaba importando e não tem como ler o título em português e não fazer referência à "Punky, a levada da breca" que passava no sbt na minha infância). esse, no caso, passou no centro cultural de são paulo, como parte da mostra howard hawks e valeu cada centavo do r$ 1,00 que me cobraram de entrada.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

algumas linhas sobre "the man comes around"de jonnhy cash



desde 2010 ouvi esse cd centenas de vezes. e de vez em quando sinto a necessidade de voltar a ele, como se houvesse algo ali que não encontrasse em nenhum outro lugar. adoro a aura do disco como um todo, que soa como se fosse desentranhado do fundo da alma de Cash com força e verdade. a voz de um senhor calejado pela vida e perceptívelmente velho e cansado (e que já pouco havia do rebelde e problemático jovem músico), cantando com tanta dor e austeridade e fazendo de cada acorde uma lembrança e uma despedida.

a primeira música que me chamou a atenção, até por ser largamente veiculada na mtv em 2003, foi "hurt", originalmente do Nine Inch Nails, que ficou profundamente dolorosa na versão do Jonnhy Cash. ganhou contornos de um acerto de contas com o passado e o que ficou de saudades e remorso.

"give my love to rose" conta a história de um homem  recém saído da prisão que é encontrado à beira da morte próximo ao trilho do trem e pede ajuda a quem o encontrou para que leve o seu dinheiro e suas última palavras para sua mulher (a rose do título) e a seu filho, que não chegou a conhecer. é triste e linda, num estilão country que poucas vezes me agradou tanto.

tenho que destacar também "hung my head" que conta uma história bem ao estilo velho oeste, sobre um assassinato cometido sem motivo aparente e o profundo arrependimento que assola o assassino. são de arrepiar os seguintes versos: "eu senti o poder da morte sobre a vida/ deixei orfão seu filho/ enviuvei sua esposa/ eu implorei por seu perdão/ desejei estar morto/ eu abaixei minha cabeça".

"personal jesus" tem um violão de peso, com belos riffs e um elegante piano sempre presente. gosto da imagem que ela me passa de uma mão amiga, ainda que pesada, disposta a dar amparo a um solitário que procure a fé (em seu próprio jesus). por fim, para não acabar falando de todas as músicas, preciso falar da mais bela melodia do cd, que é "desperado", um tocante conselho para que um cara durão e solitário (para quem "a prisão é andar sozinho por este mundo") "volte a si", "esqueça aquilo que ele não pode ter" e "deixe alguém amá-lo antes que seja tarde demais".

a última música do cd ("we'll meet again")é uma doce despedida que diz: "nós vamos nos encontrar de novo/ não sei onde e não quando/ mas eu sei que vamos nos encontrar de novo em algum dia de sol". não seria tão arrepiante se não fosse de fato a despedida de jonnhy cash, que morreu algum tempo depois, meses após sua esposa, june carter.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Excertos de uma entrevista de H. Miller


Sobre a importância do inconsciente no processo criativo:

"A mente desperta é, como se sabe, o que há de menos útil nas artes. No ato de escrever, a gente está lutando por trazer à tona o que nós próprios desconhecemos. Escrever meramente aquilo de que se tem consciência não nos conduz , na verdade, a parte alguma. Qualquer um pode fazer isso com um pouco de prática, cada qual pode converter-se nessa espécie de escritor."

Sobre a importância do surrealismo em suas obras:

"Isto [escrever surrealisticamente] significava ir ao extremo, mergulhar no inconsciente, obedecendo apenas aos nossos próprios instintos, seguindo nossos impulsos, quer fossem do coração, das entranhas ou o que quer que se deseje chamá-los."

Sobre o dadaísmo:

"(...) o dadaísmo foi mais importante para mim que o surrealismo. O movimento dadaísta foi algo verdadeiramente revolucionário. Foi um esforço cosncientemente intencional no sentido de virar as mesas de pernas para o ar, no sentido de mostrar a absoluta insignificância de todos os nossos valores. Houve homens maravilhosos no movimento dadaísta, e todos eles possuiam senso de humor. Era algo para fazer-nos rir, mas também para fazer-nos pensar."

Sua distinção entre obsceno e pornográfico:

"O obsceno seria o franco, o direto, e a pornografia seria o indireto, o perifrástico. Acho que se deve dizer a verdade, apresentando-a friamente, de modo chocante, se necessário, sem disfarcá-la. Em outras palavras, a obscenidade é um processo purificador enquanto a pornografia apenas aumenta a sujeira."

Sobre o tabu no mundo contemporâneo:

"Os tabus, afinal de contas, não passam de coisas remanescentes, de produtos de mentes enfermas, poder-se-ia dizer, de gente pusilânime que não teve a coragem de viver e que, em nome da moralidade e da religião, nos impôs tais coisas. (...) A religião em vigor, entre gente civilizada, é sempre falsa e hipócrita, exatamente o oposto daquilo que os iniciadores de qualquer religião pretendiam."

("Escritores em Ação", pags. 195 e 196 - Ed. Paz e Terra )

Este é um autor com o qual eu tenho nenhuma familiaridade (devo confessar que nunca ouvi falar de nenhum de seus livros...) mas o qual me chamou a atenção a partir da oportunidade que tive de ler uma entrevista sua. Achei particularmente interessante a  concepção que ele tem sobre o ato de escrever muito atrelado ao inconsciente e ao instinto enquanto fios condutores, numa proximidade com ideias surrealistas, de forma que é, por assim dizer, muito mais através da mente livre e na ausência de esforços cognitivos se que cria. Claro que sempre podemos discutir o quanto de fato é possível produzir algo dessa maneira, distanciados tanto quanto possivel da técnica e do raciocínio, mas de qualquer forma acho que essa mentalidade acabou sendo revigorante para as artes em geral.

Outro ponto que me chamou a presença da obscenidade enquanto característica presente tanto no "ritmo" de sua obra, quanto como uma "técnica de choque". Ou seja, algo espontâneo e intrínseco ao autor e ao mesmo tempo uma maneira deliberada de causar impressões no leitor. Imagino que isso deve ter causado polêmica na primeira metade do século XX. Me soa bela a ideia da obscenidade como purificação e como instrumento para se dizer aquilo que se quer dizer, liberto de amarras.

P.S.: O livro que contém essa entrevista me caiu às mãos bem por acaso e a sua leitura tem sido extremamente agradável e informativa.  É muito legal ler autores como Huxley e Hemingway contando sobre suas trajetórias, seus métodos de trabalho, suas referências e as opiniões sobre outros escritores. Os dois citados, mais Henry Miller são os que eu li até agora, mas estou com grande expectativa para saber o que Ezra Pound, T.S. Elliot, Willian Faulkner, Truman Capote, entre outros têm a me dizer...

sexta-feira, 12 de julho de 2013

canção de quase-amor

para ouvir clique aqui

vem aqui pra fora
que o céu está cinzento
e há tanto a se conversar

vem, mas não demora
que o dia logo acaba
desfaz-se o encantamento antes de começar

e se eu cair num poço fundo
de abraços quentes e velozes
ando em círculos desejando ser melhor ator
volto pra casa assoviando uma canção de quase-amor

vem, vamos embora
os prédios vão dançando
me ofereça a tua boca pra me consolar

eu sei que não é hora
de confessar meus devaneios
mas confundo gostar tanto com quase amar

e te ofereço a eternidade
meio ingênuo, meio fraude
viro água, pego fogo, colho a flor
te inundo, te incendeio, te mostro a dor
escancarada num sussurro,
que afaga teu ouvido
devora tua alma, transforma-se em vício
numa declaração de quase-amor