quinta-feira, 21 de abril de 2016

"- Não se preocupe - me disse - É assim que deve ser. Os que fazem da objetividade uma religião mentem. Eles não querem ser objetivos, mentira: querem ser objetos, para salvar-se da dor humana."

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Ainda Galeano, que página a página bate e abraça mais.


sábado, 19 de março de 2016

d'Os Abraços

- "(...) talvez a gente seja as palavras que contam o que a gente é".

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 "Os poetas andavam em busca de palavras que não conheciam, e também buscavam palavras que conheciam e tinha perdido".

(o apego à palavra exata. o peso de não encontrá-la...)

quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

o apego à palavra exata
o peso de não encontrá-la
(dois versos se foram e ainda estou longe...)
queria tanto...

a falta que faz
o que não se escreve
mês passado éramos jovens
havia tinta pra tudo

arrisco, mas não.
leio carlos, releio manoel
vejo notícia antiga e foto velha...
busco o dicionário,
morro na página 3

a máquina gira o mundo
eu não digo,
mas quero ser feliz

me escapa a ironia
escondida no desastre
de ser humano e crer

meio poema deixado em aberto
metalinguagem criando ferrugem
éramos jovens ontem à tarde
mas não... (queria tanto)

não fingirei que fui capaz
de encontrar.
nenhum verso me ampara,
o dia se arrasta
arrastado fluo também

sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

"o pensamento não é neutro; ou ele é confirmação do estado das coisas, ou é crítico e transformador das subjetividades na direção de um pensamento lúcido entrelaçado a práticas lúcidas em tempos obscurantistas"

(TIBURI, Márcia. "Como Conversar Com Um Facista", Ed. Record)

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partindo do princípio, muito claro para mim, de que o pensamento não é neutro (pensar em algo é não pensar em todas as outras coisas, é estabelecer uma ordem para as ideias e para o mundo), podemos utilizar nossa capacidade cognitiva e reflexiva para transformar ou simplesmente reforçar o status quo. podemos ser meros replicadores do passado estabelecido ou propor e considerar novas posturas frente a eternas questões. 

porém, considerar-se questionador ou somente opor-se ao estado das coisas não basta. a crítica por si só é limitada em sua capacidade de transformar e induzir o processo dialético. tanto quanto possível, há que se buscar, enquanto sujeito, a lucidez teórica e prática como forma de combater o obscurantismo que sempre ronda muito perto todas as nossas formas de pensamento.

por que eu estou dizendo isso? não sei exatamente. um pouco talvez pelo desalento que me causa ver a vontade e a ação transformadora se deixarem seduzir tão facilmente pelo atalho das ideias pré-concebidas. me pergunto (e já sei a resposta) até que ponto é válido supor-se crítico quando o que se faz, na verdade, é substituir um pensamento obscurantista por outro, com a aparência um pouco mais moderninha...

acho que é isso. que venha 2016...

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

Dacnomania

vem cá, te explico
cada dente é um argumento,
torto e dolorido,
que tua pele escuta atenta.
incisivo, te convenço
canino, te convido

conto, na mordida,
da fome por tua vida
te faço presa, rio,
num blefe, te desafio
no jogo que não venço
com regras que não sigo

mastigo o teu disfarce
por esporte e por instinto
cuspo o teu discurso
de metal enferrujado
só me interessa o frágil frêmito
da razão abocanhada





quarta-feira, 12 de agosto de 2015

sobre os incovenientes da linguagem...

"Não sei o que estou dizendo, tudo se suja quando digo..."

(Júlio Cortázar)
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(e se eu continuasse, sujaria ainda mais e mais)

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Algumas linhas sobre "O Último Poema do Rinoceronte"


Esteticamente lindo e envolvente, "o último poema do rinoceronte" baseia-se na vida do poeta curdo-iraniano Sadegh Kamangar que, quando da Revolução Iraniana de 1979 (que implicou na derrubada do xá e na tomada de poder pelo aitolá Khomeini) foi injustamente preso, acusado de escrever poemas de cunho político e condenado a longos anos de cárcere, tendo sido inclusive declarado morto para sua família. 

O foco da história é Sadegh Kamangar já liberto, 30 anos depois, quando vai em busca de sua esposa e descobre que ela se casou novamente e saiu do país, indo para Turquia. Os acontecimentos do passado e seus desdobramentos vão sendo revelados pouco a pouco, através de suas lembranças, que se alternam com o tempo presente. Além disso, o filme conta com construções visuais belíssimas que retratam cenários vazios e cores esmaecidas, que transbordam a poesia de Kamangar para a tela.

É um filme essencialmente triste. O próprio protagonista parece carregar em seu rosto as marcas e o peso do passado dos quais ele não parece ser capaz de se livrar. Não há salvação possível e a própria felicidade se coloca como algo que ficou distante, perdido no passado.

Já tinha tido algum contato com esse contexto histórico (da Revolução Iraniana) com a HQ e o filme de "Persépolis", então achei ainda mais interessante o tema, principalmente pela delicadeza com que são abordados os dramas pessoais que surgem a partir de acontecimentos políticos. É aterrador pensar em quantas vidas são destroçadas por conta de diferenças ideológicas e lutas pelos poder.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Uma coisa sobre Victor Hugo

"Pensar no prolongamento das coisas defuntas e no governo dos homens por embalsamamento, restaurar os dogmas em mau estado, tornar a dourar a caixa de relíquias, renovar os claustros, tornar a benzer relicários, reviver as superstições, reabastecer o fanatismo, colocar novos cabos nos sabres e nos aspersórios, reconstituir o monaquismo e o militarismo, crer na salvação da sociedade pela multiplicação dos parasitas, impor o passado ao presente, tudo isso parece estranho. No entanto, há teóricos para essas teorias. Esses teóricos, aliás pessoas de espírito, têm um procedimento bem simples, aplicam ao passado um reboco a que dão o nome de ordem social, direito divino, moral, família, respeito pelos antepassados, autoridade antiga, tradição santa, legitimidade, religião; e vão gritando: 'Vejam! Tomem isso, homens de bem!'. Essa lógica também era conhecida dos antigos. Cobriam de cal uma novilha preta, e diziam: "É branca"."

(HUGO, Victor; Os Miseráveis, p. 557)
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Impressionante como Victor Hugo escreveu essas linhas há mais de 150 anos e se encaixam PERFEITAMENTE na nossa realidade! Em pleno ano de 2015 (não que isso faça muita diferença) vemos crescer de maneira generalizada os brados acalorados pelo militarismo e, se não pelo monaquismo (vida em retiro, totalmente consagrada a Deus no silêncio, na penitência e no trabalho), pelo menos por algum tipo muito peculiar e ferrenho de "religiosidade" que tem na bancada evangélica do congresso nacional a sua mais alta e perigosa representação. Há uma tentativa recorrente e cada vez mais forte de se "impor o passado ao presente". Temos lido sobre isso quase todos os dias nas páginas que cobrem a política e o comportamente e não há nenhuma previsão de melhora.
Ainda mais certeira é a maneira como Victor Hugo analisa o procedimento desses "teóricos", que aplicam ao passado um reboco a que chamam de ORDEM SOCIAL, MORAL, FAMÍLIA, DIREITO DIVINO, exatamente como é feito hoje em dia. Depois vendem esse passado para o indignado "homem de bem", que sedento por "tornar a dourar a caixa de relíquias", atribui os males do mundo ao distanciamento de valores que se perderam. Defendem que "bom era antigamente" e clamam por mais moral, por mais família, por mais direito divino. Pegue qualquer um desses assuntos relevantes e polêmicos da atualidade (homofobia, aborto, tolerância religiosa, maioridade penal, descriminalização das drogas...) e constate que eles estão, afinal, pautados pelos "teóricos das coisas defuntas" através das ideologias citadas acima e de um tempo pra cá isso tem se tornado ainda mais perceptível e preocupante.


quarta-feira, 17 de junho de 2015

Sozinhos somos...

Com tanta delicadeza
Reordena minhas ideias
Muda a ordem dos capítulos
Me relê de trás pra frente

Traz sentido para as partes em que nem eu me entendo
Traz leveza para as tardes em que nem eu me suporto, não.

Há um risco inerente
Nesses corpos que se chocam
Mas você tira de letra
E corrige a minha rota

Talvez eu me perca no argumento
Ou descubra o infinito

Num rascunho inacabado de uma noite de novembro
Na obra definitiva que ainda não escrevemos, não, não...

Deixa o sim sair, assim, sereno.
O céu é seu, é o sol surgindo
Sei não há saudade que resista
Sozinhos somos a multidão

Tem aqui.
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Porque "trás pra frente" pode acabar sendo a ordem certa.
E entre o rascunho e a obra definitiva a gente vai perdendo os argumentos e descubrindo o infinito...