quarta-feira, 1 de fevereiro de 2012

Terras das Oportunidades parte 2 - Manderlay

manderlay segue a proposta estética de dogville em sua quase ausência de cenário (lembrando muito nesse ponto uma peça teatral) e segue a história do anterior basicamente de onde ela parou. ainda estão presentes a mesma maneira de divisão do filme por capítulos e um narrador irônico que acompanha todo o desenrolar da história. um ponto negativo para mim foi mudança da atriz da personagem .
dessa vez o tema do qual se parte é mais específico (a escravidão nos EUA) e talvez por isso mesmo menos impactante inicialmente, apesar de podermos expandir seus resultados e nos surpreender com eles.
após sair de dogville, grace se depara com uma fazenda na qual a escravidão dos negros ainda perdura, 70 anos após sua abolição. ela se indigna com aquilo e, com a morte da senhora dona dos escravos ela os declara livres. receando que não soubessem o que fazer com aquela liberdade recém conquistada e convicta de que poderia fazer algo por eles, ela acaba decidindo ficar no lugar para ensiná-los a se auto-organizarem e cultivarem sua liberdade como algo positivo.
claro que nem tudo sai como ela planeja, uma série de problemas surgem na comunidade quando a relação senhor e escravo é rompida. o que nos leva a pensar que, por mais que eles estivessem numa condição anteriormente de sujeição, ainda assim havia uma lógica social em funcionamento, uma acomodação na qual ambos os lados estavam inseridos. podemos perceber de maneira clara o quanto uma relação de dominação, a partir da interiorização do status quo, pode ser dupla, desejada por ambos. E não só desejada, já que ela só pode se manter através da aceitação geral. grace só percebe isso após muito tempo, o que nos sugere a ingenuidade ou ineficiência de sua ideia de liberdade a qualquer preço, antes da emancipação do pensamento.
podemos expandir as conclusões que o tema traz e refletir justamente sobre como funcionam a dinâmica entre dominantes e dominados em qualquer relação social (seja entre classes inteiras ou entre indivíduos). a partir do momento em que o mundo como nós o conhecemos faz todo sentido e molda profundamente a identidade dos seres humanos e a maneira como devem se relacionar, fica extremamente difícil sair daquela condição. e isso é que grace e nós descobrimos de maneira amarga no decorrer do filme. a escravidão é desejável para aquelas pessoas na medida em que tal condição os insere no mundo a partir de uma ideologia já conhecida e tornada legítima. é o oprimido que muitas vezes que ratifica e cristaliza sua condição. quase como que dizendo que a vida é mais fácil de ser vivida daquela maneira (acho até que falam algo de ser mais fácil viver culpando os outros pelo mal do que a si mesmo). e perder a senhora a quem deviam obediência os desnorteia e os faz desejarem tentar recuperar a situação perdida. tanto é que eles acabam usando a assembléia e votação (instrumentos democráticos que grace se esforça para introduzir na comunidade) para escolherem quem seria sua nova senhora, responsável para manter a lei conforme sempre foi.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Terra das Oportunidades parte 1 - Dogville

pude ver no último final de semana dois ótimos filmes do polêmico diretor lars von trier: dogville (2003, que eu já tinha visto uns dois anos atrás) e manderlay (2005). ambos surgiram inicialmente como parte de uma trilogia que tem como tema central os EUA (USA: Lands of Opportunities), apesar da terceira parte (Wasignton) nunca ter sido lançada.
sou fã do diretor, principalmente pelo seu tom provocativo, apesar dos filmes deles me causarem um certo mal-estar indefinido. acho que têm em comum (pelo menos os que eu vi) um pessimismo intrínseco, uma perversão e crueldade do ser humano, por mais indefinível que isso possa parecer.

no caso específico desses dois filmes, o grande diferencial está no fato de eles praticamente não terem cenário, se resumindo a linhas marcadas no chão e alguns poucos móveis. não sei dizer ao certo qual a intenção do diretor (e nem se há de fato uma intenção clara), só sei dizer que pra mim essa peculiaridade soa como uma tentativa raio-x, que foca os personagens em seu íntimo e em suas relações, em detrimento de todo o resto, que poderia ser interpretado como superficial; uma desmontagem daquilo que não importa, quase que desnudando os indivíduos ali presentes e narrativa da qual fazem parte.

no primeiro filme, a história gira em torno dos "amáveis cidadãos" de um pobre e pacato vilarejo perdido no meio-oeste americano, que ao serem surpreendidos com uma fugitiva em seus domínios precisam escolher se arriscam e lhe dão abrigo ou se a entregam para os gângsters que estavam em sua busca. a princípio, Grace, a moça fugitiva é aceita e tem duas semanas para se integrar à comunidade e convencer os cidadão de dogville de que seria bem vinda ali e para tanto ela passa a se oferecer para ajudar os outros habitantes. o que inicialmente parece uma boa estratégia se torna a sua perdição. é através desse estado de servidão e complacência que dogville começa a mostrar suas presas. ela se torna escrava de sua situação, passa a ser ameaçada e acaba se sujeitando as mais humilhantes situações. mesmo assim, a garota acaba justificando o comportamento dos cidadãos, culpando as circunstâncias em que vivem. claro que há uma grande reviravolta em sua maneira de ver as coisas, depois de uma espetacular conversa com seu pai e, depois de uma profunda crise moral ela chega a conclusão de que o mundo seria um lugar melhor sem a existência de dogville.

se sobressai e choca acompanharmos a ideia de que bastou a oportunidade para que aqueles bons indivíduos mostrassem seu lado sombrio e perverso, escravizando a garota, destituindo-a de sua humanidade, de maneira que ela passou a ser tratada como um objeto ou animal, útil às suas necessidades e só. sempre amparados por argumentos hipócritas e cínicos os habitantes de dogville "absorvem" aquele ser forasteiro de maneira mesquinha e egoísta.

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

sobre as pobres mulheres ricas

não que esse seja um assunto relevante, por isso pretendo ser breve. é que ontem eu assisti por uns 10 minutos o "polêmico" "mulheres ricas. """"reality show""" que mostra o dia-a-dia de algumas mulheres cheias de dinheiro. bom, pelo menos é o que deveria mostrar, mas pra mim pareceu algo muito forçado, encenado (espero que seja mesmo, se aquelas senhoras forem na vida real exatamente como demonstraram ser no programa a coisa deve ser mais preocupante do que eu imaginava).
diferente de uma grande parcela dos pobres e remediados, nunca fui deslumbrado com essa coisa de dinheiro, muito menos de fazer parte da alta sociedade e compatilhar de seu estilo de vida refinado, depois que eu as vi fiquei com menos vontade ainda... me pareceram mulheres fúteis, sem graças e artificiais. sério, não é despeito de um descamisado. elas estavam comendo num restaurante e eu tive a certeza de que nunca iria querer estar ali dividindo a mesa com elas. achei tudo aquilo muito entediante.
aí o pessoal fica indignado pelo teor do programa. num país com uma das piores distribuições de renda do mundo essas senhoras esbanjando em rede nacional é quase um tapa na cara. sei lá, até concordo, mas confesso que não vi grandes vantagens em ser rico. pior, sem querer ser moralista, percebi que temos muito a melhorar, mais do que simplesmente as condições de vida da população em geral.  qual é a grande vantagem de ser um idiota com um casaco de pele ao invés de um moleton surrado? juro que não percebi.
se o objetivo do programa era mostrar o glamour das endinheiradas acho que eles estão fazendo isso errado...

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Fermentação

Perdi a linha de raciocínio
desconcentrei-me
o vinho tinto marcou seus lábios
me induzindo a uma hipnose

meu poder cognitivo se foi
acho que até mesmo Aristóteles
não entenderia a lógica desses versos
talvez a razão tenha ido fumar um cigarro lá fora

para piorar, as luzes dos automóveis
rompiam o vidro que nos separava da rua
encharcando sua pela branca
evidenciando suas bochechas rosadas de embriaguez

um gole
uma risada roxa
também ri
era o meu argumento

(http://bassbassbass.blogspot.com/2011/07/fermentacao.html)
____________________

"...e de repente o telefone toca
e é você do outro lado me ligando
devolvendo minha insônia, minhas bobagens
Pra me lembrar que eu fui a coisa
Mais brega que pousou na tua sopa.
me perdoa (a vida é doce)"


mais uma vez o gosto amargo das palavras mal digeridas.
na minha "boca fria", no meu "coração gelado"
(que esconde um precípicio e o sentimento do mundo...)
mas disso você não quer saber
 


 

terça-feira, 17 de janeiro de 2012

um pouco sobre cinema em 2011

acho que o ano que passou foi um pouco mais fraco em relação aos lançamentos de filmes, apesar de eu também não poder afirmar isso com muito certeza, já que acabei não vendo muitos que me interessaram (como "melancolia" e "a pele que habito", por exemplo)...
mas se eu tivesse que destacar alguns, sem pensar muito já citaria "cisne negro" e "meia- noite em paris" (sobre os quais já falei aqui e aqui). sem dúvida foram os mais impactantes e cada um a sua maneira são muito cativantes e bonitos...
além desses dois que para mim estão bem acima de todos os outros, acho devo citar, os seguintes filmes:

1) "você vai conhecer o homem dos seus sonhos": ótimo filme sobre as idas e vindas dos relacionamentos, bem à maneira das histórias do woody allen. parte da ideia shakesperiana de que  "a vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, e que não significa nada";
2) "bravura indômita": refilmagem de um clássico western. ótimo filme sobre vingança e obstinação;
3) "x-men: primeira classe": pra mim o melhor filme dos x-men. gostei muito da forma como a história sobre a origem dos grupos de mutantes foi contada, da amizade entre o professor xavier e o magneto à posterior rivalidade que surge, por pensarem diferente;
4) "piratas do caribe 4: navegando em águas misteriosas": apesar de já sentir um pouco desgastada a franquia, pra mim é sempre um bom programa ver o capitão jack sparrow em suas andanças por aí;
5)  "o palhaço", uma bela história sobre uma pessoa simples na busca da sua identidade e do seu lugar no mundo. um palhaço melancólico é sempre uma figura interessante. "Eu faço todo mundo rir, mas quem é que vai me fazer rir?".

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

... e era como se eu me esfacelasse, me decompusesse inteiro ante meus olhos e não pudesse fazer nada. desesperado, tentava reter com as mãos os pedaços de mim que eu sentia apodrecer e cair. tanta gente passava, mas distraídos em tantas outras coisas, não me davam atenção e apesar de eu querer alguma ajuda, não fiz barulho algum, tentei mais despercebido. calmo, silencioso.

mas tive medo, claro, como nunca antes. um medo inominável e ilimitado, pois não é deste mundo nem de outro; é do nada, da ausência completa. se eu me tornasse um amontoado no chão da praça da matriz, se eu deixasse de ser quem eu sou pra me tornar algo inimaginável, algo que nunca ninguém inventou, deu nome, classificou seria pior que a morte (afinal, ao morrermos, ainda assim continuamos sendo, em algum grau o que sempre fomos e continuamos fazendo parte de alguma coisa). o horror era imaginar deixar de ser qualquer coisa que fosse. tornar-me um não-ser.

e essa agonia, me fez clamar por um momento por deus e também pelo diabo. algo que me prendesse ao mundo, à vida como a conhecemos. seja um lado ou outro da moeda. por favor, alguém, não quero o escuro abismal, atemporal que me ronda!

________________

é tudo verdade...

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

sobre como nós temos tendência a sermos uns bostas

sabe o mais foda das pessoas? é que de maneira geral elas se acham muito mais do que realmente são. incrível você transitar por diversos ambientes e perceber que elas se consideram superiores porque são do jeito que são. e dá-lhe estigmas para diminuir o outro e para disseminar seus preconceito e ignorância.

o tempo todo é gente falando mal dos outros, por aquilo que eles gostam de ouvir, ver, fazer, por pensar como pensam ou porque preferem não pensar em nada... aí se reúnem em pequenos grupelhos de masturbação coletiva  que acha o resto do mundo desprezível e idolatram determinados usos e costumes. esse tipo de comportamento é até compreensível em pré-adolescentes, que ainda não sabem muita coisa da vida, mas depois disso se torna irritante... e nem passa pela cabeça dessas pessoas que, pra quem vê de fora elas também podem parecer babacas.

acho que a gente deveria seguir minimamente uma cartilha de "relativização cultural" (ou seja, parar com a porra de querer achar que o centro do sistema solar é no seu umbigo ou no centro da rodinha que você forma com seus amigos super legais), que nos permitisse ver o outro de maneira um pouco mais madura, prestando atenção no fato de que estamos no mesmo barco e as diferenças que constatamos são mais na forma do que na essência.

o começo de tudo seria pensar que "cada um vive a vida à sua maneira". isso não significa que você precisa GOSTAR, nem que você não possa DISCORDAR e DISCUTIR sua ideias sobre os diversos temas com pessoas que estejam DISPOSTAS a isso. mas partir do princípio de que cada um vive a vida do jeito que melhor lhe convém, na medida em cabe só a ela decidir, já significa que há uma maior tolerância e até valorização à diversidade. e isso pra tudo, desde gosto musical até política e religião. no caso do primeiro, por exemplo, eu não gosto de funk, nunca gostei, mas acho que eu gosto menos ainda das pessoas arrogantes que se acham melhores por que não gostam de funk. aí, dá-lhe falar que é música de bandido, de vagabundo, de favelado e blá blá blá. esses podem ser bons critério para VOCÊ não ouvir funk ou pra não querer que seus filhos ouçam, mas não serve pra querer defender a censura ao funk (nem a coisa nenhuma). aí o cara gosta de rock e se acha foda por isso, ou gosta de jazz e se acha mais refinado ou de samba e mais descolado, mas se esquecem que esses estilos já sofreram com marginalização (por coincidência, três estilos musicais que vieram das camadas populares e para os quais as elites torciam o nariz). e no final das contas sempre vai ter um pra falar  "ai credo, você gosta disso!? isso é coisa de retardado/ nerd/ maloqueiro/ mauricinho/ maconheiro/ velho" (a lista é imensa...).

transfira esse exemplo da música para outras questões da vida que você vai ter bem o retrato de como funcionamos. tentamos legitimar o nosso, deslegitimando o do outro, a gente quer que o nosso comportamento (ou aquele que tentamos atingir, muitas vezes sem sucesso) seja o mais legal, em detrimento do dos outros, e estamos sempre com um tomate na mão esperando que alguém fora do nosso padrão surja para tacarmos nele. "aí, ele é isso, ele é aquilo", mas, peraí, será que, aos olhos dos outros (e pelos seus mesmo, se você tiver um pouco de auto-crítica) você também não é "isso" ou "aquilo". será que não somos todos (e cada a sua maneira) seres humanos deploráveis, tentando dar sentido a vidinhas medíocres?

sei lá, acho que pensando assim (dando a cara a tapa) pelo menos podemos ser menos cuzões e mais tolerantes com as diferenças alheias e quem sabe até seres humanos melhores.

______________________________
(acho que é um assunto com uma abordagem semelhante a post passados, mas é que eu continuo sendo parecido com o que eu era antes e certas coisas continuam me irritando...tipo, o que você sabe do outro pra ficar falando dele?)

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

sobre opressores e oprimidos

“Se você não tiver cuidado os jornais vão ensinar a odiar os oprimidos e amar os opressores” é uma frase que as pessoas adoram compartilhar no facebook atualmente. ótimo, também acho que esse é risco real e recorrente. concordo que há mecanismos ideológicos e de controle que legitimam o tal opressor e criminalizam o oprimido que acaba sendo marginalizado e tratado de forma estigmatizada.

mas eu quero falar sobre outra coisa, que me incomoda bastante: o fato de que, de certa forma e em graus variáveis, somos todos opressores e oprimidos ao mesmo tempo. não raro os militantes de certas causas, colocam seu grupo social como vítima da "sociedade injusta e preconceituosa", mas ao mesmo tempo têm comportamentos discriminatórios ou ideias que reduzem o outro.

um cara pode ser discriminado porque é gay, e sem se dar conta, discriminar um outro por ser nordestino, que oprime a sua mulher por questões de gênero. as feministas na sua luta por seus direitos podem por sua vez serem particularmente intolerantes aos evangélicos, que são contra os seguidores de religiões afro-brasileiras. é um círculo que não acaba mais e com inúmeros fios soltos.

historicamente os cristãos foram massacrados em determinadas épocas e lugares e igualmente massacraram em outras épocas e lugares. os comunistas, perseguidos em alguns países foram os perseguidores em outros. os índios, dizimados pelo colonizador europeu tinham, naturalmente, relações belicosas entre si (afinal, eram diversas etnias diferentes) e muitas até ajudaram o "homem branco" em conflitos. e é claro que isso não condena nem absolve ninguém de antemão.

qual é meu objetivo ao constatar isso? acho que simplesmente descaracterizar essa ideia ingênua de bem contra o mal. a vida em sociedade não é feita de vítimas e malfeitores. quer dizer, não de início. exemplo: se você é de esquerda não pode apoiar INCONDICIONALMENTE outras pessoas ou grupos só porque eles também são de esquerda. isso é dar um cheque em branco pra outra pessoa fazer o que quiser tendo como escudo o rótulo de "somos do mesmo grupo". tais rótulos servem A PRINCÍPIO, mas depois podem acabar se tornando um álibi para desmandos de canalhas. qual comunista com um mínimo de discernimento pode apoiar incondicionalmente Stálin? quer dizer, você pode até querer enfatizar pontos positivos, de acordo com o seu viés político, mas nunca o todo.

devemos ter consciência de que todos temos preconceitos e a pré-disposição de discriminar e até oprimir pessoas diferentes (até porque, o que é diferente não raro nos assusta ou vai de encontro aos nosso princípios e valores). a nossa luta, deve ser mais ampla, não pelos direitos desse ou daquele grupo, mas pela dignidade e respeito de toda e qualquer pessoa. você não merece ser respeitado porque é negro, você merece ser respeitado porque é um ser humano. e não digo que isso seja simples, mas mudar o a postura e a proposta individual já é um grande começo.

a gente cresce aprendendo a ver a história como a relação entre coitadinhos e filhos da puta. concordo que muitas vezes esses rótulos caem bem (quem não se indigna ao aprender na escola sobre o genocídio indígena na época da colonização?), mas não vamos por favor reduzir o mundo entre bom e mau, opressores e oprimidos. vale mais saber analisar o contexto e ter em mente de que somos todos seres humanos, carregando potencialmente os mesmo defeitos...

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

todo mundo sempre tem algo de importante a dizer...
às vezes eu grito junto, outras eu me calo.
o fato é que me impressiona essa quantidade enorme de opiniões desencontradas, baseadas em informações incompletas, fatos duvidosos, convicções sisudas e inflexíveis.
as conclusões quase sempre são precipitadas. lê-se o título e já tem-se uma opinião formada sobre o texto todo.
e olha que não estou tirando meu corpo fora. estou disposto a dar a cara a tapa, rever meus pontos de vista e expô-los a (auto)crítica. não porque eles sejam frouxos, mas sim porque não são absolutos.
tenho minha opinião e gosto de tê-la como forma de me posicionar no mundo, como ponto de partida e não de chegada. pensar coisas faz com que eu exista, compartilhá-las num processo duplo de falar e ouvir me torna humano.
acho que deveria ser assim. a política por exemplo, não deveríamos pensá-la de forma tão maniqueísta, entre pares opostos... isso nos torna muito mais vulneráveis a nos deixar levar de maneira ingênua por ideias que não são realmente as nossas. ou pior, justificamos condutas que não aprovamos pelo simples fatos de terem sido postas em práticas por um grupo pelo qual temos simpatia ou que carrega uma mesma bandeira que (julgamos ser) a nossa.
só aceito polarizações radicais no futebol (e ainda assim para fins lúdicos). no mais, acho que há tantas nuances e detalhes escorregadios em qualquer acontecimento que é quase impossível resumir sua opinião num mero "concordo" ou "discordo" e condenar todo o resto à fogueira...

terça-feira, 22 de novembro de 2011

pra não esquecer (excertos)

meu:

LEMBRAR-SE

Escrever é tantas vezes lembrar-se do que nunca existiu. Como conseguirei saber do que nem ao menos sei? assim: como se me lembrasse. Com um esforço de "memória", como se eu nunca tivesse nacido. Nunca nasci, nunca vivi: mas eu me lembro, e a lembrança é em carne viva.

(Clarice Lispector)

dela:

A EXPERIÊNCIA MAIOR

Eu antes tinha querido ser os outros para conhecer o que não era eu. Entendi então que eu já tinha sido os outros e isso era fácil. Minha experiência maior seria ser o outro dos outros: e o outro dos outros era eu.

(Clarice Lispector)


p'ra ela:

QUEM ELA ERA

- (Eu te amo)
   - (É isso então o que sou?)
   - (Você é o amor que eu tenho por você)
   - (Sinto que vou me reconhecer... estou quase me vendo. Falta tão pouco)
   - (Eu te amo)
   - (Ah, agora sim. Estou me vendo. Esta sou eu, então. Que retrato de corpo inteiro)

(Clarice...)