ouça aqui: https://soundcloud.com/carbonoeamoniaco/a-cancao-de-outros-tempos
por que você não passa aqui?
eu tenho um vinho bom
e podemos conversar
sobre tanta coisa
eu sei que você ri de mim
quando eu começo a gaguejar
por não saber o que dizer
e quase nunca sei
você me pede pra contar
o que eu andei fazendo todo esse tempo
ah, eu desvio o olhar
acho que prefere não saber
você me pede pra cantar
as canções de outros tempos
mas eu já não sou o mesmo
e nunca lembro a letra
por que você não fica mais?
eu passo um café
e a gente espera o sol nascer
sentado na varanda
gosto de te ver assim,
sob a luz branca da manhã
emoldurando o seu rosto
enquanto rói as unhas
e me pede pra contar
o que eu andei fazendo todo esse tempo
você percebe num olhar
acho que não preciso te dizer
você me pede pra cantar
as canções de outros tempo
mas eu já não sou o mesmo
e nunca lembro o refrão
que te pedia pra ficar
um pouco mais que a vida inteira
você diz não acreditar no que se diz numa canção
então esqueça os três minutos
que eu te conto o que passou
e a gente inventa o que será
domingo, 15 de março de 2015
terça-feira, 3 de março de 2015
Algumas linhas sobre "Trovões a me atingir"
Demorei um pouco pra ter uma opinião mais consolidada sobre o novo álbum do Jair Naves, "Trovões a Me Atingir". Confesso que numa primeira ouvida não me pareceu lá grande coisa, no máximo uma boa continuidade do anterior. Porém, é o tipo de álbum que não se pega de primeira e segue num crescente. Foi preciso tempo para apreciar os pequenos e inúmeros detalhes que o constroi.
Primeiro de tudo, o trabalho me soou muito coeso e bem acabado. As harmonias e os arranjos estão excelentes, uma combinação bem dilapidada de diversas sonoridades. A ponto de me pegar esperando, por exemplo, o teclado e o backing vocal de "5/4", o trompete e a percussão no final da belíssima "B", o violão delicadamente arranhado e o violoncelo de "Prece Atendida" ou ainda a linha de baixo da parte final de "No Meu Encalço". Enfim, são pequenos grandes momentos que, aliados à já caracterísca intensidade do Jair, me agradaram demais, formando músicas poderosas, na mensagem e no som, sem preciosismos.
As letras continuam com a pungência e a profundidade poética já características. Tratam de temas como desilusão, solidão, relacionamentos, sempre de uma maneira densa e de uma perspectiva pessoal. Desde que o conheci me agradou a maneira como ele mistura tão bem delicadeza e lirismo com uma virulência latente que se insinua em sua voz grave, na métrica "alongada" de versos doloridos. Há urgência e "verdade" no que ele canta. Porém, aqui, perceptivelmente a forma do Jair Naves cantar está mais suave, sua energia está mais dosada e canalizada. Há mais sussurros e menos gritos. Aprofunda essa impresão os muito bem-vindos vocais femininos, inclusive na quarta faixa, "B", em que a Bárbara Eugênia canta.
Devo comentar também que o projeto gráfico do álbum físico está muito bonito, inclusive a capa em que, a despeito do nome do disco, o que atinge o músico são os raios de um dia ensolarado. Haveria aí um jogo intencional entre palavra e imagem?
Sempre me sinto limitado ao tentar comentar sobre música. O fato é que cada acorde me soou relevante, as nove músicas de "Trovões a me atingir" formam um disco agradável, cheio de qualidades e muito maduro, numa instigante evolução em relação ao álbum anterior de um artista que sem dúvida está entre os meus favoritos.
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
Algumas linha sobre "Maus"

Li semana passada "Maus", uma HQ de inspiração biográfica, que conta a história de Vladek Spielgeman, um judeu sobrevivente do holocausto. Fiquei realmente chocado pelos detalhes de sua trajetória e de uma época histórica que, apesar de já retrada à exaustão, sempre me parece assustadoramente inverossímel. Difícil imaginar até que ponto chegou a negação da humanidade de alguns grupos.
O traço é simples, sempre em P&B e sem tantos detalhes, mas os quadros abusando do preto acabam por dar um ar sombrio às cenas, numa ambivalência entre o "infantil" do desenho e o grotesco da história contada. Os personagens são retratados como animais e coube aos judeus serem ratos, enquanto os nazistas são gatos. Um elemento simbólico quase pueril, mas que martelado do início ao fim da história serve pra expor ironicamente ainda mais a posição que os judeus ocupavam naquela absurda relação de dominação. Eram caçados como ratos e exterminados como ratos.
A história em si começa quando o próprio Art Spielgeman, o autor, procura seu pai para que ele conte suas memórias sobre o holocausto, para um projeto de fazer desenhar um história que retratasse a época. Achei legal essa sacada metalinguista, já que, além da narrativa principal, há a todo momento a conversa entre pai e filho, a preocupação com a obra a ser feita e as relações cotidianas de uma vida normal. Serve inclusive como contraponto os momentos da conversa entre eles, entre um reparo na casa e uma caminhada pela rua e os tensos relatos de pessoas se escondendo em buracos sujos ou amontadas em campos de concentração.
Vladek não é nenhuma herói, só um homem com afiado senso de sobrevivência, inteligente e muito sortudo, que, muitas vezes através da barganha e de contatos, consegue superar uma adversidade de cada vez, pacientemente esperando algo melhorar. Ao longo da década de 30 e até o fim da II Guerra, a situação dos judeus na Polônia vai se gradativamente insustentável e o tempo todo vemos pessoas sendo perseguidas, desalojadas, humilhadas, violentadas e lentamente exterminadas. Mais do que isso, o que mais choca é que até a própria humanidade é negada. Matar judeus passa a se tornar uma tarefa burocrática e rotineira. É impressionante a quantidade de pessoas, entre familiares e amigos, que sucumbem ante ao nazismo de muitas formas diferentes e isso só ressalta a sorte e habilidade do protagonista em se manter vivo. Por outro lado, nos dias em que narra sua história, Vladek é o caracterísitco judeu sovina (e até mesmo racista), o que lhe dá ares mais humanos (sem forçar virtudes onde elas não existem) e que também chega a ser engraçado.
Conta positivamente também o comedimento quanto ao sentimentalismo e a dramaticidade. Acabaria sendo piegas e desnecessário abusar desses recursos para contar uma história que por si só já é pesada e de difícil assimilação. Não há tentativas de se emular heroísmo ou mesmo uma vitimização exagerada, assim como os próprios sentimentos (que sem dúvidas estavam muito latentes nas situações vividas) transparecem na medida certa.
A história contada do ponto de vista de pessoas comuns realça muito a insanidade e violência que vigoraram principalmente na Europa naquela época. O antisemitismo já fazia parte da realidade, mas de uma hora pra outra não se é ninguém mais do que um judeu (uma raça de "não-humanos"), e pouco a pouco não se tem mais direito à casa, profissão, família ou mesmo nome e não há muito o que fazer, já que essa violência constante e a negação vivida num dia a dia asfixiante fez ruir muito da capacidade de resistência desses seres humanos. Muitas vezes eu me perguntava o porquê deles não lutarem, sabendo que iam morrer de qualquer forma, mas creio que seja difícil (e o próprio Vladek diz) lutar quando se está esfacelado, com frio, fome, medo e tentando preservar o mínimo de sua própria dignidade.
terça-feira, 13 de janeiro de 2015
Algumas linha sobre "Ida"
e minha primeira incursão numa sala de cinema este ano não poderia ter sido melhor! Ida (2013) é um filme incrivelmente bonito, visualmente delicado e bem construído, numa sucessão por vezes brusca de quadros estáticos e frios. a fato de ter sido filmado em preto e branco e o enquadramento dos personagens na parte inferior da tela (e acima de suas cabeças grandes paredes brancas ou o céu nublado) só reforça a sensação de desconforto e vazio em que se encontram.
o filme se passa na Polônia dos anos 60 e conta a história de Anna, uma orfã crescida num orfanato católico, que às vésperas de se tornar freira fica sabendo que possui uma tia, sua única parente viva e que, por orientação da madre superiora, ela deve ir visitá-la antes de fazer seus votos. nada mais oposto à realidade daquela menina que "nunca tinha estado em lugar nenhum" do que entrar em contato com o modo de vida da tia, que mistura uma melancolia intrínseca à excessos de sexo, bebidas e tabaco. apesar do choque inicial desse encontro e de ser recebida com uma certa frieza, elas acabam se unindo pela frágil reminiscência de um passado em comum e pegando a estrada a fim de tentar descobrir onde os pais de Anna (judeus na época da II guerra) haviam morrido e sido enterrados.
não quero contar mais da história, que acaba não se resumindo à busca pelo passado perdido ou ao encontro dessas duas mulheres tão diferentes entre si. no caminho a relação entre tia e sobrinha se
desenvolve, entre estranhamentos e afetos rotos, mas são mundos que nunca chegam a ser interpenetrar totalmente e que, apesar de ter um entroncamento em comum (a morte da mãe/ irmã de uma forma cruel), acabam permanecendo distanciadas. no fim da viagem, algumas perguntas são respondidas, porém outras continuam em aberto, as quais cada uma delas encara de sua própria maneira.
a trajetória individual de Anna, antes aparentemente inequívoca, já que sem alternativas, é estremecida diante do descortinamento de seu passado e seu crescimento passa a depender também da maneira como ela aprende a lidar com essas novas formas de interação e de pertencimento ao mundo. nesse sentido, achei o desfecho fascinante, quando, após um momento de busca e reavaliação de si, acaba se sentindo pronta para optar por um caminho.
enfim, definitivamente não fui capaz de transpor a essência que tanto me agradou neste filme. vale o registro e a vontade de revê-lo.
quarta-feira, 7 de janeiro de 2015
Um pouco de cinema em 2014
Acho que não vi tantos filmes sensacionais no ano que passou. Talvez tenha tentado arriscar um pouco mais nas escolhas e visto coisas que variam entre ruins, médias e boas (mas esquecíveis).De qualquer forma, os que vêm abaixo são aqueles que acabaram por despertar mais meu interesse, cada um a sua maneira.
O Lobo de Wall Street: Ótimo roteiro e ótima interpretação do Leonardo Di Caprio (de novo), no papel de um sacana que se dá bem no mercado financeiro. O filme é ágil, inteligente e principalmente divertido, contando a história de pessoas alucinadas ganhando muito dinheiro e queimando-o das maneiras mais extravagantes.
O Passado: Já tinha escrito sobre ele antes (leia aqui). É um drama familiar, contado com destreza e sensibilidade, no qual os relacionamentos, passados e presentes, são expostos, revelando um redemoinho de segredos, sentimentos e problemas mal-resolvidos.
Magia ao Luar: Desde 1982, todo ano tem filme novo do W. Allen (sorte minha!). Gostei deste mais do que do Blue Jasmine (2013). Sua ambientação (sul da França da década de 20) é muito bonita e os protagonistas são cativantes. Ainda que tenha perceptivelmente um roteiro menos ambicioso, chegando a repetir alguns temas de filmes anteriores (magia/ misticismo x ceticismo) , é um filme leve e bem divertido.
Relatos Selvagens: Normalmente não gosto tanto de filmes compostos por pequenas histórias fechadas e independentes, mas este sem dúvida briga com O Lobo de Wall Street pelo título de melhor filme do ano. Roteiro genial, com humor negro e violência na medida certa, relatando situações em que pessoas normais simplesmente perdem o controle. Além disso, fiquei impressionado como a narrativa flui bem, sempre criando um impacto. Já tinha escrito sobre ele aqui.
Miss Violence: Seu maior mérito, para mim, é a forma original como trata de temas pessadíssimos como o incesto e a pedofilia e como tais perversidades tomam conta das pessoas ao seu redor. Tem uma narrativa lenta e tom seco e pesado, que acabam por passar uma sensação de repugnância, revelando aos poucos o terror de uma família atormentada.
O Critico: Ótima comédia romântica que brinca com os clichês do gênero. Conta a história de um crítico de cinema ranzinza e fechado, rigoroso em suas críticas sobre os filmes atuais (principalmente quanto às comédias românticas), que, por um "acaso do destino", passa a viver uma típica história de amor. Gostei muito da forma irônica e bem humorada como retratam o "especialista da sétima arte" e os desdobramentos de seu inesperado caso de amor.
sábado, 27 de dezembro de 2014
porque na verdade eu quero continuar errando os mesmo erros. os meus próprios e indispensáveis erros (com a calma de quem vê passar a vida). que eles tomem a minha forma e se confundam comigo mesmo (quem eu seria se não mais os tivesse junto a mim?). quero continuar nadando contra a maré, mesmo sem saber nadar e sem ter pra onde ir... quanto tempo será que eu me debato antes de me afogar? acho que eu pago pra ver...
sim eu me contento (me regojizo) em ser o exército de um homem só, o bloco do eu sozinho. ainda que misturado aos outros e bem comportado. não abro mão de conservar esse pequena e frágil tentativa de (fingir) ser um pouco mais. e não se preocupe, eu ainda vou estar aqui.
e é por saber que não há nenhum lugar pra ir que não me alcance eu mesmo, que vou ficando por aqui. já dizia meu amigo álvaro de campos: "O tédio que chega a constituir nossos ossos encharcou-me o ser", não há como fugir.
não me veja como um conformista, um derrotado. procuro fazer disso a minha força e não me furto nem da necessidade de lutar e nem da dor de não vencer. só não me peça pra ser tão heroico quanto vocês...
terça-feira, 2 de dezembro de 2014
nos versos de neruda
escondido
na página certa
um verso
amarelo do tempo
à espera
da voz ansiosa e líquida
da menina que sente
entre tantos fonemas
o amor do poeta
rouba o verso
e me oferta
e eu sei que o verso é dela,
não de quem o tranca
na dureza da forma
ou na página muda
o verso é de quem ama,
assim como ela ama,
nos versos de neruda.
na página certa
um verso
amarelo do tempo
à espera
da voz ansiosa e líquida
da menina que sente
entre tantos fonemas
o amor do poeta
rouba o verso
e me oferta
e eu sei que o verso é dela,
não de quem o tranca
na dureza da forma
ou na página muda
o verso é de quem ama,
assim como ela ama,
nos versos de neruda.
quinta-feira, 20 de novembro de 2014
Algumas linhas sobre "Relatos Selvagens"
Há tempo que não saia tão empolgado de um cinema. Devo dizer que o filme é exatamente o que o título promete: uma sucessão em alto nível de relatos selvagens.
Impressionou muito por sua originalidade e pela extrema perícia em me conduzir por aquela sucessão de acontecimentos eletrizantes, mantendo-se sempre interessante, com uma pegada dinâmica e recheado de humor negro, violência e ironias. Todas as histórias são muito boas e conseguem manter uma regularidade, prometendo muito desde a primeira, que ocorre antes dos créditos iniciais e termina com chave de ouro com um casamento no qual as coisas dão um pouco errado. Talvez o ponto alto, pelo menos para mim, seja a história do "Bombita".
Basicamente trata de pessoas comuns, que de uma maneira explosiva e não convencional tentam lidar com suas frustrações cotidianas, como um desentendimento de trânsito que perde completamente os limites ou a asfixia causada pela burocrática e ineficiente administração pública que injustamente e de forma reiterada guincha e multa um carro por estar mal estacionado. É ainda e em suma sobre a nossa realidade e nossas frustrações, tendo entre seus ingredientes o passado mal resolvido, o desejo de vingança, a corrupção nas relações humanas, a traição, a violência urbana, compondo situações factíveis e próximas de algo que vivemos ou que no mínimo ouvimos falar, ainda que com desdobramentos absurdos e que, por isso mesmo no causam risos nervosos, descrença e uma oscilação entre a negação e o reforço da forma como aqueles personagens escolheram reagir nas situações em que se encontram, nem sempre sendo bem sucedido. Afinal, entre um rompante de sagacidade ou de burrice há somente uma linha tênue.
segunda-feira, 27 de outubro de 2014
e quando chegou domingo...
...acabei votando na dilma mesmo. um votinho mixuruca, envergonhado. nem olhei pra tela da urna eletrônica.
lembrei das centenas de milhões de reais que a máquina eleitoral da dilma gastou (e que ganhou de grandes empresas), lembrei dos marqueteiros profissionais que tornam a campanha uma grande enganação, dos grandes caciques da política que a apoiam, da falta de diálogo com a sociedade civil e movimentos sociais, lembrei das patinadas da economia e das promessas de campanha não cumpridas e tive que fazer um esforço tremendo pra me convencer da tese do "voto crítico", de que, apesar de tudo há o que se preservar.
é que psdb não dá pra engolir, mesmo. quer dizer, continuo achando que no essencial ambos, entre defeitos e virtudes são mais ou menos parecidos (numa ânsia de captar o numeroso eleitorado do centro). mas conta tambem quem acabou se unindo do "lado de lá". o que esperar de um candidato que é apoiado por silas malafaia e bolsonaros (pai e filhos)? o queridinho dos mercados ("ganhamos com a dilma, mas preferimos ganhar com o aécio"), do agronegócio, dos milicos, da bancada religiosa... enfim, a lista é grande. fora que, o próprio eleitorado tucano mais "combativo" é formado em grande parte por pessoas intolerantes e elitistas, que de maneira pouco disfarçada usam seu preconceito como plataforma política e seu ódio ao populacho como princípio moralizador do governo. por fim, se um candidato é defendido com unhas e dentes pela veja é sinal de que NÃO devo votar nele.
dito isso, segue o barco, mais ou menos na mesma toada. o pt ganhou uma chance de ouro por muito pouco e terá que ter habilidade para aproveitá-la (até porque a oposição saiu fortalecida). apesar de me manter desconfiadamente na oposição, espero que o segundo mandato da dilma ganhe impulso. que consiga se dinamizar e dialogar com as diversas forças da sociedade, que viabilize as tão necessárias reformas institucionais e, se não for pedir demais que dê um salto de qualidade nos serviços públicos (saúde e educação, principalmente). sei que vai ser complicado, mas menos que isso não dá pra esperar.
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
Meus centavos sobre o dilema do segunto turno
diante das duas opções que temos no segundo turno das eleições a presidente, não é difícil se sentir desamparado e sem muita escolha.
no meu caso, em hipótese nenhuma votaria no candidato do psdb, pela sua biografia, por oposição a algumas de suas propostas, pelo histórico de seu partido e por quem está ao seu lado (se o Malafaia e o Bolsonaro estão lá é sinal de que eu não estou...). questão de posicionamento ideológico mesmo.
por outro lado, me vejo profundamente desiludido e cético em relação à continuidade do petismo. não nego suas qualidades e também reconheço o quanto que a grande mídia bate sem dó no atual governo (e incita uma raiva quase irracional de uma parte da população). acontece que não dá pra fechar os olhos para todos os problemas que vem bater à sua porta: a infeliz flexibilização programática, o abandono de bandeiras históricas, as alianças escusas com antigos inimigos e principalmente a tolerância com a corrupção. pra piorar, em alguns pontos ambos os lados têm comportamentos muito parecidos e detestáveis, se articulando através do financiamento vultoso de grandes empresas, projetos de marketing agressivos e manipuladores e muita sede de poder.
outro ponto que irrita é o fanatismo dos dois lado da disputa. analistas políticos de facebook demonizam o candidato adversário com uma ignorância e virulência de fazer corar qualquer pessoa mais sensata. no anseio de justificar seu posicionamento tornam a política uma briga de feira sem sentido.
dito isso, considero fortemente a opção de se votar nulo. discordo categoricamente de quem diz que essa é uma solução que "renega a democracia" ou de quem "não quer se dar ao trabalho de participar do processo democrático". pelo contrário, acredito que, na medida em que o voto nulo ou em branco são opções próprias do nosso sistema eleitoral, é natural que uma porcentagem dos eleitores optem por elas. ao se votar nulo/ branco se manifesta uma vontade política democrática, passa-se uma mensagem tanto quanto quem vota neste ou naquele candidato. contra aqueles que dizem que "um dos dois vai acabar ganhando", digo, deixe que ganhem. é próprio do sistema que isso aconteça. porém, há momentos em que não se pode simplesmente fazer concessões e um voto "em cima do muro" ou que "lave as mãos" acaba sendo mais representativo da nossa vontade individual e essa é a essência da coisa.
confesso que dada o atual cenário, ainda não estou certo de que votarei nulo, afinal também não descarto a validade de um voto crítico, relacional e de oposição. porém, não gosto do tom alarmista que se emprega para tentar convencer alguém a
votar neste(a) candidato(a) ou senão uma coisa muito grave vai acontecer caso o(a)
outro(a) seja eleito(a). nem sempre o "inimigo do meu inimigo é meu amigo". às vezes precisamos mesmo é nos desvencilhar dos dois.
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