sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

"o pensamento não é neutro; ou ele é confirmação do estado das coisas, ou é crítico e transformador das subjetividades na direção de um pensamento lúcido entrelaçado a práticas lúcidas em tempos obscurantistas"

(TIBURI, Márcia. "Como Conversar Com Um Facista", Ed. Record)

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partindo do princípio, muito claro para mim, de que o pensamento não é neutro (pensar em algo é não pensar em todas as outras coisas, é estabelecer uma ordem para as ideias e para o mundo), podemos utilizar nossa capacidade cognitiva e reflexiva para transformar ou simplesmente reforçar o status quo. podemos ser meros replicadores do passado estabelecido ou propor e considerar novas posturas frente a eternas questões. 

porém, considerar-se questionador ou somente opor-se ao estado das coisas não basta. a crítica por si só é limitada em sua capacidade de transformar e induzir o processo dialético. tanto quanto possível, há que se buscar, enquanto sujeito, a lucidez teórica e prática como forma de combater o obscurantismo que sempre ronda muito perto todas as nossas formas de pensamento.

por que eu estou dizendo isso? não sei exatamente. um pouco talvez pelo desalento que me causa ver a vontade e a ação transformadora se deixarem seduzir tão facilmente pelo atalho das ideias pré-concebidas. me pergunto (e já sei a resposta) até que ponto é válido supor-se crítico quando o que se faz, na verdade, é substituir um pensamento obscurantista por outro, com a aparência um pouco mais moderninha...

acho que é isso. que venha 2016...

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Dacnomania

vem cá, te explico
cada dente é um argumento,
torto e dolorido,
que tua pele escuta atenta.
incisivo, te convenço
canino, te convido

conto, na mordida,
da fome por tua vida
te faço presa, rio,
num blefe, te desafio
no jogo que não venço
com regras que não sigo

mastigo o teu disfarce
por esporte e por instinto
cuspo o teu discurso
de metal enferrujado
só me interessa o frágil frêmito
da razão abocanhada





quarta-feira, 12 de agosto de 2015

sobre os incovenientes da linguagem...

"Não sei o que estou dizendo, tudo se suja quando digo..."

(Júlio Cortázar)
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(e se eu continuasse, sujaria ainda mais e mais)

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Algumas linhas sobre "O Último Poema do Rinoceronte"


Esteticamente lindo e envolvente, "o último poema do rinoceronte" baseia-se na vida do poeta curdo-iraniano Sadegh Kamangar que, quando da Revolução Iraniana de 1979 (que implicou na derrubada do xá e na tomada de poder pelo aitolá Khomeini) foi injustamente preso, acusado de escrever poemas de cunho político e condenado a longos anos de cárcere, tendo sido inclusive declarado morto para sua família. 

O foco da história é Sadegh Kamangar já liberto, 30 anos depois, quando vai em busca de sua esposa e descobre que ela se casou novamente e saiu do país, indo para Turquia. Os acontecimentos do passado e seus desdobramentos vão sendo revelados pouco a pouco, através de suas lembranças, que se alternam com o tempo presente. Além disso, o filme conta com construções visuais belíssimas que retratam cenários vazios e cores esmaecidas, que transbordam a poesia de Kamangar para a tela.

É um filme essencialmente triste. O próprio protagonista parece carregar em seu rosto as marcas e o peso do passado dos quais ele não parece ser capaz de se livrar. Não há salvação possível e a própria felicidade se coloca como algo que ficou distante, perdido no passado.

Já tinha tido algum contato com esse contexto histórico (da Revolução Iraniana) com a HQ e o filme de "Persépolis", então achei ainda mais interessante o tema, principalmente pela delicadeza com que são abordados os dramas pessoais que surgem a partir de acontecimentos políticos. É aterrador pensar em quantas vidas são destroçadas por conta de diferenças ideológicas e lutas pelos poder.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Uma coisa sobre Victor Hugo

"Pensar no prolongamento das coisas defuntas e no governo dos homens por embalsamamento, restaurar os dogmas em mau estado, tornar a dourar a caixa de relíquias, renovar os claustros, tornar a benzer relicários, reviver as superstições, reabastecer o fanatismo, colocar novos cabos nos sabres e nos aspersórios, reconstituir o monaquismo e o militarismo, crer na salvação da sociedade pela multiplicação dos parasitas, impor o passado ao presente, tudo isso parece estranho. No entanto, há teóricos para essas teorias. Esses teóricos, aliás pessoas de espírito, têm um procedimento bem simples, aplicam ao passado um reboco a que dão o nome de ordem social, direito divino, moral, família, respeito pelos antepassados, autoridade antiga, tradição santa, legitimidade, religião; e vão gritando: 'Vejam! Tomem isso, homens de bem!'. Essa lógica também era conhecida dos antigos. Cobriam de cal uma novilha preta, e diziam: "É branca"."

(HUGO, Victor; Os Miseráveis, p. 557)
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Impressionante como Victor Hugo escreveu essas linhas há mais de 150 anos e se encaixam PERFEITAMENTE na nossa realidade! Em pleno ano de 2015 (não que isso faça muita diferença) vemos crescer de maneira generalizada os brados acalorados pelo militarismo e, se não pelo monaquismo (vida em retiro, totalmente consagrada a Deus no silêncio, na penitência e no trabalho), pelo menos por algum tipo muito peculiar e ferrenho de "religiosidade" que tem na bancada evangélica do congresso nacional a sua mais alta e perigosa representação. Há uma tentativa recorrente e cada vez mais forte de se "impor o passado ao presente". Temos lido sobre isso quase todos os dias nas páginas que cobrem a política e o comportamente e não há nenhuma previsão de melhora.
Ainda mais certeira é a maneira como Victor Hugo analisa o procedimento desses "teóricos", que aplicam ao passado um reboco a que chamam de ORDEM SOCIAL, MORAL, FAMÍLIA, DIREITO DIVINO, exatamente como é feito hoje em dia. Depois vendem esse passado para o indignado "homem de bem", que sedento por "tornar a dourar a caixa de relíquias", atribui os males do mundo ao distanciamento de valores que se perderam. Defendem que "bom era antigamente" e clamam por mais moral, por mais família, por mais direito divino. Pegue qualquer um desses assuntos relevantes e polêmicos da atualidade (homofobia, aborto, tolerância religiosa, maioridade penal, descriminalização das drogas...) e constate que eles estão, afinal, pautados pelos "teóricos das coisas defuntas" através das ideologias citadas acima e de um tempo pra cá isso tem se tornado ainda mais perceptível e preocupante.


quarta-feira, 17 de junho de 2015

Sozinhos somos...

Com tanta delicadeza
Reordena minhas ideias
Muda a ordem dos capítulos
Me relê de trás pra frente

Traz sentido para as partes em que nem eu me entendo
Traz leveza para as tardes em que nem eu me suporto, não.

Há um risco inerente
Nesses corpos que se chocam
Mas você tira de letra
E corrige a minha rota

Talvez eu me perca no argumento
Ou descubra o infinito

Num rascunho inacabado de uma noite de novembro
Na obra definitiva que ainda não escrevemos, não, não...

Deixa o sim sair, assim, sereno.
O céu é seu, é o sol surgindo
Sei não há saudade que resista
Sozinhos somos a multidão

Tem aqui.
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Porque "trás pra frente" pode acabar sendo a ordem certa.
E entre o rascunho e a obra definitiva a gente vai perdendo os argumentos e descubrindo o infinito...

sábado, 13 de junho de 2015

Uma coisa sobre Arthur Schopenhauer

"Ele [Schopenhauer] entendeu que se pudermos reconhecer que nossa separação do universo é essencialmente uma ilusão (porque as vontade individuais e a Vontade do universo são uma única coisa) podemos descobrir uma empatia com o mundo e tudo o mais, e a bondade moral pode surgir de uma compaixão universal."

(O Livro da Filosofia)
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às vezes me perguntam no que eu acredito, metafisicamente falando. penso bastante sobre o assunto, mas acho que acredito mesmo em muito pouca coisa. não consigo deixar de perceber, aqui e ali, a limitação e a fragilidade dos grandes sistemas cosmológicos, o absurdo das explicações do universo e das revelações religiosas. principalmente não acredito nos homens que as professam.

mas se tem um raciocínio que me é particularmente instigante é o de Schopenhauer, acima. a ideia de que cada um de nós, enquanto indivíduos, estamos essencial e irreversivelmente ligados uns aos outros, e mais, ligados ao universo como um todo, me parece fazer bastante sentido. estamos todos no mesmo barco, não temos pra onde fugir, carregamos entre nós muito mais identidades do que diferenças. enquanto espécie, compartilhamos os mesmos vícios e virtudes em potencial e funcionamos de um jeito muito parecidos, através da vontade, diria Schopenhauer, essa força indefinida presente em tudo e que leva o homem a desejar e a buscar sempre mais.

o que são todas as tragédias humanas, lutas, guerras, injustiças, opressões, sofrimento, que não, de uma forma ou de outra a intolerância, a negação do outro e a busca quase irrefreável por algo mais? acreditamos que somos diferentes, que estamos mais certos/ mais iluminados/ mais escolhidos por deus e que devemos fazer valer essa diferença, nos auto afirmar e nos impor sobre o outro, exercer domínio, quando na verdade o que temos é uma origem, um destino e um fim basicamente comuns.

não que eu compre tais ideias necessariamente como Verdade absoluta, acho que se simplifica em alguns pontos e acaba beirando ao misticismo. Também não nego a condição propriamente conflituosa das relações humanas, mas acho, sim, que é essa uma interpretação muito menos belicosa e destrutiva, ainda que utópica, de nos esforçarmos para criar pontos de tolerância, empatia e identificação com o outro (seja seu vizinho, seja o País no outro lado do mundo) e que de alguma forma arrefeçam (ou escancarem quão ridícula e vazia é) essa gana humana pelo exercício de supremacia e dominação.


terça-feira, 19 de maio de 2015

Woody Allen, a falta de sentido da vida e uma música da década passada...

Estava lendo sobre o novo filme do Woody Allen, que estreou no festival de Cannes semana passada (Irrational Man) e numa de suas respostas me deparei com um pensamento que, apesar de bastante recorrente em sua obra, me pegou mais uma vez:
"Como artista, você tem que passar ao público a ideia de que a vida tem um sentido. Mas você está trapaceando, porque não tem nenhum sentido. Qualquer coisa que você criar vai desaparecer, assim como o Sol, a Terra, Shakespeare, os Beatles. Tudo o que você pode fazer na vida é se distrair e ter alguns bons momentos, se manter ocupado. É o que farei até o dia em que eu for velho... Num futuro muito distante" (W. Allen) 
É isso! A arte com um refúgio, um argumento, ainda que fugidio e limitado, para a vida. A possibilidade de criar sentido, de encantar o mundo, de fazer rir e chorar... ainda que se saiba que de forma temporária, frágil e sem nos levar a lugar algum. Afinal, não há lugar aonde ir, o nosso lugar é aqui mesmo.

Confesso que, particularmente, sou partidário dessa forma de ver as coisas. Não creio que o universo enquanto tal possua um sentido em si, absoluto. Não há pote de ouro no fim do arco-íris. Em breve tudo irá desaparecer. Não importa quão grandioso ou aparentemente definitivo, irá desmoronar... Outros gigantes já viraram pó antes e nós mesmos estamos fadados ao esquecimento. Seremos sucedidos por outros e outros, num ciclo a perder de vista. 

Mas veja, essa não é exatamente uma negação da vida e só a princípio soa pessimista. Pelo contrário, se soubermos conviver com isso, ao nos livrarmos do peso excessivo da continuidade, da linearidade, do definitivo, podemos ser mais livres para criar e recriar, para sermos nós mesmos. Não somos (enquanto civilização ou indivíduos) o centro do universo, muito pelo contrário. Ainda bem! 

Nesse sentido, o niilismo pode ser um belo ponto de partida para a leveza, o bom humor e a capacidade de "entendimento". A partir do momento em que não podemos fugir da nosso própria insignificância, temos que nos valer dela própria para nos situarmos no mundo. Pintar, escrever, atuar (ou tomar uma cerveja no bar com um amigo) acabam se tornando tarefas mais humanas, expressões ao mesmo tempo limitadas e poderosas da nossa existência e de como compartilhamos isso uns com os outros, enquanto é tempo.

Talvez tenha ficado abstrato demais, pretensioso. Só queria mesmo dizer que essa referida falta de sentido da vida pode ser libertadora, divertida e um tanto quanto mais honesta intelectualmente. 

Quando li a declaração, me lembrei imediatamente de "Suportar", a sexta música do disco "Sublime Mundo Crânio" do Lasciva Lula, banda que, se não me engano, já não existe mais, mas que, com pouquíssimas palavras também consegue tratar do caráter incerto e fugaz da vida:

"suportar
 ocupar o tempo 
 suportar 
 ocupar o tempo 
 como estepe, manter 
 talvez tentar ser feliz  
 nada mais."

Sei que acaba por adquirir um teor um pouco desiludido, mas gosto da maneira crua e sem subterfúgios com que se enfrenta a questão: é suportar, ocupar o tempo e talvez tentar ser feliz. Acho que esses pontos, por si só, já nos mantêm suficientemente ocupados na nossa busca por "viver". E é isso que me faz imensamente grato pelo Sr. Woody Allen continuar lançando anualmente ótimos filmes, de forma ajudar a ocupar meu tempo da melhor maneira que posso imaginar. Até quando formos bem velhinhos.
Nada mais...




segunda-feira, 27 de abril de 2015